20260204

Escrever para esquecer, ler para lembrar



Entre o que se produz para sobreviver e o que ainda sustenta

Escrevo coisas que jamais gostaria de ler.

Jamais gostaria de ler o que escrevo para pagar as contas. Não que sejam textos ruins. São só textos treinados para desempenhar função. Atendem ao que foi pedido, respeitam o prazo, o tom e o limite de quem contrata. Entregam. E, justamente por entregarem, dispensam envolvimento.

O tipo de redação que não deixa vestígios porque não precisa deixar. Existe para resolver uma demanda externa e desaparecer quando ela acaba. Já nasce com data de descarte. Exige apenas atenção suficiente para que seja consumida e deixada para trás.

Leio coisas que adoraria ter escrito.

Adoraria ter escrito o que leio sem serventia definida nem expectativa de retorno. Nunca em busca de alguma lição ou compensação prática. Às vezes porque a forma me segura mesmo quando o argumento não me convence. Sempre por prazer. Nada disso vira finalidade.

O tipo de leitura que não se justifica porque não precisa se justificar. Sua garantia de impacto é zero. Não promete, o que não quer dizer que não cumpra. Permanece – uma permanência que não pode ser medida.

O problema é que jogo nas duas posições. Parte do tempo escrevo o que não interessa a ninguém que goste de ler. Outra parte leio para não me esquecer por que escrever ainda importa.

***

Há algo de profundamente desnecessário em ficar ruminando essa polarizassaum. Fazer disso um dorama existencial enquanto o dia acontece do lado de fora. Escrever, ler, escrever para se realizar, ler… ler para quê, mesmo?

Verão fervendo, o sol estoura na janela, gente ri alto na rua – e eu aqui, organizando frases sobre uma bobagem.

Essa necessidade meio boçal de transformar tudo em identidade, em marcador de cultura. Masturbação conceitual em torno de uma arte que reconhecia poucos com muito convertida em um ofício que explora muitos com pouco.

Nenhum texto vence um domingo de praia, nenhum parágrafo supera a troca de afeto, nenhuma leitura vale mais do que acordar com você.

Talvez escrever importe menos do que eu acredite. Talvez ler não salve nada. Talvez tudo isso seja só uma forma elegante de perder tempo até a IA dominar. A vida não está nem no que escrevo, nem no que leio. Está no que acontece entre uma coisa e outra.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

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