20170520

Chegou o Método Psicoafetivo de Pontuação de Discos©

As instituições continuam funcionando. Isso significa que você pode se preocupar com coisas que realmente importam – como a sua coleção de discos, cada vez mais obsoleta. O já consagrado “advento da internet” fez com que as pessoas trocassem a mídia física por arquivos e, na sequência, pelo streaming. Aquele montaréu de CDs tornou-se um entulho desnecessário, que só denuncia a idade de seu proprietário. Por mais que tenha sido conquistado com tanto esforço, cuidado com tanto carinho e exibido com tanto orgulho, é chegada a hora do desapego.

Mas como selecionar o que fica e o que vai embora?



Seus problemas acabaram! O revolucionário Método Psicoafetivo de Pontuação de Discos© estabelece critérios simples e objetivos para separar as obras que você deve manter das que devem ser dispensadas. Primeiro, defina quantos discos pretende descartar. Em seguida, submeta seu acervo às condições abaixo:

– Se é um clássico: 10
– Se você tem o disco há mais de dois anos e nunca o ouviu: -10
– Se você nunca ouviu o disco inteiro: -5
– Se você já ouviu o disco inteiro mais de uma vez: 1
– Se você já ouviu o disco inteiro mais de 10 vezes: 10
– Se tem dedicatória: 2
– Se é autografado: 2
– Se o autor tornou-se mais conhecido depois que encerrou a carreira/morreu: -5
– Se o autor voltou à ativa depois de ter encerrado a carreira: -10
– Se você já tiver outro disco do autor: 1
– Se você já tiver mais de dois discos do autor: 3
– Se você conhece o autor pessoalmente e gosta dele: 5
– Se você conhece o autor pessoalmente e não gosta dele: -5
– Se você não só conhece o autor, como ele é seu amigo e visita sua casa com frequência: 20
– Se depois de ouvi-lo você comprou outro exemplar para dar de presente: 3
– Se ganhou de presente: 1
– Se ganhou de um ex-namorado ou ex-namorada que deixou boas lembranças: 5
– Se ganhou de um ex-namorado ou ex-namorada que deixou más lembranças: o que você ainda está fazendo com essa p* de disco?
– Se emprestou o disco, não devolveram e você comprou outro: 8
– Se emprestou de novo, não devolveram de novo e você comprou outro de novo: -5

Agora basta somar os pontos. Os discos com a menor pontuação serão descartados, até atingir a quantidade que você estipulou para se livrar, deixando assim espaço de sobra para o acúmulo de novas tralhas. Dica: todos os discos que tiverem pontuação negativa não merecem um lugar na sua prateleira e no seu coração. O método vale também para arquivos. Não, não precisa agradecer. A gente está aqui para isso.

***


Nunca saberemos o que leva um artista talentoso, idolatrado e bonito como Chris Cornell a, conforme apontam as investigações, tirar a própria vida. Fica o vozeirão que embalou uma geração com “Outshined”, a “Born to Be Wild” dos anos 1990.



(coluna publicada ontem no Diário Catarinense)

20170512

Às mães do pop e até àquelas que não gostam de música

O pai do rock, ensinou Raul Seixas, é o diabo. E a mãe, quem seria? Segundo a Wikipédia, o título vai para Rosetta Tharpe, uma cantora e guitarrista negra que sacudiu os Estados Unidos na década de 1940. Casada com um pastor pentecostal, sua música abalou os dogmas da igreja, mas arrebanhou uma legião de fãs ilustres – entre os quais Elvis Presley, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Johnny Cash e Little Richard, todos convertidos pela energia da sista. Daí ser atribuída a ela a maternidade do ritmo bastardo.



Em homenagem às mães do rock & demais gêneros que compõem o pop (e até àquelas que não gostam de música, se é que existem), veja abaixo uma lista de músicas que, de forma direta ou enviesada, são dedicadas a elas:

“That’s Allright Mama”, Elvis Presley | Primeiro single do rei, apenas. O que ele não imaginava é como tudo ia ficar muito melhor depois do lançamento da versão endiabrada de um blues de Arthur Crudup, em 1954. Em 7 de julho daquele ano, o DJ Dewey Phillips a tocou na rádio. O resto é aquela história.



“Mamãe Coragem”, Gal Costa | Miudeza escondida no meio dos clássicos do disco-manifesto Tropicália, traz a baiana defendendo a letra de Caetano Veloso e Torquato Neto. Se fosse escrita hoje, talvez sugerisse o celular como antídoto para a saudade. Pode dormir tranquila, está tudo bem.



 “Mother”, John Lennon | Acompanhado por Ringo na bateria e Klaus Voorman (autor da capa do do disco Revolver) no baixo, o ex-beatle abre o primeiro disco solo falando da mãe (“você me teve, mas eu nunca tive você”) e do pai (“você me deixou, mas eu nunca te deixei”). Pela infância que teve, bota autobiográfico nisso.



 “Mande um Abraço pra Velha”, Mutantes | A saudação devia ser endereçada ao que a banda costumava ser até 1972. Foi a última gravação de Rita Lee com o grupo. Dali para frente, sem ela e com Arnaldo Baptista meio desligado, Sergio Dias assume o leme criativo e o frescor descamba para o progressivo.



 “Ave Maria da Rua”, Raul Seixas | Quem vê o maluco beleza simplesmente pelo lado místico-folclórico não sabe o que está perdendo. Sem compromisso com bandeira nenhuma, o baiano abriu o coração para louvar aquela que está “no lixo dos quintais, no amor dos carnavais, no tapa e no perdão, no ódio e na oração”.



“Mother”, Pink Floyd | Como se não bastasse a perda do pai na guerra e o bullying na escola, o atormentado protagonista de The Wall ainda tem que lidar com uma mãe superprotetora. Para a senhorinha em questão, o filho nunca poderá voar, mas ela pode deixá-lo cantar. Resumindo, será sempre um bebê.



“Só as Mães São Felizes”, Cazuza | Certamente muitas das situações listadas foram experimentadas pelo cantor. Certamente também muitas foram inventadas só para infernizar a mãe. A reação de Lucinha Araújo, depois de enterrar o filho, foi a mais carinhosa possível: batizou o livro sobre ele com o nome da música.



“Mãe”, Emicida | Tirando Eminem, está para nascer o rapper que não louve a mãe. Não é diferente entre os manos que rimam em português. O contexto se repete: guerreira, abandonada pelo pai da criança, se desdobrando para o moleque não cair em pilha errada. Aí o cara cresce e vira artista. Valeu a pena.



 “Nem Mãe nem Puta”, Kleyderman | O projeto paralelo dos titãs Branco Mello e Sérgio Britto (mais a baterista Roberta Parisi) teve vida curta nos anos 1990, mas deixou como legado esta obra-prima de concisão em homenagem não somente às progenitoras, como às loucas mais amadas do mundo.



“Coração de Luto”, Teixeirinha | O gaúcho “coração do Rio Grande” fez o Brasil chorar com o relato em milonga & versos da ardente tragédia ocorrida com dona Liduina quando ele tinha nove anos. Só os críticos não ficaram comovidos, dando à canção o cruel apelido de “churrasquinho de mãe”.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170502

Rapper inovador vira sambista tradicional

Lá vem Criolo com seus lararás. Amante assumido de samba, o rapper paulistano lançou na última sexta-feira um disco inteiro devotado ao estilo. Espiral de Ilusão vem acompanhado por uma revista com uma entrevista com ele, as cifras e as letras das dez faixas, todas inéditas – o pacote (MP3s e PDF) está disponível para download gratuito no site do artista. Durante pouco mais de meia hora, o rimador que quebrou barreiras no hip hop nacional se torna o cantor reverente aos bambas do gênero. Sai a inovação, entra a tradição.



O tipo de samba que Criolo apresenta agora é da mesma linhagem que já tinha aparecido em amostras como “Linha de Frente” (do álbum Nó na Orelha, em 2011) e “Fermento pra Massa” (de Convoque seu Buda, em 2014): puro, movido apenas a cavaquinho, violão de sete cordas, percussão, sopros e coros, sem procurar nenhuma batida perfeita resultante de uma eventual mistura com rap. As variações ocorrem dentro do próprio universo do ritmo, na cadência de vertentes que vão do fundo de quintal ao recôncavo baiano.

Exceto nas politizadas “Menino Mimado” e “Cria de Favela”, os versos relatam situações cotidianas com mais cara de presepadas do que de denúncias e, principalmente, sofrem por desamores. Mas ainda é difícil associar o sambista Criolo ao dengo de Martinho da Vila (“Lá Vem Você”), ao lirismo de Paulinho da Viola (“Dilúvio da Solidão”) ou à malandragem de Moreira da Silva (“Filha do Maneco”) sem forçar alguma barra. “O samba não é quando você quer, é quando seu coração está preparado”, diz ele. Resta saber se os fãs também estão.

Delícias do campo
A pacata São Pedro de Alcântara, na Grande Florianópolis, vai mais uma vez estremecer com o Rural Rock Fest. O festival, que estava em estado de animação suspensa desde 2008, desperta de 12 a 14 de maio com uma série de atrações (em ordem alfabética, para evitar ciumeira): Alkanza, Apicultores Clandestinos, Babba, Blame, Burn, Circo Quebra Copos, Da Caverna, Eutha, Five Boys, Katts, Leite de Velha, Napkin, Ninguém Sabe, Os Costeletas, Os Indirigíveis, Parafuso Silvestre, Tumor do Bile, Reus, Rock Roach, Skrotes, The Dolls e Zoidz. Os ingressos estão à venda na Roots Records, no Centro Comercial ARS, na Capital, por R$ 30 e R$ 40 (na hora será R$ 50). Para mais informações – como local, por exemplo –, procure por Vinicius Zimmerman (Vina da Caverna) nas redes sociais. E não esqueça do repelente!




 ANÇAMENT
OS



Gorillaz, Humanz – O quinto álbum do projeto liderado por Damon Albarn (Blur) mostra como nem as bandas virtuais conseguem se livrar maldição do retorno. O que era frescor no início do século virou uma xaropice sem fim, com a (des)vantagem de que ninguém ali é real para se sentir ofendido com as críticas negativas.



Delinquent Habits, It Could Be Round Two – Em 1996, eles despontaram com “Tres Delinquentes”. Sem jamais repetir o sucesso inaugural, o grupo – ainda apadrinhado por Sen Dog (Cypress Hill) – desova uma nova leva de raps com a típica batida da costa leste dos Estados Unidos e uma ou outra rima em spanglish. Fica “Over and Over” como sinal de confiança.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)