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20260508

Xeque-mate na performance



Jogar xadrez com frequência apura o raciocínio para entender metáforas que nem existem

Eis que de repente o xadrez se entranha em todos os lugares. Está em Entre Bispos e Reis, a biografia do maior enxadrista brasileiro, o tão genial quanto atormentado Mequinho. Domina A Revolução do Xadrez, sobre a renovação do interesse pelo jogo milenar em plena era digital. Conduz o documentário A Rainha do Xadrez, que mostra como a jovem prodígio húngara Judit Polgár derrotou o campeoníssimo Garry Kasparov.

Largo os livros, saio da frente da televisão e pego o celular para mudar de assunto. Na tela, aparece uma mensagem do meu chapa Gomez me convidando para… jogar xadrez. Praticamos desde 2009 com uma regularidade impressionante: nunca dois dias seguidos, nunca mais de três meses sem – na pandemia, o online foi a salvação. Uma conversa que já dura 17 anos sem precisar de palavras.

Sei exatamente por que entramos nessa. Estávamos passando por turbulências, cada um no seu contexto, quando o tabuleiro que ele herdou do pai nos ofereceu escape, consolo e magia. Mas não me lembro do momento em que aprendi a jogar, ainda criança. Naquela época, o xadrez morava na mesma prateleira de damas e ludo. Só mais um tabuleiro para entreter uma infância analógica.

A gente decora o movimento das peças – o “L” do cavalo, a diagonal do bispo – e acha que o jogo se limita a derrubar o rei adversário. Hoje, cercado por tiques, traumas & outros sinais de experiência, consigo medir o tamanho do estrago. Entendi que o xadrez é um oceano que, por mais que eu me esforce, jamais sequer chegarei perto de atravessar. Muito menos de decifrar as metáforas que ele pode sugerir.

Sinto que parei de evoluir como jogador e tudo bem, não tenho a menor pressa de atingir um objetivo que nem existe. Minha tara é pela mitologia, não pela técnica. Enquanto a análise do computador me aponta um erro no lance 22, estou mais a fim de descobrir o que Mequinho sentia no auge da crise, ou como a adolescente Polgár lidava com o silêncio pesado de uma sala cheia de homens que se recusavam a aceitar seu talento.

Em vez de ser o sujeito que calcula vários lances à frente, prefiro me sensibilizar com a tragédia de um grande mestre que sucumbiu ou com a beleza de uma ideia que mudou o jeito de pensar o mundo. Jogar com o Gomez virou um ritual de amizade disfarçado de confronto. Se ganho, comemoro. Se perco, o tabuleiro continua ali, com suas 64 casas. Agora eu jogo apenas para ouvir o que as peças têm para contar.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260311

Neymar garantido na Copa – saiba como



Convocação do atacante envolve caneta emagrecedora, Flamengo e rolo do Master

Se você avistou o título acima em sua caixa de e-mails e clicou apenas para conferir que história é esta, parabéns. Você é a prova ambulante de que o clickbait – “técnica de marketing digital que utiliza manchetes exageradas, sensacionalistas ou enganosas em títulos, miniaturas e links para atrair atenção e gerar cliques, muitas vezes retendo informações essenciais para forçar a curiosidade”, define a grande rede mundial de computadores – funciona mesmo.

Agora, se você avistou o título acima em sua caixa de e-mails e clicou para conferir que história é essa, muitíssimo obrigado. Você é a razão de eu sacrificar os raros momentos que poderiam ser consagrados ao nadismo para produzir conteúdo gratuito de relevância duvidosa e utilidade idem. Entre na minha casa, vasculhe a geladeira, urine com a porta aberta do banheiro e faça amor com todos os bípedes, incluindo a calopsita.

A diferença crucial está no “apenas”. No primeiro caso, talvez o primata nem frequente este espaço com regularidade. De repente, assinou só por pena, para fingir que está prestigiando um desconhecido íntimo. Mas não conseguiu resistir ao enunciado e, movido por um desejo incontrolável de perder tempo, caiu aqui. No segundo, a assinante dourada chegou como chega toda semana: completamente despida (de pré-conceitos).

Tudo o que ela sabe sobre Neymar é contra a sua vontade. O interesse dela é – perdão pela falta de falsa modéstia – no que eu tenho a dizer a respeito do tema. Para concordar, para divergir, isso é o de menos. No meu mundo ideal, o que mais a impele a me acompanhar até o final é como eu digo. A forma. Mesmo quando discorda de quase tudo o que escrevi, ela se diverte. Nem que seja rindo de mim, não comigo.

Ao me dar o privilégio de sua audiência cativa independentemente do assunto que estrago, a assinante dourada está também realizando um sonho que alimento desde o tempo em que existiam revistas: a valorização do autor. Revista, para quem não está familiarizado com o termo, era como uma rede social na qual somente umas 20 pessoas podiam postar. Em vez de um algoritmo decidir o que aparecia, a edição determinava o que merecia existir.

Feita a explicação, a revista de música pop na qual eu sonhava trabalhar não tinha artista na capa. Era só o logo e pronto. O freguês queria um exemplar não porque era fã do cantor X ou da banda Y, mas sim porque tinha certeza de que, lá dentro, iria encontrar algo que nunca havia procurado nem suspeitava que gostasse – e tudo apresentado por gente em que, de algum jeito, ele aprendeu a confiar de tanto ler.

Aí veio o famoso Advento da Internet e acabou com tudo. A curadoria com prazo de validade foi substituída por uma previsibilidade estética: o que essa pessoa já gosta? No digital, cabe tudo, desde que seja como o SEO (sigla em inglês para Sistema de Enganar Otário) mandar. O limite do papel obrigava a escolha e, com ela, o conflito. Manter esta newsletter é, guardadas as devidas proporções, uma tentativa de recriar essa dinâmica.

A outra alternativa seria fazer uma revista com algum artista muito popular na capa e mais nenhuma página com ele. Ué, você não comprou apenas por causa da capa com o fulano? Ei-la, fique com ele e não encha o meu saco. O título maroto desta edição é uma adaptação dessa solução para o ambiente online. Não estranhe se virar padrão a partir de hoje. Conto com seu senso crítico.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260304

Nada aconteceu hoje



Mesmo assim – ou exatamente por isso – passei a ter algo a perder

Trago verdades [trago não, olha o gatilho]. Estou há 363 dias sem cigarro. Meu recorde é 363 dias. Não existe comparação possível. Nunca cheguei até aqui antes. E não aconteceu absolutamente nada ao chegar. Nenhuma sensação de conquista. Nenhum alívio. Nenhuma mudança perceptível.

Ou melhor: o furo no cinto. Engordei cinco quilos. Com a desvantagem de estar comendo as mesmas coisas na mesma quantidade e queimando menos calorias ao fazer as mesmas atividades físicas. Dizem que o metabolismo volta ao normal (?) com o tempo, quando o organismo reaprender a funcionar sem nicotina. Tomara.

O pior é a fissura. Depois de alguns meses, a dependência química dá uma reduzida. Já consigo fazer tarefas prosaicas sem ter que fumar antes, (se possível) durante e (para arrematar) depois. Mais difícil de apagar é o vício comportamental, como se certas situações e cigarro fossem inseparáveis.

Qualquer parada – uma pequena espera, um café sozinho, um parágrafo concluído – faz o cérebro lembrar de acender um. É automático, independentemente de estar com vontade ou não. Sem esse ritual que consumia vários minutos, a rotina fica muito mais sacal e entediante.

Fumar era uma tecnologia portátil de pausa, uma suspensão no sistema. Meu corpinho roliço talvez não precise mais da droga, mas meu lifestyle parece incompleto sem ela. Ao remover o cigarro do horizonte, aboli também toda a pontuação da minha narrativa. Viver virou um fluxo contínuo.

A má notícia é que, segundo ex-fumantes, esse processo dura anos, tipo o amputado que sente coceira no membro ausente. A boa é que o disparo vai se tornando tão curto quanto um reflexo. Ativa, procura, não encontra e vai embora, que nem um elevador que ainda para em um andar onde não mora mais ninguém.

O aplicativo que instalei para me fiscalizar informa que, até o momento, deixei de fumar 5.427 unidades, poupei R$ 2.729 e “recuperei” (ainda não entendi esse conceito) 22 dias. Parei na quarta de cinzas do ano passado. Menino criado nos mais sólidos preceitos da família cristã que sou, pensei em sacrifício.

Descobri que recusar não me faz um exemplo de superação. Pelo contrário, é um gesto quase burocrático. Um ato invisível que ninguém presencia. Não ganho medalha pelo cigarro que não aceitei, que bênção. Amanhã não terá nada de heroico. Será só o dia 364.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260225

U2 quebra silêncio sem fazer barulho



Volta da banda parecia um caso de amizade de baixa manutenção, mas o café estava frio

Nem sabia que o U2 ainda estava na ativa quando fui impactado pelo lançamento do EP Days of Ash. O pacote com seis faixas encerra o maior período da banda sem aparecer com inéditas, nove anos em que quase ninguém sentiu sua falta. Apertei o play confiando no conceito da amizade de baixa manutenção: aquele afeto que sobrevive a longos silêncios, sem exigir presença constante para continuar sendo significativa.

Bono está cheio de assunto. Três músicas são sobre pessoas que foram mortas devido às causas que defendiam – uma mãe ativista dos EUA, um professor palestino, uma adolescente iraniana. Uma quarta é escrita em forma de carta de um soldado ucraniano disposto a morrer pelo seu país. A única que não esfrega a realidade na cara da sociedade é inspirada em um livro de um frade franciscano que ensina como viver com compaixão em meio à violência e ao desespero. (A outra é um poema, contadorzinho.)

Ouvi tudo com a atenção dividida com uma frieira no lado do dedão que estava me incomodando neste calor. A tentativa do grupo de soar urgente com “canções que não podiam esperar”, como definiu o vocalista, esbarra em uma camada histórica que amortece qualquer arrebatamento. Quando um artista vira trilha sonora da juventude de alguém, ele fica preso ali. Tudo o que ele fizer depois será medido pela intensidade de um momento que nunca mais vai se repetir.

Perto de comemorar o Jubileu de Ouro, o U2 passou pelo que passam todas as bandas que duram tanto: do frescor para a autoridade, da autoridade para a instituição, da instituição para o hábito. Encarei os 23 minutos do disco como quem aceita um café com um velho amigo. Não esperava catarse, nem epifania, tampouco atravessamento, mas pensei que pelo menos a gente mantivesse uma relação.

Terminei com a certeza de que Days of Ash já nasceu como um arquivo que nunca mais vou consultar. O U2 virou monumento pessoal, um atestado da minha própria velhice. Agora imagine as Novas Gerações. A chance de cruzar com os escoceses irlandeses é acidental, algorítmica, mediada por um recorte de 15 segundos. Mesmo que algum trecho de música deles viralize, é improvável que seja deste século. E você ainda vai ter que explicar que Bono já foi relevante.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260218

A coreografia das aparências sob o céu da euforia



Carnaval, brilho & suor se erguem em um espetáculo de vertigem contida

Hoje é terça de carnaval.

A lógica da internet diz: publique mesmo assim. O algoritmo não descansa. A produção tem que continuar. A entrega é sagrada.

Eu discordo.

Sim, eu sei. Você poderia estar em qualquer outro lugar agora.

Eu também. Eu queria ser o tipo de autor que simplesmente não aparece. Mas sou do tipo que aparece para dizer que não vai aparecer.

Vamos nos despedir por aqui antes que a gente se acostume [com essa mania feia de tratar feriado como dia útil].

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260211

O que fica boiando


Diálogo à deriva depois de um desfile que já passou, mas continua acontecendo

As pedras amontoadas nos Molhes da Barra, as ondas batendo à frente, repetidas. O mar insiste. Eu é que não. Estou meio aturdido com a fantasia deslocada: o desfile das escolas de samba foi no sábado, uma semana antes do início oficial da folia. O vento recende a maresia, cerveja choca e madeira úmida. Sobrou um silêncio que não combina com fevereiro. Parece que a cidade desmontou junto com o último resquício de espontaneidade.

— É para não atrapalhar o que o carnaval se tornou.

Não localizo de onde vem a voz. Olho ao redor, não vi ninguém chegar. Um vulto se projeta de onde a água escurece até virar fundo.

— Engraçado como tu vem aqui quando não quer decidir nada.

Não acredito: é o Cy. Não pela silhueta – pelo tom. O boto que me apareceu outra vez, quase no mesmo pedaço da praia. O jeito desarmado, o raciocínio errado, a conversa que não se apresenta inteira. Um arrepio de reconhecimento mistura-se com o salitre. Resolvo entrar na dança.

— Eu nunca quero decidir nada, sabichão. Nem aqui, nem alhures.

