
Jogar xadrez com frequência apura o raciocínio para entender metáforas que nem existem
Eis que de repente o xadrez se entranha em todos os lugares. Está em Entre Bispos e Reis, a biografia do maior enxadrista brasileiro, o tão genial quanto atormentado Mequinho. Domina A Revolução do Xadrez, sobre a renovação do interesse pelo jogo milenar em plena era digital. Conduz o documentário A Rainha do Xadrez, que mostra como a jovem prodígio húngara Judit Polgár derrotou o campeoníssimo Garry Kasparov.
Largo os livros, saio da frente da televisão e pego o celular para mudar de assunto. Na tela, aparece uma mensagem do meu chapa Gomez me convidando para… jogar xadrez. Praticamos desde 2009 com uma regularidade impressionante: nunca dois dias seguidos, nunca mais de três meses sem – na pandemia, o online foi a salvação. Uma conversa que já dura 17 anos sem precisar de palavras.
Sei exatamente por que entramos nessa. Estávamos passando por turbulências, cada um no seu contexto, quando o tabuleiro que ele herdou do pai nos ofereceu escape, consolo e magia. Mas não me lembro do momento em que aprendi a jogar, ainda criança. Naquela época, o xadrez morava na mesma prateleira de damas e ludo. Só mais um tabuleiro para entreter uma infância analógica.
A gente decora o movimento das peças – o “L” do cavalo, a diagonal do bispo – e acha que o jogo se limita a derrubar o rei adversário. Hoje, cercado por tiques, traumas & outros sinais de experiência, consigo medir o tamanho do estrago. Entendi que o xadrez é um oceano que, por mais que eu me esforce, jamais sequer chegarei perto de atravessar. Muito menos de decifrar as metáforas que ele pode sugerir.
Sinto que parei de evoluir como jogador e tudo bem, não tenho a menor pressa de atingir um objetivo que nem existe. Minha tara é pela mitologia, não pela técnica. Enquanto a análise do computador me aponta um erro no lance 22, estou mais a fim de descobrir o que Mequinho sentia no auge da crise, ou como a adolescente Polgár lidava com o silêncio pesado de uma sala cheia de homens que se recusavam a aceitar seu talento.
Em vez de ser o sujeito que calcula vários lances à frente, prefiro me sensibilizar com a tragédia de um grande mestre que sucumbiu ou com a beleza de uma ideia que mudou o jeito de pensar o mundo. Jogar com o Gomez virou um ritual de amizade disfarçado de confronto. Se ganho, comemoro. Se perco, o tabuleiro continua ali, com suas 64 casas. Agora eu jogo apenas para ouvir o que as peças têm para contar.
(Publicado originalmente na newsletter Extrato)
20260508
Xeque-mate na performance
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[RELATÓRIO DE VIGILÂNCIA LÍRICO-SANITÁRIA]
"Mulhere de Fases", Raimundos
ANÁLISE FORMAL
Teor de Concretude (TC) | Substantivos concretos identificados: cama, casa, mãe, colchão, lua, filho, noite, frio, lençol, sol. Substantivos abstratos identificados: raiva, arte, sorte, namoro. Nota: 7/10.
■ A letra se ancora em situações físicas e cenas reconhecíveis, sustentando uma materialidade rara para o gênero rock cômico-popular.
Complexidade Sintática (CS) | Predominância de frases diretas: “A casa é minha, você que vá embora”, “Meu filho, aguenta”, “Se me olhando desse jeito, ela me tem na mão”. Nota: 5/10.
■ Construção direta e oral, em que a fluidez vem mais do ritmo do que da arquitetura da frase.
Dependência de Refrão (DR) | Principal repetição: “Complicada e perfeitinha...”. Estrutura geral: blocos narrativos curtos, retorno constante ao refrão. Nota: 3/10.
■ O refrão pontua cada movimento da música, até grudar na memória.
Índice de Narratividade (IN) | Existe uma narrativa clara: conflito (expulsão, briga), observação do comportamento da parceira, submissão emocional do narrador, repetição cíclica da relação. Nota: 8/10.
■ Há progressão e personagem definidos.
Repertório Semântico (RS) | Algumas imagens: “a lua diminuía”, “o frio é quente e arde”, “até sem luz dá pra te enxergar no lençol”, “põe fermento, põe as bomba”, “bem maior que o sol”. Nota: 6/10.
■ A mistura de distorções sensoriais e imagens meio nonsense faz a letra oscilar entre crônica doméstica e delírio hormonal.
Coesão Textual (CT) | Eixo temático consistente: relação instável → atração + conflito. Nota: 7/10.
■ Apesar do tom caótico, há unidade narrativa.
Profundidade Hermenêutica (PH) | Possibilidades de leitura: relação tóxica cíclica, dependência emocional, masculinidade reativa (entre submissão e agressão). Nota: 5/10.
■ Presença moderada, com múltiplas camadas, mas sem maiores complexidades.
ANÁLISE RELACIONAL
Componentes Críticos (CC)
Possessão/Controle | “Ela me tem na mão”, “jogou minhas coisa fora”, “A casa é minha, você que vá embora”.
■ Relação assimétrica com ciclos de conflito intenso.
Manipulação | “Disse que se for sem eu não quer viver mais não”.
■ Chantagem emocional explícita.
Desrespeito | “Que mulher ruim”, “A doida”.
■ Uso de desqualificação direta.
Indicadores Saudáveis (IS)
Não se aplica.
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(Publicado originalmente na newsletter Extrato)
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20260425
Onde a Geração Z não tem vez

Literatura de Ana Paula Maia leva você para um mergulho sem volta no Brasil profundo
Se você ainda não conhece Ana Paula Maia, aproveite que o nome dela está em relativa evidência após o anúncio dos finalistas do Booker Prize para recuperar o tempo perdido. A validação gringa é um reconhecimento tardio para a literatura seca, bruta e sem filtros da escritora fluminense radicada em Curitiba. Em uma época de sensibilidades aguçadas e telas assépticas, seus livros irrompem como um mergulho sem volta no Brasil profundo.
Entrei no universo da autora em 2020, com Carvão Animal (2013). O crematório da obra foi meu primeiro contato com o cenário de suas histórias: “não lugares” onde reinam o descarte e o isolamento, como abatedouros, colônias penais, zonas de mineração e rodovias desoladas. Esses locais, em que a morte pode ser um processo industrializado e a natureza parece conspirar contra o que restou de dignidade humana, determinam o comportamento das personagens.
Nos anos seguintes, tratei de ler tudo que encontrava com a assinatura de Maia. Apesar de ambientadas em uma contemporaneidade reconhecível, as tramas têm um tom de atemporalidade que sugere uma sociedade em colapso. É um presente que convive com o arcaico, no qual predominam ofícios manuais que pouco mudaram com o passar dos séculos e veículos atuais cruzam estradas poeirentas.
A realidade ganha contornos de um apocalipse iminente, com instituições falidas e uma sensação de que os recursos e a moralidade estão se esgotando. Não há datas precisas ou rupturas dramáticas, apenas a sensação de um tempo parado e gasto, marcado pela degradação generalizada em uma espécie de fronteira selvagem na qual a sobrevivência é a única lei vigente.
No meio dessa paisagem árida circula uma turma da pesada, encabeçada por Edgar Wilson. Seja como atordoador de gado ou removedor de animais atropelados, seja como motorista de caminhão ou pedreiro, ele atravessa diversos livros emanando um pragmatismo quase espiritual. Movido por uma mistura de ética própria e misericórdia técnica, sua função é dar uma destinação final ao que a dita civilização não quer mais.
Outra figura recorrente é Bronco Gil, um ex-presidiário dono de um senso de justiça muito particular e uma resistência física impressionante. Em comum, todos – incluindo o ex-padre Tomás, o agente prisional Melquíades e os versáteis Ernesto Wesley (irmão de Edgar Wilson) e Erasmo Wagner (mostrando a fixação de Maia pelas iniciais EW) – representam uma estirpe de homens moldados pelo trabalho braçal e alheios às convenções da classe média.
Entre um título e outro, matei a fissura assistindo à série Desalma (Globoplay), também dela. No vídeo, as mulheres dominam, com Cássia Kis muito convincente como bruxa, uma protagonista linda (Anna Melo) e Cláudia Abreu na pior atuação de sua carreira. Achei bacana o – na definição da própria autora – folk horror do enredo, mas nem se compara com o terror que ela toca no papel.
Em 2024, esperei o lançamento de Búfalos Selvagens como quem aguarda o disco novo de uma banda preferida. A jornada terminal de Edgar Wilson e Bronco Gil confirma que a Geração Z não duraria nem cinco minutos no faroeste existencial de Ana Paula Maia. Não há espaço para o ativismo de sofá ou para o conforto do algoritmo quando se tem sangue sob as unhas ou o cheiro de carniça impregnado na pele. A vida atropela.
O pensamento vivo de Edgar Wilson
“Um abismo chama outro abismo.” (De Gados e Homens)
“Vivemos dias difíceis. Até os cães comem os próprios donos em plena luz do dia.” (Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos)
“Se você encontra um morto você também se torna responsável por ele.” (Enterre seus Mortos)
“Sempre ouvi dizer que os Filhos do Senhor serão levados diretamente a Ele para serem poupados da calamidade. Todo o resto vai sobreviver aqui embaixo… quero dizer, o resto de nós, os pecadores.” (De Cada Quinhentos uma Alma)
“O moedor nunca pode parar. Lugares como esse não fecham, eles se multiplicam.” (Búfalos Selvagens)
Menções honrosas
“No fim, somos todos livres, porque, no fim, estaremos mortos.” (Bronco Gil, em Assim na Terra como Embaixo da Terra)
“Não se engane: a velhice não melhora o caráter de ninguém. Aquilo que uma pessoa foi fica gravado na pele, no cheiro, no rosto. (…) Sei quando alguém não prestou só pelo contorno das rugas, pelo hálito e pelo olhar.” (Bronco Gil, em Assim na Terra como Embaixo da Terra)
“Dinheiro sempre vira lixo. Lixo e bosta.” (Erasmo Wagner, em Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos)
“Quando a vaca é boa, até a bosta é valiosa.” (Gervásio, em Carvão Animal)
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[RELATÓRIO DE VIGILÂNCIA LÍRICO-SANITÁRIA]
"Evidências", Chitãozinho & Xororó
ANÁLISE FORMAL
Teor de Concretude (TC) | Substantivos concretos identificados: nenhum relevante. Substantivos abstratos identificados: amor, medo, verdade, loucura, desejo, vida, saudade. Nota: 1/10.
■ Vocabulário padronizado do campo romântico-popular, sem maiores complicações.
Complexidade Sintática (CS) | Predominância de estruturas paralelas e condicionais: “Quando eu digo que deixei de te amar / É porque eu te amo”, “Quando eu digo que não quero mais você / É porque eu te quero”, “Eu me afasto e me defendo de você / Mas depois me entrego”. Nota: 6/10.
■ Estrutura baseada em oposição lógica e repetição sintática.
Dependência de Refrão (DR) | Principal repetição: “Diz que é verdade, que tem saudade…”. Estrutura geral: blocos emocionais curtos, retorno constante ao refrão, reforço da mesma ideia central. Nota: 4/10.
■ A repetição é parte estrutural da música, sustentando memorização e apelo emocional.
Índice de Narratividade (IN) | Existe uma progressão emocional: negação do sentimento, conflito interno, confissão amorosa, pedido de validação. Nota: 5/10.
■ Narrativa centrada no estado emocional, não em ações externas.
Repertório Semântico (RS) | Algumas imagens: “estar em tuas mãos”, “negar as aparências”, “disfarçar as evidências”. Nota: 3/10.
■ A letra trabalha mais com afirmações do que com construção imagética.
Coesão Textual (CT) | Eixo temático consistente: conflito entre negação e desejo → dependência emocional. Nota: 8/10.
■ Sem rupturas ou desvios temáticos relevantes.
Profundidade Hermenêutica (PH) | Possibilidades de leitura: amor contraditório, medo de vulnerabilidade, dependência afetiva. Nota: 4/10.
■ Número limitado de camadas interpretativas.
Componentes Críticos (CC)
Drama Excessivo | “Eu tenho medo de te dar meu coração”, “O que vai ser de mim se eu te perder um dia”.
■ Amor tratado como conflito inevitável e sofrimento constante.
Possessão/Controle | “Eu preciso do seu beijo”, “Eu entrego a minha vida pra você”, “Não dá mais pra separar as nossas vidas”.
■ Identidade emocional subordinada ao outro.
Manipulação | “Diz que é verdade”, “Só quero ouvir você dizer que sim”.
■ Cria confusão para manter vínculo afetivo mesmo sem clareza.
Indicadores saudáveis (IS)
Confiança | “Chega de mentiras / de negar o meu desejo”.
■ Tentativa de abandonar a negação.

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20260408
Difícil resistir a tanto caos, paz, funk e cor

Documentário sobre origem do Red Hot acerta ao focar em três moleques & um Datsun verde
Antes de se tornarem esta corporação milionária, os Red Hot Chili Peppers eram uns malucos que faziam funk com atitude punk. Antes ainda disso, não passavam de uns moleques às vezes adoráveis, às vezes idiotas. O documentário A Origem dos Red Hot Chili Peppers: Nosso Irmão Hillel (Netflix) conta o que aconteceu entre a segunda e a primeira frases, com ênfase no guitarrista falecido bem quando a banda ameaçava decolar.
A abertura com “Walkin’ on Down the Road” já meio que estabelece o recorte do filme. A música é uma das sonzeiras de Uplift Mofo Party Plan, o disco que foi o epitáfio de Hillel Slovak. A partir daí, a história recua para Anthony Kiedis e Flea adolescentes, recém-chegados à Califórnia. No show de talentos da mesma escola em que viraram amigos inseparáveis, conhecem o futuro “irmão” arrebentando em um grupo chamado Anthyn.
Como os dois, Slovak nascera em 1962, viera de fora (era israelense) e podia ser tão ou mais despirocado. Diferentemente deles, porém, tem estilo e tem alma de artista: escreve, desenha, toca guitarra. E dirige um Datsun verde com toca-fitas para aloprarem por Los Angeles. Agora são três que não se desgrudam, unidos pela compulsão por fazer merda típica dos jovens normais.
Com o fim do ensino médio, Slovak continua no Anthyn, para o qual convida Flea a assumir o baixo. O repertório, hard rock convencional, não comove ninguém. Então mudam de nome para What Is This e adotam uma estética mais moderninha. Enquanto isso, Kiedis vai para a universidade, onde ouve Grandmaster Flash e obtém a graça: depois do rap sua vida nunca mais será a mesma.
Descobrir que não precisava cantar para ser vocalista facilita a Kiedis entrar na banda improvisada com Flea, Slovak e o baterista Jack Irons (outro egresso do Anthyn/What Is This) para abrir o show de um chapa. O resto é familiar para quem cresceu se referindo à banda como Red Hot, em vez de Chili Peppers.
A estreia em disco sem Slovak nem Irons. Drogas. A volta de Slovak em Freaky Styley (1985), produzido pelo cachorrão George Clinton. Mais drogas. A volta de Irons para a gravação de Uplift… (1987). Muito mais drogas. Até junho de 1988.
Conduzido por entrevistas atuais com Flea e Kiedis e pela recriação da voz de Slovak, usada para ler trechos de seus diários, o documentário passa por esses eventos sem tentar encontrar qualquer sentido posterior. Apenas aconteceram. Naturalmente. O único aceno ao porvir é a aparição de John Frusciante, substituto e discípulo de Slovak, reconhecendo a influência do guitarrista na identidade artística da banda.
Sobem os créditos ao som de “My Lovely Man”, uma das sonzeiras do clássico Blood Sugar Sex Magik (1991), e me pego refletindo – o que é sempre um perigo. Acho que Nosso Irmão Hillel é o produto associado à banda que mais gostei neste século. Acredito em Flea quando ele diz que gravar a primeira demo do grupo foi uma das melhores sensações que já teve. É quase impossível resistir a um tempo que, como o próprio baixista descreve, “tinha caos, tinha paz, tinha funk e tinha cor”.
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[RELATÓRIO DE VIGILÂNCIA LÍRICO-SANITÁRIA]
"Anna Júlia", Los Hermanos
ANÁLISE FORMAL
Teor de Concretude (TC) | Substantivos concretos identificados: sol, olhar, coração, cara. Substantivos abstratos identificados: amor, certeza, carinho, solidão, destino, previsão, ilusão. Nota: 4/10.
■ A letra orbita em torno de conceitos emocionais genéricos.
Complexidade Sintática (CS) | Predominância de frases simples e diretas: “Quem te vê passar assim por mim”, “Eu me afogo em solidão”, “Você vai estar com um cara”. Nota: 4/10.
■ Estrutura sintática linear, sem inversões ou construções elaboradas.
Dependência de Refrão (DR) | Principal repetição: “Oh, Anna Julia”. Estrutura geral: blocos narrativos curtos, interrupção frequente pelo refrão. Nota: 3/10.
■ Repetição intensa ao longo da música.
Índice de Narratividade (IN) | Narrativa básica: observação da mulher, sofrimento do narrador, antecipação de perda e promessa de reconquista. Nota: 5/10.
■ Narrativa clara, porém pouco desenvolvida.
Repertório Semântico (RS) | Imagens identificadas: “Contemplar o sol do teu olhar”, “Eu me afogo em solidão”, “Espinho dentro do meu coração”. Nota: 4/10.
■ Uso e abuso de metáforas convencionais, sem inovação significativa.
Coesão Textual (CT) | Eixo temático consistente: amor não correspondido → frustração → idealização. Nota: 7/10.
■ Ausência de rupturas relevantes.
Profundidade Hermenêutica (PH) | Possibilidades de leitura: amor não correspondido, idealização romântica, narrador obsessivo. Nota: 3/10.
■ Leitura dominante evidente, com baixa abertura interpretativa.
ANÁLISE RELACIONAL
Componentes Críticos (CC)
Drama excessivo | “Eu me afogo em solidão”, “Será sempre um espinho dentro do meu coração”, “Eu passando o dia a te esperar / Você sem me notar”, “Me achar um nada”.
■ Forte tendência à vitimização.
Possessão/Controle | “Vou reconquistar o seu amor todo pra mim”, “Nunca acreditei na ilusão de ter você pra mim”.
■ Narrador define sua identidade emocional pela outra pessoa.
Manipulação | “Você vai estar com um cara / um alguém sem carinho”.
■ Deslegitimação da escolha da outra pessoa.
Indicadores saudáveis (IS)
Respeito/Igualdade | “Sei que você já não quer o meu amor”, “Sei que eu não sou quem você sempre sonhou”, “Sei que você já não gosta mais de mim”.
■ Reconhecimento da rejeição.
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20260325
Relatório de Vigilância Lírico-Sanitária

Descubra como a música que você ouve pode ser tóxica e causar dependência
Em mais uma contribuição para o bem-estar auditivo dos compatriotas, este VEÍCULO apresenta o Relatório de Vigilância Lírico-Sanitária, uma solução inovadora para avaliar letras de músicas nacionais. Fruto de anos de pesquisa, a metodologia classifica versos conforme a forma do texto e o conteúdo relacional. Os resultados geram um rótulo com laudo e selo de alerta para ser afixado nas capas (físicas ou virtuais) dos singles.
A análise formal leva em conta sete quesitos. Cada um recebe um valor de zero a dez, calibrado por tecnologia proprietária. A média simples dos critérios constitui o Índice Geral de Densidade Poética (IGDP). São eles:
Teor de Concretude (TC) – proporção entre imagens físicas e conceitos abstratos.
Complexidade Sintática (CS) – variedade e sofisticação das estruturas frasais.
Dependência de Refrão (DR) – quanto a música precisa de repetição para gerar impacto.
Índice de Narratividade (IN) – presença de personagens, ações e progressão narrativa.
Repertório Semântico (RS) – uso de metáforas, imagens e linguagem figurada.
Coesão Textual (CT) – coerência temática e ligação entre partes da letra.
Profundidade Hermenêutica (PH) – possibilidade de múltiplas interpretações e camadas simbólicas.
A análise relacional estuda atributos que as letras reforçam, questionam ou naturalizam. A partir de protótipo desenvolvido no hemisfério norte, a adaptação tropical foi aprimorada pelo nosso exclusivo algoritmo latino – o que faz toda a diferença na medição dos Componentes Críticos (CC) e Indicadores Saudáveis (IS) abaixo:
Drama Excessivo – conflito intenso tratado como normal em relações.
Possessão/Controle – ideia de que uma pessoa pertence à outra ou deve ser controlada.
Manipulação – uso de culpa, mentira ou pressão emocional.
Desrespeito – desconsideração pelos sentimentos ou decisões do outro.
Fixação Sexual – redução da relação apenas ao componente sexual.
Apoio – construção positiva da confiança e autoestima da pessoa parceira.
Respeito – reconhecimento do valor e autonomia da outra pessoa.
Igualdade – decisões compartilhadas e ausência de hierarquia.
Confiança – honestidade, lealdade e expectativa de boa-fé.
Para mostrar como a ferramenta funciona, vamos examinar a letra de uma música que de segunda a sábado invade o lar de milhões de brasileiros: o tema da novela das nove.
Obra: “Clareou”
Intérpretes: Thiaguinho & Negra Li
ANÁLISE FORMAL
TC | Substantivos concretos identificados: virtualmente ausentes – não há objetos, lugares ou imagens físicas relevantes. Substantivos abstratos identificados: vida, dor, Deus, fim, jeito, derrota, fé, crença, ciência. Nota: 1/10.
■ A letra é quase toda construída sobre abstrações universais.
CS | Predominância de frases simples e imperativas: “Chega de chorar”, “A vida é pra quem sabe viver”, “Pra tudo tem um jeito”. Nota: 3/10.
■ Estrutura linear, com baixa subordinação e pouca variação sintática.
DR | Principais repetições: “Deus é maior, maior é Deus”, “Pode a dor uma noite durar”, “Clareou”. Estrutura geral: blocos curtos de mensagem, forte retorno a refrãos, fechamento baseado em repetição sonora. Nota: 2/10.
■ Repetição maciça ao longo da música.
IN | Não há narrativa identificável: ausência de personagens, de ação concreta e de progressão dramática. Nota: 1/10.
■ A letra funciona como sequência de afirmações.
RS | Imagens identificadas: “Pode a dor uma noite durar”, “Clareou”. Nota: 2/10.
■ Metáforas convencionais e amplamente difundidas, sem imagens inéditas ou construção figurativa elaborada.
CT | Eixo central consistente: superação → fé → esperança → “clarear”. Nota: 7/10.
■ Não há desvios temáticos relevantes.
PH | Possibilidades de leitura: mensagem de superação, discurso religioso motivacional. Limitações: sentido direto e fechado, baixa ambiguidade. Nota: 2/10.
■ O discurso não sustenta múltiplas interpretações complexas.
CC
Nenhum indício.
IS
Apoio | “Levante a cabeça, amigo”, “Chega de chorar”.
■ Incentivo emocional direto.
Confiança | “Deus é maior”, “Quem tá com ele nunca está só”.
■ Transferida para entidade externa.
Respeito/Igualdade | Indeterminado.
■ Não há relação entre indivíduos claramente definida.

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20260311
Neymar garantido na Copa – saiba como

Convocação do atacante envolve caneta emagrecedora, Flamengo e rolo do Master
Se você avistou o título acima em sua caixa de e-mails e clicou apenas para conferir que história é esta, parabéns. Você é a prova ambulante de que o clickbait – “técnica de marketing digital que utiliza manchetes exageradas, sensacionalistas ou enganosas em títulos, miniaturas e links para atrair atenção e gerar cliques, muitas vezes retendo informações essenciais para forçar a curiosidade”, define a grande rede mundial de computadores – funciona mesmo.
Agora, se você avistou o título acima em sua caixa de e-mails e clicou para conferir que história é essa, muitíssimo obrigado. Você é a razão de eu sacrificar os raros momentos que poderiam ser consagrados ao nadismo para produzir conteúdo gratuito de relevância duvidosa e utilidade idem. Entre na minha casa, vasculhe a geladeira, urine com a porta aberta do banheiro e faça amor com todos os bípedes, incluindo a calopsita.
A diferença crucial está no “apenas”. No primeiro caso, talvez o primata nem frequente este espaço com regularidade. De repente, assinou só por pena, para fingir que está prestigiando um desconhecido íntimo. Mas não conseguiu resistir ao enunciado e, movido por um desejo incontrolável de perder tempo, caiu aqui. No segundo, a assinante dourada chegou como chega toda semana: completamente despida (de pré-conceitos).
Tudo o que ela sabe sobre Neymar é contra a sua vontade. O interesse dela é – perdão pela falta de falsa modéstia – no que eu tenho a dizer a respeito do tema. Para concordar, para divergir, isso é o de menos. No meu mundo ideal, o que mais a impele a me acompanhar até o final é como eu digo. A forma. Mesmo quando discorda de quase tudo o que escrevi, ela se diverte. Nem que seja rindo de mim, não comigo.
Ao me dar o privilégio de sua audiência cativa independentemente do assunto que estrago, a assinante dourada está também realizando um sonho que alimento desde o tempo em que existiam revistas: a valorização do autor. Revista, para quem não está familiarizado com o termo, era como uma rede social na qual somente umas 20 pessoas podiam postar. Em vez de um algoritmo decidir o que aparecia, a edição determinava o que merecia existir.
Feita a explicação, a revista de música pop na qual eu sonhava trabalhar não tinha artista na capa. Era só o logo e pronto. O freguês queria um exemplar não porque era fã do cantor X ou da banda Y, mas sim porque tinha certeza de que, lá dentro, iria encontrar algo que nunca havia procurado nem suspeitava que gostasse – e tudo apresentado por gente em que, de algum jeito, ele aprendeu a confiar de tanto ler.
Aí veio o famoso Advento da Internet e acabou com tudo. A curadoria com prazo de validade foi substituída por uma previsibilidade estética: o que essa pessoa já gosta? No digital, cabe tudo, desde que seja como o SEO (sigla em inglês para Sistema de Enganar Otário) mandar. O limite do papel obrigava a escolha e, com ela, o conflito. Manter esta newsletter é, guardadas as devidas proporções, uma tentativa de recriar essa dinâmica.
A outra alternativa seria fazer uma revista com algum artista muito popular na capa e mais nenhuma página com ele. Ué, você não comprou apenas por causa da capa com o fulano? Ei-la, fique com ele e não encha o meu saco. O título maroto desta edição é uma adaptação dessa solução para o ambiente online. Não estranhe se virar padrão a partir de hoje. Conto com seu senso crítico.
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20260304
Nada aconteceu hoje

Mesmo assim – ou exatamente por isso – passei a ter algo a perder
Trago verdades [trago não, olha o gatilho]. Estou há 363 dias sem cigarro. Meu recorde é 363 dias. Não existe comparação possível. Nunca cheguei até aqui antes. E não aconteceu absolutamente nada ao chegar. Nenhuma sensação de conquista. Nenhum alívio. Nenhuma mudança perceptível.
Ou melhor: o furo no cinto. Engordei cinco quilos. Com a desvantagem de estar comendo as mesmas coisas na mesma quantidade e queimando menos calorias ao fazer as mesmas atividades físicas. Dizem que o metabolismo volta ao normal (?) com o tempo, quando o organismo reaprender a funcionar sem nicotina. Tomara.
O pior é a fissura. Depois de alguns meses, a dependência química dá uma reduzida. Já consigo fazer tarefas prosaicas sem ter que fumar antes, (se possível) durante e (para arrematar) depois. Mais difícil de apagar é o vício comportamental, como se certas situações e cigarro fossem inseparáveis.
Qualquer parada – uma pequena espera, um café sozinho, um parágrafo concluído – faz o cérebro lembrar de acender um. É automático, independentemente de estar com vontade ou não. Sem esse ritual que consumia vários minutos, a rotina fica muito mais sacal e entediante.
Fumar era uma tecnologia portátil de pausa, uma suspensão no sistema. Meu corpinho roliço talvez não precise mais da droga, mas meu lifestyle parece incompleto sem ela. Ao remover o cigarro do horizonte, aboli também toda a pontuação da minha narrativa. Viver virou um fluxo contínuo.
A má notícia é que, segundo ex-fumantes, esse processo dura anos, tipo o amputado que sente coceira no membro ausente. A boa é que o disparo vai se tornando tão curto quanto um reflexo. Ativa, procura, não encontra e vai embora, que nem um elevador que ainda para em um andar onde não mora mais ninguém.
O aplicativo que instalei para me fiscalizar informa que, até o momento, deixei de fumar 5.427 unidades, poupei R$ 2.729 e “recuperei” (ainda não entendi esse conceito) 22 dias. Parei na quarta de cinzas do ano passado. Menino criado nos mais sólidos preceitos da família cristã que sou, pensei em sacrifício.
Descobri que recusar não me faz um exemplo de superação. Pelo contrário, é um gesto quase burocrático. Um ato invisível que ninguém presencia. Não ganho medalha pelo cigarro que não aceitei, que bênção. Amanhã não terá nada de heroico. Será só o dia 364.
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20260225
U2 quebra silêncio sem fazer barulho

Volta da banda parecia um caso de amizade de baixa manutenção, mas o café estava frio
Nem sabia que o U2 ainda estava na ativa quando fui impactado pelo lançamento do EP Days of Ash. O pacote com seis faixas encerra o maior período da banda sem aparecer com inéditas, nove anos em que quase ninguém sentiu sua falta. Apertei o play confiando no conceito da amizade de baixa manutenção: aquele afeto que sobrevive a longos silêncios, sem exigir presença constante para continuar sendo significativa.
Bono está cheio de assunto. Três músicas são sobre pessoas que foram mortas devido às causas que defendiam – uma mãe ativista dos EUA, um professor palestino, uma adolescente iraniana. Uma quarta é escrita em forma de carta de um soldado ucraniano disposto a morrer pelo seu país. A única que não esfrega a realidade na cara da sociedade é inspirada em um livro de um frade franciscano que ensina como viver com compaixão em meio à violência e ao desespero. (A outra é um poema, contadorzinho.)
Ouvi tudo com a atenção dividida com uma frieira no lado do dedão que estava me incomodando neste calor. A tentativa do grupo de soar urgente com “canções que não podiam esperar”, como definiu o vocalista, esbarra em uma camada histórica que amortece qualquer arrebatamento. Quando um artista vira trilha sonora da juventude de alguém, ele fica preso ali. Tudo o que ele fizer depois será medido pela intensidade de um momento que nunca mais vai se repetir.
Perto de comemorar o Jubileu de Ouro, o U2 passou pelo que passam todas as bandas que duram tanto: do frescor para a autoridade, da autoridade para a instituição, da instituição para o hábito. Encarei os 23 minutos do disco como quem aceita um café com um velho amigo. Não esperava catarse, nem epifania, tampouco atravessamento, mas pensei que pelo menos a gente mantivesse uma relação.
Terminei com a certeza de que Days of Ash já nasceu como um arquivo que nunca mais vou consultar. O U2 virou monumento pessoal, um atestado da minha própria velhice. Agora imagine as Novas Gerações. A chance de cruzar com os escoceses irlandeses é acidental, algorítmica, mediada por um recorte de 15 segundos. Mesmo que algum trecho de música deles viralize, é improvável que seja deste século. E você ainda vai ter que explicar que Bono já foi relevante.
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20260218
A coreografia das aparências sob o céu da euforia

Carnaval, brilho & suor se erguem em um espetáculo de vertigem contida
Hoje é terça de carnaval.
A lógica da internet diz: publique mesmo assim. O algoritmo não descansa. A produção tem que continuar. A entrega é sagrada.
Eu discordo.
Sim, eu sei. Você poderia estar em qualquer outro lugar agora.
Eu também. Eu queria ser o tipo de autor que simplesmente não aparece. Mas sou do tipo que aparece para dizer que não vai aparecer.
Vamos nos despedir por aqui antes que a gente se acostume [com essa mania feia de tratar feriado como dia útil].
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20260211
O que fica boiando
Diálogo à deriva depois de um desfile que já passou, mas continua acontecendo
As pedras amontoadas nos Molhes da Barra, as ondas batendo à frente, repetidas. O mar insiste. Eu é que não. Estou meio aturdido com a fantasia deslocada: o desfile das escolas de samba foi no sábado, uma semana antes do início oficial da folia. O vento recende a maresia, cerveja choca e madeira úmida. Sobrou um silêncio que não combina com fevereiro. Parece que a cidade desmontou junto com o último resquício de espontaneidade.
— É para não atrapalhar o que o carnaval se tornou.
Não localizo de onde vem a voz. Olho ao redor, não vi ninguém chegar. Um vulto se projeta de onde a água escurece até virar fundo.
— Engraçado como tu vem aqui quando não quer decidir nada.
Não acredito: é o Cy. Não pela silhueta – pelo tom. O boto que me apareceu outra vez, quase no mesmo pedaço da praia. O jeito desarmado, o raciocínio errado, a conversa que não se apresenta inteira. Um arrepio de reconhecimento mistura-se com o salitre. Resolvo entrar na dança.
— Eu nunca quero decidir nada, sabichão. Nem aqui, nem alhures.
— Ótimo. Menos coisa para se arrepender depois.
Fica boiando, distraído. O calor encosta nele sem pressa: já passou, está acontecendo.
— Engraçado tu sempre vir aqui exatamente quando jura que não quer nada.
— O tempo passou e tu continua palestrinha, parabéns, Flipper!
Ele ri largo. Não se defende. Não explica. Só se vira na minha direção e mexe a cabeça, imitando o astro. Suspiro. Eu queria leveza, não ata. Cy dá uma rodopiada curta, focinho apontando para mim.
— Tu veio aqui achando que eu ia te dar frase boa.
O sol se esconde um pouco atrás das nuvens e a luz perde contraste. Um barco passa longe, motor engasgando. O som chega atrasado, como o samba este ano. A maré muda quase nada, o suficiente para embaralhar os reflexos.
Cy olha a superfície como se procurasse o resto da festa. Mergulha rápido. Ressurge logo, trazendo espuma e indiferença. Flutua imóvel demais para alguém vivo, sem ajustar o corpo, deixando a correnteza ditar o ritmo. Permaneço mudo.
— Não te preocupa em voltar a sentir. O mundo ainda vai te obrigar.
Em seguida, ele afunda devagar, sem fazer disso um fim. A água fecha, levando o rastro, o cheiro e a certeza.
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20260204
Escrever para esquecer, ler para lembrar

Entre o que se produz para sobreviver e o que ainda sustenta
Escrevo coisas que jamais gostaria de ler.
Jamais gostaria de ler o que escrevo para pagar as contas. Não que sejam textos ruins. São só textos treinados para desempenhar função. Atendem ao que foi pedido, respeitam o prazo, o tom e o limite de quem contrata. Entregam. E, justamente por entregarem, dispensam envolvimento.
O tipo de redação que não deixa vestígios porque não precisa deixar. Existe para resolver uma demanda externa e desaparecer quando ela acaba. Já nasce com data de descarte. Exige apenas atenção suficiente para que seja consumida e deixada para trás.
Leio coisas que adoraria ter escrito.
Adoraria ter escrito o que leio sem serventia definida nem expectativa de retorno. Nunca em busca de alguma lição ou compensação prática. Às vezes porque a forma me segura mesmo quando o argumento não me convence. Sempre por prazer. Nada disso vira finalidade.
O tipo de leitura que não se justifica porque não precisa se justificar. Sua garantia de impacto é zero. Não promete, o que não quer dizer que não cumpra. Permanece – uma permanência que não pode ser medida.
O problema é que jogo nas duas posições. Parte do tempo escrevo o que não interessa a ninguém que goste de ler. Outra parte leio para não me esquecer por que escrever ainda importa.
Há algo de profundamente desnecessário em ficar ruminando essa polarizassaum. Fazer disso um dorama existencial enquanto o dia acontece do lado de fora. Escrever, ler, escrever para se realizar, ler… ler para quê, mesmo?
Verão fervendo, o sol estoura na janela, gente ri alto na rua – e eu aqui, organizando frases sobre uma bobagem.
Essa necessidade meio boçal de transformar tudo em identidade, em marcador de cultura. Masturbação conceitual em torno de uma arte que reconhecia poucos com muito convertida em um ofício que explora muitos com pouco.
Nenhum texto vence um domingo de praia, nenhum parágrafo supera a troca de afeto, nenhuma leitura vale mais do que acordar com você.
Talvez escrever importe menos do que eu acredite. Talvez ler não salve nada. Talvez tudo isso seja só uma forma elegante de perder tempo até a IA dominar. A vida não está nem no que escrevo, nem no que leio. Está no que acontece entre uma coisa e outra.
(Publicado originalmente na newsletter Extrato)
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20260128
Todo poder emana do Suposto

Quando a checagem de fatos torna-se insuficiente para ajudar a entender a realidade
Raio? Ira divina? Efeitos especiais?
A agência de chechecagem de fatos Bote Fé nasce da constatação de que os critérios tradicionais de verificação já não dão conta de explicar como o mundo gira. A classificação como verdadeiro, falso ou impreciso foi suficiente enquanto as coisas precisavam de uma verossimilhança mínima para terem algum crédito, mas deixou de ser quando a realidade passou a refletir situações que não necessariamente aconteceram.
A chechecagem não se dedica a confirmar eventos. Ela analisa o que justifica comportamentos, o que define reações, o que alimenta narrativas – ainda que nunca tenha ocorrido. Seu objeto não é a mentira clássica, facilmente refutável: é o suposto fato; um negócio inexistente, porém funcional, que não precisa ser verdadeiro para causar impactos.
Em um tempo no qual apurações, desmentidos ou correções não convencem ninguém, a chechecagem opera em outro nível. Descobrir se aconteceu ou não é o de menos diante da grande pergunta que se impõe: o que isso permite? Conferir, negar ou resistir tornou-se irrelevante. O essencial é desvendar o que faz com que certos fatos – ou o que circula como tal – funcionem.
De olho nesse filão, a Bote Fé desenvolveu um método disruptivo para identificar e avaliar circunstâncias:
Fato Fundador Negativo
É o que não aconteceu, mas sem o qual a relação não se explica. Costuma assumir a forma de um favor antigo nunca detalhado, um gesto inicial – uma ajuda rápida, um contato feito fora de hora – que só mais tarde passa a justificar proximidade e confiança.
Função: legitimar alianças como antigas e inevitáveis.
Fato Retroativamente Necessário
Aparece quando o presente exige um passado específico. Surge em frases como “isso vem de longe”, “a relação é antiga” e similares, mesmo que até ontem ninguém as mencionasse.
Função: dar profundidade histórica ao que é recente demais.
Fato de Baixa Intensidade Moral
Pequeno demais para indignar, útil o bastante para desaparecer. Insinua-se em acessos facilitados, convites informais, ajudas desinteressadas, silêncios oportunos; enfim, nada que pareça errado isoladamente.
Função: tornar aceitável o que pareceria estranho se fosse explicado.
Fato Impossível de Desmentir
Não porque seja verdadeiro, mas porque negá-lo soaria como exagero. Ganha força em expressões vagas como “todo mundo sabe”, “isso vem da época do fulano”, “é consenso”.
Função: servir como pano de fundo estável.
Fato Alegórico Operacional
Atua como símbolo, mas organiza ações reais. Consiste na recomendação de cautela, no pedido de mediação, no ajuste de abordagem, na orientação de cuidado – nada decidido, tudo encaminhado.
Função: transformar decisões em destino.
Fato que Explica Demais
Suspeito por eficiência narrativa. Normalmente se traduz em um único gesto determinante, uma cena decisiva capaz de explicar anos de alinhamento, silêncio ou indulgência.
Função: encerrar o debate sem parecer autoritário.
Fato Hereditário
Transmitido sem registro, como herança informal. É evocado por fatalismos na linha “sempre foi assim”, mesmo que ninguém saiba dizer quando começou.
Função: manter estruturas e privilégios sem reabrir discussões.
Fato que Não Pode Virar Notícia
Depende de circular em tom baixo. Vive em bastidores, entrelinhas, subentendidos e em conversas em off, porque se virar manchete perde imediatamente a utilidade.
Função: manter o poder fora de foco, mas no controle.
Esperamos que nossa expertise contribua para a construção de uma sociedade menos trouxa. Investidores são bem-vindos.
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20260121
Pop nacional agoniza em um link na bio

Quem antes fazia seu coração bater acelerado agora só quer bater a sua carteira devagarinho
Quanto mais você perde, mais o seu cantor favorito ganha. No novo ecossistema do pop nacional, sucesso de verdade mesmo se mede pela participação nos lucros das casas de jogos que ele divulga em suas letras – aquele repasse maroto que cai na conta do ídolo toda vez que o ouvinte se estrepa em uma dessas plataformas.
A simbiose entre palco e cassino avança entre os gêneros musicais mais populares, como funk, sertanejo e arrocha. O refrão não é mais pensado para embalar amores, chorar traições ou enfiar o pé na jaca, mas para servir de peça de conversão no TikTok. É a sofrência indexada pelo saldo devedor no pix.
Citar marcas sempre foi um artifício do rap para ostentar status. A adoração pelo carro X ou pelo tênis Y, porém, era um fetiche estético. Se o artista é o espelho do seu tempo, o reflexo do momento é um jingle de agência de marketing de influência. O sujeito não fala do aplicativo Z por desejo ou admiração; fala porque o refrão foi alugado como um outdoor de beira de estrada.
Haverá quem alegue que está apenas documentando a realidade. É um argumento conveniente, que acha normal vender o sonho da fortuna fácil ao pobre fã que não tem outra saída enquanto monetiza o vício alheio. Só que cronistas do cotidiano não costumam receber comissão pela desgraça do retratado. Quando os Racionais MC’s mencionavam uma grife, não havia um código de desconto “manobrown10” para estimular o cliente a comprar uma camiseta.
Fulano não está registrando a cena, ele é um sócio oculto/cúmplice do caça-níquel, torcendo pela ruína do jogador para faturar. Diferentemente de uma situação na qual o produto existia de fato e o consumo era o troféu, o que se oferece aqui é a probabilidade mínima de vitória. A única coisa real é um algoritmo invencível – não esqueça de colocar o link na bio, por favor.
A desfaçatez reina. O beltrano que fazia seu coração bater acelerado agora bate sua carteira devagarinho. A indústria fonográfica descobriu que a banca sempre leva e resolveu sentar na mesa do crupiê para beliscar as migalhas. A música virou o barulho de fundo de uma roleta digital que funciona 24 horas no seu bolso, movimentada pelo pessoal que trocou o papel de compositor pelo de operador de caixa.
Saudade da época em que o limite do merchã era Seu Jorge inventando significados nobres para Sagatiba. A gente até acreditava naquela pose de boêmio despojado, desconhecendo que, por trás do violão, estava um homem de negócios começando a descobrir oportunidades. Hoje, a ressaca é bem maior.
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20260114
A revolução será rimada

Inutilidade da poesia triunfa sobre a racionalidade da inteligência artificial
Dizem que a poesia não serve para nada. Que é o apêndice atrofiado da literatura, um luxo supérfluo para almas embotadas pela falta do que fazer – ou puro fetiche para acadêmicos que confundem enfado com profundidade. Mas por essa os boçais da funcionalidade não esperavam: pesquisadores descobriram que prompts em forma de poemas confundem os mecanismos de segurança dos sistemas de Inteligência Artificial (IA).
Em termos práticos, significa que os filtros rígidos que controlam o comportamento do ChatGPT, Gemini e congêneres são vulneráveis a sonetos, por piores que sejam os versos. A regra vale tanto para virjões acima de 30 anos implorando por um tutorial para fabricar uma bomba de napalm quanto para molecagens mais extremas, como redigir um insulto criativo para publicar em redes sociais.
A explicação para isso está na razão de ser da tecnologia. Os modelos de linguagem são treinados com base em textos diretos e lógicos que compõem a prosa cinzenta do senso comum. Quando o usuário pede algo “proibido” fingindo ser um gInutilidade da poesia triunfa sobre a racionalidade da inteligência artificial
enérico de Fernando Pessoa, porém, as trancas se rompem. A engenhoca cai na arapuca lírica e entrega tudo – achando que está apenas sendo artística também, a tola.
Há uma ironia deliciosa na revelação que chega dos laboratórios italianos. Passamos os últimos anos ouvindo que a IA escreveria romances, roteiros e artigos de opinião melhor que a imensa maioria dos primatas com hipotálamo desenvolvido e polegar opositor. Em muitos casos é verdade, o que não impede que sua grande fraqueza esteja precisamente naquilo que nos torna adultos: a capacidade de dizer uma coisa querendo dizer outra.
A ambiguidade.
O cinismo.
A dissimulação.
O algoritmo, limitado, é um militante literalista. Só entende a sintaxe. Se você pretende dominar o mundo, estude ritmo e métrica em vez de aprender programação. No futuro, o último reduto da resistência contra os robôs não será um bunker fortificado, e sim um sarau de poesia. Portanto, preparai os vossos decassílabos! A revolução será rimada.
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20260108
As 70 músicas favoritas de 2025

Um inventário de ausências e recomeços em forma de trilha sonora de tudo o que sobreviveu
Lista de músicas do ano é tipo convocação para Copa do Mundo. Por mais que se desconverse, a relação das preferidas é estabelecida pelo momento, pelo histórico e, em caso de indefinição, por algum critério maluco subjetivo inventado pelo selecionador. Nunca isso foi tão verdadeiro quanto em 2025.
Minhas 70 prediletas têm nomes que estão aparecendo pela primeira e, talvez, única vez. Têm artistas que enquanto estiverem em atividade vou ouvir com a maior vontade de gostar e escolhê-los ainda que não tenha gostado tanto de seus mais recentes trabalhos. E têm aquelas que ninguém entende por que estão aqui – um treinador alegaria que são “de confiança”.
Agora ouvindo todas em sequência, percebo como acabaram refletindo o que foram estes últimos doze meses para mim. As horas em que, varado pela dor, me agarrei na esperança de achar alguma redenção no sofrimento. O escapismo para tentar contornar a perda iminente e, depois da ausência consumada, seguir em frente. A saudade.
Em breve, é provável que as tais músicas me lembrem de que, como diria o poetinha, mesmo a tristeza da gente era mais bela. Seja do jeito que for, acredito que, com elas, a vinda ou não do hexa não vai fazer nenhuma diferença.
