
Quem antes fazia seu coração bater acelerado agora só quer bater a sua carteira devagarinho
Quanto mais você perde, mais o seu cantor favorito ganha. No novo ecossistema do pop nacional, sucesso de verdade mesmo se mede pela participação nos lucros das casas de jogos que ele divulga em suas letras – aquele repasse maroto que cai na conta do ídolo toda vez que o ouvinte se estrepa em uma dessas plataformas.
A simbiose entre palco e cassino avança entre os gêneros musicais mais populares, como funk, sertanejo e arrocha. O refrão não é mais pensado para embalar amores, chorar traições ou enfiar o pé na jaca, mas para servir de peça de conversão no TikTok. É a sofrência indexada pelo saldo devedor no pix.
Citar marcas sempre foi um artifício do rap para ostentar status. A adoração pelo carro X ou pelo tênis Y, porém, era um fetiche estético. