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20080705

Abismado na Serra

(reportagem publicada na revista Viagem & Turismo Especial SC, dezembro de 2007)

Praia Grande não tem praia. Nem é grande. A cidade catarinense, a 280 quilômetros ao sul de Florianópolis pela BR-101 (os últimos 20, pela SC-450), destaca-se por estar aos pés da maior concentração de cânions do Brasil. Há mais de 60 deles esparramados entre os parques nacionais de Aparados da Serra e da Serra Geral, na divisa com o Rio Grande do Sul. O mais famoso é o Itaimbezinho – “pedra afiada” em tupi –, um paredão rochoso com 5.800 metros de extensão cobertos por vegetação baixa e recortado por cachoeiras que despencam de seus 780 metros de altura. Imagine se fosse Itaimbezão.

Embora a partir de um metro abaixo da borda do cânion já seja Santa Catarina, Praia Grande sempre perdeu para a gaúcha Cambará do Sul a competência de explorá-lo. Pousadas que vão de aposentos despojados a aconchegantes chalés, condições para a prática de esportes de ação e uma infinidade de roteiros guiados estão mudando a situação. É verdade que seus cerca de 8 mil habitantes não costumam aceitar cartão de crédito nem de débito, o que pode virar uma dor de cabeça quando se descobre que na cidade só existem duas únicas agências bancárias (estatais) e uma lotérica para se sacar dinheiro. Mas é verdade também que não há muito em que se gastar, o que pode se configurar em uma tremenda vantagem.

Reais em espécie tornam-se imprescindíveis para pagar a hospedagem, o combustível (recomenda-se ir de carro) e os passeios, bem como a água e os mantimentos para suportá-los. Refeições são um caso à parte: O menu dos poucos restaurantes restringe-se a comida caseira, churrasco, lanches e pizzas. Tudo bem: praticamente todas as pousadas incluem café da manhã e jantar (igualmente trivial) na diária, que custa em torno de R$ 100 a R$ 200 no verão e em feriadões. E o “almoço” provavelmente consistirá no farnel carregado na mochila, pois nessa hora o turista estará embrenhado em alguma aventura em meio à natureza. Se tudo correr de acordo com o planejado, na volta o cansaço será tanto que não restam outras opções que não comer – sem se importar com o que for oferecido - e dormir.

Três trilhas dão acesso ao Itaimbezinho por cima e por baixo. As duas que correm junto às suas beiradas são acessadas pela entrada principal do parque nacional de Aparados da Serra, a 22 quilômetros de Praia Grande pela estrada de terra e cascalho que sobe a Serra de Faxinal. O ingresso vale R$ 6 e o estacionamento, R$ 5. À esquerda do Centro de Visitantes começa a trilha do Vértice, com apenas 1,5 quilômetro (ida e volta), quase todo pavimentado. Seu trajeto circunda a “boca” do cânion, revelando diversos ângulos das cascatas Véu da Noiva e das Andorinhas, com 700 metros de altura. Por mais que se chegue perto da borda, não dá para enxergar direito onde elas caem, sob risco de exceder o limite de segurança.

Esse primeiro contato direto acaba funcionando como aquecimento para uma paisagem que, acredite, ficará ainda melhor. Depois de uma pausa para reforçar as energias no retorno ao Centro de Visitantes, é a vez de desbravar a trilha do Cotovelo. Uma estradinha de terra à direita indica o início de seus seis quilômetros (ida e volta). Bastam 15 minutos de percurso para que a gigantesca fenda na Terra insinue-se por entre as frestas da vegetação. Em menos de uma hora a estradinha transforma-se em uma trilha mesmo, separada do despenhadeiro apenas por uma corda que o bom senso aconselha a não ultrapassar. Aí se entende por que é o caminho mais procurado do lugar: dali em diante, o cânion apresenta-se em todo o seu esplendor.

O visual é algo capaz de balançar até o mais convicto dos agnósticos. Para descrevê-lo de maneira racional, só apelando para a geologia. Itaimbezinho é resultado de um intenso abalo sísmico e magmático que chacoalhou os arredores entre 150 e 200 milhões de anos atrás. O fenômeno provocou ranhuras profundas no solo. Com isso, os rios da parte superior da serra passaram a desaguar em cachoeiras e corredeiras que esculpiam as rochas, descolando blocos de basalto para o sopé das montanhas e conferindo às fissuras a dimensão de cânion. Do mirante do Cotovelo, comprova-se na prática como essa série de acontecimentos influiu no relevo da região. Da contemplação, surge a curiosidade de saber como é lá embaixo.

Conhecer o Itaimbezinho por dentro é outra história. Enquanto no topo é permitida a visitação somente até às 15h e qualquer um consegue fazer isso sozinho, percorrer o interior do cânion pela trilha do Rio do Boi requer o dia inteiro e a presença de um guia. Muitas pousadas organizam expedições com tal finalidade, mas sai mais em conta contatar um na Associação Praia Grandense de Condutores Locais para o Ecoturismo (APCE), sediada atrás da igreja matriz da cidade. A R$ 20 por pessoa – desde que se tenha condução própria para ir até o posto de fiscalização do parque nacional, a 12 quilômetros do centro, onde se inicia a jornada –, são montados grupos de seis a 12 integrantes para de manhã cedinho enfrentar uma trilha classificada como “de alto grau de dificuldade”.

Transcorrida a picada pela floresta de Mata Atlântica, são 8,5 quilômetros (ida e volta) entre os paredões do cânion, dos quais o maior pedaço é feito sobre os seixos que margeiam o rio e cobrem o seu leito. Travessias com água até os joelhos são constantes. É importante se informar se houve chuva nos dias anteriores, porque o nível do rio pode subir rapidamente. A última enchente, ocorrida neste ano, alargou o traçado das corredeiras e arrastou consigo mais calhaus, produzindo um cenário impressionante: árvores retorcidas, raízes expostas nos trechos ribeirinhos escavados pela enxurrada e pedras de tudo quanto é forma e tamanho. Cachoeiras como a Leite de Moça e a Braço Forte originam piscinas naturais para um providencial banho gelado.

O silêncio na volta acusa: estão todos esgotados e famintos. Afinal, não são meia dúzia de frutas e um sanduíche surrupiado do café da manhã da pousada que vão sustentar o corpo. Nunca R$ 6, pagos no posto de fiscalização – se o ingresso for guardado, pode ser usado para as trilhas do Vértice e do Cotovelo (o contrário, não, porque na entrada principal o bilhete é retido) –, proporcionaram diversão tão duradoura. Em ritmo turístico, com diversas paradas para se refrescar, tirar fotos, descansar e comer, em média em oito horas a trilha do Rio do Boi acaba. E começa o banquete no “café rural”, a poucos quilômetros em direção à cidade.

Na mesa aguardam quitutes locais, como rocambole e quindim (ambos de aipim), paçoca de pinhão, lâminas de banana-da-terra fritas, pães, bolos e geléias, tudo artesanal, delicioso e barato (R$ 13). Com as pernas como se tivessem levado uma surra e o estômago devidamente forrado, é inevitável a preguiça ante a programação do dia seguinte. Os cânions Malacara e Fortaleza, no parque nacional da Serra Geral, também possuem uma trilha incrível, convidam os guias da APCE. Deixe para responder amanhã, por que agora a única coisa em que se consegue pensar é em desabar na cama. Em tempo: Praia Grande tem esse nome por causa dos imensos espraiados de pedras no interior do Itaimbezinho.

20080627

A cigarra é a formiga (ou vice-versa)

(publicada hoje na Revista de Inverno do Diário Catarinense)

Era uma vez uma formiga e uma cigarra que moravam no Rio de Janeiro. Como na antiga fábula, uma trabalhava no verão enquanto a outra cantava o ano todo. Por mais alta que estivesse a temperatura, a formiga passava o dia inteiro carregando folhas da rua para o formigueiro. O crepitar dos gravetos secos no terreno onde ia buscar alimento, a algazarra das irmãs diante de um canudo melado de refrigerante caído no caminho, mesmo as imprecações que, mentalmente, rogava contra os impostos leoninos; tudo era abafado pelo chiar incessante e estridente da cigarra. E assim cada uma ia seguindo seu destino, sem maiores questionamentos.


O que pouca gente sabe é que havia outra formiga e outra cigarra – em Santa Catarina. Como suas congêneres cariocas, as duas viviam naquele ramerrão. Nascida e criada na terra, a formiga era funcionária do Estado em regime integral e dedicação exclusiva. Desde que se lembrava, carregava folhas entre repartições e gabinetes. Tinha direitos, licença-prêmio, gratificações, abono-qualquer-coisa. Prestes a ser promovida por tempo de serviço, um pensamento a inquietava com cada vez mais freqüência: não fez metade do que imaginava que faria e fez o dobro do que jamais imaginou que fosse fazer.


Com a cigarra, a situação era exatamente oposta. Para efeito externo, trocou a carreira corporativa na metrópole pelo sonho colaborativo na província ao se mudar para cá. No íntimo, porém, tomou a decisão com base em um conceito pessoal e intransferível de qualidade de vida, que compensava somente as ausências. Não teria contrato, mas não teria chefe. Não teria empresário, mas não teria horário. Não teria muito dinheiro, mas não teria muitas despesas. Aqui chegando, descobriu que seu carma envolvia uma dose bem mais generosa de estoicismo. Não teria nem metade pelo dobro. Por isso, rebolava.


Encerrado o verão, as perspectivas mostravam-se tão desoladoras que a cigarra abriu mão de mais um de seus princípios. Comparado com as concessões que já havia feito para continuar a aventura catarinense, entoar canções de outros bichos em um bar seria moleza. A estréia coincidiu com a Festa do Pinhão, em Lages. No fim de semana seguinte, nevou na Serra. Pelo resto da estação, o frio lotou hotéis e restaurantes, aumentou o consumo de vinho, aproximou e renovou espíritos. Havia demanda para as mais variadas atrações, menos para as versões cicadídeas de sucessos de Kid Abelha, Pato Fu, Nara Leão, Edson Cordeiro, Pantera e demais espécimes de fauna pop.


Em uma noite das mais geladas, a formiga foi ver o show da cigarra. Entrou, pediu uma bebida e ficou encostada no balcão, avaliando o (fraco) movimento. Quanto pior, melhor para suas intenções. Negociou sua saída do funcionalismo e apresentou uma proposta abaixo do valor de mercado pelo bar. Diferentemente de como a vovó já dizia, ela não trabalhava só porque não sabia cantar. Era porque ninguém pagava – com razão – para ela cantar. Sendo dona do lugar, convocaria a si própria para subir ao palco. Não pelo talento, muito menos pela grana, e sim pela realização. A cigarra também estava resolvida: iria se inscrever em um concurso público.


Na mesma época, em uma tarde especialmente quente no Rio de Janeiro, a formiga carioca se encheu.


— Já estamos no meio do ano, não tem lugar para mais folha nenhuma lá em casa e nada de esse calor ir embora! — protestou.


Sem parar de inflar seu abdômen ao ritmo de “Grilo na Cuca”, a cigarra retrucou:


— No Rio não tem inverno...


Pois é, em Santa Catarina tem.


Moral da história: Visite o zoológico de Pomerode. Lá, os animais não falam.


20080310

Coral no coração, comida na boca

(Quarta de quatro matérias escritas em 2005 para o Visit Florida. Versão do autor.)

A segunda-feira mais original da minha vida começou de um jeito bem comum. Olhando para a cara amarrotada no espelho, fiz as mesmas promessas que todo mundo faz no primeiro dia útil da semana. Minha vantagem em relação à maioria da humanidade era estar em South Miami Beach, me preparando para viajar até Key West. Dirigir pela mítica US 1 fazia uma diferença e tanto para eu acreditar que conseguiria parar de fumar, de comer fritura e de deixar tudo para amanhã. Ou para não pensar nisso; não enquanto estivesse percorrendo os 260 quilômetros que separavam meu hotel na Ocean Drive do ponto mais ao Sul dos Estados Unidos em busca do peculiar, do insólito, do pitoresco deste pedaço da Flórida.

Já havia visto inúmeras imagens do asfalto rasgando o mar azul-turquesa, mas minha excitação devia-se ao número da rodovia. Afinal, nada é chamado de “Um” sem motivo. Com 3.846 quilômetros de extensão, a estrada passa pelas maiores cidades de 15 Estados da Costa Leste norte-americana indo até o Maine, na fronteira com o Canadá. Alguns antigos percursos duplicados pela US 1 conservam seus nomes de época, como a South Dixie Highway. É nesse trecho que cruza Homestead, em uma esquina à esquerda de quem está descendo o mapa, que se localiza uma das atrações mais inusitadas da Flórida. As formas que se erguem sobre seus muros bastam para aguçar minha curiosidade. A história que envolve sua construção torna Coral Castle ainda mais extraordinário.

Conhece a expressão “louco de pedra”? Pois Ed Leedskalnin era um louco de outro material. Seria apenas mais um imigrante europeu que aportou na América sonhando com melhores oportunidades, não tivesse partido de sua Letônia natal com o coração dilacerado por uma garota de 16 anos: às vésperas do casamento, ela o abandonou. Assim que descolou uma grana no Novo Mundo, Ed comprou um terreno e resolveu homenagear sua Sweet Sixteen. Com as mãos e usando ferramentas que ele próprio desenvolveu, de 1920 a 1940 esculpiu portões, camas, lounge, churrasqueira, sala de estar, refeitório, relógio de sol, sofás; enfim, tudo o que se espera de um lar. Que ele tenha modelado blocos de cerca de 30 toneladas sem ajuda, é louvável. Que tenha sido por amor, é comovente. Que tudo seja de coral, é de cair o queixo.

Coral Castle já ficou para trás à medida que a paisagem pantanosa de Everglades vai ocupando as margens da US 1. A placa avisa que crocodilos costumam atravessar a pista. Não vi nenhum. Tenho certeza porque crocodilos não fazem “crac” ao serem atropelados. Confiro pelo retrovisor que, sem querer, acabo de acrescentar a panqueca de caranguejo ao rico cardápio de frutos do mar das Keys – inglês para “cayo”, como os pioneiros espanhóis referiam-se às ilhas estreitas que compõem a região. Apropriadamente, o trecho da US 1 que liga essas tripas de terra, composto por 42 pontes, chama-se Overseas Highway. Daqui a 126 milhas (201 quilômetros), os Estados Unidos terminam. Ou começam, dependendo do ponto de vista.

De Key Largo, a mais larga das cinco grandes Keys, ao ponto extremo Sul do país, em Key West, é quase obrigatório parar em Islamorada. Na “capital mundial da pesca esportiva”, os turistas são recepcionados por uma lagosta de dez metros. Mesmo sem ter sido pescado por ninguém, o crustáceo gigante enfeita nove em cada dez fotografias tiradas em Treasure Village (milha 86,7). O fato de ser uma réplica não importa, até porque espécimes vivíssimos me aguardavam dez milhas adiante. Passando a ponte Lignunvitae, dobrei à direita e parei em frente a uma simples cabana de madeira. Mas eu não estava ali para avaliar a arquitetura. Nem para alugar um barco, a especialidade do Robbie’s.

O responsável pela fama do estabelecimento encontra-se dentro do mar. Ou melhor, os responsáveis: dezenas de tarpons (peixes da família do dourado brasileiro), que ficam rodeando o píer rudimentar nos fundos da cabana. O cardume só faz crescer desde que o dono do negócio salvou um deles - e lá se vão 18 anos! Com a mandíbula direita devidamente costurada (daí o apelido), “Scarface” foi devolvido ao oceano. Por condicionamento, interesse ou qualquer outro nome que se dê para instinto, ele sempre retornava para ganhar comida. Apesar de ter morrido na última década, os peixes que costumavam acompanhá-lo continuaram freqüentando o lugar à procura de alimento.

Agora, era a minha vez de honrar a coexistência pacífica entre Robbie Reckwerdt e Scarface. Comprei dois baldes de manjubinhas a dois dólares cada e caminhei até a beira do trapiche. O reflexo de minha sombra na água funcionou como um sinal para que os dourados se agitassem, antevendo a hora do almoço. Atirei uma na água. Como cachorros atrás de um osso, uma porção deles saiu em disparada atrás do quitute. Da prática, surgiu a confiança. Em pouco tempo, eu não estava jogando mais as manjubinhas, e sim as segurando para que os peixes pulassem para pegá-las na minha mão. Com os baldes vazios e cheio de orgulho por minha ousadia, voltei para a cabana.

Sobre o balcão, reportagens caprichosamente encadernadas mostravam gente – inclusive crianças – muito mais corajosa do que eu. “Arranha um pouquinho, mas não tem perigo”, garantiu a atendente ao perceber minha apreensão ao ver pessoas enfiando o braço inteiro na boca do peixe para alimentá-lo. Aleguei que precisava seguir viagem e, gentilmente, recusei sua oferta de mais um balde. “Além disso, eles têm de ter espaço no estômago para alegrar os próximos visitantes”, brinquei. Minha mão ainda cheirava a peixe quando anoiteceu e as primeiras luzes de Key West acenderam no horizonte. No rádio, a 99.5 Classic Rock rolava “We Are The Champions”. Depois de um dia inteiro descendo a US 1 (para um percurso que, em circunstâncias normais, levaria três horas e meia) sem lembrar do cigarro, achei que tinha todo o direito de cantar com Freddie Mercury.

20080309

Presente para gregos de todas as idades

(Terceira de quatro matérias escritas em 2005 para o Visit Florida. Versão do autor.)

Nos mastros e postes, tremulam bandeiras com listras azuis e brancas, a cruz nos mesmos tons marcando o canto superior direito. As ruas têm nomes como Athens e Dodecanese. Em vez de hambúrguer, gyro. Já estava quase acreditando que havia chegado em alguma vila perdida no Mediterrâneo quando avistei o cartaz improvisado escrito com pincel atômico, a mesa meio torta, a jarra suando. Duas menininhas vendiam limonada na esquina de casa em prol das vítimas do Katrina [fazia uma semana que o furacão havia devastado o Sul dos Estados Unidos].

Apesar da cena tipicamente norte-americana – só faltava as comerciantes mirins aceitarem cartão de crédito –, Tarpon Springs foi adotada como lar por uma expressiva colônia grega. Eu passeava pelas Sponge Docks, onde a herança helênica se faz mais presente nesta cidadezinha litorânea a menos de 15 milhas de Tampa. Sobrenomes como Cocoris, Sovlakis e Konstantinopoulos começaram a desembarcar na vila a partir de 1905 para viver da captura de esponja. Hoje, a cidade intitula-se a “capital mundial” do, digamos, produto. Centenas, milhares delas, intactas ou moldadas conforme a criatividade do artesão, enfeitam as lojas de lembranças, ao lado de conchas em formatos que desafiam a lógica.

Nos restaurantes, a culinária imigrante reina absoluta, mesmo na categoria refeição rápida. Há até uma lanchonete que promove sua especialidade (no Brasil, o popular “churrasco grego”) como “a resposta grega para o McDonald’s”. As estratégias de marketing variam, mas são sempre incisivas. Da porta de um restaurante, um garoto berra no ouvido dos transeuntes: “É minha própria mãe que faz a comida, se não gostar pode reclamar com ela”. Prometi que experimentaria o tempero da senhora na volta. Primeiro, eu iria me molhar.

Deixei as docas em direção a Howard Park, um “T” avançando pelo Golfo do México com uma praia em cada lado da letra. Na haste vertical, jovens torravam no asfalto que vai até a beirinha (!). Na perpendicular, famílias faziam a festa. Na condição de animal doméstico, escolhi essa para me banhar. Prevenido pela placa na areia, entrei na água ensaiando o “passo da arraia”. É que, nos meses de verão, esses achatados bichinhos também resolvem desfrutar das praias do Golfo, aproximando-se da costa. Como se alojam no fundo do mar, é recomendável andar arrastando o pé para espantá-los e evitar eventuais ferroadas. Apesar da ameaça, só eu estava pagando esse mico.

Ostras com sabor de tradição e história
Bandeiras diferentes da star & stripes oficial também se destacam nos arred
ores de Apalachicola. Quem já assistiu ao ...E O Vento Levou vai reconhecer o estandarte vermelho, com um “x” azul cravejado de estrelas brancas dos Estados Confederados. A cidade delimita a área da Flórida conhecida por “The Big Bend” (A Grande Curva) em razão de seu litoral côncavo. Por acaso, foi depois de uma (outra) curva que registrei minha primeira impressão do lugar: um casarão do início do século passado, em excelente estado de conservação. Lembra um saloon do velho oeste, mas é um hotel – e dos mais charmosos, com suítes aconchegantes, decoradas com almofadas, colchas bordadas e móveis de época prontos para aninhar scarlet o’haras e rett butlers hesitantes e instigar o cleptomaníaco que repousa no âmago de cada um.

Abri mão (momentaneamente) da comodidade do Gibson Inn para percorrer as ruas do centro histórico. Tomei a US 98 – convertida na Market Street –, dobrei para a esquerda no cruzamento – depois de parar no, salvo engano, único semáforo da cidade - e... saí do perímetro urbano. O que eu procurava concentra-se no quadrilátero cercado pelas avenidas C e G, pela Water Street e pela 5th Street. Doze quadras que percorri em zigue-zague, sem destino certo. Fundada em 1831, a cidade mantém um punhado de residências projetadas no inconfundível estilo vitoriano.

À beira do rio, o fluxo intenso de barcos pesqueiros reflete a vocação econômica inata à cidade. O turismo pode correr junto da tradição e, inclusive, enriquecê-la; eliminá-la ou descaracterizá-la, jamais. Prova disso é a ausência total dos logos de redes de fast food ou de cadeias de hotéis ou de franquias de qualquer coisa, corriqueiros na paisagem norte-americana. Não aqui.

Um Burger King solitário brotou na saída da cidade, perto de um igualmente isolado hotel da Best Western. Ainda resiste um espírito de “Old Florida”, uma vibração que dispensa parques temáticos, condomínios fechados ou shopping centers para se manifestar e que identifica o prazer nas coisas simples da vida, como pescar e apreciar o pôr-do-sol. De preferência, saboreando o mais famoso produto local. Apalachicola é sinônimo de ostra suculenta, fornecendo 90% do molusco consumido na Flórida e 10% nos Estados Unidos. Para mim, uma dúzia foi pouco.

A inesquecível cor de esmeralda da costa Noroeste

(Segunda de quatro matérias escritas em 2005 para o Visit Florida. Versão do autor.)

Parti de Orlando com 700 dólares na carteira, um mapa da Flórida no console e o tanque cheio. Minha rota consistia em seguir para o Norte pela I 75, dobrar para Oeste na US 27 e continuar em frente até estar na US 98 rumo a Panama City Beach, a 380 milhas (608 quilômetros) de distância. Simplificando: assim que a estrada virasse uma avenida à beira-mar, reduzir a velocidade, colocar um reggae para rolar e curtir a brisa. Nessa parte do litoral regida pelo fuso do centro dos Estados Unidos – uma hora a menos do que o restante da Flórida –, o difícil é não relaxar. Praias com areias brancas e águas tranqüilas dominam a paisagem tanto da Forgotten Coast (Costa Esquecida) quanto da Emerald Coast (Costa Esmeralda).

A primeira compreende Apalachicola, Eastpoint e St. George Island, onde andar de caiaque, pescar ou pedalar são as atividades mais populares. Na seqüência, continua o desfile da generosa orla banhada pelo Golfo do México. Em Cape San Blas, chamou minha atenção uma coisa que, depois eu perceberia, é comum na região. As casas são construídas sobre pilotis fincados diretamente na areia da praia. Com varandas na cara do gol, embaladas pelo barulho das ondas e defumadas pela maresia, constituem-se nos refúgios ideais para um homem realizar sua grande obra, seja um romance ou o cultivo de hidropônicos.

