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20230821

...Até a última ponta



A turma que manda e desmanda em Florianópolis tem uma ideia de desenvolvimento urbano muito peculiar. Nove em cada dez obras públicas priorizam o transporte individual. A outra ameaça alguma área verde. É o que está acontecendo na Ponta do Pitoco. Parte dela começou a ser cercada por tapumes para receber os ranchos dos pescadores desalojados pela construção da nova ponte da Lagoa da Conceição, ali perto. O espaço restante vai sofrer uma revitalização completa.

O contrato, assinado em julho, é de R$ 1,87 milhão, com prazo de 12 meses para conclusão. A empresa vencedora da licitação não tem site. De acordo com o endereço listado nos serviços de identificação de CNPJs, funciona em uma rua sem saída no bairro Forquilhas, em São José. Nos canais de transparência da prefeitura, não foi possível encontrar o edital na íntegra para mais detalhes. Talvez esteja escondido sob algum link, mas é para ir atrás disso que jornalistas ganham mal.

Até porque o ponto aqui não é investigar o processo, e sim lançar um olhar mais amplo para tentar entender o contexto. Há uma necessidade urgente: instalar os pescadores. E uma urgência desnecessária: mexer na Ponta do Pitoco. Erguer meia dúzia de barracos em uma extremidade para guardar canoas e redes não deve incomodar quase ninguém. O mesmo não dá para dizer de descaracterizar o lugar com intervenções que tecnocratas gostam de chamar de melhorias.

O projeto divulgado pela prefeitura prevê quadra de beach tennis, pet place e playground. O que a computação gráfica não mostra é que a Ponta do Pitoco tem o encanto que tem justamente por ser como é. Apenas uns 300 metros de gramado arborizado à beira da lagoa com uma rampa para jet ski e pequenas embarcações, onde crianças já brincam, jovens já se divertem, cachorros já correm e adultos já encontram variadas maneiras de passar o tempo, sobretudo sem raquetes.

O conselho de Desenvolvimento do Leste da Ilha (Codeli) aprovou tudo em assembleia geral no dia 4 de julho. Como a entidade em tese representa os interesses das comunidades envolvidas, qualquer reclamação posterior vira papo de haole que não conhece os anseios locais. Ainda assim, não deixa de ser triste ver que nenhum cantinho de Florianópolis está a salvo daqueles que, em nome de um progresso cada vez mais excludente, querem revitalizar o que já é cheio de vida.

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20230508

A solidão da mãe normal



Um espectro ronda as mães de uma certa burguesia florianopolitana – o espectro dos banheiros que os(as) filhos(as) frequentam. Nem cinto de segurança no banco de trás do carro, tampouco merenda sem fritura ou refrigerante, muito menos depressão infantil: nada as atormenta mais do que a chegada da fase em que a sociedade começa a tratar suas crias como seres aptos a fazer xixi e cocô sem a supervisão de um adulto de confiança. De preferência, elas próprias.

Seria por questão de higiene? Exagero, pois nessa idade meninos e meninas já sabem se limpar – e se ainda não sabem, aí é que as mães deviam se preocupar mesmo. Medo da loira do banheiro? Bobagem, elas são as primeiras a falar para as crianças que isso é lenda urbana. Prevenção ao bullying? Paranoia, o que acontece no sanitário permanece no sanitário. Por mais que se especule algum motivo razoável, só a pedofilia justifica esse temor quase patológico.

Parcela significativa de mamães de pimpolhos que estudam em escolas particulares entram em pânico apenas em pensar que, longe delas, eles podem estar sentadinhos na privada sozinhos, à mercê de algum colega mais velho e/ou maldoso. Bem, se o Enzo ou a Valentina correm esse risco, talvez seja o caso de cogitar matriculá-los em outro colégio. Além disso, pesquisas apontam que na maioria esmagadora dos casos o abuso de vulnerável é cometido por parente ou conhecido.

Elas exercem a maternagem com tanto zelo que não ignoram essa triste estatística. Tanto que algumas também ficam ressabiadas com as filhas tomando banho com os papais. Os dois ali, aquele chuveiro gostoso, ensaboa daqui, aquela curiosidade, esfrega dali, vai que pinta um clima. Aventar essa possibilidade desafia a relação conjugal a tal ponto que, das duas, uma: ou a senhora deve se separar desse monstro que chama de marido o quanto antes ou procurar ajuda especializada.

Eu poderia listar mais 22 argumentos para desmistificar o banheiro como ameaça à integridade física e moral de pequenos e pequenas. Mas vou parar por aqui e dedicar estas últimas linhas à mulher que se comporta como uma pessoa normal quando se trata de filhos. Você que se sente solitária no grupo de mães de alunos da mesma série, que era ridicularizada por brigar para não ter aulas presenciais durante a pandemia, que ri de nervosa das ideias de suas pares disfuncionais:

Continue assim.

E, nunca, jamais, em hipótese alguma, considere acompanhar seu moleque no banheiro masculino. Porque se eu estiver lá, vou achar que é você que quer abusar de mim.

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20230403

Uma outra Florianópolis é possível



Ainda bem que abortei a edição da terça anterior para esperar por Gilberto Gil. Porque estava saindo um texto amargo, o avesso do que se propunha a ser uma celebração à capital catarinense na semana de seu aniversário. Apesar de comemorar 350 anos com uma cabecinha de 349, a cidade é muito mais do que as gentes estúpidas & hipócritas e as pessoas nefastas que a comandam. O show dele no domingo reforçou a sensação de que uma outra Florianópolis – inclusiva, colorida, engajada, poética, alegre – é possível.

Eu já tinha percebido uma vibe parecida na tarde de sábado com Brisa Flow. Ela, Gil e mais um monte de atrações faziam parte da programação da Maratona Cultural, quatro dias em que a cidade é inundada por arte e cultura, a maioria gratuitamente. Embora não seja o público-alvo da rapper mineira de origem indígena e nem conhecesse direito sua obra, me senti em casa: cheguei já na brisa e curto o flow desde antes de ser modinha. Aí foi fácil me integrar à plateia na escadaria do Rosário de tantas lembranças.

Acompanhada apenas por um notebook e um mixer que ela mesma pilotava, a moça rimou como se fosse uma popstar. Eu devia ser um dos únicos que não sabia cantar nada, anotando pedaços de letras para pesquisar o nome das músicas. Assim, descobri “Sonhos com Serpentes”, “Jogadora Rara”, “Cerquita”, “Fique Viva” e “Noites de Amor e Guerra”. Em alguma delas, ao citar mulheres, negras e originárias, um magrão ao meu lado, mais pálido que eu, surtou e começou a gritar “é tudo nosso”. Eu ri. A turma em volta tolerou.

No dia seguinte, Gil fecharia o evento a partir das 19 horas. De graça. Ao ar livre. Imagine a multidão: tinha o triplo. A fila para se aproximar do palco armado na Paulo Fontes, defronte ao antigo terminal de ônibus, dobrava a Praça XV. Mas não deu nem tempo de bufar, em menos de 20 minutos eu e minha garota estávamos no local. Quer dizer, no Miramar, a uns 300 metros da estrutura, o máximo que nos embrenhamos sem precisar roçar em outros corpos suados e poder tomar um chopinho na paz.

Foi lindo. Digo isso com a autoridade de quem não o viu direito e mal e porcamente conseguiu ouvi-lo por estar muito longe. Havia todo um clima porque na semana que antecedeu o show a Câmara local negara o título de cidadão honorário a Gil. A rejeição transformou o que seria uma homenagem protocolar – positiva para os doutos vereadores, insignificante para o artista – em notícia nacional. Em protesto, até um “baseadaço” entre a terceira e a quinta música foi programado pelo WhatsApp.

E Gil simplesmente (perdão pelo meu português castiço) cagou para tudo isso. Montou um repertório à base de reggae (“A Novidade”, “Não Chore Mais”, “Vamos Fugir”, “Esotérico”), forró (“O Xote das Meninas”, “Só Quero um Xodó”, “Esperando na Janela”) e hits mais manhosos (“Drão”, “Palco”, “Andar com Fé”, “Nos Barracos da Cidade”) e correu para aquele abraço. Para onde olhávamos, tinha gente de tudo quanto é cor, idade, classe social, gênero e, tomara, ideologia se divertindo.

Na saideira, “Toda Menina Baiana”, aproveitamos para escapar para o Bugio. Após uma breve escala em meio à juventude alheia à segunda-feira, esticamos o que restava do nosso vale-night em casa, desfrutando o que deus deu, o que deus dá.

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20230224

Foi um streaming que passou em minha vida



Seria “o maior Carnaval de todos os tempos”. Superaria até o de 1919, quando o povo tomou as ruas para celebrar o fim da gripe espanhola. Agora, a festa entraria para a história por ser a primeira após termos nos livrado não de uma, mas de duas pestes: a epidemia que impediu sua realização por dois anos e aquela aberração. Como eu não precisava de nenhum pretexto para curtir o momento, saí no sábado à tarde vestido de acordo com minha falta de imaginação. Fui todo de preto.

Da pracinha dos bombeiros já se escutava a vibração que vinha do miolo do Centro de Florianópolis. De longe, as batidas e graves se misturavam, formando uma maçaroca sônica indefinível. Ao me aproximar da origem do som, nas imediações do teatro Álvaro de Carvalho, a sensação era igual, só que em volume muito mais alto. Não consegui discernir se o que rolava era funk carioca, sertanejo ou algo em torno disso remixado como um trance difuso.

Atravessei a multidão a caminho da escadaria do Rosário, onde se concentrava o bloco da categoria profissional que tive a graça de escolher. Ali eu sabia que encontraria minha gente & agregados com interesses afins, ainda mais porque o abadá vermelho trazia o Frank desenhado. Mal comecei a desfilar meu carisma pelos degraus e comecei a esbarrar com rostos familiares. Um veterano que eu não via desde a época da universidade riu do meu figurino. Respondi que andava fantasiado o ano inteiro.

A cada passo, um abraço, um sorriso, uma palavra de gentileza. De amigos com quem eu não cruzava havia décadas a conexões estabelecidas em situações específicas, de ex-colegas de redação a figuras das quais não me lembrava o nome, de desconhecidos íntimos a contatos perdidos em alguma troca de celular; todos se desvencilhavam de mim com a mesma frase: “Bom te ver.” Sendo que muitos provavelmente só vão me rever no próximo Carnaval.

A tão anunciada apoteose da folia, a dissipação sem limites, a liberação de tensões represadas e demais clichês anímicos se traduziam em uma explosão de afetos que, para mim, beirava o fraternal. A despeito da ebulição hormonal típica da ocasião, achei que as pessoas estavam mais propensas a ser mais queridas do que sexies – ou ambas, aumentando um poder de sedução que ia além da atração física. Talvez tenha sido apenas o tipo de apelo que o tiozinho aqui emanava.

Contente com a acolhida, continuei descendo e refletindo. A prefeitura fez o que podia para atrapalhar, criando um clima de terror contra um inimigo armado com chope e glitter. Fechou acessos com tapumes, impôs hora para terminar (depois revogada), reforçou a repressão a título de segurança. Nada disso conteve uma manifestação espontânea de alegria, de descarrego, de revitalização da parte central da cidade que nenhuma política pública ou projeto privado jamais será capaz de instituir.

Parei para brincar com minhas sistas (elas sabem quem são) e fui recebido com o carinho e a cumplicidade de sempre. Eu me sentia confortável com a companhia, o ambiente e o repertório defendido por uma bandinha em um palco no sopé. Porém, ah, porém, como cantava Paulinho da Viola, de repente o samba e o axé deram lugar a “Ilariê” e “Uni Duni Tê”. Não tenho o menor saco para música de criança em agito de adulto. Encarei como um sinal.

Tentei relativizar, estava todo mundo bêbado e tal. Lá pelas tantas, trombei com uma repórter com quem trabalhei, uma moça com idade para ser minha filha. Conversamos amenidades, aquele papo-furado inofensivo que denota maturidade, e seguimos adiante. Na despedida, em vez de expressar sua felicidade por ter me visto novamente, ela disse:

— Aproveita aí.

Era a mensagem que eu esperava. Subi correndo e voltei para casa. De domingo para cá, estou me esbaldando com o bloco Unidos do Streaming.

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20230217

Nossa bandeira nunca será vermelha



Hoje é o 24º dia do ano da graça de 2023, verão bombando, e a autoproclamada capital turística do Mercosul apresenta condições impróprias para banho em 43 dos 87 pontos analisados de suas praias.

Hoje é o 24º dia do ano da graça de 2023, verão bombando, e a rede pública municipal de saúde da autoproclamada capital turística do Mercosul já atendeu mais de 3 mil pessoas com diarreia.

Hoje é o 24º dia do ano da graça de 2023, verão bombando, e as autoridades da autoproclamada capital turística do Mercosul apontaram um vírus encontrado na água de um rio que desemboca em uma das praias mais movimentadas da cidade como o responsável pela epidemia.

Hoje é o 24º dia do ano da graça de 2023, verão bombando, e o mercado, a imprensa e as forças produtivas da autoproclamada capital turística do Mercosul respiram aliviados: a culpa não é da poluição provocada pela combinação de ocupação desordenada e saneamento precário.

Todos brindam à descoberta, satisfeitos e com seus regos assados.

20220923

A casta só tem mais dinheiro



No anoitecer de sábado fui parar em um supermercado na área considerada nobre do centro de Florianópolis. Não é um estabelecimento que a classe social à qual pertenço permite que eu vá com frequência. O que me levou até lá foi a tentativa desesperada de aplacar com alguma guloseima a fome da carne que me é negada. Se não conseguisse nada para mimar o corpo, pensei, eu poderia alimentar a mente nutrindo o bichinho de estimação que substituiu o rancor depois que amadureci: o recalque.

O lugar é uma delícia. Em suas prateleiras resplandecem iguarias, fiambres, molhos, conservas, temperos e uma infinidade de produtos importados que não se encontra em nenhum outro concorrente local. É também um perigo. Um queijo francês aqui, um chocolate suíço ali, um pinot noir para acompanhar, e o cliente sai com uma sacolinha quase do valor do salário do caixa que registra as compras. Todos ficam felizes. Um, pela sua condição. Outro, pelo emprego.

Eu vagava pelos corredores cobiçando itens mais caros que uma cesta básica quando uma agitação nos fundos da loja interrompeu meu devaneio platônico-gastronômico. Era um ruidoso grupo de umas 30 pessoas, a maioria senhoras, postado em frente à confeitaria. Fingi que estava interessado em uma baguete semi-italiana na padaria ao lado e perguntei à atendente o porquê do aglomero. “Esse movimento aí é por causa da promoção”, respondeu ela.

A garota explicou que o preço de todos os doces do balcão caía pela metade meia hora antes de o supermercado fechar. “É que não abrimos aos domingos, daí perdem a validade”, completou. Deixa eu ver se entendi direito: aquele monte de representantes da burguesia estava esperando um tempão para pagar menos por bolos, torteletes, donuts, carolinas, folhados, rocamboles, queijadinhas e quejandos? Ah, de jeito nenhum que eu vou deixar de testemunhar isso!

Não me arrependi. Foi um espetáculo digno de uma ópera-bufa. Vovós que deviam ter mais carimbos no passaporte que eu na carteira de trabalho se empurrando, se acotovelando como a plebe nas liquidações dos atacarejos. Algumas não se continham e, com a fineza típica da elite floriputa, fiscalizavam os pedidos de quem havia chegado primeiro na fila. “Essa vai tirar a barriga da miséria!” “Ei, deixa um pouco para os outros!” “Tomara que sobre daquele que o Júnior adora.”

Maravilhado com o comportamento peculiar da freguesia, me mandei de mãos vazias e com a autoestima transbordando.

Aquela casta vive arrotando meritocracia, mas só tem o mérito de ser bem-nascida. Visita mais países que eu, mas não conhece nem a cidade onde mora como eu. Come em restaurantes estrelados, mas jamais experimentou os sabores que já provei. Não precisa fazer contas no final do mês, mas não conquistou o que conquistei. Dirige carrões, mas não lê livros tão bons ou ouve tantas músicas lindas quanto eu. Acumulou bens para envelhecer sem preocupações, mas eu amo e gozo mais.

Uma gentalha que não é nem nunca será melhor que eu. A única coisa que tem mais do que eu é dinheiro. E dinheiro eu ganho.

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20220607

A cigarra é a formiga (ou vice-versa)



Era uma vez uma formiga e uma cigarra que moravam no Rio de Janeiro. Como na antiga fábula, uma trabalhava no verão enquanto a outra cantava o ano todo.

Por mais alta que estivesse a temperatura, a formiga passava o dia inteiro carregando folhas da rua para o formigueiro. O crepitar dos gravetos secos no terreno onde ia buscar alimento, a algazarra das irmãs diante de um canudo melado de refrigerante caído no caminho, mesmo as imprecações que, mentalmente, rogava contra os impostos leoninos; tudo era abafado pelo chiar incessante e estridente da cigarra. E assim cada uma ia seguindo seu destino, sem maiores questionamentos.

O que Esopo não conta é que havia outra formiga e outra cigarra – em Florianópolis. Como suas congêneres cariocas, as duas viviam naquele ramerrão.

Descendente das oligarquias manezinhas, a formiga já nasceu funcionária do Estado em regime integral e dedicação exclusiva. Desde que se lembrava, carregava folhas entre repartições e gabinetes. Tinha direitos, licença-prêmio, gratificações, abono-qualquer-coisa. Prestes a ser promovida por tempo de serviço, um pensamento a inquietava com uma frequência crescente: não fez metade do que imaginava que faria e fez o dobro do que jamais imaginou que fosse fazer.

A cigarra era o oposto. Trocara uma promissora carreira corporativa na metrópole para se dedicar à música e ao desapego na Ilha da Magia. Não teria chefe, mas não teria salário. Não teria horário, mas não teria férias. Não teria muito dinheiro, mas não teria muitas despesas. Ao se estabelecer na cidade, porém, descobriu que seu carma envolvia uma dose bem mais generosa de estoicismo: não teria nem metade do que sonhou pelo dobro do que podia bancar.

Encerrado o verão, as perspectivas mostravam-se desoladoras para a cigarra. Além de ninguém estar interessado em seu repertório autoral, o mercado de covers estava cada vez mais fratricida. Os bichos se matavam para sobreviver entoando canções de Kid Abelha, Pato Fu, Cachorro Grande, Ratos de Porão e demais espécimes da fauna pop por cachês que geralmente não passavam de “mídia” (um cartaz padrão com o nome da atração escrito com pincel atômico) e “camarim” (um banheiro para trocar de roupa).

Em uma noite fria, a formiga foi ver o show da cigarra. Entrou, pediu uma bebida e ficou encostada no balcão, avaliando o (fraco) movimento. Quanto pior, melhor para suas intenções. Negociou sua saída do funcionalismo e comprou o bar por uma ninharia. Ela não trabalhava só porque não sabia cantar. Era porque ninguém pagava – com razão – para ela cantar. Sendo dona do lugar, convocaria a si própria para subir ao palco. Não pelo talento, muito menos pela grana, e sim pela realização.

A cigarra também estava decidida: iria se inscrever em um concurso público.

Na mesma época, em uma tarde especialmente quente em Copacabana, a formiga local se encheu.

— Já estamos no meio do ano, não tem mais espaço para folha nenhuma lá em casa e nada de esse calor ir embora! — protestou.

Sem parar de inflar seu abdômen ao ritmo de “Grilo na Cuca”, a cigarra retrucou:

— No Rio não tem inverno…

Pois é, em Florianópolis tem.

Moral da história: A frustração é a mãe da resiliência.

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20220215

Nota de pesar



É com imensa consternação que confirmamos a remoção do chuveirão da loja famosa pela fachada e pelo ativismo do seu dono das areias cálidas da praia de Canasvieiras, em Florianópolis. Com dois dias de atraso em relação ao prometido, o empresário patriota transferiu o equipamento cívico-sanitário para outro ponto do litoral. Porto Belo (SC), onde um ex-militar disfuncional obteve 75,92% dos votos válidos no segundo turno de 2018, foi o local escolhido.