— Ótimo. Menos coisa para se arrepender depois.

Fica boiando, distraído. O calor encosta nele sem pressa: já passou, está acontecendo.

— Engraçado tu sempre vir aqui exatamente quando jura que não quer nada.

— O tempo passou e tu continua palestrinha, parabéns, Flipper!

Ele ri largo. Não se defende. Não explica. Só se vira na minha direção e mexe a cabeça, imitando o astro. Suspiro. Eu queria leveza, não ata. Cy dá uma rodopiada curta, focinho apontando para mim.

— Tu veio aqui achando que eu ia te dar frase boa.

O sol se esconde um pouco atrás das nuvens e a luz perde contraste. Um barco passa longe, motor engasgando. O som chega atrasado, como o samba este ano. A maré muda quase nada, o suficiente para embaralhar os reflexos.

Cy olha a superfície como se procurasse o resto da festa. Mergulha rápido. Ressurge logo, trazendo espuma e indiferença. Flutua imóvel demais para alguém vivo, sem ajustar o corpo, deixando a correnteza ditar o ritmo. Permaneço mudo.

— Não te preocupa em voltar a sentir. O mundo ainda vai te obrigar.

Em seguida, ele afunda devagar, sem fazer disso um fim. A água fecha, levando o rastro, o cheiro e a certeza.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260204

Escrever para esquecer, ler para lembrar



Entre o que se produz para sobreviver e o que ainda sustenta

Escrevo coisas que jamais gostaria de ler.

Jamais gostaria de ler o que escrevo para pagar as contas. Não que sejam textos ruins. São só textos treinados para desempenhar função. Atendem ao que foi pedido, respeitam o prazo, o tom e o limite de quem contrata. Entregam. E, justamente por entregarem, dispensam envolvimento.

O tipo de redação que não deixa vestígios porque não precisa deixar. Existe para resolver uma demanda externa e desaparecer quando ela acaba. Já nasce com data de descarte. Exige apenas atenção suficiente para que seja consumida e deixada para trás.

Leio coisas que adoraria ter escrito.

Adoraria ter escrito o que leio sem serventia definida nem expectativa de retorno. Nunca em busca de alguma lição ou compensação prática. Às vezes porque a forma me segura mesmo quando o argumento não me convence. Sempre por prazer. Nada disso vira finalidade.

O tipo de leitura que não se justifica porque não precisa se justificar. Sua garantia de impacto é zero. Não promete, o que não quer dizer que não cumpra. Permanece – uma permanência que não pode ser medida.

O problema é que jogo nas duas posições. Parte do tempo escrevo o que não interessa a ninguém que goste de ler. Outra parte leio para não me esquecer por que escrever ainda importa.

***

Há algo de profundamente desnecessário em ficar ruminando essa polarizassaum. Fazer disso um dorama existencial enquanto o dia acontece do lado de fora. Escrever, ler, escrever para se realizar, ler… ler para quê, mesmo?

Verão fervendo, o sol estoura na janela, gente ri alto na rua – e eu aqui, organizando frases sobre uma bobagem.

Essa necessidade meio boçal de transformar tudo em identidade, em marcador de cultura. Masturbação conceitual em torno de uma arte que reconhecia poucos com muito convertida em um ofício que explora muitos com pouco.

Nenhum texto vence um domingo de praia, nenhum parágrafo supera a troca de afeto, nenhuma leitura vale mais do que acordar com você.

Talvez escrever importe menos do que eu acredite. Talvez ler não salve nada. Talvez tudo isso seja só uma forma elegante de perder tempo até a IA dominar. A vida não está nem no que escrevo, nem no que leio. Está no que acontece entre uma coisa e outra.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260108

As 70 músicas favoritas de 2025




Um inventário de ausências e recomeços em forma de trilha sonora de tudo o que sobreviveu


Lista de músicas do ano é tipo convocação para Copa do Mundo. Por mais que se desconverse, a relação das preferidas é estabelecida pelo momento, pelo histórico e, em caso de indefinição, por algum critério maluco subjetivo inventado pelo selecionador. Nunca isso foi tão verdadeiro quanto em 2025.

Minhas 70 prediletas têm nomes que estão aparecendo pela primeira e, talvez, única vez. Têm artistas que enquanto estiverem em atividade vou ouvir com a maior vontade de gostar e escolhê-los ainda que não tenha gostado tanto de seus mais recentes trabalhos. E têm aquelas que ninguém entende por que estão aqui – um treinador alegaria que são “de confiança”.

Agora ouvindo todas em sequência, percebo como acabaram refletindo o que foram estes últimos doze meses para mim. As horas em que, varado pela dor, me agarrei na esperança de achar alguma redenção no sofrimento. O escapismo para tentar contornar a perda iminente e, depois da ausência consumada, seguir em frente. A saudade.

Em breve, é provável que as tais músicas me lembrem de que, como diria o poetinha, mesmo a tristeza da gente era mais bela. Seja do jeito que for, acredito que, com elas, a vinda ou não do hexa não vai fazer nenhuma diferença.

20250117

Vida de inseto



Formigas.

Formigas por toda a parte. Formigas na bancada da pia da cozinha, no fogão à direita, no escorredor de louça à esquerda. Formigas brotando em geração espontânea dos azulejos da parede. Formigas andando em filas, em círculos, em percursos irregulares, perdidas por rotas desordenadas. Formigas que se deleitam com a ilusão de que manter tudo limpo iria mantê-las no buraco de onde quer que tenham saído.

Formigas que definitivamente venceram.*

Eu havia ido apenas fritar um ovo quando me deparei com esta cena de um filme-catástrofe de baixíssimo orçamento. Não foi a primeira vez. Elas aparecem, somem um tempo, voltam – deve ser por causa das mudanças climáticas. São aquelas pretas bem pequeninhas, inofensivas. Diz a grande rede mundial de computadores que se chamam formigas loucas, por vagarem sem senso de direção. Daí o seu rolê aleatório.

Ocupam tanto locais secos quanto úmidos. Gostam de calor. Alojam-se em qualquer fresta. Apesar da chatice, eu simpatizo com o movimento formicular. Tudo coletivo, operárias, colônias, essas paradas colaborativas. Tem também o lance do budismo, não saio de casa sem o mala que ganhei no templo de Três Coroas (RS) no pescoço. Abri a torneira, peguei o esfregão para arrastar as formigas para dentro da pia e comecei a falar.

“Eu não sou de tirar vida. Só de bicho nojento como mosca e barata. Entendo e dou o maior apoio à luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Mas não na minha cozinha. Não é porque não acabei com vocês antes que eu seja seu amigo. Uma procurando um grão de arroz aqui, outra atrás de um farelo ali eu até tolero. Vocês têm que parar de andar em bando e cada uma fazer o seu corre. Vocês…”

À medida que eu discursava, porém, percebi que as formigas estavam indo por conta própria rumo ao fim inevitável, como se hipnotizadas pela torrente de água escoando pelo ralo. Do alto de minha superioridade física e material, eu havia me tornado o que mais temia: alguém que finge ter empatia, espírito comunitário e talz, mas não hesita em revelar o pior de si diante da menor suspeita de ameaça aos seus privilégios.

As formigas preferiram a morte a ouvir palestrinha de babaca sobre meritocracia e direito à propriedade. Eu não tenho essa dignidade. Vou continuar fazendo das migalhas que me sobram o meu banquete.

*Trecho inspirado na abertura do livro Os Meninos Adormecidos, de Anthony Passeron, uma das boas leituras do ano passado.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20250116

Nem tudo é dinheiro, mas sempre é dinheiro



Muita gente [ninguém] me pergunta por que fiquei tanto tempo sem aparecer por aqui. A resposta oscila conforme minha disposição para falar sozinho. Já aleguei que me afastei para poupar a leitora do meu azedume. Depois, admiti que era apenas preguiça. Entretanto, a verdadeira justificativa para eu interromper este monólogo semanal foi uma só: dinheiro. Ou, para ser mais exato, a falta dele.

As pessoas escrevem pelos mais variados motivos. Para se comunicar. Para contar uma história. Para registrar. Para encontrar um propósito. E para tirar onda também. “Escrevo exclusivamente para descobrir o que estou pensando, o que estou observando, o que eu vejo e o que isso significa. O que eu quero e o que eu temo”, como mente Joan Didion no livro Vou te Dizer o que Penso.

Escrevo porque é a única qualificação pela qual consigo fazer com que me paguem – até me viro no fogão, mas se eu cozinho, eu como [tio do pavê manda lembranças]. A musa inspiradora é o prazo, o estímulo é a notificação no celular avisando que caiu o pix, a recompensa é poder bancar pequenos vícios. Em vez de paixão, praticidade: trabalho é ganha-pão, realização é bônus incerto & não esperado.

De modo que a combinação da necessidade de sobrevivência com a miragem da mobilidade social me forçou a tirar um ano black sabático – ou seja, contra a minha vontade – de distrações gratuitas para me dedicar a atividades remuneradas. Além disso, esta plataforma adotou uma série de inovações em nome da tal da monetização que me deu um bode danado de continuar nela.

Agora tem aplicativo, chat, seguidores e uma barra de rolagem de postagens que a tornam muito parecida com qualquer brinquedinho online de bilionário reaça, quando o encanto era justamente o fato de distribuir conteúdo [argh] somente por email. Assinou, recebeu, ponto. Como tudo na internet, começou bacana e se rendeu ao mercantilismo. Se nem almoço existe grátis, que dirá newsletter.

A mesma gente do primeiro parágrafo [ninguém] me pergunta então por que, se dinheiro é prioridade e a ferramenta mudou para pior, voltei a publicar. Já aleguei que me organizei para conciliar o sustento com o lazer. Depois, admiti que era apenas saudade. Entretanto, a verdadeira justificativa para eu retomar este monólogo semanal foi uma só: há duas coisas que eu faço bem, baby. E escrever é a segunda.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20231206

Manifesto da obsolescência voluntária



Cansado de procurar algum tema pop para cá que me anime a vestir minha melhor versão. Uma notícia, um assunto, uma efeméride, um reles pretexto para eu desfilar uma opinião equilibrada entre a experiência de veterano e o tesão de iniciante. Mas o que acho das pautas que por um breve instante mobilizam a atenção geral me deixa parecendo um tiozinho falando do que não conhece com base no que conheceu, seja lá o que for.

O fato é que mal conheço os sucessos do momento. Não consigo identificar a maioria dos nomes que está no top 10. De alguns nunca ouvi falar. Outros nunca ouvi, só de falar. Acontece o festival tal e não me ligo nem em quando vão tocar as raras atrações escaladas que eu gostaria de ver, que dirá as demais. Nada contra, somente um desinteresse natural, acentuado por não precisar saber disso para pagar os boletos.

Daí a me desqualificar pelas referências que uso para analisar o que rompe a blindagem da minha ignorância já é sacanagem. Se eu não recorrer ao que conheci para desenvolver um senso crítico sobre o que estou conhecendo, vai sobrar muito pouco. Meu parâmetro mais confiável para avaliar o presente contínuo é a bagagem que trago do passado, com todos os vícios e vieses. Por isso, tento relativizar.

Em vez de defender que os artistas que admirei e os refrãos que cantei junto e os shows que me marcaram eram mais verdadeiros, prefiro aceitar que atualmente é apenas diferente. Não é sobre legitimidade, é sobre como a música importa menos do que todo o resto para que certos ídolos contemporâneos recebam dos fãs um elogio corporativo como o produto genuíno que vendem: “Fulano entregou tudo”.

Até entendo a urgência desta geração em estabelecer e respaldar seus próprios cânones, principalmente em uma época de cometas tão fugazes. Sempre rolou isso, assim como essas escolhas sempre foram ridicularizadas pela geração anterior. Hoje, porém, o pessoal é muito autocentrado e deslumbrado, chega a ser meio caricato. Qualquer novidade faz história, quebra paradigmas, é considerada [argh] icônica.

Se você acha que o mundo começou quando o tiraram da barriga de sua mãe, vai fundo. Daqui das minhas limitações etárias, só consigo achar quase tudo falso, ruim e chato demais. Não é por má vontade ou para romantizar o meu tempo – mesmo porque meu tempo vai durar enquanto eu estiver vivo & chutando. É que já ouvi, vi e li tanta coisa que fiquei mais seletivo. Alguma vantagem a velhice tinha que ter.

(Extraído da newsletter Extrato)

20230810

PLAYLIST | olhos se perdendo sem lugar



A seleta semanal de músicas é a parte deste negócio que mais aprecio fazer. Na verdade, a ladainha que vem antes serve só para justificar a meticulosa trilha sonora do final e reter a audiência mais tempo por aqui. Minha ambição é ser reconhecido pelo meu bom gosto e virar um requisitado personal playlister.

