20260408

Difícil resistir a tanto caos, paz, funk e cor



Documentário sobre origem do Red Hot acerta ao focar em três moleques & um Datsun verde

Antes de se tornarem esta corporação milionária, os Red Hot Chili Peppers eram uns malucos que faziam funk com atitude punk. Antes ainda disso, não passavam de uns moleques às vezes adoráveis, às vezes idiotas. O documentário A Origem dos Red Hot Chili Peppers: Nosso Irmão Hillel (Netflix) conta o que aconteceu entre a segunda e a primeira frases, com ênfase no guitarrista falecido bem quando a banda ameaçava decolar.

A abertura com “Walkin’ on Down the Road” já meio que estabelece o recorte do filme. A música é uma das sonzeiras de Uplift Mofo Party Plan, o disco que foi o epitáfio de Hillel Slovak. A partir daí, a história recua para Anthony Kiedis e Flea adolescentes, recém-chegados à Califórnia. No show de talentos da mesma escola em que viraram amigos inseparáveis, conhecem o futuro “irmão” arrebentando em um grupo chamado Anthyn.

Como os dois, Slovak nascera em 1962, viera de fora (era israelense) e podia ser tão ou mais despirocado. Diferentemente deles, porém, tem estilo e tem alma de artista: escreve, desenha, toca guitarra. E dirige um Datsun verde com toca-fitas para aloprarem por Los Angeles. Agora são três que não se desgrudam, unidos pela compulsão por fazer merda típica dos jovens normais.

Com o fim do ensino médio, Slovak continua no Anthyn, para o qual convida Flea a assumir o baixo. O repertório, hard rock convencional, não comove ninguém. Então mudam de nome para What Is This e adotam uma estética mais moderninha. Enquanto isso, Kiedis vai para a universidade, onde ouve Grandmaster Flash e obtém a graça: depois do rap sua vida nunca mais será a mesma.

Descobrir que não precisava cantar para ser vocalista facilita a Kiedis entrar na banda improvisada com Flea, Slovak e o baterista Jack Irons (outro egresso do Anthyn/What Is This) para abrir o show de um chapa. O resto é familiar para quem cresceu se referindo à banda como Red Hot, em vez de Chili Peppers.

A estreia em disco sem Slovak nem Irons. Drogas. A volta de Slovak em Freaky Styley (1985), produzido pelo cachorrão George Clinton. Mais drogas. A volta de Irons para a gravação de Uplift… (1987). Muito mais drogas. Até junho de 1988.

Conduzido por entrevistas atuais com Flea e Kiedis e pela recriação da voz de Slovak, usada para ler trechos de seus diários, o documentário passa por esses eventos sem tentar encontrar qualquer sentido posterior. Apenas aconteceram. Naturalmente. O único aceno ao porvir é a aparição de John Frusciante, substituto e discípulo de Slovak, reconhecendo a influência do guitarrista na identidade artística da banda.

Sobem os créditos ao som de “My Lovely Man”, uma das sonzeiras do clássico Blood Sugar Sex Magik (1991), e me pego refletindo – o que é sempre um perigo. Acho que Nosso Irmão Hillel é o produto associado à banda que mais gostei neste século. Acredito em Flea quando ele diz que gravar a primeira demo do grupo foi uma das melhores sensações que já teve. É quase impossível resistir a um tempo que, como o próprio baixista descreve, “tinha caos, tinha paz, tinha funk e tinha cor”.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

Nenhum comentário: