
Jogar xadrez com frequência apura o raciocínio para entender metáforas que nem existem
Eis que de repente o xadrez se entranha em todos os lugares. Está em Entre Bispos e Reis, a biografia do maior enxadrista brasileiro, o tão genial quanto atormentado Mequinho. Domina A Revolução do Xadrez, sobre a renovação do interesse pelo jogo milenar em plena era digital. Conduz o documentário A Rainha do Xadrez, que mostra como a jovem prodígio húngara Judit Polgár derrotou o campeoníssimo Garry Kasparov.
Largo os livros, saio da frente da televisão e pego o celular para mudar de assunto. Na tela, aparece uma mensagem do meu chapa Gomez me convidando para… jogar xadrez. Praticamos desde 2009 com uma regularidade impressionante: nunca dois dias seguidos, nunca mais de três meses sem – na pandemia, o online foi a salvação. Uma conversa que já dura 17 anos sem precisar de palavras.
Sei exatamente por que entramos nessa. Estávamos passando por turbulências, cada um no seu contexto, quando o tabuleiro que ele herdou do pai nos ofereceu escape, consolo e magia. Mas não me lembro do momento em que aprendi a jogar, ainda criança. Naquela época, o xadrez morava na mesma prateleira de damas e ludo. Só mais um tabuleiro para entreter uma infância analógica.
A gente decora o movimento das peças – o “L” do cavalo, a diagonal do bispo – e acha que o jogo se limita a derrubar o rei adversário. Hoje, cercado por tiques, traumas & outros sinais de experiência, consigo medir o tamanho do estrago. Entendi que o xadrez é um oceano que, por mais que eu me esforce, jamais sequer chegarei perto de atravessar. Muito menos de decifrar as metáforas que ele pode sugerir.
Sinto que parei de evoluir como jogador e tudo bem, não tenho a menor pressa de atingir um objetivo que nem existe. Minha tara é pela mitologia, não pela técnica. Enquanto a análise do computador me aponta um erro no lance 22, estou mais a fim de descobrir o que Mequinho sentia no auge da crise, ou como a adolescente Polgár lidava com o silêncio pesado de uma sala cheia de homens que se recusavam a aceitar seu talento.
Em vez de ser o sujeito que calcula vários lances à frente, prefiro me sensibilizar com a tragédia de um grande mestre que sucumbiu ou com a beleza de uma ideia que mudou o jeito de pensar o mundo. Jogar com o Gomez virou um ritual de amizade disfarçado de confronto. Se ganho, comemoro. Se perco, o tabuleiro continua ali, com suas 64 casas. Agora eu jogo apenas para ouvir o que as peças têm para contar.
(Publicado originalmente na newsletter Extrato)
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