Apesar do empenho, são os links menos acessados. A você que me dignifica com o seu clique voluntário e ouve nem que seja um pedacinho de cada faixa, meu muito obrigado. Chega a me dar um quentinho no coração pensar que continuo do seu lado depois que a leitura acaba.

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20230809

Nunca duvide da magia do balão



Faltava um artista que unisse todas as tribos como o Norvana. Não falta mais: A Turma do Balão Mágico conseguiu a proeza de mobilizar esquerdopatas e bolsoafetivos, legalistas e garantistas, heteronormativos e pansexuais. A ampla coalizão formada para julgar o documentário sobre o grupo acomoda os mais discrepantes & abalizados vereditos. Uns acharam bom. Outros, ruim. Como não sou tão profundo assim nem assisti à série por não ter login e senha, só posso renovar minha gratidão.

[Spoiler: vem aí mais um papo-furado em primeira pessoa.]

Pela manhã, me defendia na diagramação de uma revista de uma raça de cavalo. À tarde, respondia pela edição de música em uma revista de cultura pop. Os dois empregos eram inspiradores e em 1995 pagavam o aluguel de um apartamento de dois quartos no Alto de Pinheiros, mas não representavam o que havia me impelido a trocar Florianópolis por São Paulo no ano anterior. A tara sempre foi escrever para um grande veículo impresso, que eu não precisasse explicar o que era, por onde circulava e qual a tiragem.

Então Simony apareceu. Em mais uma tentativa de reviver os dias de glória, ela anunciou que lançaria um disco solo. A reboque, a gravadora convidava a imprensa especializada para entrevistá-la. Na mesma semana, calhou de outra gravadora (bons tempos) pagar passagem aérea (ótimos tempos) para jornalistas irem a um show dos Mamonas Assassinas em Curitiba (tempos estranhos). No voo, sentei ao lado do colega Ricardo Alexandre, de O Estado de S. Paulo. Azar o dele.

O avião ainda rodava pela pista de Congonhas e eu já estava sugerindo um frila com ex-menina-prodígio do Balão Mágico. Com extremo tato, Ricardo argumentou que, se fosse para falar com ela, ele próprio falaria. Fui persistente – ou xarope, dependendo do ponto de vista: e se nós (cumplicidade é tudo) produzíssemos uma reportagem histórica com que fim levaram aquelas crianças que encantaram o Brasil na década de 1980? Ricardo se encarregaria de Simony e Jairzinho, eu de Mike e Tob.

O problema era que eu não fazia a menor ideia de como encontrá-los. Liguei para a assessora topando a entrevista oferecida com Simony, talvez ela mantivesse contato com eles. Conversamos quase duas horas sobre seu repertório e os planos para divulgar a obra. Pura enrolação. Meu único interesse era, entre perguntas protocolares, descobrir se ela tinha o telefone de seus antigos parceiros. O “sim” me deixou mais excitado que sua transformação em mulher, exibida pela Playboy meses atrás.

Mike estava mexendo com produção musical e superdisposto. Com Tob, foi o oposto. Disse que não era a fim de falar, que era tímido, que tinha vergonha, que sei lá o quê. “Bicho, sou repórter, vim de Santa Catarina e tô na batalha que nem tu, quebra essa pra mim”, implorei. O apelo o sensibilizou. No dia seguinte, eu estava batendo na porta da casa de classe média em que ele morava com os pais em uma cidade do ABC paulista.

Antes tão reticente, Tob abriu o coração. Contou que se chamava Vimerson, estava cursando Jornalismo e planejava trabalhar com rádio e TV. Que compunha e sonhava em voltar ao meio artístico assim que o tratamento contra as perebas do rosto surtisse efeito. Cercado por discos de ouro (do Balão Mágico) pendurados na parede, pegou o violão e me mostrou suas músicas. Gostei mais do café com bolo servido por sua amável mãe. Saí de lá antevendo meu nome em um dos maiores diários do país.

Quando bati os olhos na matéria publicada, custei a acreditar. Assinada por mim, trazia o título “Tob promete voltar quando acabar com as espinhas”. À tarde, a recepcionista da revista em que eu cumpria minha segunda jornada avisou que uma senhora se identificando como mãe de um tal de Vimerson esperava na linha para falar comigo. Respirei fundo e fui enfrentá-la, imaginando a mijada que tomaria até esclarecer que não tinha nada a ver com aquela sacanagem que fizeram com seu filho.

Para minha surpresa, ela informou que havia pedido meu número no jornal para me agradecer. Alguém de uma emissora de televisão lera a reportagem e chamou Tob para um estágio. Aí eu desab(afe)i. Confessei que esperava um esporro, que a gente capricha no texto e vem um editor e estraga tudo e que jornalista é tudo mau caráter mesmo. A mulher riu do meu desespero. “Não se preocupe, Deus escreve certo por linhas tortas”, despediu-se. (Parece que Tob não ficou tão satisfeito.)

Pouco depois, eu seria contratado pelo Estadão, dando início a uma trajetória de conquistas que minha modéstia impressionante me impede de listar.

(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)

20230808

O pecado original ainda balança a memória



Se Beatles tem o Sgt. Peppers, Beach Boys tem o Pet Sounds e Pink Floyd tem o Dark Side of the Moon, o INXS tem The Swing.

Não, não, aí já é forçar a barra demais, até para padrões de fã.

Como Televisão para os Titãs e Freaky Styley para os Red Hot Chili Peppers, The Swing ensaia o que o INXS se tornaria.

Hmmm, também não é bem isso.

Parei de forjar alguma comparação histórica (e talvez estapafúrdia) para justificar uma predileção puramente pessoal: gosto tanto de The Swing porque vivia o meu verão do amor, morava a uma quadra da praia e ainda tinha muito mais futuro do que passado.

Descobri o disco em 1988, quando um amigo gravou em vídeo-cassete um especial da Rede Manchete sobre o INXS, então emplacando um sucesso atrás do outro com Kick. O programa, apresentado pela jovem Milena Ciribelli, mostrava trechos de shows e clipes, dando uma geral na trajetória dos australianos até o megaestrelato. Aquela temporada foi deles – e logo alguém da capital apareceria com um vinil importado de The Swing para a gente copiar.

Hoje com meia dúzia de cliques é moleza relacionar uma série de fatos que o destacam na discografia da banda. Lançado em 1984, o quarto álbum do INXS foi o primeiro gravado nos Estados Unidos e o primeiro com uma foto do grupo na capa. O single “Original Sin”, produzido por Nile Rodgers (o dono do groove da guitarra do Chic), escancarou o mercado do hemisfério Norte para eles, apesar do boicote promovido por rádios retrógradas por causa do teor multirracial da sua letra.

Na época, porém, a única informação que eu precisava me chegava pelos ouvidos. E o que eu ouvia logo na abertura era a levada irresistível da já citada “Original Sin”, não por acaso o grande hit do disco. Dali em diante, tudo soava muito diferente da ideia que eu tinha formado com o pouco que conhecia do INXS. Por mais que cada refrão grudasse na cabeça, parecia que sempre havia alguma camada – inclusive de melancolia – que se revelava somente após sucessivas audições.

Essa impressão nunca impediu The Swing de ser uma das trilhas sonoras de uma fase em que meu mundo era tão pequeno que ficava fácil ser bem-sucedido em quase tudo. Pelo contrário: o apelo pop de músicas como “I Send a Message”, “Dancing on the Jetty”, “Johnson’s Aeroplane”, “Love Is (What I Say) ou da faixa-título embalavam o momento com a certeza de que o tempo de escassas responsabilidades estava perto de acabar. Mas, enquanto não acabasse, eu curtiria sem pensar no amanhã.

Neste veranico extemporâneo do meio do ano, aproveitei um passeio à beira-mar para revisitar o disco como quem revê um amigo há muito distante. Bastou começar a rolar para me lembrar da beleza da apresentadora na imagem borrada do VHS, da invejinha que sentia do vocalista Michael Hutchence e de como eu acreditava que nada era impossível para mim. Passados esses anos todos, só The Swing conservou o frescor.

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20230805

Um homem chamado cavalo



Já escrevi muito sobre muita coisa para manter acesa a ilusão de que tenho uma carreira. Música, economia, política, esporte, tecnologia… Vou listando os temas e, talvez influenciado pelo número desta edição, percebo uma lacuna gritante: sexo. Entre as parcas exceções está uma reportagem para uma revista masculina em 1997. Basicamente, acompanhar a rotina um cavalo reprodutor para entender por que chamar um homem de “garanhão” era elogio.

Sugestão aceita, valor e prazo acertados, lá fui eu para um haras a 137 quilômetros de São Paulo. O casal estava no ponto. Ela, Funny Command, no dia e hora exatos para a ovulação. Ele, Xupeta, condicionado a ficar excitado toda vez que alguém perturbava seu sossego vespertino. O macho viu o traseiro da fêmea, sentiu o cheiro forte de urina e enlouqueceu. Dois homens tiveram que contê-lo e guiá-lo até um rolo de lona sustentado por duas vigas de madeira. A égua permanecia intocada.

Possuído pelo tesão, Xupeta avançou sobre o clone mal-feito e macetou com vontade. Vai, vem, vai, vem, vai, vem, acabou. Menos de 20 segundos, tempo suficiente para a dupla de peões encaixar uma ampola no membro dele e recolher o fruto de seu prazer, para frustração de Funny Command. Por inseminação artificial, dali a onze meses ela iria parir um filho do campeão do Congresso Americano de 1993 e campeão brasileiro de 1996. Um potro fadado a ser vencedor.

Resumindo, o garanhão era criado, tratado e alimentado como um banco de sêmen ambulante. A fêmea era mera figurante no ato. O veterinário explicou que o método impedia a propagação de doenças e evitava que a ejaculação do animal fosse desperdiçada em apenas uma cobertura. Resfriado a cinco graus centígrados, o esperma guardado durava até um dia e meio. Cada gozada rendia de 100 a 150 mililitros, o necessário para cinco fecundações.

Por preços de US$ 800 a US$ 2,4 mil, o haras hospedava outros 14 cavalos das raças quarto de milha e apalooza, com vários títulos e de boa linhagem, prontos para dar lucro aos seus donos e aos das éguas encaminhadas para o cruzamento. Não importava se havia penetração ou orgasmo da parceira, desde que ela fosse fertilizada. O máximo de envolvimento permitido consistia em algumas cheiradas e mordidinhas nas ancas da fêmea, prolongando o ato por dois a três minutos.

Toda vez que o garanhão era retirado da cocheira à tarde, ele sabia que acasalaria. Por isso, a euforia de Xupeta diante de Funny Command. O contato visual bastou para deixá-lo em ponto de bala: ela lavada e presa com o travão (cordas que passam pelo pescoço e imobilizam suas patas traseiras), para não ameaçar os testículos preciosos dele. Concluído o serviço, mais um banho e tchau. Tudo controlado nos mínimos detalhes, sem espaço para preliminares ou cumplicidade.

Para nunca falhar, os cavalos levavam uma vida de bacana. Despertar às 6h30 com ração e alfafa, duas pessoas para escová-los às 8h, 40 minutos de solzinho (o calor estimula a produção de espermatozoides) e exercícios, limpeza às 11h e mais ração ao meio-dia. A partir das 14h, estavam disponíveis para coleta de sêmen e cobertura. Às 16h, eram escovados e limpos de novo e ganhavam outra porção de ração e alfafa. Dormiam às 22h em baias de quatro metros quadrados, forradas com serragem.

Tanta mordomia para se resignar com transar dia sim, dia não, limitados a 10 éguas diárias, com meia hora de intervalo para os guerreiros se recomporem. Um garanhão firmeza começava na função com três anos – em geral com parceiras mais experientes, acostumadas ao furor e à falta de tato dos machos – e se aposentava aos 20. Sempre no esquema de bater o olho na fêmea, excitar-se, dar três ou quatro estocadas nela ou no simulacro, tomar um banho e se retirar.

Ou seja, sua performance era uma fraude, longe de justificá-lo como sinônimo de excelente desempenho. O editor captou o veneno e, com precisão, tascou na capa da revista: “Homem x cavalo – o garanhão é você”. Na comparação entre como as duas espécies faziam sexo, a única vantagem do equino sobre o humano estava no tamanho do membro. O do bicho atingia quase 80 centímetros. O homem que passar de 20 já pode ser considerado um cavalo.

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20230804

Todo dia termina velho em cada entardecer



Estava flanando pelo Centro de Florianópolis quando a avistei. Como naquela tarde fria em que ela apareceu para mim, eu me protegia da chuva embaixo de uma marquise na Fernando Machado enquanto torcia para que a nuvem de descrença se dissipasse em um arco-íris de indiferença. Era coincidência demais para eu duvidar que o encanto da primeira e única vez que ela cruzou comigo pudesse se repetir.