Durante o período que permaneceu na capital catarinense, o aleijão paisagístico dividiu opiniões sobre estratégia publicitária, tolerância estética e concessão de espaços públicos. Foram 43 dias de sol, paixões, sal e corpos isentões lavados pela água daquelas duas duchas liberais made in China. Na última “polêmica” (e bota aspas nisso) que esteve envolvido, a ligação à rede de energia elétrica apresentava irregularidades – nada que ofuscasse seu brilho como sensação do verão florianopolitano.

Já deixou saudade.


(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)

20220109

Um monumento ao estado mínimo



As principais casas noturnas do loteamento anteriormente conhecido como Jurerê Internacional anunciam a programação do verão. O sertanejo impera. Eu não entendo um monte de coisa envolvendo dinheiro, classe social e gosto, mas a maior atração não natural da estação em Florianópolis não aparece em nenhum outdoor da rodovia que dá acesso ao Norte da Ilha de Santa Catarina nem cobra ingresso. Basta seguir reto toda vida até a praia de Canasvieiras, onde em 21 de dezembro foi inaugurado um chuveiro de uma loja famosa pela fachada e pelo ativismo de seu dono.

Tudo na obra é emblemático e impressionante. De perto, é bem mais alta do que as fotos de divulgação sugerem. Dentro, um cidadão de bem de estatura mediana em pé com os braços esticados para cima fica longe de alcançar o teto. A estrutura repousa sobre o aterro que a prefeitura improvisou em 2016 para impedir que o Rio do Brás, poluído por ligações de esgoto irregulares, desemboque no mar. Ao lado, banheiros químicos (sem relação com a marca) completam o serviço. E, coroando a paisagem como uma Capela Sistina da distopia pós-capitalista, o formato.

De acordo com a autoridade competente, houve uma licitação para a instalação do equipamento, essa licitação foi vencida por uma empresa e essa empresa negociou a exploração comercial do equipamento com a loja famosa. Quem quiser mais detalhes deve aprender raspagem de dados, porque uma simples pesquisa no site da prefeitura não retorna resultado algum. O que se sabe até agora é que o protótipo inicial teve que ser reduzido de nove para seis metros quadrados e de quatro para dois chuveiros e, está na cara, não existia nenhuma exigência estética quanto ao projeto.

Antes de reclamar do estilo arquitetônico que caracteriza a loja famosa reproduzido sobre a areia, o florianopolitano mais comedido se lembra que em temporadas passadas já viu chuveiro em forma de choperia e agradece aos céus por alguma fabricante de camisinha ainda não ter se interessado pelo negócio. Como ação publicitária, é um sucesso: três dias depois de aberto à população, amanheceu pichado. O dono ativista atribuiu a “desordem e destruição” à extrema-esquerda e mandou repintar. Na mesma tarde, já estava tudo branquinho de novo.

Ninguém usou o polêmico chuveiro durante os 43 minutos que dediquei à contemplação de sua magnificência. As pessoas saíam do mar, passavam em frente, olhavam e continuavam o rumo. Três camelôs, alheios ao desinteresse geral, aproveitavam a sombra da construção. Aí resolvi bater umas fotos para ilustrar este relato. No mesmo instante, um casal tirou uma selfie com o troço ao fundo. Em seguida, uma mulher e uma criança fizeram o mesmo. De repente, eu só ouvia o clique dos celulares rivalizando com a cacofonia das caixinhas de som. Era como se eu que houvesse deflagrado o processo.

Saí correndo, apavorado. Enquanto me culpava por fazer meus semelhantes perderem a vergonha do ridículo, pensei no futuro. A previsão é de que o equipamento permaneça na praia até o final de janeiro. O dono ativista afirmou já ter recebido pedidos para repetir a ação por todo o litoral brasileiro. Espero sinceramente que reveja seus planos e, com a boa vontade da administração municipal, fique por ali em definitivo. Até o dia em que o Rio do Brás reivindicar seu curso natural e só restem ruínas, como um monumento à civilização que normalizou a barbaridade.



PS: Embora careçam de checagem os rumores de que quem toma banho no supracitado chuveiro imediatamente começa a acreditar em cloroquina e em meritocracia, não me arrisquei.

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20210813

Santa Catarina é (também) o Brasil de Mafra



O catarinense não tem um dia de paz. A fedentina das biografias decompostas no sábado ainda empesteava a paisagem quando saiu o resultado da votação da PEC do voto impresso: 14* dos 16** deputados federais do estado disseram sim à palhaçada. Significa que, se dependesse da bancada de Santa Catarina na Câmara, a proposta seria aprovada com 87,5%, superando com folga os 60% necessários.

Mas nem tudo é retrocesso no estado alinhado até a alma com discussões delirantes, esdrúxulas, anacrônicas & contraproducentes. Existe outra Santa Catarina, esperta, contemporânea e potente. Que sofre, esperneia, chora; tenta, erra, teima; acredita, cria, sonha. Sobretudo, que resiste. Essa Santa Catarina se expressa no providencial single Brasil, recém-lançado por Mafra. É a música do – seu, meu, nosso – momento.

Como a quantidade de ouvidos que acompanha o pop catarinense é inversamente proporcional ao talento que dela abunda, cabem algumas informações sobre autor e obra. Paraense radicado em Florianópolis desde 1992, Jean Mafra está no corre da arte faz tempo. Antes de se aventurar apenas com o sobrenome, contou umas histórias, viveu outras com a banda Samambaia Sound Club. Nunca deixou de cantar.

Brasil integra o primeiro disco assinado apenas com seu sobrenome, Ainda, a sair em novembro. É um sambinha torto, sufocado, quase constrangido por sugerir alguma graça enquanto se debate sob versos inconvenientes, defendidos também por Juliana D Passos, Bárbara Damásio, Alex Sant’anna e Michelle Mendez (da banda Mandale Mecha, outra boa notícia de Santa Catarina que você conheceria se lesse o Rifferama).

No clipe, a miséria diagnosticada pela letra é ilustrada por um inventário que nos define como nação. Desmatamento, tricampeonato mundial na copa de 1970, Médici, campanha pelas Diretas Já, praias, rebeliões, repressão policial, fé, parada militar, crianças negras dançando, fuscas, blocos afro, Figueiredo, enterro de Tancredo, Geisel, AI-5 no jornal e protestos: tudo tão verde e amarelo quanto o parangolé vermelho sustentado pelo cantor.

De contraste em contraste, emergem luta e esperança. A mesma terra que se vangloria de seu sistema de castas, das réplicas da Estátua da Liberdade e dos prédios mais altos do hemisfério sul é capaz de gerar um artista desses. A Santa Catarina redimida por Mafra em Brasil me representa.

*Seriam 15, não fosse a trapalhada de uma parlamentar – que prontamente foi às redes culpar o sistema e reafirmar sua crença na cloroquina auditável.

**Adivinhe de que partido é o único deputado a votar contra.

20210810

Santa Catarina é o Brasil do Brasil

O herdeiro. O empresário. O empreendedor. O funcionário público. O liberal concurseiro. Todos cidadãos de bem que choraram a perda de parentes e amigos para a covid. Todos endividados. Todos babando pela selfie que comprometerá a vida de seus descendentes. Como bots personalizados em uma massa disforme de carne, ferro, osso, borracha, sangue, graxa e tadalafila, todos participaram da procissão motociclística no último sábado em Florianópolis.

Os guerreiros se viraram. Quem não tinha moto para engrossar o cortejo pelo asfalto, desfilou pela baía de jet ski ou de lancha. Quem não tinha veículos terrestres ou marítimos, enfrentou as varizes e ficou de pé pelo caminho para aplaudir a passagem do rebanho movido a gasolina e ressentimento. Quem não tinha estômago para se misturar, chacoalhou as joias das sacadas. Valia tudo para prestigiar a aparição do depositário de quase 65% dos votos não impressos da capital no segundo turno de 2018.

As estimativas de público variaram conforme o nível de descolamento da realidade da narrativa. Observadores isentões calcularam em cerca de 40 mil CPFs (8% da população local) – um chute modesto, pois não considera os CNPJs. “Nem o ex-presidiário, nos áureos tempos, recebeu tanto calor humano”, ufanou-se um colunista tão admirado com a devoção que nem notou o ato falho. Não importa o tamanho, a verdade é que o número de cabeças superou os 271 átomos da Terra.

Também não interessa o que ele veio fazer. No dia anterior, em Joinville, havia sido bajulado por pesos-pesados do PIB estadual e condecorado pelos bombeiros. Não pelos empregos que gerou, pelos investimentos que anunciou, pelas obras que concluiu ou por qualquer ato humanitário. Para não dizer que não acenou com nenhum gesto que justificasse a hospitalidade da maior cidade catarinense, onde conquistou 83% dos votos na última eleição presidencial, homenageou um ministro do STE.

O sentimento que a maioria dos catarinenses nutre por ele é puro e incondicional. Nunca se decepciona, porque dele nada espera nem exige. No estado que lhe conferiu a segunda maior votação proporcional em urnas eletrônicas (76%), sua perturbada presença basta. Em troca, nestes dois anos e sete meses organizando a agenda e contando piadas ruins no Alvorada, já visitou Santa Catarina dez vezes. Em cada uma, renovou-se a cumplicidade entre os fiéis e o líder.

Aqui, ele se solta e deixa qualquer resquício de civilidade para trás. A burguesia se identifica, a imprensa aplaude e as instituições continuam funcionando. Seu exemplo inspira cada puxa-saco, cada parasita, cada vergonha que tornou a europeia Santa Catarina alvo de chacota e escárnio, um pária entre os estados como o Brasil é entre as nações. Aqui, Jair se sente livre para ser mais Jair: toma conta do controle remoto, usa o banheiro de porta aberta e não dá descarga. Ele está em casa, como se fosse da família.

20210317

Geografia afetiva do Centro em tempos de pandemia e desalento



A coisa que mais sinto falta da parceria público-privada em que trabalhava é do bordejo pelo Centro. No intervalo para o almoço, saía andando da Mauro Ramos, na altura do Instituto Estadual de Educação, até onde o acaso me levasse e o relógio permitisse. Nunca foi pela paisagem. O caminho era a prática.

Ao meu redor, o que a precariedade ainda não havia deteriorado a pandemia tratou de destruir. Tapumes por toda parte. Portas fechadas, portas fechando. Primeiro a padaria da esquina da Hercílio Luz com a Tiradentes. Depois um quilão de comida natural, uma filial de fast-food, uma barbearia. Muitas jamais vão reabrir.

Mas são apenas CNPJs para mim. Os bares da Victor Meirelles, não. De cada um guardo contatos que só rolavam naquela circunstância, afetos construídos ali que não se reproduziriam em outro lugar. Relações com quem o distanciamento social me afastou por completo porque nossa afinidade não funciona em 4G.

Não sei como será quando pudermos nos encontrar de novo. Não sei nem se será no Centro Leste, revitalizado noite a noite pela mocidade de 20 a 50 anos que se espalhava em um vaivém de vozes e intenções pelas ruas. A repressão tentou desmontar a espontaneidade, o vírus conseguiu.

Na Praça XV, eu cruzava com namorados, crentes, ambulantes, maconheiros e espíritos apaziguados pela temperança dos que nada temem porque nada têm. Seguia pelo calçadão da Felipe até a “esquina democrática” com a Deodoro, saudava São Francisco e dobrava para a Conselheiro Mafra.

Aí proibiram de provar os queijos na feira do Largo da Alfândega. Tudo bem, sem problemas, podia me distrair fazendo outro trajeto. Pegava a Trajano e subia até a igreja de Nossa Senhora do mesmo Rosário da escadaria que lhe dá acesso. O carnaval nos seus degraus foi nossa última folia sem a sombra da morte.

A fantasia rasgada revelou a miséria. Sob as marquises, CPFs à beira do cancelamento pela total ausência de perspectivas disputando terreno com os mendigos. A vergonha de pedir esmola estampada na cara, o olhar entre a derrota e a raiva. Gente que fez tudo certo e deu tudo errado. Meritocracia às avessas.

Desempregados que se tornaram desalentados que se tornaram descartados. Se o trabalho liberta (Auschwitz, presente!), a loucura muito mais. “Deus não paga pau pros lóki”, ensina Criolo, mas o diabo frauda o teste, contorna a febre e simula a glória. Não julgo, não tenho nada a oferecer além de um Mano Brown insinuante: “Êta mundo bom de acabar!”.

Jesus chorava, o mercado achava justo e eu via um futuro de relance. Talvez a única hipótese de ele ser diferente exija energia e vontade que estão sendo gastas para discutir “como cuidar da saúde e salvar a economia”. É um debate burro e cínico, que se alimenta da indefinição para manter tudo como está. Ninguém se importa se tu morrer, otário.

De volta à minha bolha, vou me mexer pela teia de carinho que me cerca. Ainda posso recusar a primeira vaga arrombada que aparecer. Com o amanhã eu me preocupo amanhã; grato por sobreviver, por acreditar no que acredito, por defender o que precisa ser defendido. Quero lembrar disso na próxima vez que for ao Centro.

20190214

Motorista passageiro



Virar motorista de Uber durante a semana da chegada do serviço a Florianópolis e escrever em primeira pessoa sobre a experiência foi uma das ideias mais simples e eficazes que já tive para uma reportagem. Eu ganharia uma bela história para contar e, quem sabe, uma nova carreira. Acontecesse o que acontecesse, o jornal pagava a conta. O carro era meu, mas o lucro – e a diversão – também seriam. A única preocupação, ser BANIDO do negócio após a publicação da matéria, mostrou-se um exagero. Três meses depois, um fotógrafo da redação precisou ir a Canasvieiras e não havia nenhum carro para levá-lo. “Chama um Uber”, ordenaram. Encerrei aquela corrida e nunca mais liguei o aplicativo. Não descarto voltar.

Caderno Nós #53, 29 e 30 de outubro de 2016 | 3663 palavras | 28 minutos

Poucas notícias despertaram tantas reações em Florianópolis quanto o anúncio, no início de setembro, de que a Uber em breve começaria a operar na capital catarinense. Todas as partes envolvidas com o serviço de transporte alternativo aberto para qualquer um se tornar motorista e sair por aí levando passageiros para cima e para baixo tinham alguma opinião. Taxistas vociferavam. Autoridades diziam que era irregular. O cidadão comum, quase que de forma unânime, saudava a chegada da empresa que, com tarifas mais baixas que táxi, já atuava em mais de 500 cidades no mundo inteiro.

Fiz a inscrição para saber como o negócio funcionava. No dia 12, 41 interessados e eu nos reunimos em uma sala da Acate, na SC-401, para uma aula de 40 minutos. Dois funcionários da empresa explicavam o que era preciso para virar um parceiro e começar a ganhar dinheiro: um carro de 2008 em diante, com quatro portas e ar condicionado, licenciamento do veículo e carteira de habilitação na categoria EAR (“exerce atividade remunerada”, emitida pelo Detran por R$ 134). Providenciei a papelada e esperei pela aprovação de meu cadastro.

No dia 19, participei de uma sessão de capacitação – a rigor, a exibição de um vídeo curto com pessoas descoladas e felizes dirigindo ou sendo conduzidas, bem diferentes de manés como eu e os 34 presentes. Após baixar o aplicativo no celular, aprendemos seus comandos e tiramos nossas dúvidas. Pode trabalhar no horário e dia que quiser. Parar também. Mas, a partir do momento que se aceita uma corrida, tem que ir buscar o cliente. Seremos avaliados pelos usuários. A média estipulada para Florianópolis foi de 4,7 estrelas, de um máximo de cinco. Após 25 viagens, quem tiver nota abaixo disso vai receber um e-mail com dicas. Mais 25, suspensão por 48 horas. Mais 25, banimento total.

No dia 26, minha conta foi ativada. No dia 28, recebi por SMS um convite para um “evento especial e exclusivo” para parceiros ativos marcado para a noite seguinte em local a ser divulgado. Era na mesma Acate de sempre, só que com mais de 400 pessoas (meus colegas), salgadinhos, refrigerantes, distribuição de um car holder (apetrecho made in China que fixa o celular na grade do ar condicionado do carro) para cada e a orientação de que ficássemos atentos, pois faltava muito pouco para a estreia da Uber em Florianópolis.

O serviço entrou em operação às 14h do dia 30 de setembro, uma sexta-feira. No sábado à tarde, resolvi fazer um teste. Fiquei online nas cercanias do Beiramar Shopping e em menos de 30 segundos já tinha passageiro para eu buscar: os namorados Nelson e Taís [nomes modificados, como todos deste relato], que iam da Trindade a um casamento em Santo Antônio de Lisboa. Na segunda-feira, eu entraria nessa vida para valer.


DIA 1 | Segunda, 3 de outubro – Comigo não tem balinha. Antes mesmo de a) pendurar o celular no car holder presenteado pela Uber, b) engatar o fio do carregador, c) acessar o aplicativo e d) apertar a tecla online, eu já havia decidido que desprezaria no mínimo uma das recomendações para prestar um serviço cinco estrelas. Meu negócio é levar gente para lá e para cá de um jeito rápido, seguro & agradável, cobrando bem menos do que um táxi por isso. Duvido que algum passageiro me avalie mal porque eu não lhe ofereci nada para chupar. Nem beber (segunda recomendação). Muito menos ler (terceira): vai que o freguês é como eu, que fica enjoado se lê com o carro em movimento.

Tenho algo muito melhor do que drops, água mineral ou revistas para transformar cada momento que passaremos juntos em uma experiência inesquecível para você, baby – e não estou me referindo à cultura, beleza, carisma ou modéstia impressionantes com que papai do céu me brindou. Meu diferencial é a sonzeira. Depois do ritual para começar a operar como motorista-parceiro da Uber à vera, espeto um pen drive com mais de 400 horas de música boa de tudo quanto é tipo. Mal conecto o aplicativo, pisca a telinha. Leonardo, Terminal Rita Maria. Deslizo o botão “aceitar viagem”. Só então ligo a ignição e parto de minha base, em Coqueiros, rumo ao Centro.

A chance de topar com uma blitz era grande. Em três dias de funcionamento na cidade, 15 carros haviam sido apreendidos pela guarda municipal por transporte irregular. A fiscalização se intensificava nos horários de pico. Locais como a rodoviária representavam alto risco de ter o carro cercado por taxistas e guinchado. Bom, qualquer treta eu mostro o crachá da firma e torço para que deixem a imprensa trabalhar. A paranoia preventiva se dissipou quando vi um gurizão acenando da extremidade oposta aos pontos de táxi. Na outra mão, segurava um celular. Ia para a Serrinha. Sentou-se ao meu lado e puxou papo.

Era sua primeira vez de Uber. Oficialmente, a minha também. Calouro de Administração na UFSC. Tinha ido votar em Joinville. O pai foi candidato a vereador. Elegeu-se. O assunto terminou antes dos 24 minutos que demoramos para completar os 12 quilômetros do trajeto. O passageiro seguinte chamava-se Victor. Veterinário. Fazia um ano que tinha uma pet shop na Trindade. O papo girou em torno do tema “a crise, é, não está fácil com esta crise”. Tinha pegado um Uber de manhã e aprovado, principalmente (CQD) pelo preço. Queria saber mais, se estavam rolando bastante corridas, se muitos carros estavam sendo recolhidos.

Fui obrigado a lhe confessar que o jornalista ali era eu. Ele perguntou meu nome completo. Falei. Ele fingiu reconhecer e garantiu que lia minhas matérias. Não conseguiu se lembrar de nenhuma até descer em frente a um prédio no Itacorubi. Interpretei seu cinismo como uma cortesia. Na portaria do mesmo prédio, peguei o caladão Anderson e o larguei no Centro. Voltei para a região para atender Mônica na Carvoeira. Com muito custo, me entendi com o mapa do aplicativo e achei a rua dela, uma quebrada sem saída. Parei no endereço solicitado e aguardei. Tentei contato telefônico via Uber, sem sucesso. A cliente cancelou a corrida.

Era o pretexto que eu queria para encerrar o expediente. A ameaça de repressão ainda pairava no ar. E não tinha uma balinha para aliviar a tensão.

Período: 17h20 às 19h11 | Viagens: 3 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 48min45seg | Kms: 24,53 | Féria: R$ 36,53


DIA 2 | Terça, 4 de outubro – Hoje eu vou dirigir de dia. De cara, um cancelamento no Centro. Não tive tempo de me lamentar, Thomas me requisitava das imediações. Acomodou-se no banco de trás. Pô, maior bandeira! Qualquer um que me visse perceberia que eu era motorista da Uber – a não ser que estivesse, sei lá, pagando uma aposta. Mas o cara era alemão. Casualmente e em português com forte sotaque, informou que em sua cidade, Munique, o serviço já está regulamentado. Ficou no Estreito, sem desconfiar do perigo que corremos.