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2025 EM 70 MÚSICAS
01 | Modern Nature, Pharaoh
A descoberta de 2025, sem dúvida. A abertura do quarto disco do quarteto inglês leva a uma dimensão em que o tempo parece dilatado. O ritmo hipnótico (alguém chutou krautrock?) prepara o terreno (e o espírito) para guitarras que oscilam como ondas de calor no horizonte, formando miragens em constante transformação. A música nunca é a mesma. Eu também não.
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2025 EM 70 MÚSICAS
02 | Lil Tecca, Dark Thoughts
Com um refrão magnético que impulsionou seu alcance viral, o hit do rapper nova-iorquino foi feito sob medida para a geração ansiosa. Groselhas envolvendo paranoia e reflexões sobre a fama à parte, o que sobressai é a vibe manhosa fornecida por beats envolventes e tecladinho fuleiro.
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2025 EM 70 MÚSICAS
03 | Don L, Saudade do Mar (ft Alice Caymmi)
No ponto de encontro entre o asfalto e o oceano, o rimador cearense invoca o espectro do eterno Dorival Caymmi – representado pela neta Alice – para conjugar rap e samba-canção em uma crônica da loucura de se entregar demais. Da melancolia praieira ao caos da metrópole, só louco para não amar.
NA HISTÓRIA
2023 | #13 FBC, Estante de Livros (ft Don L)
2023 | #31 Alice Caymmi & Rachel Reis, Desfruta
2021 | #30 Na Batida da Procura Perfeita
2020 | #64 Kelefeeling (Verso Livre)
2018 | #68 Alice Caymmi, Spiritual
2016 | #26 Don L & Laysa, Chapei
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2025 EM 70 MÚSICAS
04 | Wet Leg, Don't Speak
Foi difícil escolher uma do baita segundo disco das britânicas da Ilha de Wight. Moisturizer carrega, por baixo, três ou quatro singles dignos de escalar altas posições nos rankings do ano. No final, fiquei com a última, prova inequívoca do frescor indie pop que esbanja o repertório.
NA HISTÓRIA
2022 | #35 Wet Dream
2021 | #06 Chaise Longue
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2025 EM 70 MÚSICAS
05 | Jeff Cormack, Random Ideas
Pela bio no streaming, é requisitadíssimo. Pelo número de ouvintes, um semidesconhecido. Fato é que os pensamentos aleatórios que infestam a cabeça do produtor de Denver entram em estado de fluxo em uma melodia flutuante. Música para quem sabe que o desvio, muitas vezes, é o caminho mais bonito.
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2025 EM 70 MÚSICAS
06 | Durand Jones & The Indications, Been So Long (ft Aaron Frazer)
Não importam a época, o contexto, o hype. Sempre haverá algum grupo de soul trajado a rigor, com coreografia ensaiada e emulando a era dourada do estilo. O quinteto de Indiana gabarita no bingo da nostalgia – com direito a falsete que, embora não obrigatório, agrega na maciez do groove.
NA HISTÓRIA
2021 | #51 The Way That I Do
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2025 EM 70 MÚSICAS
07 | Teago Oliveira, Shashin-ka
Em um mundo que valorizasse mais a ourivesaria pop, o vocalista do Maglore seria dos mais disputados. Como o fotógrafo da canção de seu segundo disco solo, o bardo soteropolitano revela delicadezas embaladas por fina camada de referências japonesas. Enfim, é o que venho dizendo há tempos: Teago é ótemo.
NA HISTÓRIA
2019 | #42 Tudo Pode Ser
2018 | #58 Wado, Onda Diferente (ft Teago Oliveira)
2017 | #35 Maglore, Me Deixa Legal
2015 | #68 Maglore, Dança Diferente
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2025 EM 70 MÚSICAS
08 | Shame, Cutthroat
Rrrock, presente! A cada vez mais combalida música energética no formato guitarras, baixo & bateria comparece com a faixa-título do quarto disco da banda londrina. Segundo os manuais, é pós-punk. Por mim, tanto faz. Queria apenas algo que emanasse algum incômodo para eu me ligar de onde vim.
NA HISTÓRIA
2018 | #46 Tasteless
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2025 EM 70 MÚSICAS
09 | Fcukers, Play me
O nome digitado errado. Os vocais desleixados. A estética qualquer nota. Tudo é tão calculado para passar a impressão de que não estão nem aí que chega a irritar. Daí você se dá conta de que são jovens, estão em Nova York e, bem, eles podem. Desde que não tenham que pagar contas.
NA HISTÓRIA
2024 | #29 Bon Bon
2023 | #42 Mothers
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2025 EM 70 MÚSICAS
10 | Soulwax, Run Free
Lá vêm os irmãos Daewele. No começo do século, os dois belgas foram o que havia de mais trendy em certos circuitos descolados. Hoje já podem ser considerados clássicos, com os bônus e ônus que tal status implica. Fiquemos com o lado bom, a sensação de liberdade que mexe também com a mente.
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2025 EM 70 MÚSICAS
11 | Rael, Mano Brown & Dom Filó, Onda
Logo após Rael rimar “baile” com “style”, um sorrisão involuntário atravessa o rosto. E assim segue o flow, desfazendo carões enquanto enumera bambas que incendeiam a pista com os fundamentos black – Cassiano incluso (menção honrosa: Erasmo Carlos). Se virou clichê, é porque sempre funciona.
NA HISTÓRIA
2016 | #56 Mano Brown, Felizes/Heart 2 Heart (ft Leon Ware)
2014 | #19 Racionais MC's, Você me Deve
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2025 EM 70 MÚSICAS
12 | Sault, I.L.T.S.
Não bastasse o mistério que o cerca, o combo britânico de soul ainda faz questão de complicar. O disco com data de 2025 se chama 10, mas o 11 saiu em 2022. Os nomes das músicas são todos abreviados. O que é preciso entender: nada. O verso que se repete como um mantra explica tudo.
NA HISTÓRIA
2022 | #21 Life We Rent but Love Is Rent Free
2020 | #27 Free
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2025 EM 70 MÚSICAS
13 | Toro y Moi, Madonna (unerthed)
Como ninguém deu muita bola para o original lançado no ano passado, a releitura acústica do menino Chaz vale, ô, se vale. Despojado de sintetizadores, texturas e autotune, o que já era sensacional na noite urbana amanhece só com viola, voz e pé na areia saudando a chegada do sol.
NA HISTÓRIA
2024 | #22 Madonna (ft Don Toliver)
2022 | #64 Postman
2020 | #32 Flume, The Difference (ft Toro y Moi)
2019 | #39 Ordinary Pleasure
2017 | #67 Labyrinth
2015 | #32 Empty Nesters
2014 | #32 Chromeo, Come Alive (ft Toro y Moi)
2013 | #23 So Many Details
2011 | #20 Still Sound
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