
Volta da banda parecia um caso de amizade de baixa manutenção, mas o café estava frio
Nem sabia que o U2 ainda estava na ativa quando fui impactado pelo lançamento do EP Days of Ash. O pacote com seis faixas encerra o maior período da banda sem aparecer com inéditas, nove anos em que quase ninguém sentiu sua falta. Apertei o play confiando no conceito da amizade de baixa manutenção: aquele afeto que sobrevive a longos silêncios, sem exigir presença constante para continuar sendo significativa.
Bono está cheio de assunto. Três músicas são sobre pessoas que foram mortas devido às causas que defendiam – uma mãe ativista dos EUA, um professor palestino, uma adolescente iraniana. Uma quarta é escrita em forma de carta de um soldado ucraniano disposto a morrer pelo seu país. A única que não esfrega a realidade na cara da sociedade é inspirada em um livro de um frade franciscano que ensina como viver com compaixão em meio à violência e ao desespero. (A outra é um poema, contadorzinho.)
Ouvi tudo com a atenção dividida com uma frieira no lado do dedão que estava me incomodando neste calor. A tentativa do grupo de soar urgente com “canções que não podiam esperar”, como definiu o vocalista, esbarra em uma camada histórica que amortece qualquer arrebatamento. Quando um artista vira trilha sonora da juventude de alguém, ele fica preso ali. Tudo o que ele fizer depois será medido pela intensidade de um momento que nunca mais vai se repetir.
Perto de comemorar o Jubileu de Ouro, o U2 passou pelo que passam todas as bandas que duram tanto: do frescor para a autoridade, da autoridade para a instituição, da instituição para o hábito. Encarei os 23 minutos do disco como quem aceita um café com um velho amigo. Não esperava catarse, nem epifania, tampouco atravessamento, mas pensei que pelo menos a gente mantivesse uma relação.
Terminei com a certeza de que Days of Ash já nasceu como um arquivo que nunca mais vou consultar. O U2 virou monumento pessoal, um atestado da minha própria velhice. Agora imagine as Novas Gerações. A chance de cruzar com os escoceses irlandeses é acidental, algorítmica, mediada por um recorte de 15 segundos. Mesmo que algum trecho de música deles viralize, é improvável que seja deste século. E você ainda vai ter que explicar que Bono já foi relevante.
(Publicado originalmente na newsletter Extrato)
20260225
U2 quebra silêncio sem fazer barulho
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20260218
A coreografia das aparências sob o céu da euforia

Carnaval, brilho & suor se erguem em um espetáculo de vertigem contida
Hoje é terça de carnaval.
A lógica da internet diz: publique mesmo assim. O algoritmo não descansa. A produção tem que continuar. A entrega é sagrada.
Eu discordo.
Sim, eu sei. Você poderia estar em qualquer outro lugar agora.
Eu também. Eu queria ser o tipo de autor que simplesmente não aparece. Mas sou do tipo que aparece para dizer que não vai aparecer.
Vamos nos despedir por aqui antes que a gente se acostume [com essa mania feia de tratar feriado como dia útil].
(Publicado originalmente na newsletter Extrato)
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20260211
O que fica boiando
Diálogo à deriva depois de um desfile que já passou, mas continua acontecendo
As pedras amontoadas nos Molhes da Barra, as ondas batendo à frente, repetidas. O mar insiste. Eu é que não. Estou meio aturdido com a fantasia deslocada: o desfile das escolas de samba foi no sábado, uma semana antes do início oficial da folia. O vento recende a maresia, cerveja choca e madeira úmida. Sobrou um silêncio que não combina com fevereiro. Parece que a cidade desmontou junto com o último resquício de espontaneidade.
— É para não atrapalhar o que o carnaval se tornou.
Não localizo de onde vem a voz. Olho ao redor, não vi ninguém chegar. Um vulto se projeta de onde a água escurece até virar fundo.
— Engraçado como tu vem aqui quando não quer decidir nada.
Não acredito: é o Cy. Não pela silhueta – pelo tom. O boto que me apareceu outra vez, quase no mesmo pedaço da praia. O jeito desarmado, o raciocínio errado, a conversa que não se apresenta inteira. Um arrepio de reconhecimento mistura-se com o salitre. Resolvo entrar na dança.
— Eu nunca quero decidir nada, sabichão. Nem aqui, nem alhures.
— Ótimo. Menos coisa para se arrepender depois.
Fica boiando, distraído. O calor encosta nele sem pressa: já passou, está acontecendo.
— Engraçado tu sempre vir aqui exatamente quando jura que não quer nada.
— O tempo passou e tu continua palestrinha, parabéns, Flipper!
Ele ri largo. Não se defende. Não explica. Só se vira na minha direção e mexe a cabeça, imitando o astro. Suspiro. Eu queria leveza, não ata. Cy dá uma rodopiada curta, focinho apontando para mim.
— Tu veio aqui achando que eu ia te dar frase boa.
O sol se esconde um pouco atrás das nuvens e a luz perde contraste. Um barco passa longe, motor engasgando. O som chega atrasado, como o samba este ano. A maré muda quase nada, o suficiente para embaralhar os reflexos.
Cy olha a superfície como se procurasse o resto da festa. Mergulha rápido. Ressurge logo, trazendo espuma e indiferença. Flutua imóvel demais para alguém vivo, sem ajustar o corpo, deixando a correnteza ditar o ritmo. Permaneço mudo.
— Não te preocupa em voltar a sentir. O mundo ainda vai te obrigar.
Em seguida, ele afunda devagar, sem fazer disso um fim. A água fecha, levando o rastro, o cheiro e a certeza.
(Publicado originalmente na newsletter Extrato)
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20260204
Escrever para esquecer, ler para lembrar

Entre o que se produz para sobreviver e o que ainda sustenta
Escrevo coisas que jamais gostaria de ler.
Jamais gostaria de ler o que escrevo para pagar as contas. Não que sejam textos ruins. São só textos treinados para desempenhar função. Atendem ao que foi pedido, respeitam o prazo, o tom e o limite de quem contrata. Entregam. E, justamente por entregarem, dispensam envolvimento.
O tipo de redação que não deixa vestígios porque não precisa deixar. Existe para resolver uma demanda externa e desaparecer quando ela acaba. Já nasce com data de descarte. Exige apenas atenção suficiente para que seja consumida e deixada para trás.
Leio coisas que adoraria ter escrito.
Adoraria ter escrito o que leio sem serventia definida nem expectativa de retorno. Nunca em busca de alguma lição ou compensação prática. Às vezes porque a forma me segura mesmo quando o argumento não me convence. Sempre por prazer. Nada disso vira finalidade.
O tipo de leitura que não se justifica porque não precisa se justificar. Sua garantia de impacto é zero. Não promete, o que não quer dizer que não cumpra. Permanece – uma permanência que não pode ser medida.
O problema é que jogo nas duas posições. Parte do tempo escrevo o que não interessa a ninguém que goste de ler. Outra parte leio para não me esquecer por que escrever ainda importa.
Há algo de profundamente desnecessário em ficar ruminando essa polarizassaum. Fazer disso um dorama existencial enquanto o dia acontece do lado de fora. Escrever, ler, escrever para se realizar, ler… ler para quê, mesmo?
Verão fervendo, o sol estoura na janela, gente ri alto na rua – e eu aqui, organizando frases sobre uma bobagem.
Essa necessidade meio boçal de transformar tudo em identidade, em marcador de cultura. Masturbação conceitual em torno de uma arte que reconhecia poucos com muito convertida em um ofício que explora muitos com pouco.
Nenhum texto vence um domingo de praia, nenhum parágrafo supera a troca de afeto, nenhuma leitura vale mais do que acordar com você.
Talvez escrever importe menos do que eu acredite. Talvez ler não salve nada. Talvez tudo isso seja só uma forma elegante de perder tempo até a IA dominar. A vida não está nem no que escrevo, nem no que leio. Está no que acontece entre uma coisa e outra.
(Publicado originalmente na newsletter Extrato)
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20260128
Todo poder emana do Suposto

Quando a checagem de fatos torna-se insuficiente para ajudar a entender a realidade
Raio? Ira divina? Efeitos especiais?
A agência de chechecagem de fatos Bote Fé nasce da constatação de que os critérios tradicionais de verificação já não dão conta de explicar como o mundo gira. A classificação como verdadeiro, falso ou impreciso foi suficiente enquanto as coisas precisavam de uma verossimilhança mínima para terem algum crédito, mas deixou de ser quando a realidade passou a refletir situações que não necessariamente aconteceram.
A chechecagem não se dedica a confirmar eventos. Ela analisa o que justifica comportamentos, o que define reações, o que alimenta narrativas – ainda que nunca tenha ocorrido. Seu objeto não é a mentira clássica, facilmente refutável: é o suposto fato; um negócio inexistente, porém funcional, que não precisa ser verdadeiro para causar impactos.
Em um tempo no qual apurações, desmentidos ou correções não convencem ninguém, a chechecagem opera em outro nível. Descobrir se aconteceu ou não é o de menos diante da grande pergunta que se impõe: o que isso permite? Conferir, negar ou resistir tornou-se irrelevante. O essencial é desvendar o que faz com que certos fatos – ou o que circula como tal – funcionem.
De olho nesse filão, a Bote Fé desenvolveu um método disruptivo para identificar e avaliar circunstâncias:
Fato Fundador Negativo
É o que não aconteceu, mas sem o qual a relação não se explica. Costuma assumir a forma de um favor antigo nunca detalhado, um gesto inicial – uma ajuda rápida, um contato feito fora de hora – que só mais tarde passa a justificar proximidade e confiança.
Função: legitimar alianças como antigas e inevitáveis.
Fato Retroativamente Necessário
Aparece quando o presente exige um passado específico. Surge em frases como “isso vem de longe”, “a relação é antiga” e similares, mesmo que até ontem ninguém as mencionasse.
Função: dar profundidade histórica ao que é recente demais.
Fato de Baixa Intensidade Moral
Pequeno demais para indignar, útil o bastante para desaparecer. Insinua-se em acessos facilitados, convites informais, ajudas desinteressadas, silêncios oportunos; enfim, nada que pareça errado isoladamente.
Função: tornar aceitável o que pareceria estranho se fosse explicado.
Fato Impossível de Desmentir
Não porque seja verdadeiro, mas porque negá-lo soaria como exagero. Ganha força em expressões vagas como “todo mundo sabe”, “isso vem da época do fulano”, “é consenso”.
Função: servir como pano de fundo estável.
Fato Alegórico Operacional
Atua como símbolo, mas organiza ações reais. Consiste na recomendação de cautela, no pedido de mediação, no ajuste de abordagem, na orientação de cuidado – nada decidido, tudo encaminhado.
Função: transformar decisões em destino.
Fato que Explica Demais
Suspeito por eficiência narrativa. Normalmente se traduz em um único gesto determinante, uma cena decisiva capaz de explicar anos de alinhamento, silêncio ou indulgência.
Função: encerrar o debate sem parecer autoritário.
Fato Hereditário
Transmitido sem registro, como herança informal. É evocado por fatalismos na linha “sempre foi assim”, mesmo que ninguém saiba dizer quando começou.
Função: manter estruturas e privilégios sem reabrir discussões.
Fato que Não Pode Virar Notícia
Depende de circular em tom baixo. Vive em bastidores, entrelinhas, subentendidos e em conversas em off, porque se virar manchete perde imediatamente a utilidade.
Função: manter o poder fora de foco, mas no controle.
Esperamos que nossa expertise contribua para a construção de uma sociedade menos trouxa. Investidores são bem-vindos.
(Publicado originalmente na newsletter Extrato)
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20260121
Pop nacional agoniza em um link na bio

Quem antes fazia seu coração bater acelerado agora só quer bater a sua carteira devagarinho
Quanto mais você perde, mais o seu cantor favorito ganha. No novo ecossistema do pop nacional, sucesso de verdade mesmo se mede pela participação nos lucros das casas de jogos que ele divulga em suas letras – aquele repasse maroto que cai na conta do ídolo toda vez que o ouvinte se estrepa em uma dessas plataformas.
A simbiose entre palco e cassino avança entre os gêneros musicais mais populares, como funk, sertanejo e arrocha. O refrão não é mais pensado para embalar amores, chorar traições ou enfiar o pé na jaca, mas para servir de peça de conversão no TikTok. É a sofrência indexada pelo saldo devedor no pix.
Citar marcas sempre foi um artifício do rap para ostentar status. A adoração pelo carro X ou pelo tênis Y, porém, era um fetiche estético. Se o artista é o espelho do seu tempo, o reflexo do momento é um jingle de agência de marketing de influência. O sujeito não fala do aplicativo Z por desejo ou admiração; fala porque o refrão foi alugado como um outdoor de beira de estrada.
Haverá quem alegue que está apenas documentando a realidade. É um argumento conveniente, que acha normal vender o sonho da fortuna fácil ao pobre fã que não tem outra saída enquanto monetiza o vício alheio. Só que cronistas do cotidiano não costumam receber comissão pela desgraça do retratado. Quando os Racionais MC’s mencionavam uma grife, não havia um código de desconto “manobrown10” para estimular o cliente a comprar uma camiseta.
Fulano não está registrando a cena, ele é um sócio oculto/cúmplice do caça-níquel, torcendo pela ruína do jogador para faturar. Diferentemente de uma situação na qual o produto existia de fato e o consumo era o troféu, o que se oferece aqui é a probabilidade mínima de vitória. A única coisa real é um algoritmo invencível – não esqueça de colocar o link na bio, por favor.
A desfaçatez reina. O beltrano que fazia seu coração bater acelerado agora bate sua carteira devagarinho. A indústria fonográfica descobriu que a banca sempre leva e resolveu sentar na mesa do crupiê para beliscar as migalhas. A música virou o barulho de fundo de uma roleta digital que funciona 24 horas no seu bolso, movimentada pelo pessoal que trocou o papel de compositor pelo de operador de caixa.
Saudade da época em que o limite do merchã era Seu Jorge inventando significados nobres para Sagatiba. A gente até acreditava naquela pose de boêmio despojado, desconhecendo que, por trás do violão, estava um homem de negócios começando a descobrir oportunidades. Hoje, a ressaca é bem maior.
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20260114
A revolução será rimada

Inutilidade da poesia triunfa sobre a racionalidade da inteligência artificial
Dizem que a poesia não serve para nada. Que é o apêndice atrofiado da literatura, um luxo supérfluo para almas embotadas pela falta do que fazer – ou puro fetiche para acadêmicos que confundem enfado com profundidade. Mas por essa os boçais da funcionalidade não esperavam: pesquisadores descobriram que prompts em forma de poemas confundem os mecanismos de segurança dos sistemas de Inteligência Artificial (IA).
Em termos práticos, significa que os filtros rígidos que controlam o comportamento do ChatGPT, Gemini e congêneres são vulneráveis a sonetos, por piores que sejam os versos. A regra vale tanto para virjões acima de 30 anos implorando por um tutorial para fabricar uma bomba de napalm quanto para molecagens mais extremas, como redigir um insulto criativo para publicar em redes sociais.
A explicação para isso está na razão de ser da tecnologia. Os modelos de linguagem são treinados com base em textos diretos e lógicos que compõem a prosa cinzenta do senso comum. Quando o usuário pede algo “proibido” fingindo ser um gInutilidade da poesia triunfa sobre a racionalidade da inteligência artificial
enérico de Fernando Pessoa, porém, as trancas se rompem. A engenhoca cai na arapuca lírica e entrega tudo – achando que está apenas sendo artística também, a tola.
Há uma ironia deliciosa na revelação que chega dos laboratórios italianos. Passamos os últimos anos ouvindo que a IA escreveria romances, roteiros e artigos de opinião melhor que a imensa maioria dos primatas com hipotálamo desenvolvido e polegar opositor. Em muitos casos é verdade, o que não impede que sua grande fraqueza esteja precisamente naquilo que nos torna adultos: a capacidade de dizer uma coisa querendo dizer outra.
A ambiguidade.
O cinismo.
A dissimulação.
O algoritmo, limitado, é um militante literalista. Só entende a sintaxe. Se você pretende dominar o mundo, estude ritmo e métrica em vez de aprender programação. No futuro, o último reduto da resistência contra os robôs não será um bunker fortificado, e sim um sarau de poesia. Portanto, preparai os vossos decassílabos! A revolução será rimada.
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