A telinha não parava de piscar. E eu, de cruzar a ponte com Juliana (Shopping Beiramar-Centro) e Marcos (Coqueiros-Centro), em percursos nos quais rodei mais para buscá-los do que os transportando. Gabriela me acionou de um hotel na Avenida Hercílio Luz. Não deu as caras. Liguei para ela do aplicativo. Desta vez, funcionou.

— Sim, eu realmente chamei do hotel. Mas ontem vi um rolo no aeroporto, me contaram que era por causa da Uber. Agora há pouco, a Guarda Municipal passou aqui na frente. Fiquei com medo de dar problema para você, aí resolvi esperar no posto de gasolina do outro lado da rua. Vou aqui na frente, para não suspeitarem — explicou a bióloga da pequena São Manuel (SP) ao entrar no carro para participar de um congresso na UFSC.

Estela, a cliente que atendi no Itacorubi após carregar o quieto Diogo da Trindade à Lagoa da Conceição, teve o mesmo cuidado. Enquanto eu botava suas duas malas no bagageiro, sentou-se à direita do volante e anunciou o temido destino: aeroporto. Disse que viajava muito a trabalho (não o que fazia), usava Uber em outras cidades e sabia que o serviço estava tendo problemas em Florianópolis. Estacionei entre dois táxis no embarque do Hercílio Luz. Imediatamente, outro táxi parou em fila dupla, me trancando. À espreita, viaturas da polícia federal e da PM. Ferrou. Na verdade, pensei em outro verbo com “f”.

Coloquei-a sua bagagem no carrinho e me despedi a uma distância não tão longe que parecesse que tínhamos uma relação motorista-passageiro nem tão perto que sugerisse alguma intimidade. Saí ileso e com R$ 20,69, meu recorde até o momento. Pena que tive que voltar sozinho. Apesar dos insistentes chamados do local, não tive peito para aceitar nenhum. Não naquela vibe ruim. Seria brincar demais com a sorte.

A noite caiu e tirou a turistada da toca. André, baiano de Feira de Santana (Carvoeira-Mercado Público). Lucas, curitibano (Intercity Hotel-Beira-mar Norte). Marcos e Raquel, sul-matogrossenses. O casal embarcou no hotel Majestic ansioso para comer camarão na Lagoa da Conceição. Lá chegando, resolvi dar um tempo para ver se pintava alguma corrida. Uns dez minutos e surge Anja, de um hostel na Barra da Lagoa. Só podia ser uma gringa. Uma não, quatro valquírias alemãs que, em inglês, pediram para que eu as conduzisse até o cinema no Shopping Iguatemi. Foram a viagem inteira conversando na língua-mãe. Na saída, agradeceram com um “thanks”. “Danke”, retribuí, gastando todo o meu conhecimento do idioma germânico para fechar um ciclo que havia começado com um conterrâneo das louras.

Período: 12h02 às 20h52 | Viagens: 11 | Cancelamentos pagos: 2 | Duração: 3h3min14seg | Kms: 94,13 | Féria: R$ 131,66


DIA 3 | Quarta, 5 de outubro – Às 14h18, um dono de táxi no aeroporto comemora em um grupo do WhatsApp do qual faço parte que a PM está na altura do Shopping Iguatemi caçando carros da Uber. Detalhe, ele não sabe que estou nessa. Dou corda. Digo que toda a concorrência é saudável. Ele desdenha. Afirma que em pouco tempo os motoristas vão descobrir que o serviço vale a pena para os clientes e para a empresa, não para os parceiros. Que a Uber pratica dumping, cobra valores abaixo de mercado para quebrar todo mundo e depois impor suas taxas. Que se eu for preso, leva uma gelada para mim. Fico tão comovido com o empenho dele em me desanimar que adio minha jornada.

Eu já estava era de saco cheio com tanta marcação. Tomara que a noite me seja leve. Natália renova minha fé ao me contatar do Shopping Itaguaçu para ir à Agronômica. Dona de loja, senta atrás e diz que a crise está cada vez pior. Roberta e um casal de amigos, todos cariocas, vão do bar ao hotel sem sair do Centro. Claudio e Marco dividem a corrida iniciada na Tenente Silveira. Um descerá na Almirante Lamego, coisa rápida. O outro, só no Bom Abrigo. No caminho, Claudio faz a pergunta que eu estava esperando desde que estreei na função: “Que música boa, o que é?”. Sim, porque o som permaneceu ligado o tempo todo e ninguém havia reparado. Esclareço que é uma faixa do disco novo de Norah Jones, Day Breaks. Ele assente com a cabeça, satisfeito.

Entrego Leo e a namoradinha sãos e salvos na Serraria, em São José, depois de eles assistirem ao filme O Lar das Crianças Peculiares no Shopping Itaguaçu. Maria Julia aproveita que eu circulava pela região e me acompanha do bairro Ipiranga a Campinas. Meia-noite, está bom por hoje. Quase na esquina de casa, em Coqueiros, Marcelo me atenta. Kobrasol, do ladinho. Dou meia volta em busca de mais um trocado. Custo a achar a rua, passo direto uma, duas, três vezes pela quadra certa. É um casal. Simpáticos, aceitam minhas desculpas pela demora – e não hesitam em me sacanear.

Até então, minha avaliação mantinha-se cinco estrelas. Conferi quando cheguei em casa e a média havia caído para 4,91. Os lazarentos fizeram eu me deslocar para uma reles corrida de R$ 4,50 (a tarifa mínima, já descontada os 25% da Uber) e ainda baixaram minha nota. O lado bom foi que, ao fuçar as funcionalidades do aplicativo, descobri que havia dois comentários: “Norah Jones de trilha é sem palavras” e “Excelente pessoa!”. O serviço não revela a data nem o autor, mas um deles não era difícil saber de quem foi. Obrigado, Claudio.

Período: 21h48 à 0h02 | Viagens: 6 | Duração: 1h4min58seg | Kms: 42,26 | Féria: R$ 54,81


DIA 4 | Quinta, 6 de outubro – Quantas vezes idealizei a vida dos motoristas noturnos. Eles deveriam receber propostas irrecusáveis de insaciáveis deusas do prazer. Conhecer malucos de todas as espécies. Participar de aventuras absurdas no submundo. Enfim, lidar com o grotesco e o sublime, a miséria e a nobreza, as dores e as delícias de, como Shakespeare definiu em Macbeth, “uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”. Pois bem: é meia-noite cravada, estou há quase quatro horas na ativa e a coisa mais emocionante que me aconteceu até agora foi o carro ferver em pleno Morro do 25.

O responsável pela minha incursão ao local foi Stephan, um passageiro que encontrei no terminal de ônibus do Centro. Bailarino. Canadense. Três anos de Brasil. Um português melhor do que o meu. Morava lá no alto, em uma das últimas casas, com os pais. Na subida, a luz vermelha do painel do carro se acendeu. Olhei para o indicador de temperatura, no talo. No painel, a mensagem intermitente: “Desligue o motor, desligue o motor”. De jeito nenhum! Disfarcei, deixei o dançarino no seu destino e só parei em um posto de gasolina na Mauro Ramos.

O radiador estava seco. O frentista não detectou se o vazamento era no bocal ou na mangueira do reservatório, mas iria providenciar uma gambiarra que, prometia, permitiria que eu rodasse até em casa. Esperei o carro esfriar, completei a água e me mandei. Ana me aguardava em uma cervejaria.

— Ei, acho que já andei com você — disse o namorado dela ao me ver.

— Diogo, terça, Trindade-Lagoa?

— Isso! Vamos para aquela rua onde você me buscou naquele dia.

A lembrança do seu nome o tornou loquaz. Falou que trabalhava em uma empresa de tecnologia na Lagoa, que ele adorava Uber e que os taxista tinham mais era que se, er, ferrar. Surpreendido com minha memória, eu nem prestava atenção em seu discurso. Assim como não dei muita bola para três moleques e uma guria semi-embriagados que levei à boate 1007. Foi quando Rafael me chamou da Esteves Júnior. Cheguei lá, ninguém. Cancelei a viagem, assinalando a alternativa “cliente não apareceu”. Dez minutos e Rafael apita de novo, agora da pracinha em frente ao supermercado Hippo. Eram três caras.

— Rafael? — perguntei.

— Não, Rafael é nosso amigo que tem conta na Uber. Fizemos o pedido com o cartão dele — respondeu um deles.

— Vamos para a Tapera — completou outro.

Fiquei cabreiraço. E mais ainda quando, já dentro do carro, me perguntaram se o pagamento era efetuado só com cartão de crédito.

— É, não tenho dinheiro nenhum aqui — cortei, denunciando meu nervosismo.

Na alça de acesso ao túnel em direção à Via Expressa Sul, oh, não, os tiras! Quase torci para que fosse uma blitz. Se era, não notaram nada suspeito no meu carro que motivassse uma abordagem. Pelas conversas no caminho, saquei que meus clientes não passavam de honestos trabalhadores. O trio superou a marca de Estela, me rendendo R$ 26,68. Mas os 26 quilômetros sem passageiros da volta acabaram com minha alegria. Contando com a ida, eu havia gasto uns R$ 20 de gasolina. Baita lucro.

Período: 21h42 à 1h48 | Viagens: 8 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 1h35min29seg | Kms: 65,03 | Féria: R$ 86,78


DIA 5 | Sexta, 6 de outubro – As situações peculiares da noite anterior fizeram com que eu encarasse esta tarde, a despeito da certeza de que iria me incomodar com o trânsito do último dia útil da semana. Para encorajar os motoristas, a Uber realiza promoções que garantem no mínimo R$ 25 por hora em períodos de alta demanda. As condições são: ser cadastrado em Florianópolis (OK), inscrever-se para os descontos semanais (beleza), ter avaliação dos usuários superior a 4,8 (é nóis), fazer pelo menos uma viagem por hora (tamo junto), permanecer online por no mínimo cinco horas (depende da disposição) e aceitar pelo menos 70% das viagens.

Nesse último quesito é que eu me estrepo – ironicamente, por zelar pela qualidade do serviço. Pela minha lógica, não devo aceitar uma corrida se estiver no meio de outra. Porque assim vou deixar o próximo passageiro esperando muito, ele ficará descontente e economizará nas estrelas pela minha demora em atendê-lo. Se cancelar por ter cansado de me esperar, pagará a tarifa mínima e amaldiçoará a Uber por ter cobrado por um serviço que não foi prestado. Donde meu índice de viagens aceitas nunca ultrapassou os 60%.

Enquanto perdia tempo e dinheiro com Felipe do Pantanal ao Shopping Iguatemi, por exemplo, dispensei duas chamadas. Com Charles (João Paulo-Córrego Grande), mais três. Com Angela nem lamentei ter ignorado outras duas, tampouco com o fato de pedir que eu a levasse à arriscada rodoviária. Representante comercial de um laboratório farmacêutico e linda, a loura mignon inebriou o carro com seu perfume. Não me aguentei e lhe contei quem eu era e o que fazia ao volante. Achou a pauta sensacional. Interessada, perguntou quando a matéria seria publicada e me autorizou a usar seu nome verdadeiro. O namorado que ela iria visitar em Piçarras era um sujeito de sorte.

O gamer Augusto me trouxe à realidade rapidinho. Além de cabeludo, suado e com o cofrinho à mostra, ia para o Kobrasol. Atravessar a ponte no final de tarde de uma sexta corroborou minhas piores impressões sobre o comportamento do bicho humano no trânsito. Em um congestionamento, as pessoas furam fila, xingam, comportam-se como selvagens. Protegidas pelo anonimato (no caso, proporcionado pela lataria), têm atitudes que não teriam em nenhum outro contexto. Parece que estão na internet, de tão mal-educadas que se tornam.

Não tenho mais saúde, idade ou energia para isso. Já que estou no continente, vou parar por aqui. Opa, dois comentários inéditos: “Muito agradável!” e “Valeu pela ‘carona’, Emerson! :)”. Pensar que um deles pode ter sido de Angela provoca um bem danado em minha autoestima. Como homem é bobo.

Período: 14h18 às 16h30 | Viagens: 5 | Duração: 1h0min13seg | Kms: 38,58 | Féria: R$ 48,35


DIA 6 | Sábado, 7 de outubro – Nos e-mails da Uber enviados aos motoristas informando os dias e horários com maior procura pelo serviço, o espaço destinado aos sábados é sucinto. “O dia inteiro”, sintetiza. Não é exagero. A demanda reflete-se pela frequência. Rarissimamente o parceiro vai ficar circulando a esmo, sem passageiro para transportar. Comprovei isso na prática. Fui emendando uma corrida na outra, e o que é melhor: sempre com a origem seguinte próxima ao destino anterior. Começou com Luiz, no Centro, no início da tarde.

— Vamos para a Lagoa da Conceição, mas antes tenho que passar em um lugar.

Você manda, chefe. O tal lugar era uma pirambeira na Prainha. Ele falou para eu parar e esperá-lo, que já voltava. E desapareceu. Cinco minutos. Dez minutos. Quinze minutos. Esse cara vai me dar o cano, imaginei. Não, senão ele não teria deixado o moletom no banco ao lado. Com 17 minutos, deu sinal de vida.

— Embacei, desculpa.

E mais não disse nem lhe foi perguntado. Voltamos a conversar somente na sua rua, perto da igrejinha da Lagoa. Como quem não quer nada, ele comentou que era complicado achar um Uber pelas redondezas. Propôs que eu lhe desse meu celular, que me ligaria à noite para levar ele e a esposa ao show do Jota Quest no P12, em Jurerê Internacional. Aleguei que a Uber não permitia que o motorista combinasse viagens, sob pena de banimento. Notei que ele ficou um pouco desapontado. Aí me lembrei que eu tinha um exemplar de Pancadélico – CD lançado pela banda mineira em 2015 – que a gravadora me enviara, pois também cometo críticas musicais. Estava abandonado no nicho sobre o quebra-sol, lacradinho e tudo.

— Ó, para sua mulher. O único inconveniente é que a assessoria escreveu meu nome com pincel atômico na capa, tudo bem? — ofereci.

Seu rosto se iluminou por ganhar o mimo. O meu idem, por me livrar do mico. Estando bom para ambas as partes, desejei-lhe um excelente show e fui buscar Karine no centrinho do bairro. Ela me aguardava de mão dada com um baixinho parrudo. Eram cariocas, estavam na cidade para ele disputar um campeonato de jiu-jitsu no Instituto Estadual de Educação (IEE), no Centro.

A fortuna me sorria. Gabriele (Centro-Morro das Pedras), Christian (Campeche-Lagoa da Conceição), Jeferson (Lagoa da Conceição-Trindade), José (Córrego Grande-Floripa Shopping), Henrique (Primavera Garden-Canasvieiras), Tiago (Canasvieiras-Jurerê Internacional), Antonio (Jurerê Internacional-Canasvieiras). Estava escuro quando peguei a SC-401 no sentido Centro para gozar do merecido descanso. Foi, disparado, meu melhor dia.

Cheguei a desligar o som para que o AC/DC não atrapalhasse minhas reflexões no trajeto. Conforme o urubu havia praguejado na quarta-feira, o serviço era bom demais para o usuário e para a própria Uber, não tanto para os parceiros. De acordo com o que a empresa trombeteava nas sessões de capacitação, um motorista em atividade por quatro horas diárias, seis dias por semana, fatura em média R$ 1,8 mil mensais. Proporcionalmente, pelo tempo que trabalhei, renderia algo em torno disso. Só que o tanque bebeu quase a metade.

Concluí que, a título de remuneração complementar, estava razoável. Como em qualquer outra área, para ser bem-sucedido o parceiro deve se profissionalizar. Ou seja, estudar as rotas mais econômicas, operar durante os horários mais lucrativos e, principalmente, converter o carro para gás natural. Se a Uber não me banir por causa desse diário, pretendo continuar nossa parceria em regime diletante: talvez apenas aos sábados, uma outra noite nos dias de semana. É, não foi dessa vez que o jornalismo se livrou de mim.

Período: 15h20 às 21h45 | Viagens: 9 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 3h18min52seg | Kms: 115,04 | Féria: R$ 142,72

TOTAL
Viagens: 42
Viagens avaliadas: 35
Viagens 5 estrelas: 33
Cancelamentos pagos: 5
Faturamento: R$ 500,85
Combustível: R$ 230
Lucro: R$ 270,85

20120423

CAP 4 | Nem tudo é o que parece ser


A conversa com a “garota com olhos de caleidoscópio” – como Lennon carinhosamente apelidou Eli Heil – rendeu, mas não era exatamente o tipo de distração que os Beatles procuravam em sua excursão pelo terceiro mundo. O guia tranquilizou-os, garantindo que ia lhes mostrar um lugar onde, em tese, iriam se sentir em casa: a praia dos Ingleses, cujas versões sobre sua denominação perdiam-se entre imaginação, memória popular e tradição oral.

Os mais antigos juravam que piratas a serviço da velha Albion haviam fundeado no extremo noroeste da Ilha de Santa Catarina para atacar a sede do povoado de Nossa Senhora do Desterro, em 1689. Outra corrente acreditava que o motivo era um londrino ter sido o primeiro morador da área. O mais provável, no entanto, é que o nome seja uma alusão aos sobreviventes do encalhe de um submarino amarelo do Império Britânico nas suas águas rasas que ali se estabeleceram.

O fato é que, de inglês, o local reproduzia somente a animosidade com os argentinos, os primeiros a valorizarem o seu potencial turístico. Consta que Lennon, inclusive, ao se encrespar com um portenho por causa de uma nativa, teria dito para ele cuidar melhor do arquipélago das Falklands (“las Malvinas son nuestras”, esbravejou o hermano) em vez de dar em cima da mulher dos outros.

Bem diferente do suntuoso e nababesco resort na Ponta dos Ganchos em que McCartney já se refestela enquanto aguarda a hora de seu show em Florianópolis, as acomodações dos Beatles nos Ingleses não ostentavam nenhum conforto. O maior luxo da meia-água que os abrigou era a iluminação, a cargo de uma pomboca a querosene. Em vias de perder o autocontrole obtido em anos de meditação oriental, Harrison manifestou-se com a única palavra que poderia ser compreendida pelo monoglota que os acompanhava:

— Índia! — exasperou-se. — Pô, por que tu não disse antes, o istepô?! Tem uma carrada de índias aqui pertinho!

A estada na reserva dos Carijós só não foi totalmente frustrante por causa de um curió. O pássaro de plumagem sobrevoou os Beatles durante toda a trilha da banda pelos variados biomas do território aborígene. Enlevado pelo canto da ave, McCartney pegou o violão para transcrever a melodia e criou “Blackbird” – uma prova de que suas canções mais arrebatadoras vêm de forma espontânea, como se letra e música brotassem sem esforço algum da parte dele.

Índio mesmo, de cocar e tacape na mão, eles não viram nem nos folhetos distribuídos pelas simpáticas “carijozetes” na recepção. Não que se importassem com isso. Escolheram aquele país devido a Maharish Mahesh Yogi, e os sermões do guru indiano jamais mencionaram o fator silvícola como indispensável para alcançar uma consciência superior.

O guia é que estava inconformado. Rancoroso, torcia para que viesse uma construtora gaúcha, cercasse a bugrada ausente e em volta erigisse um loteamento cheio de requinte, glamour e garrafas de vodka vazias na calçada. No que dependesse dele, seus clientes iriam, sim, elogiar sua presteza.

— Esses carijós que se arrombem — desculpou-se. — Amanhã a gente vai em uma aldeia indígena de verdade; Guarani, Kaigang ou Xocleng, a seu critério.

— Xocleng! — Lennon entusiasmou-se com a onomatopeia.

No dia seguinte, o guia colocou o quarteto em uma Kombi e pegou a BR-59 (futura BR-101) para o sul do estado.

20120417

CAP 3 | A inspiração em forma de ovo


Seis mil cruzeiros – o equivalente a um salário mínimo – por uma corrida do centro até Canasvieiras. Para os turistas, uma mixaria: seis dólares. O que o guia não contou a eles é que a estrada havia sido construída pelos internos da Penitenciária Estadual em 1952. A mão de obra, recrutada a mando do governador Irineu Bornhausen entre os detentos com bom comportamento, compunha-se quase que integralmente de condenados a crimes passionais. Em matar, os caras eram especialistas. Nem que fosse o serviço.

Após uma hora de sacolejo inclemente, o táxi com os Beatles percorrera apenas um terço do trajeto previsto. Crente de que “insondáveis são os desígnios de Ganesh”, Harrison aceitava o arremedo de rodovia como o carma que os deuses lhe reservaram. Seus mundanos colegas, porém, estavam prestes a explodir. A súbita aparição de totens disformes à beira da serra de Santo Antônio dissipou a reina que já se insinuava.

— Olhem aquilo! — exclamou Lennon, referindo-se a um troço que, conforme o ângulo, tanto poderia representar um cachorro quanto uma máquina de costura ou um foguete. — Tenho que conhecer o autor!

Ou melhor, a autora. Pintora, desenhista, escultora, tapeceira e poeta, a incipiente Eli Heil estava causando furor no cenário artístico nacional com a utilização de saltos de sapato, tubos de tinta, canos de PVC e demais materiais inusitados para forjar seu universo particular. Ao se deparar com os Beatles, a ex-professora de educação física recitou:

— A arte para mim é a expulsão dos seres contidos, doloridos, em grandes quantidades, num parto colorido.

— Ela fala! — admirou-se o músico, confundindo criadora e criatura.

O encontro com a palhocense multimídia foi o catalisador de uma das mais famosas canções de Lennon. Ele tinha três ideias, nenhuma boa o suficiente para resultar em um refrão memorável. A primeira brotou de uma sirene que ouviu em sua casa em Weybridge, originando o verso “mister city Policeman sitting”. A segunda remetia a uma melodia pastoral a respeito de seu jardim. A terceira era uma quadrinha boba sobre se sentar em um floco de cereal.

O inclassificável trabalho daquela pequena mulher o libertou das amarras estéticas, deixando-o à vontade para juntar tudo e inventar imagens absurdas (“semolina pilchards”, “elementary penguins”), palavras sem sentido (“texpert”, “crabalocker”) e, claramente influenciado pelo “mundo ovo” de Eli Heil, figuras surreais (“eggman”). Como não sabia dizer “berbigão” em inglês, foi de morsa mesmo. Nascia “I’m the Walrus”.

A Índia prometia.

20120411

CAP 2 | A chegada ao novo mundo


Os Beatles estavam em algum ponto do Atlântico próximo ao litoral marroquino quando uma luz intensa cegou a tripulação.

— Aí vem o sol — Harrison franziu o olhar. — Tá tudo certo.

Não estava. Eram sinais do El Abuelito, fenômeno climático-sensorial que invertia o campo magnético terrestre. Assim, embora os controladores a bordo indicassem o Oriente, o navio mudou de rumo para o Oeste. Ao perceber que havia algo errado, o capitão refletiu. Também considerava seus passageiros uns aspirantes a hooligans ansiosos por desembarcarem em um país subdesenvolvido em busca de sentido para as suas desprezíveis existências. E ficou na dele.

Antes que a viagem se tornasse um saco, a Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim cresceu no horizonte. Mais adiante, surgiu a Fortaleza de São José da Ponta Grossa.

— Impressionante! — impressionou-se McCartney.

— Estas são apenas as casas de praia dos rajás indianos. Os palácios e templos mais imponentes estão no interior — desdenhou Harrison, com autoridade.

Atracaram no estaleiro Arataca, sob a cabeceira insular da ponte Hercílio Luz (ao lado, um raro registro do momento em que pisaram em solo florianopolitano). Mais do que a paisagem, os ingleses estranharam o sotaque local. Aos seus ouvidos liverpudianos, parecia um rádio cheio de estática. Coube a Harrison mais uma vez elucidar a questão.

— O idioma foi o grande legado de Vasco de Gama, que aqui esteve em 1498. Tanto é que a dinastia que mandava na cidade chamava-se Samorim, que nada mais é do que uma deformação do português Samutiri, “o grande senhor do mar” — ensinou, como se estivesse lendo a Wikipédia.

Apesar de não dominarem a língua, os Beatles conseguiram se comunicar com razoável desenvoltura. Diversas expressões do dialeto nativo tinham uma sonoridade anglófona, como step on, mock riddle ou too dish. À base desse restrito vocabulário e muita mímica, eles tentavam explicar sua situação aos desocupados que os rodearam: eram músicos que esperavam voltar da Índia com a espinha ereta, a mente aberta e o coração tranquilo.

Mas a Florianópolis da década de 1960 não estava habituada a receber muitos visitantes, ainda por cima estrangeiros. A infraestrutura e os serviços engatinhavam. Ir à Lagoa da Conceição ou a Jurerê, entre outros points hoje badalados no mundo inteiro e região, exigia paciência e espírito de aventura. O tempo sobrava para os guias turísticos. Um deles entendeu que aqueles quatro jovens gringos eram amigos de Luiz Henrique Rosa fissurados por mar, garotas e diversão.

Levou-os para um rancho alugado no Norte da Ilha.

20120410

CAP 1 | A caminho das Índias

Da curva do Saí-Guaçu às nascentes do Mampituba, da ponta dos Ingleses à confluência dos rios Periguaçu e Uruguai, todos os caminhos levam à Ressacada no dia 25 de abril – e não será para ver o Avaí, aquela naba. Desde o anúncio do show de Paul McCartney no único estádio do mundo e região com estacionamento para aviões, Florianópolis vive a expectativa de receber o beatle para o maior espetáculo da história de Santa Catarina. O que pouca gente sabe é que Macca e os Beatles já estiveram no estado. Em um rasgo de reportagem, Fancaria e O Mundo Delirou juntaram forças para resgatar esta que é uma das mais obscuras e fantásticas passagens da trajetória da banda. 

All you need is Engov. 


Foi em janeiro de 1961. McCartney, John Lennon, George Harrison, Stuart Sutcliffe e Pete Best haviam recém-concluído sua segunda temporada em Hamburgo. A cidade alemã tinha lá seus atrativos, mas depois de 48 noites tocando no Indra Club e 58 no Kaiserkeller, tudo o que os cinco precisavam era relaxar. Queriam estar tinindo para encarar seu próximo compromisso: a estreia no Cavern Club, na sua Liverpool natal, marcada para 9 de fevereiro.

As sugestões para ocupar o tempo livre variavam. McCartney pretendia ir para Londres, “tomar um banho de civilização”. Lennon preferia ficar em casa. Best, como todo baterista, concordava com o que decidissem. O caçula Harrison falou por último.

— Sonhei que íamos para a Índia — disse, apontando o braço de sua inseparável guitarra para o Leste.

— O moleque pirou! — reagiu McCartney, em um misto de despeito e curiosidade. Em três anos de convivência, ele aprendera a enxergar em Harrison o potencial para se tornar o “guitarrista com ar místico” indispensável para toda banda se dar bem. — Como iremos chegar lá?

Então Harrison contou-lhes seu plano. Manhã sim, manhã não, um navio da companhia Hoepcke partia para Calecute, na costa ocidental indiana. A passagem custava 25 marcos por cabeça, menos do que costumavam gastar em bebidas em uma gig animada. A bordo, teriam tempo para descansar e, conforme a inspiração, arriscar suas primeiras composições.

— E o que vamos fazer na Índia, o “de menor”? — O sarcasmo de Lennon não escondia sua expectativa.

— Transcender — esclareceu Harrison, com a bonomia de quem descobriu as Quatro Nobres Verdades antes de completar 18 anos.

O silêncio geral provocado pela resposta despertou Sutcliffe, que resolveu enfim se manifestar. Chamou os quatro de goiabas, acusou Lennon de bullying e disse que por nada trocaria a quentinha cama hamburguesa que dividia com a namorada Astrid Kirchherr por uma úmida cabine de terceira classe lotada de aspirantes a hooligans ansiosos por desembarcarem em um país subdesenvolvido em busca de sentido para as suas desprezíveis existências.

O cara pegou tão pesado que, só de pirraça, Best apoiou a ideia de Harrison, sendo logo imitado por Lennon e McCartney. No outro dia, os quatro madrugaram no porto para uma aventura que causaria impactos profundos em suas carreiras e em suas vidas. Sutcliffe, coitado, morreria de hemorragia cerebral em abril do ano seguinte sem nem desconfiar do que havia perdido.

20090201

Luiz Henrique, 70

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(publicada no jornal O Catarina #67, da Fundação Catarinense de Cultura, em novembro de 2008)

Sua obra não consta dos inúmeros shows, exposições e produtos alusivos ao cinqüentenário da bossa nova, estilo ao qual é freqüentemente associada. Seus discos nunca foram relançados em edição nacional. Seu nome aparece uma única vez no livro
Chega de Saudade, a história definitiva do gênero escrita por Ruy Castro. Às vésperas de se completar 70 anos de seu nascimento, Luiz Henrique Rosa – ou só Luiz Henrique, como assinava – permanece um virtual desconhecido no Brasil.

Já foi pior. Iniciativas como o documentário Luiz Henrique – No Balanço do Mar (2007) da cineasta Ieda Back, e o disco-tributo A Bossa Sempre Moderna de Luiz Henrique (2003), idealizado por uma agência de publicidade com a participação de Ivan Lins, Elza Soares, Luiz Melodia e Martinho da Vila, entre outros, reavivaram o interesse pela sua música – em Florianópolis e olhe lá. Não vai aí nenhuma crítica, apenas uma constatação: o cantor e compositor catarinense conquistou mais do que esperava no exterior e menos do que poderia no país.

Os rumos que sua carreira tomou ajudam a explicar essa aparente contradição. Prestes a gravar um segundo LP no Rio e se consolidar entre os talentos da jovem música urbana que surgia, ele preferiu seguir para os Estados Unidos. Quando estava integrado à paisagem musical nova-iorquina, com uma penca de realizações profissionais no currículo, voltou. Apesar das oportunidades para se fixar no Sudeste, aterrissou na provinciana capital de Santa Catarina. Se a decisão desafiava a lógica e equivalia ao suicídio comercial, Luiz Henrique iria se reinventar. Longe da bossa nova.

Mas perto de sua gente. Nem que para isso tivesse de começar de novo na cidade pela qual se havia se mudado aos 11 anos e, desde então, era irremediavelmente apaixonado. Nascido em Tubarão e criado em Lages e em São José, o moleque descobriu no mar e nas garotas o estímulo que precisava para deslanchar no violão. Adolescente, passou a animar festas e clubes com suas seis cordas. No final da década de 1950, entrou na rádio Diário da Manhã, onde aprimorou sua arte com craques (e alguns de seus futuros parceiros) como o poeta Zininho e o pianista Aldo Gonzaga.

Em 1959, comandava um programa ao vivo na emissora, interpretando suas composições e sucessos da música norte-americana. No mesmo ano, saiu o LP Chega de Saudade, de João Gilberto. A “batida diferente” do baiano de fala suave arrebatou Luiz Henrique. Após excursionar pela região Sul a bordo do conjunto do maestro gaúcho Norberto Bandauf ao longo de 1960, resolveu arriscar – logo no reduto da bossa nova. No Rio, tocou nos night clubs do célebre Beco das Garrafas, e, em 1961, estreou com um compacto editado pela Philips contendo duas faixas próprias, “Garota da Rua da Praia” e “Se Amor É Isto” (esta última, com Zininho).

Em 1963, a gravadora lançou seu primeiro disco, A Bossa Moderna de Luiz Henrique (com o piano de Gonzaga), que emplacou as canções “Vou Andar por Aí” (de Newton Chaves), “Sambou, Sambou” (de João Mello e João Donato) e “No Balanço do Mar” (de Zil Rozendo) nas paradas. Em paralelo, seu autor protagonizou uma extensa temporada com Nara Leão no paulistano João Sebastião Bar, cuja clientela compunha-se de músicos, intelectuais, atores e badalados em geral. Tudo sugeria que o catarina cavaria seu espaço no rol dos nomes com os quais se habituara a cruzar em Copacabana, como Tom Jobim, Elis Regina, Jorge Ben ou Carlos Lyra.

O convite do saxofonista norte-americano Paul Winter para acompanhá-lo nos Estados Unidos abortou as negociações para um segundo disco, já programado pelo produtor Armando Pitigliani. A reboque da consagração da bossa nova naquele país, embarcou para Nova York com uma passagem de ida e volta pela Varig, 50 dólares (emprestados) no bolso, um violão na mão, uma promessa de 500 dólares do Itamarati e um vocabulário em inglês restrito à frase “I love you”. Entre idas e vindas, acabou ficando lá até 1971.

Nesse período, construiu uma discografia respeitável, seja solo (Barra Limpa, 1967) ou dividindo os créditos com o tecladista paulista Walter Wanderley (Popcorn, 1967) e com o cantor e compositor Oscar Brown Jr. (Finding a New Friend, 1968). Em parceria com o artista de Chicago, escreveu o musical Joy, indicado ao prêmio Tony (o “Oscar do teatro”). Trabalhou ainda com os conterrâneos Sivuca (com quem dividiu um quarto de hotel na Times Square), Hermeto Paschoal e Airto Moreira, com os gringos Stan Getz, Ron Carter e Chick Corea e teve suas músicas gravadas por Harry Belafonte, Liza Minelli e Bobby Hackett.

Pouco desse currículo foi considerado em seu retorno. Luiz Henrique estabeleceu-se – desta vez, para sempre – em Florianópolis disposto a desencavar as raízes do autêntico manezinho da ilha e a fundar uma gravadora. Em meados dos anos 1970, concebeu o show Bananeira Chorá, Chorá, aproveitando-se de cantigas folclóricas do boi-de-mamão. Para atender sua outra vontade, montou seu selo independente no bairro Itaguaçu, depois transferido para uma casa com vista para o mar na praia do Sonho, em Palhoça.

Pela Itagra (daí a denominação), lançou Mestiço, um LP com padrão muito superior às produções locais de 1975. De suas sete faixas, “Jandira”, “Sonhar” (ambas dividindo a autoria com Raul Caldas Filho), “Pra Não Deixar de Sambar”, “Sempre Amor” e a música-título foram gravadas no estúdio carioca Haway, com uma banda que incluía instrumentistas do quilate do arranjador e saxofonista J. T. Meirelles, do pianista Tenório Jr. e do baterista Edson Machado. As restantes, “Saiandeira” e “Dianne”, ganharam forma no Sound City, em Los Angeles, durante estada com Liza Minelli. A amiga retribuiria a visita passando o carnaval na ilha em 1979.

A despeito de tanto esmero, a distribuição precária comprometeu o desempenho do disco, marcando o final da carreira fonográfica de Luiz Henrique. Azar do mercado, porque ele continuaria registrando sua música em fitas caseiras ou à frente do programa Estamos Aí, exibido em 1978 na TV Cultura da capital. Dedicou-se ainda à produção de espetáculos, como a Sinfonia de Santa Catarina, concretizada em 1984 com Hermeto Paschoal; à coluna que mantinha no jornal O Estado e ao tablóide alternativo Galera da Ilha, que publicou suas aventuras no estrangeiro sob o título “Um Catarina na Broadway”.

Ex-sócio e contumaz freqüentador de bares, Luiz Henrique sossegou na gerência do recém-inaugurado Armazém Vieira em 1985. Ali, o marido de Patrícia e pai de Raulino e Manuel recepcionava os boêmios, promovia noitadas históricas e, claro, dedilhava seu violão. Para celebrar seus 25 anos de carreira, planejava reunir suas principais composições em um álbum duplo. Só não contava com a Kombi que, dirigida por um motorista embriagado, bateria violentamente em sua Variant na saída do serviço.

Na madrugada do dia 9 de julho, uma terça-feira, morria o catarinense que mais longe levou a música do Estado, deixando inédita a maioria do material composto nos últimos dez anos. De lá para cá, talvez o maior reconhecimento que recebeu tenha vindo do outro lado do mundo – e, ironicamente, por meio do estilo que abandonou. Em 1998, para comemorar os 40 anos da bossa nova, a subsidiária japonesa da Verve, gravadora responsável por seus discos no exterior, relançou em CD as obras-primas do gênero que detinha em catálogo. Entre elas, Barra Limpa e Popcorn. Mais recentemente, a memória do artista ganhou um site oficial, com biografia, fotos e discografia. A página de projetos, no entanto, está em branco.

20081027

76.629

Esse é o número de eleitores que não votaram em ninguém no segundo turno da eleição para a prefeitura de Florianópolis. Quando ficou definido que a capital catarinense seria, inevitavelmente, gerida por este ou por aquele, pessoas esclarecidas dispuseram-se a fazer uma série de contorcionismos mentais para justificar sua preferência – ou tolerância – em um dos dois candidatos. Destaco os argumentos, um para cada lado, que mais me chamaram a atenção.

1) “Vou votar no mais velho, que já roubou bastante, não precisa mais.” O raciocínio, de uma simplicidade que beira a caricatura, ignora que, nesse meio, ninguém rouba porque precisa. A corrupção é patológica. Ao contrário do ditado popular, em política é o próprio ladrão que faz a ocasião.

2) “Vou votar no menos velho, que é para enterrar de vez o outro.” Trata-se de uma visão mais sofisticada e pragmática do processo. Seria a primeira derrota de um, o que não o impediria de estar de volta daqui a dois anos pedindo o seu voto. Seria o terceiro revés consecutivo do outro (e para o mesmo adversário), o que deve incentivá-lo a dedicar cada vez mais o seu tempo a renhidas partidas de dominó. Não é nada, seria um a menos para se combater em 2010.

Foram apuradas 53.914 abstenções, 16.827 nulos e 5.888 brancos. Em um universo de 301.967 títulos, dá pouco mais de 25% do total. Significa que um em cada quatro cidadãos não se sentiu representado (entre outras razões rancorosas e impublicáveis) pelas duas propostas que lhe foram apresentadas.

São quase 80 mil pessoas. Gente de classes sociais, grau de instrução, gostos, religiões e ideologias diferentes, que se uniu no repúdio. É um baita público-alvo para algum negócio. Por defeito de ofício, só penso em publicação, como um pasquim semanal de custo baixíssimo, feito para dar lucro considerando que apenas 2% (1,5 mil exemplares) desse contingente iriam comprá-lo. Mas deve haver idéias mais criativas, rentáveis e prazerosas do que contar com o interesse da população por leitura.

Aceito propostas. Serão respondidas apenas aquelas que incluírem remuneração.

20080830

Contracapa: causa, efeito e cumplicidade

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Quem respira cultura pop neste pedacinho de terra perdido no mar deve se lembrar bem de como eram as coisas há dois anos. Por mais sensacional que fosse o disco, livro, vídeo, exposição ou peça de teatro, a obra tinha de disputar um cantinho do jornal com a viagem à Disney da filha do novo rico, com o carrão importado do playboy, com a plástica da perua.

Tudo mudou com o surgimento da Contracapa, em agosto de 2006. Desde então, mais do que dar visibilidade a músicos, escritores, poetas, videastas, desenhistas, artistas plásticos, atores e demais representantes locais de profissões-que-não-precisam-de-diploma, a coluna publicada no Diário Catarinense vem apresentando à cidade manifestações que a própria cidade desconhecia.

Talvez o talento sempre estivesse presente, só não encontrava espaço para aparecer. Talvez o talento só tenha ousado brotar porque houve alguém para divulgá-lo. Tanto faz. O fato é que, por uma destas raras conjunções astrais, calhou de Florianópolis abrigar uma de suas gerações mais criativas ao mesmo tempo em que o grupo que monopoliza a mídia no Estado resolveu dedicar uma página de segunda a sábado à arte que insiste em pulsar fora da panela.

E isso, mané, é muito mais importante do que tentar descobrir se a Contracapa é causa ou efeito. Marcos Espíndola comanda – simples assim. Eu poderia me sentir o tal por ter editado, em 2005, a coluna Maresia, assinada por ele. Por ter produzido, em 2007, a festa do primeiro aniversário da Contracapa. Por ter sido convocado para botar um som na celebração dos dois anos da coluna, daqui a pouco, na Célula.

Prefiro me considerar privilegiado por chamá-lo de “chapa”. O diabo é que, por conta dessa cumplicidade, estou com uma dificuldade danada em decidir qual será a nossa música-tema de hoje à noite. A camiseta nova, pelo menos, já providenciei.