Depois de Port St. Joe e Mexico Beach, a US 98 desvia-se um pouco da costa e passa por Parker, Callaway, Springfield e Cedar Grove. Ganhei a escolta de aviões voando baixo ao atravessar a base aérea de Tyndall, mas fingi que não era comigo. Em Panama City (que não é a Beach), o trânsito intensificou-se. Aproveitei o pretexto e fui visitar o distrito histórico de St. Andrews. As boutiques, galerias, antiquários, igrejas, lojas e restaurantes que o integram são uma excelente opção para os dias em que o calor está suportável. Porque quando a temperatura sobe para valer, não tem jeito: carros e mais carros entopem a ponte Hathaway, via de acesso a Panama City Beach e também da Emerald Coast, composta por Destin, Fort Walton Beach e Okaloosa Island.

Não sou exceção. Cruzei a ponte e apostei na primeira seta que vi apontando para a praia. Desemboquei na Oceanfront Drive – sim, a beira-mar da cidade. Percorri suas mais de 20 milhas para constatar que Panama City Beach guarda muitas semelhanças com Balneário Camboriú (SC), Guarujá (SP) ou Barra da Tijuca (RJ). Em nome da infra-estrutura para receber o turista, levantam-se hotéis, alargam-se ruas, erguem-se viadutos. Até o comércio tipicamente sazonal – um monte de lojas populares, que vendem de óculos escuros a tatuagens de rena, de moda praia a roupas de cama, mesa e banho, de brinquedos a artigos para cozinha – encontra similares no Brasil. A diferença é a ausência total de calçadas para pedestres.

Afora isso, o paredão de prédios de Panama City Beach acaba diretamente na areia da praia, sem nenhuma rua entre eles e o mar. Driblando as propriedades particulares defronte ao mar, finalmente encontrei uma entrada para a areia no Richard Seltzer Park. Para direita ou para a esquerda, é praia até onde a vista alcança. A sensação térmica, de uns 50 graus à sombra, apressou minha decisão. Guardei a câmera fotográfica e o bloco de notas, tirei as sandálias e a camisa. Doravante, eu seria apenas turista. Ainda a trabalho, mas coletando informações de um jeito, digamos, mais ativo. O mergulho mostrou-se providencial para arejar as idéias.

Do refresco veio a disposição para explorar outros recantos de Panama City Beach. Na ponta esquerda, o St. Andrew State Park espraia-se por uma área que engloba trilhas naturais, espaço para acampamentos e para piqueniques, passeios para Shell Island e uma praia radiante. Não é força de expressão: a luz refletida na areia turva a visão e não deixa outra alternativa se não ir para o mar. Um apito soou para que as pequenas embarcações e os praticantes de esportes náuticos abrissem passagem no canal para o navio que chegava à Baía de St. Andrew. O alarme me lembrou que eu ainda não tinha arrumado lugar para me hospedar.

Já confortavelmente instalado em um hotel na Oceanfront Drive, repassei o que havia por fazer no dia seguinte. De acordo com minha programação, eu tinha mais praias da cidade a visitar – na verdade, uma praia só desde St. Andrew State Park, o que muda é o nome de cada trecho (Open Sands, Edgewater, Laguna, Santa Monica, Sunnyside, Hollywood), com o County Pier no meio. À direita da sacada do meu quarto, o sol caía por trás de outro píer, o Dan Russel. Era nele que eu mirava para clicar todos os matizes pintados pelo poente. Cerca de 200 dólares mais pobre, sem gasolina no carro e com um mapa inútil na mão, porque tão cedo eu não iria embora.

20080307

Tédio e destemor na reserva Seminole

(Primeira de quatro matérias escritas em 2005 para o Visit Florida. Versão do autor.)

Estava em algum ponto da I 75, perto do condado de Hendry, quando o sono começou a bater. Bem que o frentista do posto de gasolina em Fort Lauderdale tinha avisado: cuidado para não dormir ao volante. Descobri o que ele queria dizer ao bocejar pela primeira vez. Dali a Naples, já na costa Oeste da Flórida, a estrada é um retão só. O trecho carrega o apelido de “Alligator Alley” (Beco dos Crocodilos) por causa dos ilustres freqüentadores das vias aquáticas paralelas à estrada. São 96 milhas (154 quilômetros) sem uma curva sequer. A sensação de tédio durou até aparecer a saída 49, caminho para a Big Cypress Seminole Reservation. Parei para me
certificar em um posto chamado Miccosukee Service Plaza. Impresso no jornal local, o slogan bradava “the voice of unconquered” (a voz dos indomados). Não havia dúvida: eu estava em território indígena.