Foi em outubro de 2022. Na época, eu curtia uma fase tão desgraçada que vou te contar. Na semana anterior, havia saído de casa quase à meia-noite a pé para comprar um vinho na conveniência do posto de gasolina. Na entrada da loja, um morador de rua me pediu um trocado para comida. Paguei-lhe uma empanada e um pão de queijo. Enrolado em um cobertor, ele me agradeceu e sorriu: “Não te preocupa, irmão, vai dar tudo certo”.

Pois bem. Uma velhinha vinha da Praça XV a passos miúdos e lentos, sombrinha na mão e bolsa agarrada ao tronco pelo outro braço. Ao chegar na frente da lotérica onde eu me encolhia, ela me encarou. “Não quero vender nada, não vou pedir nada”, disse. Gelei. “Só parei aqui porque estava indo para os lados da Mauro Ramos, senti uma coisa boa e vi que era do senhor.” Derreti. A velhinha tinha me desarmado.

Falou que voltava da Catedral, que era viúva e que a irmã e o cunhado lhe faziam companhia. “Ô, minha senhora, eu ando tão desanimado”, ainda tentei reagir. A velhinha, contudo, garantiu: “Pode ficar tranquilo que vai dar tudo certo”. Antes de continuar seu caminho, segurou meus braços, perguntou meu nome e me desafiou a adivinhar o dela. “Tem igreja no Estreito”, facilitou. Matei na hora: Fátima.

Ela piscou para mim e desceu em direção à Hercílio Luz sem virar para trás. Para minha mãe, foi um espírito que evaporou assim que dobrou a esquina. Devia ter seguido a velhinha para conferir – e me apavorar se ela sumisse de repente. Daí minha ansiedade quando a reencontrei com o mesmo passinho, na mesma rua, o mesmo clima meteorológico e vibracional. Sobrenatural ou não, só podia ser obra da Providência.

Fixei o olhar nela até se aproximar de mim. O coração acelerou, a respiração aumentou, a boca secou. Me empertiguei para receber mais uma dose de alento. Mas a velhinha se revelou humana, demasiada humana. Não me reconheceu ou descobriu minha propensão a reclamar de barriga cheia, tornando tudo pior do que realmente está na esperança de sensibilizar o destino.

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Copiando e colando e seguindo a vocação



Meu diploma de jornalista faz 30 anos em agosto e a vontade de mudar de ofício só não é maior do que o medo de começar do zero de novo e fracassar em outra área. E olhe que posso afirmar, sem um pingo de empáfia, que estou entre os cinco mais bem-sucedidos da turma Os Decantados (Aquele Pessoal que Fica no Fundinho): foram apenas seis formandos, dos quais um nunca exerceu a profissão.

Daqueles tempos analógicos, guardo com carinho & respeito um episódio protagonizado por um colega de jornal. Eu, recém-instalado em solo paulistano, louco para praticar à vera o jornalismo que idealizava em sala de aula. Ele, já com experiência para relativizar alguns princípios em nome da sobrevivência. “Chefe não gosta de repórter bom, chefe gosta de repórter que resolve”, vivia me dizendo.

Certo dia, esse colega foi escalado para uma matéria de turismo nas cidades históricas de Minas Gerais. Tão logo saiu sua reportagem, a bomba explodiu na redação: plágio. Eram parágrafos inteiros, inclusive com os mesmos erros de português, idênticos ao material publicado meses antes em uma revista especializada. O editor o chamou para uma reunião que todo mundo imaginava como iria terminar.

Vai ser demitido por justa causa, acabou a carreira do cara. Em menos de 15 minutos, ele retornou à sua bancada como se nada tivesse acontecido. Talvez por eu sentar ao seu lado e, jovenzinho, ainda nutrir ilusões quanto à relevância do que escrevia, o colega achou que precisava dar alguma satisfação para mim. “Estão espalhando que eu copiei um concorrente”, se queixou. Fingi que não sabia de nada.

Então me mostrou um monte de folhetos turísticos que havia juntado na viagem, comparando trechos deles com sua matéria e com o texto de quem o acusava. Tudo igual. “Entendeu? Chupei das mesmas fontes que a revista usou”, encerrou, vitorioso. A suposta polêmica morreu e, na semana seguinte, ele embarcou a trabalho para o Peru. Ali saquei que não tinha lugar para inocência se eu quisesse durar nesse negócio.

20230607

A hora e a vez de parar de (se) enganar



Em uma semana, é cabeça. Na outra, tempo. Na terceira, qualquer pretexto serve como desculpa. Quando se toca, já era.

Vai vendo.

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Cansaço define. Uma exaustão maturada na pandemia e desdobrada em novas cepas a cada dia. Tem muita coisa acontecendo. Quase tudo chato demais. Sempre teve. Só que ninguém ficava sabendo. Parece depressão, mas é só enfado.

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Dois meses de pequenas satisfações. A maior delas: sair de um monte de grupos do zap.

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O Professor nunca quis ser dono de imóvel. Enche o saco, se muda. Agora está morando em uma casinha alugada a uns 15 minutos de caminhada da praia. Funcionário público, se aposentou bem. Disse que vai relaxar para depois pensar no que fazer. Sem pressa.

Eu me preocupava com ele. Saúde, sustento, o que ia ser dele. Até visitá-lo. Ativo, sossegado, inteiraço. Pelo que vi e senti, ele é que tem se preocupar comigo.

No caminho de volta, o motor quebrou. Prejuízo de milhares. O Professor nunca quis ter carro.

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Hey, homem, chegou em boa hora, tá? Acabei de mandar mensagem aqui prum DJ do Rio, mas aí tu surgiu antes um pouquinho, eu tava mandando pra ele, um grande amigo, XXXXX. Cocriando, né, esses links, essa irmandade garante a cura, a gente trabalha firme nas cerimônias já, abrindo através de medicina na floresta e, claro, né, o cacau. Eu quero entender tua agenda, teus valores, pra que a gente possa abrir em grande estilo aqui no Sul da ilha uma cerimônia de cacau, mas com baita de uma frequência do eletrônico. Desde já compartilho contigo a frequência que eu trabalho: meu movimento é jornada da cura, [ininteligível] nas práticas divinas de cura, e eu cocrio através da shakti, kundalini, ioga, onde eu conduzo, através de pranayamas ritualísticas e imersões e, claro, movimento, dança, cura. Então é isso, homem, me fala tua agenda, teus valores e vamos cocriar. Quero abrir a agenda contigo no XXXXXXX, aqui no Sul. Se tu tiver dentro da minha... do meu movimento, eu vou compartilhar contigo a pegada que a gente trabalha e é algo meu e teu, teu e meu. E aí eu trabalho uma convidada ou não, mas é um movimento mais que eu quero tá em comunhão com a galera do som, do eletrônico, e casar, entendeu, com a tua frequência. Quando eu falo em casar, eu falo em intimidade com a tua musicalidade pra que a gente possa fluir, até porque terão comandos de voz, né, uma aula de ioga mesmo, mas dentro do flow.
É para saborear esse tipo de áudio feminino que ainda estou em certos grupos.

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Falso, oito letras, a segunda é M é e a sexta é T.

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O Advogado tem uma casa na praia. Na praia mesmo, não em uma rua na frente da praia: apenas uma cerca de arame com um portão separa o quintal da areia. Dos dois lados, mato. Zero vizinhos. Um terreno em que nem com muito dinheiro é possível construir legalmente hoje. O imóvel era de um cliente – e eu tive a elegância de não perguntar como foi parar em suas mãos.

Comemorou o aniversário lá. Sol lindo, lua deslumbrante. Ao anoitecer, ele chegou para mim e, com a percepção aguçada de quem estava desde meio-dia na função, falou sobre seus planos. Contou que pretende se mudar de vez do Centro para a beira do mar, trabalhar mais um pouco em home office e parar. “É muita perda de tempo”, concluiu.

Concordei plenamente. A vontade era de me internar naquele lugar para escrever O Romance da Minha Geração. Com tanta coisa melhor para fazer, o Advogado riu e garantiu que eu não escreveria uma linha. Foi então que descobri sua idade. Três anos a menos que eu.

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Buraco, vala, cinco letras, começa com F: fosso. O último O preenche o quadrado depois do T.

Desisto.

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Terceira vez que falo de grupos de zap para dizer que estou falando muito de grupos de zap. Sinal de que preciso socializar mais.

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Resposta: impostor.

O aplicativo de palavras cruzadas do celular é uma ótima distração. Principalmente para procurar algum significado onde não existe nada.

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20230508

Foco no que interessa



Mandei a uma amiga a imagem acima (inteira), extraída de um telejornal local veiculado no dia 30 de março, ansioso para ver com o que ela ficaria mais escandalizada: com “o bom filho” ou com “apesar de todas as adversidades”.

Nenhum dos dois. A moça nem ligou para a citação bíblica e o eufemismo escolhidos com capricho pelo editor para homenagear a figura ilustre que voltava ao Brasil naquela quinta. Primeiro, perguntou quem era o apresentador. Ao receber minha resposta, comentou: “Nossa, nem reconheci, de tanto botox”.

Estou sempre aprendendo com ela.

20230403

Uma outra Florianópolis é possível



Ainda bem que abortei a edição da terça anterior para esperar por Gilberto Gil. Porque estava saindo um texto amargo, o avesso do que se propunha a ser uma celebração à capital catarinense na semana de seu aniversário. Apesar de comemorar 350 anos com uma cabecinha de 349, a cidade é muito mais do que as gentes estúpidas & hipócritas e as pessoas nefastas que a comandam. O show dele no domingo reforçou a sensação de que uma outra Florianópolis – inclusiva, colorida, engajada, poética, alegre – é possível.

Eu já tinha percebido uma vibe parecida na tarde de sábado com Brisa Flow. Ela, Gil e mais um monte de atrações faziam parte da programação da Maratona Cultural, quatro dias em que a cidade é inundada por arte e cultura, a maioria gratuitamente. Embora não seja o público-alvo da rapper mineira de origem indígena e nem conhecesse direito sua obra, me senti em casa: cheguei já na brisa e curto o flow desde antes de ser modinha. Aí foi fácil me integrar à plateia na escadaria do Rosário de tantas lembranças.

Acompanhada apenas por um notebook e um mixer que ela mesma pilotava, a moça rimou como se fosse uma popstar. Eu devia ser um dos únicos que não sabia cantar nada, anotando pedaços de letras para pesquisar o nome das músicas. Assim, descobri “Sonhos com Serpentes”, “Jogadora Rara”, “Cerquita”, “Fique Viva” e “Noites de Amor e Guerra”. Em alguma delas, ao citar mulheres, negras e originárias, um magrão ao meu lado, mais pálido que eu, surtou e começou a gritar “é tudo nosso”. Eu ri. A turma em volta tolerou.

No dia seguinte, Gil fecharia o evento a partir das 19 horas. De graça. Ao ar livre. Imagine a multidão: tinha o triplo. A fila para se aproximar do palco armado na Paulo Fontes, defronte ao antigo terminal de ônibus, dobrava a Praça XV. Mas não deu nem tempo de bufar, em menos de 20 minutos eu e minha garota estávamos no local. Quer dizer, no Miramar, a uns 300 metros da estrutura, o máximo que nos embrenhamos sem precisar roçar em outros corpos suados e poder tomar um chopinho na paz.

Foi lindo. Digo isso com a autoridade de quem não o viu direito e mal e porcamente conseguiu ouvi-lo por estar muito longe. Havia todo um clima porque na semana que antecedeu o show a Câmara local negara o título de cidadão honorário a Gil. A rejeição transformou o que seria uma homenagem protocolar – positiva para os doutos vereadores, insignificante para o artista – em notícia nacional. Em protesto, até um “baseadaço” entre a terceira e a quinta música foi programado pelo WhatsApp.

E Gil simplesmente (perdão pelo meu português castiço) cagou para tudo isso. Montou um repertório à base de reggae (“A Novidade”, “Não Chore Mais”, “Vamos Fugir”, “Esotérico”), forró (“O Xote das Meninas”, “Só Quero um Xodó”, “Esperando na Janela”) e hits mais manhosos (“Drão”, “Palco”, “Andar com Fé”, “Nos Barracos da Cidade”) e correu para aquele abraço. Para onde olhávamos, tinha gente de tudo quanto é cor, idade, classe social, gênero e, tomara, ideologia se divertindo.

Na saideira, “Toda Menina Baiana”, aproveitamos para escapar para o Bugio. Após uma breve escala em meio à juventude alheia à segunda-feira, esticamos o que restava do nosso vale-night em casa, desfrutando o que deus deu, o que deus dá.

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