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20220920

Lista negra



A bibliografia sobre o movimento black brasileiro ainda é pequena, mas está crescendo. O mais novo integrante dessa turma da pesada é Dançando na Mira da Ditadura, disponível para download gratuito & legal. O livro do historiador Lucas Pedretti mostra – com documentos – a perseguição do aparelho repressivo do governo militar aos bailões no Rio de Janeiro nos anos 1970. Para os agentes do funesto Departamento de Ordem Política e Social (Dops), a cor da pele e o jeito que os frequentadores se divertiam era um sinal inequívoco de subversão. Naquele tempo, a alegria de viver já era ofensiva para esse pessoal ressentido.

***

(Em 2017, outra obra similar me fez escrever o seguinte para o Diário Catarinense:)

Bem-vindo ao Brasil da década de 1970. Um país onde reina a igualdade, desde que sua pele seja da cor adequada. Impera a liberdade, desde que não ameace a soberania nacional. Abunda a fraternidade, desde que você saiba o seu lugar. Foi nesse contexto de instituições em pleno funcionamento que dos subúrbios cariocas emergiu uma cultura musical para dar voz, visibilidade e afirmação à juventude negra. A história é recuperada agora com passos coreografados, gírias e muito ritmo pelo livro 1976 – Movimento Black Rio, de Luiz Felipe de Lima Peixoto e Zé Octávio Sebadelhe.

Em 17 de julho daquele ano, uma reportagem assinada por Lena Frias no Jornal do Brasil descreveu a onda que bombava em mais de 300 bailes periferia adentro. Sem querer, o título da matéria acabou batizando o fenômeno, que já existia havia pelo menos cinco anos e até então não tinha nome nem se organizava como movimento: “Black Rio, o orgulho (importado) de ser negro no Brasil”. Em quatro páginas, a zona sul era apresentada a equipes de som e discotecários despejando funk e soul americanos para pistas lotadas por uma moçada guerreira e esperta.

Furacão 2000, Black Power e Cash Box disputavam o posto de donas da parafernália sonora mais potente. Mister Funky Santos, Ademir Lemos e Big Boy competiam para ver quem rolava os maiores sucessos do momento nas carrapetas. Gerson King Combo, Carlos Dafé e Banda Black Rio pediam passagem com trabalhos autorais. E, acima de tudo e de todos, pairava Tim Maia, representante-mor do groove gringo adaptado para a realidade local. De repente, a MPB descobria que “negro é lindo” e absorvia as influências. O cidadão de bem ligava a televisão e se deparava com um balanço diferente na trilha da novela.

Em uma época de ânimos acirrados e polaridade latente, a exposição dos brothers na mídia incomodava geral. A direita temia pela radicalização da luta contra o racismo. A esquerda reagia contra o que considerava um desprezo ao samba como legítima música dos despossuídos. O futuro próximo desmoralizaria ambos os lados. O movimento não morreria; iria se dispersar por diversos estilos. Um deles seria o funk carioca que pariu Anitta, hoje invadindo as paradas dos Estados Unidos. Não deixa de ser uma justiça poética para um movimento acusado de somente copiar o que vinha de fora.

20220720

Homenagem ao rock



(A coluna abaixo foi publicada na edição de 12 de julho de 2016 no Diário Catarinense. Seis anos depois, é difícil dizer se a situação melhorou ou piorou. Na real, ninguém se importa nem se mudou. Da indiferença nasce um nicho.)

Leia aqui.

(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)

20220222

Descarte consciente



(Rumores, mercado e muito pensamento mágico apontam um revival do CD. Depois da volta da pochete, não duvido de mais nada. Vou adorar se rolar, até porque nunca caí nesse fetiche do vinil. Não ouço música em suportes feitos de combustíveis fósseis ou, como diz um amigo, não tenho dinheiro para investir em petróleo. Aproveito o gancho para relembrar o revolucionário método que criei para reduzir minha gigantesca coleção dessa mídia tão castigada, que arrisca finalmente ter o seu valor reconhecido.)

As instituições continuam funcionando. Isso significa que você pode se preocupar com coisas que realmente importam – como a sua coleção de CDs, cada vez mais obsoleta. O já consagrado “advento da internet” fez com que as pessoas trocassem a mídia física por arquivos e, na sequência, pelo streaming. Aquele montaréu de bolachinhas plásticas virou um entulho desnecessário, que só denuncia a idade de seu proprietário. Por mais que tenha sido conquistado com tanto esforço, cuidado com tanto carinho e exibido com tanto orgulho, é chegada a hora do desapego.

Mas como selecionar o que fica e o que vai embora?

O revolucionário Método Psicoafetivo de Pontuação de Discos® estabelece critérios simples e objetivos para separar as obras que você deve manter das que devem ser dispensadas. Primeiro, defina quantos discos pretende descartar. Em seguida, submeta seu acervo às condições abaixo:

– Se é um clássico: +10 pontos
– Se você tem o disco há mais de dois anos e nunca o ouviu: -10
– Se você nunca ouviu o disco inteiro: -5
– Se você já ouviu o disco inteiro mais de uma vez: +1
– Se você já ouviu o disco inteiro mais de 10 vezes: +10
– Se tem dedicatória: +2
– Se é autografado: +2
– Se o autor tornou-se mais conhecido depois de morto: -5
– Se o autor voltou à ativa depois de ter encerrado a carreira: -10
– Se você já tiver outro disco do autor: +1
– Se você já tiver mais de dois discos do autor: +3
– Se você conhece o autor pessoalmente e gosta dele: +5
– Se você conhece o autor pessoalmente e não gosta dele: -20
– Se você não só conhece o autor, como ele é seu amigo e visita sua casa com frequência: +20
– Se depois de ouvi-lo você comprou outro exemplar para dar de presente: +3
– Se ganhou de presente: +2
– Se ganhou de um ex que deixou boas lembranças: +5
– Se ganhou de um ex que deixou más lembranças: o que você ainda está fazendo com essa poha de disco em casa?
– Se emprestou o disco, não devolveram e você comprou outro: +10
– Se emprestou de novo, não devolveram de novo e você comprou outro de novo: -5

Agora basta somar. Os CDs com menor pontuação serão descartados, até atingir a quantidade que você estipulou para se livrar, deixando assim espaço de sobra para o acúmulo de novas tralhas. Dica: todos os discos que tiverem pontuação negativa não merecem um lugar na sua prateleira nem no seu coração. O método vale também para MP3s e livros.

(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)

20220208

PLAYLIST | give me things that don’t get lost

De um lado, uma empresa que torrou milhões de dólares com uma das vozes do negacionismo. Do outro, o artista do qual mais tenho discos (mais do que do Bob Marley!) e que desde muito antes de existir a palavra “lacração” admiro também como pessoa. Nessa treta entre o Spotify e Neil Young, não preciso de muito mais informação que isso para saber qual é a minha turma. Por isso, foi indolor deixar de usar os serviços da ex-plataforma de música.

Não cancelei minha conta porque estou pendurado no plano familiar de minha amada irmã. Mas não seria honesto comigo mesmo nem com quem divido estas mal-tecladas se continuasse fazendo playlists lá. É pouco? Pouquíssimo. É o que posso. Ainda acesso o aplicativo enquanto defino que substituto ganhará meus trocados. Por enquanto, vou de YouTube gratuito mesmo, sob protestos por não permitir que eu bote uma capinha personalizada.



(O único show de Neil Young que vi foi no terceiro Rock in Rio, em 2001, que cobri para a descontinuada revista Bizz. De lá para cá, não perco uma oportunidade de relembrar aquela noite mágica. Abaixo, um remix do que já publiquei por aí:)

Eu vi as cabeças mais feitas da minha geração possuídas pela devoção e pela loucura, fanáticos histéricos com camisetas de bandas, errando na madrugada por Jacarepaguá atrás de uma ponta caída onde antes havia grama, elementais urbanos debatendo-se em comunhão orgânica e ideológica com aquele senhor em cima do palco, que esperança e sangue e guitarras potentes e sentimentais despejou sobre o público na noite de 20 de janeiro de 2001.

Havia chegado à Copacabana na sexta anterior e, desde então, minha rotina consistia em acordar no quarto do três estrelas, entrevistar algum artista em algum hotel luxuoso, ir para o Rock in Rio do outro lado da cidade e, na volta, fechar bem as cortinas para o sol não entrar. Mesmo no intervalo de segunda, terça e quarta-feira, dedicado à redação das reportagens, a função começava às 10h da manhã e acabava lá pelas 7h de amanhã.

Naquele sábado, apesar das poucas horas de sono, da alimentação desregrada, do calor e da vida loka, não teve cansaço capaz de distorcer o que foi o show de Neil Young. Não para qualquer um: um dos fotógrafos da equipe (hoje um renomado videasta e ativista pró-maconha), com a afoiteza de sua juventude, retirou-se da frente do palco para a refrigerada sala de imprensa alegando que estava achando tudo “western demais”.

Mais tarde, em seu apartamento em Botafogo que servia de sucursal informal da revista, ele soube que perdera um momento único – também por razões que a gente ainda não sabia. Protegidos por São Clemente lá embaixo e pelo Cristo lá em cima, colecionamos histórias sensacionais sendo pagos para fazer o que a sociedade chama de trabalho. Quatro meses depois, estava tudo acabado: a revista Bizz seria extinta. Restou a matéria como registro da nossa inocência.

***
Nada do que se escrever aqui vai sequer chegar perto de traduzir o que foi o show de Neil Young. Pode-se descrever a ordem em que as músicas foram tocadas, a roupa dos músicos, a reação da plateia – que já era a menor do festival (125 mil pessoas) e diminuiu consideravelmente antes de começar sua aula. Mas conseguir, em palavras, expressar as sensações despertadas pela lancinante música do canadense é trabalho para um Nelson Rodrigues, não para repórteres ordinários feito a gente.

Em pouco menos de duas horas, o rock – aquele negócio que um dia traduziu os anseios da juventude, deflagrou mudanças de comportamento, contrariou a caretice – voltou a fazer sentido. Quando Young deixou o palco, às 3h30 da manhã, ser roqueiro não era mais sinônimo de ingênuo ou anacrônico. Porque o tempo nunca vai passar para ele.

Cenários grandiosos, efeitos pirotécnicos, figurinos da moda, exibições artificias de simpatia, naipe de metais, DJs, todas essas muletas do show business são dispensáveis para o gigante. No máximo, duas backing vocais em algumas canções. De calça jeans, camiseta e chapéu de caubói, ele se pôs calmamente a mostrar que, por mais que a oposição apregoe, “rock’n’roll can’t never die”.

Acompanhado pela banda Crazy Horse – a mesma de seus melhores discos, com o guitarrista Frank Sampedro, o baixista Billy Talbot e o baterista Ralph Molina – e por sua Gibson Les Paul, Young ensinou como é que se faz. Sem a impaciência dos veteranos nem a pachorra das grandes estrelas, embora tenha rodagem e prestígio suficientes para ignorar quem ignora sua música.

Da abertura, “Sedan Delivery”, ao encerramento com “Welfare Mothers”, passando por “Hey, Hey, My, My”, “Like a Hurricane” e “Rockin’ in the Free World”, o artista encantou os fiéis com inúmeros finais falsos, explosões de energia, passos desengonçados. Depois de cinco dias à base de britneys, axls, taylors, browns e quejandos, eu pude finalmente bater no peito – como Young se despedindo do público, sem falar nada – com a certeza de que o Rock in Rio seria inesquecível.

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20211227

A hora tão esperada por ninguém

Leitora do Extrato não fica sem presente!

(Desencavei umas tentativas de contos de Natal que fiz para aquela coluna lembrada aqui. Tive que dar umas mexidas por questões de estilo e/ou referências datadas demais, mas juro que não precisei revisar nada escrito há 20 anos por soar machista, misógino, racista ou homofóbico pelos ditames atuais. Uma pequena alegria para o autor, uma grande conquista para o legado. Os textos a seguir foram publicados em 2001, 2002 e 2004.)

O que vale é o gesto.



O Natal está em todos os lugares

Aquele réveillon prometia. Com mais dois casais, Dilamor e Gina alugaram uma escuna que os levaria de Natal até Fernando de Noronha, onde saudariam o ano vindouro de um jeito doce na Cacimba do Padre. A embarcação deixou a capital do Rio Grande do Norte em 22 de dezembro. Dois dias depois, só os homens estavam curtindo a viagem. As mulheres, enfastiadas, limitavam-se a suspirar e a amaldiçoar o mar.

A noite de lua cheia se insinuava no horizonte quando uma pequena faixa de terra quebrou a monotonia visual. “Aquilo é o Atol das Rocas, a primeira reserva biológica do Brasil, criada em 1979. É formado por uma coroa de coral sobre um pilar vulcânico, em cujo centro está uma lagoa de água salgada. A sede da reserva é utilizada por pesquisadores de peixes e aves”, apontou o capitão do barco, um holandês com a pele rosa, esturricada pelo sol inclemente do litoral potiguar.

“Vamos passar o Natal lá!”, decretou Dilamor, que, embora não reclamasse, também já estava de saco cheio do oceano. Enfiou uma garrafa de uísque e cerca de 70 gramas de maconha em um saco plástico, amarrou a ponta e se atirou na água. A uns 100 metros de distância, ele conseguiu distinguir a silhueta de uma casinha e de três pessoas agitando os braços.

Estimulado pelo que julgava ser uma comemoração pela sua visita, Dilamor apertava os dentes em torno da ponta do saco e aumentava o ritmo das braçadas. Finalmente, chegou à terra, tomando cuidado para que o costão bravio não avariasse as surpresinhas que levava. Mas ele que ficou surpreso com a recepção do trio.

“Não pode entrar aqui, é área militar”, disse-lhe o primeiro, mal terminando a frase para agarrar a garrafa que Dilamor tirou do saco e jogou em sua direção.

“Somos biólogos, estamos de plantão”, explicou o segundo, a quem foi arremessado um torrão escuro e cheiroso do tamanho de um celular.

“Papai Noel!”, abriu os braços o terceiro.

E, naquele instante, Dilamor compreendeu que o espírito de Natal é algo muito poderoso, capaz de suplantar até os mais profundos ressentimentos de quem não ganhou nenhum presente da gente.



Cada um faz o bem como bem entende

Sedentário, relapso e cafajeste, Guido Copertone viu na eleição do pai como deputado a chance de descolar uma boquinha no serviço público. O velho ficou no dilema. Descendente direto dos italianos que desbravaram o Sul do Brasil, uma gente honesta e trabalhadora, que ria das adversidades e acostumada a dizer “obrigado” em vez de “quanto custa?”, não iria permitir que o filho único jogasse sua biografia na lama.

Ao mesmo tempo, movia montanhas se necessário para atender às vontades do herdeiro de 23 anos. Limpou sua consciência arrumando-lhe uma vaga como cozinheiro-chefe da tenebrosa penitenciária conhecida como Cadeião da Boa Morte. Se o jovem sobrevivesse na função, provaria ter a fibra dos antepassados. E aí poderia ser promovido a estafeta em uma repartição qualquer, sem nenhum ônus para a reputação familiar.

E lá se foi Copertone, 1,55 de altura, ser chamado de “mestre” pelos presidiários já domesticados, isto é, que reuniam condições de civilidade suficientes para coexistir entre facas e óleo quente sem pensar besteira. “Trate-os como animais”, ouviu do pai antes de ser abandonado no portão do Cadeião. O conselho foi posto em prática logo no primeiro dia.

Um loiro magro e espichado deixou cair no chão metade do tomate que já tinha picado. “Se liga, polaco! Na próxima, é a casa que vai cair aqui!”, gritou Copertone, do outro lado da cozinha, para que todo mundo ouvisse. O desastrado, condenado por matar com 115 punhaladas o ex-patrão, abaixou a cabeça sem olhar para o cutelo que manejava e murmurou “sim senhor, mestre”. O baixinho se sentiu em casa.

A jornada na cozinha do presídio começava às quatro da tarde e durava 24 horas, com folga nos dois dias seguintes. Nesse esquema de três turmas se revezando, Copertone entrou na escala de 24 de dezembro. Chegou mal-humorado, mais porque iria dormir sem TV a cabo do que por virar o Natal naquele muquifo.

Às duas da manhã, com todos dormindo no cubículo anexo aos fogões, ele se levantou, decidido. Ligou para o amigo Cabelo e implorou por vodka. Em menos de meia hora, o chapa conseguiu atravessar três garrafas. Em silêncio, Copertone tomou uma dose. Duas. Na terceira, acordou a rapaziada dizendo que era o Papai Noel. Mandou os detentos fazerem fila, que iria distribuir o mel.

Dezesseis homens, um atrás do outro, pacientemente esperavam pelo seu quinhão, a tampinha da garrafa com um gole de bebida. Ao amanhecer, eles riam e choravam e abraçavam Copertone, soluçando que aquele fora o melhor Natal que passaram no Cadeião. Um deles, emocionado, desmanchou-se em gratidão. “Para proteger o senhor, mestre”, garantiu, oferecendo-lhe um pingente de São Dimas.

O tempo passou e Copertone encontrou sua vocação, tornando-se policial. Certa noite, atendeu uma ocorrência de furto na casa um empresário graúdo. Segurando o ladrão pelo cangote, reconheceu-o. Lembrou-se da cozinha do Cadeião, da cumplicidade alcoólica, da medalhinha. Deu apenas um tiro no joelho direito dele. Com o butim, chamou Cabelo e enfiaram o pé na jaca.



Natal reserva o papel que cada um faz por merecer

A escolha de Idiomar foi praticamente por aclamação. Afinal, entre os homens da família, era o único com condições para encarar tamanha responsabilidade sem frustrar as expectativas da parentada. O sogro não tinha mais estrutura mental para suportar o desafio. O cunhado desmoralizou-se na última vez em que desempenhou a função. Sobrou ele para atuar como Papai Noel na comemoração da noite de 24 de dezembro.

O figurino ficou a cargo da mulher, Dioneia. Achou o tradicional uniforme vermelho e branco no camelódromo por R$ 19,90, incluídos o cinto preto e a barba postiça. O preço baixo embutia um senão: o traje, de feltro vagabundo, era quente como o inferno. Idiomar experimentou a peça, notou que o manequim tinha uma bunda enorme e, já suando, pensou na felicidade da filha de três anos ao receber o triciclo tão desejado diretamente das mãos do bom velhinho.

A pantomima envolvia toda uma logística. Idiomar começaria a ceia à paisana, representando os papéis de marido, pai e genro. Em determinado momento, ele alegaria ter que sair para comprar qualquer coisa – “um elmo”, cogitou – e sumiria, reaparecendo fantasiado e com a indefectível risada. O que o deixava ressabiado era o sobrinho e afilhado Maiolo. O peste de oito anos não iria cair na lorota e, com certeza, faria de tudo para sabotar o plano.

Chegou a noite derradeira e tudo ia correndo surpreendentemente bem. A caçula, Jaqueline, ficou maravilhada ao descobrir que a cartinha que mandara três meses antes com o seu pedido funcionara. A sobrinha Aline, de quatro anos, não se importou com mais nada depois que ganhou sua casinha de boneca. Maiolo, que ameaçou desmascará-lo ao puxar sua barba, foi domado com beliscões dados na surdina e um jogo do Ben 10.

Os adultos só não planejaram a retirada do Papai Noel. É claro que Maiolo quis acompanhá-lo até o portão do quintal. Sem alternativa, Idiomar acabou no meio da rua. A ideia dele era esperar a poeira baixar, tirar aquela roupa insuportável e voltar dizendo que não achara o elmo que procurava. Mas outras famílias o viram caracterizado e o chamaram para encantar também os seus natais.

Idiomar passou a noite toda levando alegria e bem-aventurança de casa em casa. Quando terminou, o dia raiava. Ao entrar no seu quarto, por pouco não foi atingido por um vidro de perfume. “Canalha, nem no Natal abandona a farra!, berrava a mulher. “Deixa de noia, Neia!”, argumentou – e caiu na cama, exausto. No dia 26, ela saiu depois do almoço para trocar o liquidificador novo da mãe por uma cor que combinasse melhor com a geladeira e voltou no final de tarde com o cabelo molhado.

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20211027

Aliás e a propósito

(Em 1999, quando a internet ainda era movida a modens, tive o privilégio de criar um site com os queridos Camilo Rocha, já um nome consagrado da imprensa musical, e o então imberbe André Valente, que se tornaria um talentoso quadrinista e ilustrador. Era o The Bambas, que durante o pouco tempo hospedado no jurássico Geocities saiu até na Folha de S. Paulo. A responsável pela proeza foi uma nota intitulada “O caô do Caê”, reproduzida abaixo.)

Desde o início de sua carreira, Caetano Veloso tem servido como aglutinador de artistas e personalidades públicas. Uns dizem que é seu espírito generoso, outros que é apenas uma forma de cooptar forças que possam gerar antagonismo ao que ele instituiu nos anos 1960. Curiosamente, todos os artistas de sucesso que se envolveram com o autor de “Alegria, Alegria” tiveram um destino conturbado. Nem seus colegas tropicalistas escaparam, mas estes só sofreram a maldição após a volta de Veloso de seu período de exílio – caso do poeta paiuense Torquato Neto, que se suicidou (e ficou fora da lista por não ser músico). Mais curioso ainda é que nenhum baiano foi atingido pelo sortilégio:

ARACY DE ALMEIDA
Contribuição histórica: Cantora símbolo da era do rádio no Brasil, era a intérprete favorita de Noel Rosa
Conexão com Caetano: Gravou o samba dele “A Voz do Morto” em 1968 e se declarou sua fã
O que aconteceu: Amargou anos de ostracismo e terminou como jurada do Show de Calouros de Sílvio Santos

BARÃO VERMELHO
Contribuição histórica: Protagonistas da primeira onda do rock nacional nos anos 1980
Conexão com Caetano: Ele os elogiava constantemente e incluiu a música “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, da banda, em seus shows
O que aconteceu: Cazuza deixou o grupo em 1986 e a banda só voltou a vender bem em 1996, após a morte do vocalista original

JARDS MACALÉ
Contribuição histórica: Um dos mais inventivos participantes do tropicalismo, autor da cult “Gothan City”, apresentada no IV Festival Internacioanl da Canção em 1969
Conexão com Caetano: Hospedou o cantor em sua casa em 1964, produziu o LP Transa e fez vários arranjos para ele, Gal e Bethânia
O que aconteceu: Foi dispensado da gravadora em 1974 e pegou a fama de maldito

JOHN LENNON
Contribuição histórica: É pai de Sean Lennon, amigo dos Beastie Boys
Conexão com Caetano: O baiano gravou “Help!”, de autoria do beatle, no LP Qualquer Coisa, de 1977
O que aconteceu: Foi assassinato a tiros três anos depois, na porta do prédio onde morava em Nova York

MUTANTES
Contribuição histórica: Responsáveis pela parcela pop-rock do movimento tropicalista
Conexão com Caetano: Gravaram vários singles e LPs com o cantor e o acompanharam em shows e festivais
O que aconteceu: O trio original se desintegrou em 1973; Arnaldo Baptista despirocou, Rita Lee ficou infeliz e Sérgio Dias virou guitarrista de rock progressivo

ODAIR JOSÉ
Contribuição histórica: Primeiro ídolo brega nacional, “terror das empregadas” e autor de hits como “A Pílula”
Envolvimento com Caetano: Foi chamado por ele para tocar o clássico “Vou Tirar Você Desse Lugar” no festival Phono 73
O que aconteceu: Foi vaiado pelo público “cabeça”; tentou gravar um disco conceitual influenciado por The Who e Peter Frampton e nunca mais fez sucesso

RITCHIE
Contribuição histórica: Autor do maior hit de 1982, “Menina Veneno”, cujas vendas provocaram ciúme até em Roberto Carlos
Envolvimento com Caetano: Gravou “Shi-Moon”, um tecnopop, com ele
O que aconteceu: Viu seu sucesso ir embora e hoje vive de fazer diagramação para home pages

RPM
Contribuição histórica: Fenômeno do circuito das danceterias e ídolos de meninas pré-púberes na década de 1980
Envolvimento com Caetano: O cantor elogiou os ombros de Paulo Ricardo e reclinou sobre eles enquanto cantava “London London” no programa Chico & Caetano
O que aconteceu: O RPM acabou, voltou e não deu certo, acabou de novo, voltou de novo e não deu certo de novo; Paulo Ricardo, coitado, virou um errante

SEPULTURA
Contribuição histórica: Grupo brasileiro com maior repercussão internacional em todos os tempos
Envolvimento com Caetano: Subiu ao palco com ele e Carlinhos Brown na Bahia, em 1996
O que aconteceu: No ano seguinte, Max brigou e saiu da banda, antecedendo meses de baixaria nos jornais

TANTRA
Contribuição histórica: Grupo de apoio da Legião Urbana em turnês monstruosas, assinou contrato para seu primeiro disco com a gigante Universal Music
Envolvimento com Caetano: O baiano participou do clipe da cover que eles fizeram para “Tropicália”
O que aconteceu: A banda foi dispensada da gravadora e sumiu do mapa

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20190214

Motorista passageiro



Virar motorista de Uber durante a semana da chegada do serviço a Florianópolis e escrever em primeira pessoa sobre a experiência foi uma das ideias mais simples e eficazes que já tive para uma reportagem. Eu ganharia uma bela história para contar e, quem sabe, uma nova carreira. Acontecesse o que acontecesse, o jornal pagava a conta. O carro era meu, mas o lucro – e a diversão – também seriam. A única preocupação, ser BANIDO do negócio após a publicação da matéria, mostrou-se um exagero. Três meses depois, um fotógrafo da redação precisou ir a Canasvieiras e não havia nenhum carro para levá-lo. “Chama um Uber”, ordenaram. Encerrei aquela corrida e nunca mais liguei o aplicativo. Não descarto voltar.

Caderno Nós #53, 29 e 30 de outubro de 2016 | 3663 palavras | 28 minutos

Poucas notícias despertaram tantas reações em Florianópolis quanto o anúncio, no início de setembro, de que a Uber em breve começaria a operar na capital catarinense. Todas as partes envolvidas com o serviço de transporte alternativo aberto para qualquer um se tornar motorista e sair por aí levando passageiros para cima e para baixo tinham alguma opinião. Taxistas vociferavam. Autoridades diziam que era irregular. O cidadão comum, quase que de forma unânime, saudava a chegada da empresa que, com tarifas mais baixas que táxi, já atuava em mais de 500 cidades no mundo inteiro.

Fiz a inscrição para saber como o negócio funcionava. No dia 12, 41 interessados e eu nos reunimos em uma sala da Acate, na SC-401, para uma aula de 40 minutos. Dois funcionários da empresa explicavam o que era preciso para virar um parceiro e começar a ganhar dinheiro: um carro de 2008 em diante, com quatro portas e ar condicionado, licenciamento do veículo e carteira de habilitação na categoria EAR (“exerce atividade remunerada”, emitida pelo Detran por R$ 134). Providenciei a papelada e esperei pela aprovação de meu cadastro.

No dia 19, participei de uma sessão de capacitação – a rigor, a exibição de um vídeo curto com pessoas descoladas e felizes dirigindo ou sendo conduzidas, bem diferentes de manés como eu e os 34 presentes. Após baixar o aplicativo no celular, aprendemos seus comandos e tiramos nossas dúvidas. Pode trabalhar no horário e dia que quiser. Parar também. Mas, a partir do momento que se aceita uma corrida, tem que ir buscar o cliente. Seremos avaliados pelos usuários. A média estipulada para Florianópolis foi de 4,7 estrelas, de um máximo de cinco. Após 25 viagens, quem tiver nota abaixo disso vai receber um e-mail com dicas. Mais 25, suspensão por 48 horas. Mais 25, banimento total.

No dia 26, minha conta foi ativada. No dia 28, recebi por SMS um convite para um “evento especial e exclusivo” para parceiros ativos marcado para a noite seguinte em local a ser divulgado. Era na mesma Acate de sempre, só que com mais de 400 pessoas (meus colegas), salgadinhos, refrigerantes, distribuição de um car holder (apetrecho made in China que fixa o celular na grade do ar condicionado do carro) para cada e a orientação de que ficássemos atentos, pois faltava muito pouco para a estreia da Uber em Florianópolis.

O serviço entrou em operação às 14h do dia 30 de setembro, uma sexta-feira. No sábado à tarde, resolvi fazer um teste. Fiquei online nas cercanias do Beiramar Shopping e em menos de 30 segundos já tinha passageiro para eu buscar: os namorados Nelson e Taís [nomes modificados, como todos deste relato], que iam da Trindade a um casamento em Santo Antônio de Lisboa. Na segunda-feira, eu entraria nessa vida para valer.


DIA 1 | Segunda, 3 de outubro – Comigo não tem balinha. Antes mesmo de a) pendurar o celular no car holder presenteado pela Uber, b) engatar o fio do carregador, c) acessar o aplicativo e d) apertar a tecla online, eu já havia decidido que desprezaria no mínimo uma das recomendações para prestar um serviço cinco estrelas. Meu negócio é levar gente para lá e para cá de um jeito rápido, seguro & agradável, cobrando bem menos do que um táxi por isso. Duvido que algum passageiro me avalie mal porque eu não lhe ofereci nada para chupar. Nem beber (segunda recomendação). Muito menos ler (terceira): vai que o freguês é como eu, que fica enjoado se lê com o carro em movimento.

Tenho algo muito melhor do que drops, água mineral ou revistas para transformar cada momento que passaremos juntos em uma experiência inesquecível para você, baby – e não estou me referindo à cultura, beleza, carisma ou modéstia impressionantes com que papai do céu me brindou. Meu diferencial é a sonzeira. Depois do ritual para começar a operar como motorista-parceiro da Uber à vera, espeto um pen drive com mais de 400 horas de música boa de tudo quanto é tipo. Mal conecto o aplicativo, pisca a telinha. Leonardo, Terminal Rita Maria. Deslizo o botão “aceitar viagem”. Só então ligo a ignição e parto de minha base, em Coqueiros, rumo ao Centro.

A chance de topar com uma blitz era grande. Em três dias de funcionamento na cidade, 15 carros haviam sido apreendidos pela guarda municipal por transporte irregular. A fiscalização se intensificava nos horários de pico. Locais como a rodoviária representavam alto risco de ter o carro cercado por taxistas e guinchado. Bom, qualquer treta eu mostro o crachá da firma e torço para que deixem a imprensa trabalhar. A paranoia preventiva se dissipou quando vi um gurizão acenando da extremidade oposta aos pontos de táxi. Na outra mão, segurava um celular. Ia para a Serrinha. Sentou-se ao meu lado e puxou papo.

Era sua primeira vez de Uber. Oficialmente, a minha também. Calouro de Administração na UFSC. Tinha ido votar em Joinville. O pai foi candidato a vereador. Elegeu-se. O assunto terminou antes dos 24 minutos que demoramos para completar os 12 quilômetros do trajeto. O passageiro seguinte chamava-se Victor. Veterinário. Fazia um ano que tinha uma pet shop na Trindade. O papo girou em torno do tema “a crise, é, não está fácil com esta crise”. Tinha pegado um Uber de manhã e aprovado, principalmente (CQD) pelo preço. Queria saber mais, se estavam rolando bastante corridas, se muitos carros estavam sendo recolhidos.

Fui obrigado a lhe confessar que o jornalista ali era eu. Ele perguntou meu nome completo. Falei. Ele fingiu reconhecer e garantiu que lia minhas matérias. Não conseguiu se lembrar de nenhuma até descer em frente a um prédio no Itacorubi. Interpretei seu cinismo como uma cortesia. Na portaria do mesmo prédio, peguei o caladão Anderson e o larguei no Centro. Voltei para a região para atender Mônica na Carvoeira. Com muito custo, me entendi com o mapa do aplicativo e achei a rua dela, uma quebrada sem saída. Parei no endereço solicitado e aguardei. Tentei contato telefônico via Uber, sem sucesso. A cliente cancelou a corrida.

Era o pretexto que eu queria para encerrar o expediente. A ameaça de repressão ainda pairava no ar. E não tinha uma balinha para aliviar a tensão.

Período: 17h20 às 19h11 | Viagens: 3 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 48min45seg | Kms: 24,53 | Féria: R$ 36,53


DIA 2 | Terça, 4 de outubro – Hoje eu vou dirigir de dia. De cara, um cancelamento no Centro. Não tive tempo de me lamentar, Thomas me requisitava das imediações. Acomodou-se no banco de trás. Pô, maior bandeira! Qualquer um que me visse perceberia que eu era motorista da Uber – a não ser que estivesse, sei lá, pagando uma aposta. Mas o cara era alemão. Casualmente e em português com forte sotaque, informou que em sua cidade, Munique, o serviço já está regulamentado. Ficou no Estreito, sem desconfiar do perigo que corremos.

A telinha não parava de piscar. E eu, de cruzar a ponte com Juliana (Shopping Beiramar-Centro) e Marcos (Coqueiros-Centro), em percursos nos quais rodei mais para buscá-los do que os transportando. Gabriela me acionou de um hotel na Avenida Hercílio Luz. Não deu as caras. Liguei para ela do aplicativo. Desta vez, funcionou.

— Sim, eu realmente chamei do hotel. Mas ontem vi um rolo no aeroporto, me contaram que era por causa da Uber. Agora há pouco, a Guarda Municipal passou aqui na frente. Fiquei com medo de dar problema para você, aí resolvi esperar no posto de gasolina do outro lado da rua. Vou aqui na frente, para não suspeitarem — explicou a bióloga da pequena São Manuel (SP) ao entrar no carro para participar de um congresso na UFSC.

Estela, a cliente que atendi no Itacorubi após carregar o quieto Diogo da Trindade à Lagoa da Conceição, teve o mesmo cuidado. Enquanto eu botava suas duas malas no bagageiro, sentou-se à direita do volante e anunciou o temido destino: aeroporto. Disse que viajava muito a trabalho (não o que fazia), usava Uber em outras cidades e sabia que o serviço estava tendo problemas em Florianópolis. Estacionei entre dois táxis no embarque do Hercílio Luz. Imediatamente, outro táxi parou em fila dupla, me trancando. À espreita, viaturas da polícia federal e da PM. Ferrou. Na verdade, pensei em outro verbo com “f”.

Coloquei-a sua bagagem no carrinho e me despedi a uma distância não tão longe que parecesse que tínhamos uma relação motorista-passageiro nem tão perto que sugerisse alguma intimidade. Saí ileso e com R$ 20,69, meu recorde até o momento. Pena que tive que voltar sozinho. Apesar dos insistentes chamados do local, não tive peito para aceitar nenhum. Não naquela vibe ruim. Seria brincar demais com a sorte.

A noite caiu e tirou a turistada da toca. André, baiano de Feira de Santana (Carvoeira-Mercado Público). Lucas, curitibano (Intercity Hotel-Beira-mar Norte). Marcos e Raquel, sul-matogrossenses. O casal embarcou no hotel Majestic ansioso para comer camarão na Lagoa da Conceição. Lá chegando, resolvi dar um tempo para ver se pintava alguma corrida. Uns dez minutos e surge Anja, de um hostel na Barra da Lagoa. Só podia ser uma gringa. Uma não, quatro valquírias alemãs que, em inglês, pediram para que eu as conduzisse até o cinema no Shopping Iguatemi. Foram a viagem inteira conversando na língua-mãe. Na saída, agradeceram com um “thanks”. “Danke”, retribuí, gastando todo o meu conhecimento do idioma germânico para fechar um ciclo que havia começado com um conterrâneo das louras.

Período: 12h02 às 20h52 | Viagens: 11 | Cancelamentos pagos: 2 | Duração: 3h3min14seg | Kms: 94,13 | Féria: R$ 131,66


DIA 3 | Quarta, 5 de outubro – Às 14h18, um dono de táxi no aeroporto comemora em um grupo do WhatsApp do qual faço parte que a PM está na altura do Shopping Iguatemi caçando carros da Uber. Detalhe, ele não sabe que estou nessa. Dou corda. Digo que toda a concorrência é saudável. Ele desdenha. Afirma que em pouco tempo os motoristas vão descobrir que o serviço vale a pena para os clientes e para a empresa, não para os parceiros. Que a Uber pratica dumping, cobra valores abaixo de mercado para quebrar todo mundo e depois impor suas taxas. Que se eu for preso, leva uma gelada para mim. Fico tão comovido com o empenho dele em me desanimar que adio minha jornada.

Eu já estava era de saco cheio com tanta marcação. Tomara que a noite me seja leve. Natália renova minha fé ao me contatar do Shopping Itaguaçu para ir à Agronômica. Dona de loja, senta atrás e diz que a crise está cada vez pior. Roberta e um casal de amigos, todos cariocas, vão do bar ao hotel sem sair do Centro. Claudio e Marco dividem a corrida iniciada na Tenente Silveira. Um descerá na Almirante Lamego, coisa rápida. O outro, só no Bom Abrigo. No caminho, Claudio faz a pergunta que eu estava esperando desde que estreei na função: “Que música boa, o que é?”. Sim, porque o som permaneceu ligado o tempo todo e ninguém havia reparado. Esclareço que é uma faixa do disco novo de Norah Jones, Day Breaks. Ele assente com a cabeça, satisfeito.

Entrego Leo e a namoradinha sãos e salvos na Serraria, em São José, depois de eles assistirem ao filme O Lar das Crianças Peculiares no Shopping Itaguaçu. Maria Julia aproveita que eu circulava pela região e me acompanha do bairro Ipiranga a Campinas. Meia-noite, está bom por hoje. Quase na esquina de casa, em Coqueiros, Marcelo me atenta. Kobrasol, do ladinho. Dou meia volta em busca de mais um trocado. Custo a achar a rua, passo direto uma, duas, três vezes pela quadra certa. É um casal. Simpáticos, aceitam minhas desculpas pela demora – e não hesitam em me sacanear.

Até então, minha avaliação mantinha-se cinco estrelas. Conferi quando cheguei em casa e a média havia caído para 4,91. Os lazarentos fizeram eu me deslocar para uma reles corrida de R$ 4,50 (a tarifa mínima, já descontada os 25% da Uber) e ainda baixaram minha nota. O lado bom foi que, ao fuçar as funcionalidades do aplicativo, descobri que havia dois comentários: “Norah Jones de trilha é sem palavras” e “Excelente pessoa!”. O serviço não revela a data nem o autor, mas um deles não era difícil saber de quem foi. Obrigado, Claudio.

Período: 21h48 à 0h02 | Viagens: 6 | Duração: 1h4min58seg | Kms: 42,26 | Féria: R$ 54,81


DIA 4 | Quinta, 6 de outubro – Quantas vezes idealizei a vida dos motoristas noturnos. Eles deveriam receber propostas irrecusáveis de insaciáveis deusas do prazer. Conhecer malucos de todas as espécies. Participar de aventuras absurdas no submundo. Enfim, lidar com o grotesco e o sublime, a miséria e a nobreza, as dores e as delícias de, como Shakespeare definiu em Macbeth, “uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”. Pois bem: é meia-noite cravada, estou há quase quatro horas na ativa e a coisa mais emocionante que me aconteceu até agora foi o carro ferver em pleno Morro do 25.

O responsável pela minha incursão ao local foi Stephan, um passageiro que encontrei no terminal de ônibus do Centro. Bailarino. Canadense. Três anos de Brasil. Um português melhor do que o meu. Morava lá no alto, em uma das últimas casas, com os pais. Na subida, a luz vermelha do painel do carro se acendeu. Olhei para o indicador de temperatura, no talo. No painel, a mensagem intermitente: “Desligue o motor, desligue o motor”. De jeito nenhum! Disfarcei, deixei o dançarino no seu destino e só parei em um posto de gasolina na Mauro Ramos.

O radiador estava seco. O frentista não detectou se o vazamento era no bocal ou na mangueira do reservatório, mas iria providenciar uma gambiarra que, prometia, permitiria que eu rodasse até em casa. Esperei o carro esfriar, completei a água e me mandei. Ana me aguardava em uma cervejaria.

— Ei, acho que já andei com você — disse o namorado dela ao me ver.

— Diogo, terça, Trindade-Lagoa?

— Isso! Vamos para aquela rua onde você me buscou naquele dia.

A lembrança do seu nome o tornou loquaz. Falou que trabalhava em uma empresa de tecnologia na Lagoa, que ele adorava Uber e que os taxista tinham mais era que se, er, ferrar. Surpreendido com minha memória, eu nem prestava atenção em seu discurso. Assim como não dei muita bola para três moleques e uma guria semi-embriagados que levei à boate 1007. Foi quando Rafael me chamou da Esteves Júnior. Cheguei lá, ninguém. Cancelei a viagem, assinalando a alternativa “cliente não apareceu”. Dez minutos e Rafael apita de novo, agora da pracinha em frente ao supermercado Hippo. Eram três caras.

— Rafael? — perguntei.

— Não, Rafael é nosso amigo que tem conta na Uber. Fizemos o pedido com o cartão dele — respondeu um deles.

— Vamos para a Tapera — completou outro.

Fiquei cabreiraço. E mais ainda quando, já dentro do carro, me perguntaram se o pagamento era efetuado só com cartão de crédito.

— É, não tenho dinheiro nenhum aqui — cortei, denunciando meu nervosismo.

Na alça de acesso ao túnel em direção à Via Expressa Sul, oh, não, os tiras! Quase torci para que fosse uma blitz. Se era, não notaram nada suspeito no meu carro que motivassse uma abordagem. Pelas conversas no caminho, saquei que meus clientes não passavam de honestos trabalhadores. O trio superou a marca de Estela, me rendendo R$ 26,68. Mas os 26 quilômetros sem passageiros da volta acabaram com minha alegria. Contando com a ida, eu havia gasto uns R$ 20 de gasolina. Baita lucro.

Período: 21h42 à 1h48 | Viagens: 8 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 1h35min29seg | Kms: 65,03 | Féria: R$ 86,78


DIA 5 | Sexta, 6 de outubro – As situações peculiares da noite anterior fizeram com que eu encarasse esta tarde, a despeito da certeza de que iria me incomodar com o trânsito do último dia útil da semana. Para encorajar os motoristas, a Uber realiza promoções que garantem no mínimo R$ 25 por hora em períodos de alta demanda. As condições são: ser cadastrado em Florianópolis (OK), inscrever-se para os descontos semanais (beleza), ter avaliação dos usuários superior a 4,8 (é nóis), fazer pelo menos uma viagem por hora (tamo junto), permanecer online por no mínimo cinco horas (depende da disposição) e aceitar pelo menos 70% das viagens.

Nesse último quesito é que eu me estrepo – ironicamente, por zelar pela qualidade do serviço. Pela minha lógica, não devo aceitar uma corrida se estiver no meio de outra. Porque assim vou deixar o próximo passageiro esperando muito, ele ficará descontente e economizará nas estrelas pela minha demora em atendê-lo. Se cancelar por ter cansado de me esperar, pagará a tarifa mínima e amaldiçoará a Uber por ter cobrado por um serviço que não foi prestado. Donde meu índice de viagens aceitas nunca ultrapassou os 60%.

Enquanto perdia tempo e dinheiro com Felipe do Pantanal ao Shopping Iguatemi, por exemplo, dispensei duas chamadas. Com Charles (João Paulo-Córrego Grande), mais três. Com Angela nem lamentei ter ignorado outras duas, tampouco com o fato de pedir que eu a levasse à arriscada rodoviária. Representante comercial de um laboratório farmacêutico e linda, a loura mignon inebriou o carro com seu perfume. Não me aguentei e lhe contei quem eu era e o que fazia ao volante. Achou a pauta sensacional. Interessada, perguntou quando a matéria seria publicada e me autorizou a usar seu nome verdadeiro. O namorado que ela iria visitar em Piçarras era um sujeito de sorte.

O gamer Augusto me trouxe à realidade rapidinho. Além de cabeludo, suado e com o cofrinho à mostra, ia para o Kobrasol. Atravessar a ponte no final de tarde de uma sexta corroborou minhas piores impressões sobre o comportamento do bicho humano no trânsito. Em um congestionamento, as pessoas furam fila, xingam, comportam-se como selvagens. Protegidas pelo anonimato (no caso, proporcionado pela lataria), têm atitudes que não teriam em nenhum outro contexto. Parece que estão na internet, de tão mal-educadas que se tornam.

Não tenho mais saúde, idade ou energia para isso. Já que estou no continente, vou parar por aqui. Opa, dois comentários inéditos: “Muito agradável!” e “Valeu pela ‘carona’, Emerson! :)”. Pensar que um deles pode ter sido de Angela provoca um bem danado em minha autoestima. Como homem é bobo.

Período: 14h18 às 16h30 | Viagens: 5 | Duração: 1h0min13seg | Kms: 38,58 | Féria: R$ 48,35


DIA 6 | Sábado, 7 de outubro – Nos e-mails da Uber enviados aos motoristas informando os dias e horários com maior procura pelo serviço, o espaço destinado aos sábados é sucinto. “O dia inteiro”, sintetiza. Não é exagero. A demanda reflete-se pela frequência. Rarissimamente o parceiro vai ficar circulando a esmo, sem passageiro para transportar. Comprovei isso na prática. Fui emendando uma corrida na outra, e o que é melhor: sempre com a origem seguinte próxima ao destino anterior. Começou com Luiz, no Centro, no início da tarde.

— Vamos para a Lagoa da Conceição, mas antes tenho que passar em um lugar.

Você manda, chefe. O tal lugar era uma pirambeira na Prainha. Ele falou para eu parar e esperá-lo, que já voltava. E desapareceu. Cinco minutos. Dez minutos. Quinze minutos. Esse cara vai me dar o cano, imaginei. Não, senão ele não teria deixado o moletom no banco ao lado. Com 17 minutos, deu sinal de vida.

— Embacei, desculpa.

E mais não disse nem lhe foi perguntado. Voltamos a conversar somente na sua rua, perto da igrejinha da Lagoa. Como quem não quer nada, ele comentou que era complicado achar um Uber pelas redondezas. Propôs que eu lhe desse meu celular, que me ligaria à noite para levar ele e a esposa ao show do Jota Quest no P12, em Jurerê Internacional. Aleguei que a Uber não permitia que o motorista combinasse viagens, sob pena de banimento. Notei que ele ficou um pouco desapontado. Aí me lembrei que eu tinha um exemplar de Pancadélico – CD lançado pela banda mineira em 2015 – que a gravadora me enviara, pois também cometo críticas musicais. Estava abandonado no nicho sobre o quebra-sol, lacradinho e tudo.

— Ó, para sua mulher. O único inconveniente é que a assessoria escreveu meu nome com pincel atômico na capa, tudo bem? — ofereci.

Seu rosto se iluminou por ganhar o mimo. O meu idem, por me livrar do mico. Estando bom para ambas as partes, desejei-lhe um excelente show e fui buscar Karine no centrinho do bairro. Ela me aguardava de mão dada com um baixinho parrudo. Eram cariocas, estavam na cidade para ele disputar um campeonato de jiu-jitsu no Instituto Estadual de Educação (IEE), no Centro.

A fortuna me sorria. Gabriele (Centro-Morro das Pedras), Christian (Campeche-Lagoa da Conceição), Jeferson (Lagoa da Conceição-Trindade), José (Córrego Grande-Floripa Shopping), Henrique (Primavera Garden-Canasvieiras), Tiago (Canasvieiras-Jurerê Internacional), Antonio (Jurerê Internacional-Canasvieiras). Estava escuro quando peguei a SC-401 no sentido Centro para gozar do merecido descanso. Foi, disparado, meu melhor dia.

Cheguei a desligar o som para que o AC/DC não atrapalhasse minhas reflexões no trajeto. Conforme o urubu havia praguejado na quarta-feira, o serviço era bom demais para o usuário e para a própria Uber, não tanto para os parceiros. De acordo com o que a empresa trombeteava nas sessões de capacitação, um motorista em atividade por quatro horas diárias, seis dias por semana, fatura em média R$ 1,8 mil mensais. Proporcionalmente, pelo tempo que trabalhei, renderia algo em torno disso. Só que o tanque bebeu quase a metade.

Concluí que, a título de remuneração complementar, estava razoável. Como em qualquer outra área, para ser bem-sucedido o parceiro deve se profissionalizar. Ou seja, estudar as rotas mais econômicas, operar durante os horários mais lucrativos e, principalmente, converter o carro para gás natural. Se a Uber não me banir por causa desse diário, pretendo continuar nossa parceria em regime diletante: talvez apenas aos sábados, uma outra noite nos dias de semana. É, não foi dessa vez que o jornalismo se livrou de mim.

Período: 15h20 às 21h45 | Viagens: 9 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 3h18min52seg | Kms: 115,04 | Féria: R$ 142,72

TOTAL
Viagens: 42
Viagens avaliadas: 35
Viagens 5 estrelas: 33
Cancelamentos pagos: 5
Faturamento: R$ 500,85
Combustível: R$ 230
Lucro: R$ 270,85

20190125

O lado que comanda Santa Catarina

Lançado na edição de 31 de outubro e 1º de novembro de 2015 do Diário Catarinense, o caderno Nós acabou – pelo menos em essência – em algum momento entre fevereiro e março de 2018. Foi quando, sob orientação da então recém-chegada nova direção de jornalismo do grupo que edita o jornal, temas que os leitores gostariam de ignorar deram lugar a amenidades como “ano sabático” e “homens que ajudam (sic) as mulheres no trabalho doméstico”. Como a equipe original já havia sido desmobilizada, deslocada ou simplesmente desligada, não houve nenhuma resistência.

Até virar um aleijão editorial e gráfico, escrever no Nós valia quase como uma distinção. O escalado tinha que ter – ou dar a impressão que tinha – informação, repertório e estilo para segurar uma matéria de dez laudas. Em uma realidade diária dominada por duas laudinhas e olhe lá, equivalia a um tratado. Era uma baita vitrine. Colegas de outros estados viam o resultado e não acreditavam como um pequeno jornal de um mercado idem mantinha um suplemento de oito páginas, sem um reles anúncio publicitário, dedicado a um único assunto.

Nem toda semana havia a Grande Pauta Indiscutível, aquela que se impunha quer pela urgência, quer pela pertinência. Nesses casos, a saída era tentar compensar na redação, contando uma história de um jeito interessante o suficiente para instigar o leitor a encarar a massa de texto por inteiro. Todos os envolvidos tratavam o caderno como um xodó – não vou citar nomes porque não consultei ninguém se poderia, ainda que para elogiar. Por ser o único profissional exclusivo da editoria Nós, assinei a maioria das matérias, inclusive as duas esdrúxulas mencionadas no primeiro parágrafo. Vou reproduzir algumas aqui.

(Um) Por respeito.

(Dois) Por vaidade.

(Três) Por dinheiro? Procure-me em PVT, pliz.

***



Não existia uma ideia clara sobre o que exatamente o Nós trataria. Havia apenas um consenso: não poderia ser confundido com um caderno de cultura. O conceito – “Santa Catarina no plural”, expresso no manifesto escrito pela melhor editora que conheço, hoje amigona – era amplo o suficiente para abrigar de denúncias a perfis, desde que se encaixassem na definição de "grande reportagem" não somente pelo tamanho, pudessem ser defendidas com galhardia na reunião com a chefia e, lógico, fossem catarinenses. Pensa daqui, pensa dali, para deixar claro logo de cara qual seria a pegada do caderno, ficou definido que no primeiro número seria investigada a resposta da pergunta que, para mim, sempre foi uma afirmação: Somos de direita?”.

Caderno
Nós #1, 31 de outubro e 1º de novembro de 2015 | 2591 palavras | 20 minutos


São quase 23h e a quinta-feira do deputado federal Rogério Peninha Mendonça (PMDB) está longe de acabar. Duas horas e meia depois de deixar Brasília no mesmo voo que Esperidião Amin (PP) e Jorginho Mello (PR), seus companheiros na bancada catarinense, ele desembarca em Florianópolis com o compromisso de passar em Itapema para um jantar em comemoração à recondução ao cargo de vereador do peemedebista Eraldo Mafra, cassado em outubro de 2013 por sonegação fiscal. O dia cheio e a agenda apertada não o impedem, porém, de arrumar tempo para falar da pauta com a qual ganhou o noticiário nacional: o Estatuto do Desarmamento – ou melhor, sua revogação.

— O objetivo do PL 3722-2012 não é armar a população, e sim dar ao cidadão o direito de autodefesa — sustenta o parlamentar, em meio a cumprimentos de correligionários no aeroporto Hercílio Luz, sobre o projeto de lei que regula a posse, o porte e o comércio de armas de fogo e munição no Brasil.

A proposta, a origem do autor e a notoriedade que ela alcançou fazem de Peninha hoje a figura que mais encarna, divulga e alimenta a crença de que Santa Catarina seria um Estado de direita. As urnas reforçam essa percepção. Desde a redemocratização em 1982, apenas um em cada cinco dos eleitos pelos catarinenses para vereador, prefeito, deputado estadual, federal, senador e governador situa-se à esquerda. Na corrida presidencial, os principais candidatos de oposição ao governo petista ganhariam as três últimas eleições já no primeiro turno se computados somente os votos catarinenses.

— Mas não dá para dizer que o Estado é de direita com base nos resultados das eleições, pois a maioria dos partidos brasileiros não têm coerência ideológica. Devido à necessidade de conquistar o eleitor médio, que em geral está no centro, e selar alianças para sobreviver politicamente, os partidos fazem concessões que os afastam de seus programas, sejam de direita ou de esquerda — analisa o professor Jean Castro, do Departamento de Sociologia e Ciências Políticas da UFSC.

Um estudo sobre as coligações no Estado entre 1986 e 2004 feito pelo cientista político Yan de Souza Carreirão comprova a tese. Sobretudo nas candidaturas a prefeito, a estratégia de compor chapas com média (centro + direita ou esquerda) ou fraca (direita + esquerda) coerência ideológica apresentou um rendimento superior aos daquelas mais consistentes. Coligados foram maioria (61%) e venceram mais (47%, ante 28% dos que concorrem por um partido isolado) quanto mais misturados estiveram. Dos dois terços das coalizões envolvendo siglas de campos ideológicos diferentes, metade saiu vitoriosa, contra 40% das formadas por afins.

Ou seja, na política real o antagonismo direita-esquerda muitas vezes transforma-se em parceria, para arrepio do que Castro define como franjas minoritárias do eleitorado que têm posições ideológicas mais marcadas. Talvez não tão minoritárias assim e, com certeza, bastante barulhentas. Peninha tem rodado o país com a proposta bélico-protetora. Em Santa Catarina, realizou duas audiências públicas. Uma em Blumenau, a maior cidade de sua base eleitoral, o Vale do Itajaí. Na plateia estavam vários senhores com trajes típicos germânicos, representando as tradições dos colonizadores da região – como os sociedades de atiradores (schützenverein), associações recreativas sempre mencionadas por Peninha para justificar a convivência de seus eleitores com armas desde pequenos.

Outra em Chapecó, reduto do deputado federal João Rodrigues (PSD), autor de projeto que permite a taxistas e motoristas de caminhão portarem armas no trabalho. Peninha foi ovacionado em ambas – tanto quanto o maior entusiasta da ideia e presença constante nesses encontros, o também parlamentar Jair Bolsonaro (PP-RJ), que não esconde de ninguém para qual lado pende. Em outubro, o carioca voltou a Blumenau, novamente a convite do catarinense, para um final de semana na Oktoberfest. De macacãozinho e chapéu, poderia ser confundido com um nativo, não fossem o sotaque, o tratamento de popstar que recebeu e a tez, mediterrânea demais para os padrões saxônico-blumenauenses. Participou do desfile, estrelou uma infinidade de selfies, foi saudado pelos populares. “Sinto que o que eu falo é o que esse povo também quer falar”, exultou antes de voltar para casa.


Ao longo do século 20, a política catarinense foi dominada por duas famílias com raízes no Partido Conservador. Os Ramos, de Lages, eram ligados a grandes produtores rurais da Serra. Os Konder Bornhausen, de Itajaí, ao comércio marítimo e fluvial, à indústria têxtil do Vale do Itajaí e à fundação do primeiro banco de crédito do Estado, o Inco (Banco da Indústria e Comércio, comprado pelo Bradesco em 1960). Os dois clãs ocuparam o governo por dez mandatos e o Senado por oito.

A rivalidade entre eles, embora todos militassem no Partido Republicano Catarinense, acentuou-se com a revolução de 1930. O governador Adolfo Konder foi deposto pela Aliança Liberal e, em seu lugar, assumiu Nereu Ramos, simpático a Getúlio Vargas. Com o fim do Estado Novo em 1945, os Konder Bornhausen passaram a comandar a União Democrática Nacional (UDN), de direita; os Ramos, o Partido Social Democrático (PSD), de centro-direita. O golpe de 1964 os reuniu na Aliança Renovadora Nacional (Arena) em nome do combate à “ameaça comunista”.

Atritos circunstanciais – como a indicação de Colombo Salles, um engenheiro sem experiência política da ala renovadora da Arena, pelo presidente Médici para o governo estadual em 1971 – não impediram que a dobradinha seguisse. Mas, à falta de herdeiros com a vocação de Vidal, Nereu, Celso e Aderbal, os Ramos viram sua influência diminuir com a nomeação de Antônio Carlos Konder Reis e Jorge Konder Bornhausen como governadores em 1975 e 1979.

O retorno das eleições diretas para o governo em 1982 consagrou Esperidião Amin, que já era quase da família: com a bênção dos Konder Bornhausen, fora nomeado prefeito de Florianópolis em 1975. A criatura iria se voltar contra o criador em 1986. Naquele pleito, ele e Jorge lançaram candidatos separados e perderam juntos para Pedro Ivo Campos (PMDB). A ascensão de uma corrente de centro, identificada com os adversários do regime militar, alteraria para sempre as forças no tabuleiro político local.

— Deve-se questionar essa história de Santa Catarina como Estado oligárquico. Com mais de 30 anos de democracia, já houve uma desconcentração. As oligarquias controlavam o sistema político com a máquina na mão. Hoje, têm que disputar eleições, compor com outros — diz o cientista político Carlos Eduardo Sell, da UFSC.

O bipartidarismo imposto pela ditadura, no entanto, continua dando as cartas no Executivo estadual. Mesmo com a abertura para novos partidos em 1982, todos os governadores catarinenses de lá para cá pertencem a agremiações com a Arena em seu DNA, como PDS, PFL (futuros PP e DEM) e o PSD (ao qual o governador Raimundo Colombo, ex-pefelista, é filiado), ou ao sucessor do MDB. Sell vê nisso uma polaridade própria da político, ainda que o cenário esteja cada vez mais pulverizado. Amin credita ao fato de que “ninguém gerou tantas lideranças quando PDS e MDB” e aponta para a falência do modelo direita-esquerda.

— São conceitos ultrapassados. Santa Catarina é um Estado conservador com preocupação social. Mais do que partido, o catarinense vota levando em conta uma palavra: confiança — diz o deputado.

Amin fala com conhecimento de causa. Conquistou mais um mandato para a prefeitura da Capital em 1998, entrou no Senado em 1990 e reelegeu-se em primeiro lugar para a Câmara no ano passado com 230 mil votos. Na sucessão estadual de 2002 e 2006 e na municipal de 2008, concorreu com os peemedebistas Luiz Henrique da Silveira e Dário Berger (ex-PFL e ex-PSDB, atualmente senador). Pelo visto, o eleitor confiou mais nos adversários dele.

Jorge Bornhausen, hoje aposentado da política partidária, e o filho, o ex-deputado federal Paulinho, presidente de um partido com “socialista” na sigla (PSB), negaram-se a atender a reportagem. Paulinho deu a entender que a conceituação é uma preocupação maior da academia do que do eleitor. Contudo, o patriarca já se manifestou a respeito.

“A direita não cabe no figurino brasileiro. Temos que considerar nossas condições sociais. Não podemos querer uma economia de mercado pura, sem um Estado regulador. Temos que fazer com que o Estado seja um instrumento a serviço do cidadão, especialmente o menos favorecido. Sem isso, os pobres não terão oportunidades justas nem seus direitos básicos preservados. Não é a questão de Estado máximo e Estado mínimo, mas do Estado necessário”, declarou ele em 2006.


Natural de Nova Trento, Peninha foi cursar Agronomia em Pelotas (RS), de onde voltou com o diploma e o apelido que incorporou ao seu registro eleitoral. Os anos lhe somaram quilos e subtraíram cabelos, mas, na época, a magreza e a vasta cabeleira lhe valeram a comparação com o personagem de Walt Disney. Mudou-se para Ituporanga em 1976, quando passou em concurso público para a Acaresc, atual Epagri. Em 1988, elegeu-se vice-prefeito da cidade pelo PMDB. No ano seguinte, votou no candidato do partido, Ulysses Guimarães, para presidente no primeiro turno. No segundo, fez campanha para Lula contra Collor.

— Hoje, de jeito nenhum votaria no PT, mesmo com o meu partido sendo aliado. Nas minhas redes sociais, se em algum momento eu falo da Dilma, o meu eleitor protesta. Ele não aceita o PT — garante o deputado, um dos 22 peemedebistas que assinaram documento pedindo o rompimento com o governo federal.

Esse mesmo eleitor aceita Bolsonaro e endossa com gosto algumas propostas controversas do nova-trentino. No Votenaweb – site de “engajamento cívico apartidário” no qual 380 mil internautas cadastrados podem votar nos projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional –, Peninha é o parlamentar de Santa Catarina com a maior média de participação por projeto. Em aprovação, fica em sexto, com 88% dos catarinenses favoráveis ao fim do Estatuto do Desarmamento, 84% à proibição de cotas raciais em concursos públicos e 94% à extinção da contribuição sindical obrigatória. O único reprovado é o que proíbe tatuagem nos olhos, com 72% de rejeição.

Peninha apoia a redução da maioridade penal, “principalmente para crimes hediondos”. Rechaça a descriminalização das drogas, “todas”. Tolera aborto “somente em determinados casos, como estupro e doenças que ponham a mãe ou o feto em risco”. E diz que respeita a união homoafetiva, mas é contra a adoção nesses casos porque acha que “para uma família constituída dessa forma – homem com homem, mulher com mulher – é muito difícil dar uma educação à criança como deveria”.

Os vereadores pensam parecido com ele. No primeiro censo legislativo municipal catarinense, realizado neste ano, a maioria deles mostra-se contrária a um afrouxamento das leis antidrogas (70%) e ao direito de a mulher interromper a gravidez (59%). A opinião de que o sistema de cotas raciais nas universidades aumenta a discriminação é compartilhada por 63%.

A diferença em relação ao deputado está no tamanho do Estado brasileiro e no posicionamento ideológico. Com exceção dos serviços bancários, grande parte dos vereadores acredita que só o governo que deve administrar setores como educação, saúde, aposentadoria e previdência social e infraestrutura. Eles se declaram de centro (32%), centro-direita (22,7%) e direita (19%).

— Em todo o Brasil, ainda há uma certa reserva em se assumir como conservador ou de direita porque essas são características associadas ao período da ditadura — entrega o cientista político Sell.

Peninha não está nem aí para a patrulha:

— Defendo uma maior liberdade da produção, do capital, e menor intervenção do Estado na economia. O Estado deveria cuidar apenas da saúde, educação… até infraestrutura pode delegar. Se posições assim forem consideradas de direita, então eu sou de direita — admite.

“Liberal em questões econômicas e conservador nas sociais”, ele se elegeu à prefeitura de Ituporanga em 1992 e, a partir de 1998, ingressou no Legislativo, sempre crescendo em número de votos. No estadual, recebeu 25 mil naquele ano, 35 mil em 2002 e 55 mil em 2006. No federal, 110 mil em 2010 e 137 mil em 2014, tornando-se o quinto mais votado do Estado.


Um dos eleitores de Peninha é o coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL) em Santa Catarina, Alexandre Paiva, de 39 anos. Presente em 15 cidades catarinenses, o MBL se denomina “uma entidade apartidária que visa a mobilizar cidadãos em favor de uma sociedade mais livre, justa e próspera”. Na prática, está por trás das gigantescas manifestações contra o governo que começaram a sacudir o país logo após a reeleição de Dilma Rousseff. São passeatas em que nem todo mundo que participa é de direita, mas todo mundo que é de direita participa. Paiva acha graça do jogo de palavras, mas não embarca nele.

— Politicamente, me defino como “indignado”. Ou você é vermelhinho, ou você é azulzinho. Palhaçada! A questão não é partido, é todo o sistema que está errado — exalta-se.

Para consertá-lo, o MBL foca-se no impeachment da presidente e nas eleições de 2016. Segundo o coordenador, o movimento tem sido procurado por diversos partidos, de todos os lados porque tem o eles precisam: “Gente e poder de mobilização.” O que mais o atrai é o recém-criado Partido Novo, devido ao seu viés liberal. Ele próprio, inclusive, ajudou a recolher assinaturas e deu entrada das fichas coletadas no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) – um partido requer de pelo menos nove diretórios e 492 mil assinaturas certificadas para ser criado.

— Até por formação pessoal, nunca aceitei nada de mão beijada. Vim de família pobre e consegui montar meu comércio, pago escola particular para minhas duas filhas. Me incomoda o pensamento que o Estado é o provedor de tudo. Sou um “minarquista”, quero um Estado mínimo — diz.

Paiva está no tele-entrega de pizzas que abriu em 2008 no bairro dos Ingleses, em Florianópolis. Ele nasceu em São Paulo, filho de uma dona de casa e de um autônomo que vendia batata em um caminhão. Trabalha desde os dez anos “em feira, embrulhando peixe, vendendo limão”. Começou a estudar Administração e logo parou porque não tinha como pagar a faculdade. Aos 20, foi morar junto com a namorada, com quem mudou-se para a Capital catarinense em 2000.

Até trocar de profissão, tirava o sustento da família do serviço de perícia em sinistros que prestava para uma empresa de seguros, combinado com o salário da esposa, bancária. Agora, Paiva divide seu tempo e uma parcela dos R$ 5 mil que ganha em média no ramo de margueritas e portuguesas promovendo o movimento.

— Foi em um dos encontros do MBL em Florianópolis que surgiu a ideia da Vista Direita. Vi uma camiseta escrita “não existe almoço grátis”, tentei comprar e não tinha mais — lembra o bancário Daniel Peçanha, de 27 anos, que viu ali uma oportunidade de negócio.

Ele e um sócio investiram R$ 40 mil na grife. Fizeram 2,4 mil camisetas com estampas de ícones do neoliberalismo (Margaret Thatcher, Ronald Reagan) e mensagens como “comunismo mata” e “livre mercado”. O valor foi recuperado logo na primeira leva. Em junho do ano passado, chegaram a vender quase a metade delas. Conforme Peçanha, 50% dos pedidos vêm de São Paulo. Santa Catarina responde por 10%, “mais de Joinville e Blumenau”.

— Me considero um liberal conservador. Família, para mim, é o núcleo formado por pai, mãe e filho, mas não tento impor isso a ninguém nem quero que o Estado interfira na vida das pessoas — pondera.

Paiva vai além. Para o dirigente do MBL, o Estado não deve se meter na economia nem no comportamento individual. Por isso votou em Peninha em 2014: em seu entender, a prerrogativa de ter ou não uma arma é exclusiva do cidadão. O deputado já teve um .38 quando rodava pelo interior como agrônomo. Desfez-se do revólver por causa da “burocracia”. Com a aprovação do projeto, pretende comprar um novo assim que possível. Ele ainda não decidiu o calibre, mas sempre sacou com a direita.

20130718

E bota exclamação nisso

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(resenha publicada no Diário Catarinense, 30/05/2013)
Pronuncia-se “chk chk chk”. Bom saber, porque o !!! ameaça obrigar mais gente a citá-la depois de conhecer seu quinto disco. Em Thr!!!ler, o dance-punk associado à banda desde a virada do século dispensa informação prévia para ser apreciado. Bateu, valeu. É como o quase homônimo álbum multiplatinado de Michael Jackson, só que de um mundo imperfeito. Não inclui todos – mas quem está dentro jura que descobriu um punhado de hits.
Aqui aparecem todas as qualidades dos lançamentos anteriores e nenhum dos defeitos. Há o frescor da autointitulada estreia (2000), a vocação para as pistas de Louden Up Now (2004), a inclinação indie rock de Myth Takes (2007) e o amadurecimento de Strange Weather, Isn’t It? (2010). Não é pouco, sobretudo se considerada a situação atual dos colegas geracionais e estéticos do mais nova-iorquino dos grupos californianos.



Formado em 1996, a banda sentiu-se em casa quando se mudou de Sacramento para a costa leste americana. À sombra ausente das torres gêmeas, sua proposta crua, quebrada e dançante encontrou respaldo na cena onde se estabeleceriam LCD Soundystem e Rapture, aos quais é geralmente comparado. Hoje, um encerrou as atividades, outro ficou devendo em seu mais recente trabalho.



E o !!!, que nunca foi tão aclamado assim, se acaba nas guitarras à Chic de “One Girl/One Boy” ou na pulsão sexy de “Except Death”, ambas com o vocalista Nic Offer gastando seu falsete liberal em refrãos impecáveis. Menos imediatas, “Californyeah” e “Slyd” deixam vazios que criam expectativas sempre surpreendidas e superadas pelo pop das soluções que adotam. Tem outras que merecem exclamações, basta absorver. Pontos não faltam.

20130716

Vapor barato

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(resenha publicada no Diário Catarinense, 30/05/2013)
Na metade de 2012, o rapper Snoop Dogg anunciou que, em uma visita de 35 dias à Jamaica, havia obtido a graça. Ele seria a reencarnação de Bob Marley e, a partir de então, seguiria a religião rastafári, passaria a se chamar Snoop Lion e gravaria reggae. Fãs que já o viram fazer comédia, apresentar talk show, dirigir filme pornô e até emprestar sua voz para GPS pensaram se tratar de mais um papel representado pelo ídolo. Mas o fanfarrão não estava viajando.
O resultado da transformação é Reincarnated, melhor do que qualquer disco de rap que o ex-cachorro tenha lançado ultimamente. No documentário que precedeu o álbum, ele explica como encontrou Jah. Com os anciãos rastas, aprendeu a importância da paz e da comunhão com a natureza. De Bunny Wailer, ex-integrante dos Wailers originais e lenda viva local, recebeu o apelido leonino e a missão de reinventar seu espírito e, por tabela, sua carreira.
Iluminado por esta energia, Snoop recrutou Diplo e Major Lazer para produzirem o trabalho que revelaria o novo homem, pai, marido e artista que ele se tornou. A dupla, especialista em batidões, pega leve e só acelera em “Fruit Loops”, erigida sobre a levada do clássico “Under Me Sleng Teng”, de Wayne Smith, que em 1985 introduziu a era digital na música jamaicana. Nas demais faixas, a brisa e a brasa dominam.