Faltavam apenas 19 milhas para meu destino, o Billie Swamp Safari. O parque preserva e reproduz o meio ambiente, a cultura e os costumes dos descendentes dos 300 seminoles que conseguiram escapar da dominação branca no século 19. Lá chegando, fui recebido por um cubano que há 15 anos vive na reserva. Ray Bezerra é um anfitrião por natureza, literalmente falando. Sempre com um sorriso de quem gosta do que faz no rosto, ele conduz o papo sobre a história e as belezas da área até sua maior paixão: os bichos que participam de suas apresentações no Fort Critter. Modesto a respeito de seu próprio show, Bezerra recomendou o passeio de barco como a melhor forma de iniciar a exploração pelos nove quilômetros quadrados da área.

Sugestão aceita, fui ao deck atrás do serpentário, à direita da recepção. Sentado em um banco à espera da embarcação, flagrei dois montinhos ameaçadores surgindo sobre a superfície da água. Eram os olhos de um crocodilo, que evitei encarar por alguma superstição boba. O réptil submergiu assim que o barco atracou – na verdade, uma chata propelida por uma hélice do tamanho de um homem. Descolei uma vaga na primeira das três fileiras de assentos, chequei a câmera fotográfica e acordei meu anjo da guarda. Pegamos o canal que margeia as cabanas para os hóspedes e não paramos mais de derrapar no pântano. Várias curvas depois, o motor foi desligado.

Escolado, o piloto esvaziou dois baldes de snacks para crocodilos. Eles se aproximaram da ração flutuante, viraram a cabeça para o lado e atacaram. Com a bocarra escancarada para garantir o máximo possível (do que for), pareciam sorrir para mim. De repente, o tempo fechou, decretando o final do passeio. Em terra firme, Bezerra me contou que os nativos têm muito medo dos raios trazidos pela tempestade. E que uma daquelas viria por aí, melhor que eu me protegesse. Com a barriga cheia, pensei, eu poderia hibernar durante a intempérie. Comi um combo de pernas de rã, filezinhos de bagre e rabo de crocodilo, tudo à dorê, acompanhado por salada e batata frita no Swamp Water Café.

Como previsto, a chuva engrossou. Nessa hora, eu já estava abrigado em um chalé no RV Swamp Safari, a três milhas do lar do cubano. Me enfiei debaixo do cobertor antes que os mosquitos me farejassem e deixei que a digestão fizesse seu papel. Sonhei com um jacaré com a cauda amputada me perseguindo. Despertei com um gosto de frango misturado com peixe na boca e voltei para o Billie Swamp. Eu não iria embora sem andar de “buggy” – uma gaiola ambulante com rodas de trator. O embarque é feito através de uma plataforma acessada por uma passarela pênsil que cruza um fosso cheio de crocodilos. Chão seco apenas no início da travessia, repleto de avestruzes curiosas.

Bisões, porcos-do-mato, búfalos e pavões mais tarde, o estranho veículo de 16 lugares afundou no terreno e rodou por quase uma hora pelo charco. Sacode daqui, sacode dali, o guia ia apontando para os ciprestes e para vestígios da presença indígena. Saltei do buggy direto para o show no qual Bezerra explica as características dos animais que cria. A alegria com que esse fã de Roberto Carlos e Nelson Ned trata a tartaruga, o gavião, a águia, o gambá, o guaxinim, a pantera – e, claro, sua bela mulher e assistente, também cubana - contagiam a platéia. Ao final, o casal permite que os visitantes interajam com as suas “mascotes”. Achei o filhote de jacaré (“um pouco menor e com o focinho mais largo do que o de crocodilo”) que segurei no colo muito mais simpático do que o rabo cortado em cubos que havia jantado. Principalmente porque sua boca estava amarrada. A fera media mais de 30 centímetros.