Logo na abertura, a enraizada “Rebel Way” alerta que há muita morte, destruição, ruína e incompreensão na música – males não alheios ao passado gangsta de seu autor. “Smoke The Weed” atualiza o refrão original cunhado por Palma Dog em 1984 para um libelo em prol do mato queimado. Imersa na cultura da ilha, “Boulevard” remete ao rock steady, um dos gêneros que embalava os bailões de Kingston na década de 1960.



Assim que ganhou as ruas, Reincarnated dividiu opiniões. Wailer voltou atrás e o acusou de heresia. A crítica considerou apenas oportunismo – conclusão meio automática depois de ver a velha guarda de fora para dar lugar a participações dos nada ortodoxos Miley Cyrus e Akon. Mais óbvio, no entanto, é perceber que Snoop e reggae foram feitos um para o outro, em uma conexão que demorou para acontecer e, agora concretizada, parece evidente. O resto se dissipa na fumaça.

20100527

Menos 227 dias

(resenha publicada na revista Bizz #191, junho de 2001)

Difícil dizer como Shuggie Otis seria classificado hoje. Talvez sua música nem tivesse lugar no mercado atual, ou seria colocada entre Prince e D’Angelo. Em 1974, o problema foi o mesmo. Depois de três anos de lapidação, o segundo disco do californiano ganhou as lojas sem saber em que prateleira deveria ficar. As comparações, pelo menos, eram melhores: Marvin Gaye, Curtis Mayfield, Sly Stone. A reedição em CD (acrescida de três canções da estréia, Freedom Flight, de 1971) mostra a razão de tamanho alvoroço em torno do rapaz. O rótulo que Inspiration Information costuma receber – soul psicodélico – só simplifica a fluidez com que Shuggie vai do soul ao R&B, do funk a um certo ar “alternativo”.

Logo na abertura, com a faixa-título, o artista californiano desfila um balanço suave, com a lisergia na dose “boa viagem”. O estado continua sossegado com um suingue leve aqui (“Sparkle City”), um ritmo programado para dançar juntinho ali (“Aht Uh Mi Hed”). Para descolar o corpo, as levadas sofisticadas de “Not Available” e “Strawberry Letter #23” (esta, de seu primeiro disco), que fez sucesso em 1977 pelas mãos dos Brothers Johnson. Mas Shuggie usa outros meios para proporcionar o mesmo relaxamento, como em “Pling!”, “XL-30” e “Rainy Day”, feitas de paisagens sonoras tão eletrônicas quanto bucólicas – daí se entende por que Tortoise e Stereolab o apontam como influência.

Diante da fartura de inspiração, os Rolling Stones não perderam tempo e convidaram Shuggie para substituir Mick Taylor. Como bom torto, ele recusou. Assim como disse não às ofertas para integrar o Blood, Sweat & Tears e o Emerson, Lake & Palmer. Pouco depois, devido ao fraco desempenho do disco, foi dispensado da gravadora e se retirou da cena (rumores apontam para complicações com drogas) para sempre. Agora vem o detalhe: quando finalizou Inspiration Information, no qual cantou e tocou guitarra, piano, órgão, baixo e bateria, Shuggie tinha apenas 22 anos. Atualmente aos 48 e excitado com a repercussão bombástica (ainda que tardia) de seu trabalho, pensa em reunir uma banda e voltar a fazer shows. Vai fundo, tio.

SHUGGIE OTIS, Inspiration Information

20091225

O Natal como ele é III

(coluna publicada no jornal Correio Popular, de Campinas/SP, em 21 de dezembro de 2004)

Das decisões que envolvem o Natal, aquela foi a mais fácil. A escolha de Idiomar deu-se praticamente por aclamação. Afinal, entre os homens da família, era o único com condições – ou espírito esportivo – para encarar tamanha responsabilidade sem frustrar as expectativas da parentada. O sogro não tinha mais estrutura mental para suportar o desafio. O cunhado desmoralizou-se na última vez em que desempenhou a função. Sobrou ele para atuar como Papai Noel na comemoração da noite de 24 de dezembro. Conformado, exigiu apenas que distribuísse os presentes também para os adultos. Seria sua oportunidade de, sob a obrigação de fazer algum comentário gracioso à medida em que chamaria os donos de cada pacote, dizer poucas e boas para aquela cambada de cínicos.

Sua mulher, Dionéia, só esperou pela confirmação do marido para conjugar seu verbo predileto, comprar. No caso, o figurino do Papai Noel. Achou o tradicional uniforme vermelho e branco no camelódromo pela bagatela de R$ 19,90, incluídos o cinto preto e a barba postiça. O preço baixo embutia um senão – e não era o fato da inscrição "made in China" na etiqueta levantar a suspeita de uso de mão-de-obra infantil na confecção: a roupa era toda de feltro, tecido que proporciona a quem o veste a sensação de que até o inferno deve ser mais refrescante. Idiomar experimentou a peça, notou que o manequim tinha uma bunda enorme e, já suando, pensou na felicidade de sua filha de 3 anos ao receber o triciclo tão desejado diretamente das mãos do bom velhinho.

A pantomima envolvia toda uma logística. Idiomar começaria a ceia à paisana, representando papéis muito mais difíceis e demorados do que o disfarce para o qual estava escalado. Papai Noel não durava três horas e aparecia uma vez por ano; já as falas para marido, pai e genro exigiam decoreba constante. Em determinado momento, ele alegaria ter de sair para comprar qualquer coisa (“um elmo”, pensou) e sumiria, reaparecendo fantasiado e com a indefectível risada. A cumplicidade dos demais adultos estava assegurada, o que o deixava ressabiado era o sobrinho e afilhado Maiolo. O peste de 8 anos não iria engolir essa história e, com certeza, faria de tudo para sabotar o plano.

Chegou a noite derradeira e tudo ia correndo surpreendentemente bem. A filha, Jaqueline, ficou maravilhada ao descobrir que a cartinha que mandara três meses antes com o seu pedido funcionara. A sobrinha, Aline, de 4 anos, não se importou com mais nada depois que ganhou sua casinha de boneca. Maiolo, que ameaçou desmascará-lo ao puxar sua barba, foi domado a base de beliscões dados na surdina. Os altinhos escutaram os desaforos de Idio (como o chamavam, com a tônica no primeiro “i”) sem tirar o sorriso do rosto. À mulher e à sogra, disse que foram muito linguarudas no ano que passou. O cunhado, bêbado, respondeu ao insulto de “parasita” com um arroto. A concunhada teve sua gordura denunciada. E o sogro foi avisado para não esquecer mais de tomar seu remedinho.

Os estrategistas só não pensaram na retirada do Papai Noel. É claro que Maiolo quis acompanhá-lo até o portão de casa. Sem outra alternativa, o Papai Noel acabou no meio da rua. A idéia de Idiomar era aguardar a poeira baixar, tirar aquela roupa insuportável e voltar dizendo que não achara o elmo que procurava. Mas outras famílias o viram caracterizado e o chamaram para encantar também os seus Natais. Ele passou a noite toda de casa em casa, levando alegria e bem-aventurança. Quando terminou, o dia raiava. Bateu no portão uma vez. Duas. Na terceira, Dionéia arremessou a perfume na sua cabeça, aos gritos de “canalha, nem no Natal abandona a farra!”. De nada adiantaram os argumentos de Idiomar: “Mas Néia, que nóia é essa?”. Ela estava convencida. No próximo dia útil, iria entrar com o pedido de divórcio.

20091015

Sem medo da água quente

(coluna publicada no jornal Correio Popular, de Campinas/SP, em 10 de outubro de 2001)

Era um cara que facilitava a tarefa da posteridade. Teve o cuidado de olhar para o relógio e anotar a hora exata em que resolveu o que fazer. À 1h57 da madrugada de uma terça, ele matou a charada. E disse “não”. Chamou o amigo, que estava botando som para ninguém, e lhe contou. Seus olhos emitiam um brilho esquisito, realçado pela iluminação roxa do local. Jogado em um sofá no canto da pista vazia, refletia sobre a decisão recém-tomada. Em questão de segundos, ia de uma certeza que dilatava suas pupilas a uma insegurança que deixava suas mãos suadas e cerrava seus dentes, um nervosismo que um trago ou uma tragada poderiam aliviar. Mas ele não bebia e estava sem o seu cigarro.

Lembrava de uma entrevista com o Angeli que lera em uma Caros Amigos. Depois cometeu um aposto em seu raciocínio, só para destacar que a revista nem era dele, era de um amigo que ainda comprava leitura universitária. Leitura universitária... De uns tempos para cá, ele estava com a mania de usar esse rótulo, “universitário”, para definir qualquer coisa que não sabia por quê considerava tão irritante. Não existia o forró universitário, um sucesso? Então. Sem muito esforço, ele conseguia detectar também o pop universitário, o funk universitário, o rap universitário, os filmes universitários, os programas de TV universitários, os DJs universitários, os estilistas universitários.

Voltou ao Angeli antes que fosse muito longe para retomar o fio da meada. Na referida entrevista, o cartunista explicava a ausência de seus trabalhos em certas empresas que monopolizam a comunicação. Nada a ver com liberdade, pois isso seu talento conquistou na marra, e sim com grana. Angeli fala que, em determinados lugares, o fato de estar ali é oferecido como benefício extra-salário. Você terá plano de saúde, vale-transporte, vale-refeição e bônus semestral por desempenho (seja lá o que isso signifique), além de integrar os quadros de uma companhia reconhecida, importante e tal. Imediatamente, ele começa a analisar com mais carinho a tese de outro amigo seu. Que Liminha, que Nelson Motta! O verdadeiro inventor do rock brasileiro como o conhecemos hoje é Angeli.

Ainda saboreava o “não” que o cartunista esfregou e esfregava na cara dos barões quando um calafrio partiu de seu joelho esquerdo, vindo se alojar na altura de seu fígado. Mentiu para si mesmo e culpou o esdrúxulo drinque à base de menta que fora parar em sua mão. Na verdade, seu t(r)emor tinha outro motivo: ele não era o Angeli. Não contava com um milésimo de tanta moral, embora rivalizasse em termos de ego. A dúvida lhe assaltou. Devia ter dito “sim”, pego o seu dinheiro (que, se não era muito, era bom) e aproveitar o logotipo no crachá para tirar onda com a família – o tal benefício extra-salário. Há pouco, seu colega de mercado aceitara proposta similar, compensando a previsível frustração com uma poupança para morar no exterior.

Não, isso não funcionava para ele. Não precisava ser desse jeito. Mas havia outro jeito? Seu último chefe o alertou em várias ocasiões: só se descobre o preço de um homem ao jogá-lo em um caldeirão de água quente. A música da Legião Urbana que ele mais gostava dizia algo parecido: “Você é tão esperto, você está tão certo, mas você nunca dançou com ódio de verdade”. O pai, ouvidor-mór, repetia: você pode até estar morrendo de fome, mas ninguém precisa saber disso. “O que é que você falou?”. Era seu amigo com o fone no ouvido acertando a próxima música, mais uma de alguma banda de Maceió. Aos 22 anos, o moleque não havia escutado o que ele lhe dissera quatro parágrafos atrás e não estava nem aí. Quero vê-lo com 30.

20090908

Missão: matar Che Guevara

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(Reportagem publicada na revista UM #1, novembro de 2004)

Em Capivari de Baixo, ele é o “gringo Gregório”, que ali chegou em 1989 para trabalhar como técnico mecânico e hoje dirige a pequena metalúrgica Saturno. Patrão de 31 funcionários, casado e pai de três adolescentes, o boliviano aponta satisfeito para o asfalto da rua onde mora. “Fizemos um mutirão para tocar a obra”, orgulha-se. Apenas mais um caso de empreendedorismo mesclado com responsabilidade social, não fosse o passado que, aos 58 anos, Gregório Santillan Merubia lembra com frieza. Em 1967, o titular da “libreta del servicio” nº 059246 do exército de seu país embrenhava-se pela província de Vallegrande, na divisa entre os departamentos (equivalente a estados) de Santa Cruz e Chuquisaca. A milhares de quilômetros da cidade catarinense, ele era o segundo-sargento “Gato”, codinome que adotou na caçada que culminou na morte de Che Guevara.

Filho de um químico e de uma dona de casa, Gregório nasceu em Catavi, na fronteira com a Argentina. Ainda moleque, mudou-se com a família para a capital La Paz. “Eu queria aventura”, diz. “Por isso, me apresentei na embaixada americana para lutar no Vietnã.” A gozação do oficial que o recebeu, aliada à surra que levou do pai, arrefeceu o ímpeto do rapaz de 17 anos. “Goyo”, como era apelidado, não precisaria ir tão longe para pegar em armas. Em novembro de 1966, um senhor careca, de terno e gravata e usando pesados óculos de grau, registrou-se na cidade como o economista uruguaio Adolfo Mena Gonzalez. Tratava-se de Ernesto Guevara de La Serna, o Che, disfarçado para libertar o continente do “imperialismo ianque”.

Em fevereiro do ano seguinte, Gregório alistou-se no serviço militar boliviano. A tropa a qual pertencia passou por Cochabamba, juntou-se a outros destacamentos e, finalmente, descansou no quartel Manchego, em Guabirá, sede do 12º exército de infantaria. “Depois de uma semana, os oficiais avisaram que a missão que nos aguardava seria dura, quem quisesse desistir estava livre”, conta Gregório, acrescentando que, “dos quase mil homens que compunham as tropas, uns duzentos foram embora”. Em uma tarde de sábado, jipes, caminhões e caminhonetes oferecidos pelo Pentágono transportaram os recrutas até Esperanza, a cerca de 250 quilômetros. O contingente foi dividido em quatro companhias, cada uma com quatro pelotões. Gregório ficou no terceiro pelotão da companhia A, liderado pelo tenente Eduardo Huerta.

O treinamento começou em um engenho açucareiro abandonado no meio da mata. Pela manhã, faziam ginástica, caminhavam 12 quilômetros e aprendiam a manejar armas. “Nos estimulavam gritando ‘que queremos?’ para todos responderem: ‘Matar!’”, afirma Gregório. À tarde, realizavam ações de inteligência – eufemismo da caserna para “espionagem”. Até o final das atividades, em agosto, ele se qualificou nos fuzis M2 (automático) e M1 (semi-automático) e em pára-quedismo e deslizamento de helicóptero.

Guevara, no resumo daquele mês no diário que manteve durante toda a sua temporada boliviana, sentia o ar carregado. “Estamos em um momento de baixa de nossa moral e de nossa lenda revolucionária. As tarefas mais urgentes prosseguem sendo (…) restabelecer contatos, incorporar novos combatentes, conseguir remédios e equipamento”, escreveu. Seus temores não eram infundados: a Central de Inteligência Americana (CIA) e as autoridades locais confirmaram sua presença no país em abril, ao capturarem o intelectual francês Regis Debray e o argentino Ciro Bustos em Muyupampa, um vilarejo no sul. Torturado, Debray confessou a verdadeira identidade do guerrilheiro “Ramón” (adivinhe quem). No acampamento de Gregório, porém, não se tocou no assunto. “A gente queria pegar o ‘Pombo’ [Harry Viegas Tamayo, do grupo de Guevara], um cubano moreno, alto e que havia matado alguns soldados”, garante.

Em 24 de setembro, as quatro companhias desfilaram por Santa Cruz de la Sierra, misturando-se à parada alusiva ao aniversário da cidade para alcançarem incólumes o quartel da oitava divisão do exército. À meia-noite, com os soldados ainda digerindo o jantar (“fricassé de carne de porco”), o coronel Joaquín Zenteno Anaya pediu a palavra. “Ele falou: ‘Chegou a nossa hora. Vamos entrar na zona de operações’”, recorda Gregório. Caminhões lotados de recrutas demoraram 15 horas para percorrer os 250 quilômetros até Vallegrande. No outro dia, o terceiro pelotão partiu para Pucará levando fuzis e mochilas com toalha, repelente, um par de botas, gaze, morfina e ração. “Inclusive o Brasil mandou suprimento da Marinha, com polvilho, chocolate, cigarro”, conta. Comida e água eram aquecidas em um fogareiro de querosene sólido “do tamanho de uma lata de graxa de sapato”.

No começo de outubro, Gregório e seus companheiros já haviam fuçado a Quebrada del Yuro (uma espécie de cânion) e cruzado com pára-quedistas do Centro de Instrução de Tropas Especiais no outro lado do rio Grande. O capitão Gary Prado, da companhia A, vasculhava Picacho. A “inteligência” infiltrava-se nas comunidades mais isoladas. Ficava claro que o objetivo não era derrubar o “Pombo”. “Tirando ele, a gente não falava de nenhum guerrilheiro em especial, até que o nome do Che vazou em uma conversa”, diz. No dia 6, orientados pelos relatos dos camponeses sobre homens sujos, maltrapilhos e armados, dormiram em La Higuera. Ao amanhecer, continuaram as buscas. De repente, “Gato” recebeu um chamado pelo rádio. “Era o ‘Tigre’ [Eduardo Huerta] , que estava rondando com parte do grupo, dizendo para a gente se encontrar no rio porque ele localizou a toca deles com restos de comida.” Fechava-se o cerco.

As anotações de Guevara refletiam a situação: “A rádio chilena informou sobre uma notícia censurada que indica existirem 1.800 soldados na região nos procurando”. Às 4h00 de 8 de outubro, as forças retornaram para a Quebrada del Yuro somente com a roupa do corpo, armas e munição. “Tigre” rumou para o norte, “Gato” permaneceu no leste e os demais felinos marcharam para o sul. Às 11h00, ecoou o primeiro disparo. “Às duas, comecei a descer pelo sul. Encontrei Gary Prado, o ‘Wily’ [Simón Cuba Sarabia, boliviano do bando de Guevara] e o Che, sem sapatos, com três pares de meia e as mãos amarradas”, lembra Gregório. À noite, em La Higuera, ele foi ver os prisioneiros, trancafiados na escola do vilarejo. “Che tinha uma ferida na panturrilha esquerda e queria mijar. Arrumei uma panela de barro. Desamarrei suas mãos e seus pés e ele se aliviou. Também pediu para fumar seu cachimbo.”

Na manhã do dia 9 de outubro, um helicóptero com oficiais posou em La Higuera. Tomaram o diário de Guevara (publicado no Brasil em 1997 pela editora Record) e deram um prato de sopa de amendoim para ele almoçar. Então, fuzilaram “Wily” e um outro combatente, “Chino” (o peruano Juan Pablo Chang Navarro). Às 13h00, o sargento Mario Terán desferiu dois tiros de M2 em Guevara. “Eu estava no mato fazendo minhas necessidades quando ouvi o barulho”, alega Gregório. Aos 39 anos, deitado no chão batido de uma escola nos confins da Bolívia, morria o guerrilheiro mais famoso do mundo. Dos 50 que iniciaram a campanha boliviana, 16 ainda seguiam Guevara e apenas cinco sobreviveram – o odiado “Pombo” entre eles.

Enquanto o destino do cadáver ilustre tomava proporções novelescas, Gregório continuou no exército até abril de 1968. Civil novamente, foi para Buenos Aires prestar cursos de pilotagem e de metalurgia. Na Argentina, virou dirigente sindical (“peronista”, ressalta). De volta à Bolívia como torneiro mecânico, conheceu Joana, catarinense que trabalhava como voluntária no colégio salesiano Dom Bosco, em La Paz. Casou com ela e se estabeleceu em Capivari de Baixo, a 140 quilômetros ao sul de Florianópolis, perto dos sogros. Dos tempos da guerrilha, sobrou pouca coisa. “Já fiz tantas mudanças que perdi quase tudo”, desculpa-se. “O garfo, faca e colher checos que ganhei do Che meu pai jogou no lixo.” Restaram duas fotos, o diploma de pára-quedista e a caderneta do serviço militar.

Para o ex-combatente, Guevara não ia vencer nunca. “Sua luta aconteceu na hora e no lugar errados, com a Bolívia sendo governada por um militar nacionalista [o general René Barrientos] e em uma área desabitada, longe de qualquer cidade”, opina. Gregório naturalizou-se brasileiro em 2002. Na quintal em frente de sua casa, uma placa do candidato a prefeito da cidade pelo Partido Progressista (PP) entrega de que lado ele sempre esteve.

BOX: O santo justiceiro
Com Che Guevara fuzilado, as autoridades bolivianas apressaram-se em divulgar a surrada (e eficiente) versão da “morte em combate”. A lorota não se sustentou nem dois dias. Em 10 de outubro de 1967, o médico Reginaldo Ustariz Arze examinou o cadáver na lavanderia do hospital de Vallegrande e denunciou o assassinato à imprensa. Os militares resolveram a polêmica com a sutileza habitual: obrigaram o doutor linguarudo a fugir (ele veio para o Brasil, seu lar até hoje) e sumiram com o corpo. Os restos mortais só reapareceram em 1997, em uma vala comum próxima ao aeroporto da cidade, depois que o general reformado Mario Vargas Salinas resolveu abrir a boca. Os ossos viajaram para Cuba, onde o “companheiro” Fidel Castro os recebeu com honras de Estado.

Os trinta anos em que o paradeiro final de Che Guevara permaneceu ignorado deram um toque sobrenatural à biografia do guerrilheiro. Na região em que travou suas últimas batalhas, a imagem de homem martirizado por lutar pelos pobres despertou a fé cristã. Ele se tornou Santo Ernesto de la Higuera, a quem os nativos pedem para salvar a colheita, recuperar a vaca roubada ou curar o filho canceroso. O “lado escuro da Força” também se manifestou com intensidade: existiria uma maldição, corroborada pelas desgraças que acometeram muitas pessoas relacionadas com a captura e morte de Guevara. A série de coincidências trágicas foi observada pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano no livro Dias e Noites de Amor e de Guerra (publicado no Brasil em 1979 pela editora Paz e Terra, e pela coleção L&PM Pocket em 2001).

O presidente da Bolívia, general René Barrientos, que deu a ordem para matar o guerrilheiro, foi carbonizado na queda de seu helicóptero, em 1969. Em 1970, o tenente Eduardo Huerta morreu em um acidente de carro. O coronel Roberto Quintanilla, que exibiu o cadáver de Guevara a fotógrafos e jornalistas, tombou com dois tiros no peito em Hamburgo, na Alemanha, em 1971. O tenente-coronel Andrés Selich, que preparou a execução, não resistiu ao tratamento que recebeu dos torturadores leais ao ditador da hora, o general Hugo Banzer, em 1972. O general Juan José Torres, chefe do Estado-Maior e um dos que decidiram pela solução radical, foi assassinado em Buenos Aires, onde estava exilado após sua deposição da presidência boliviana, em 1976. No mesmo ano, o coronel Joaquín Zenteno Anaya sofreu um atentado fatal em Paris.

Em 1981, o coronel Gary Prado, capitão da companhia A na época da guerrilha, ficou paraplégico por causa dos tiros que levou durante um protesto dos petroleiros em Santa Cruz de La Sierra. O sargento Mario Terán, autor dos disparos que mataram Guevara, vagueia pirado por Cochabamba. O segundo-sargento Gregório Santillan Merubia, que improvisou um penico para o prisioneiro da escola de La Higuera, não acredita em bruxas. Nem no santo, nem no justiceiro.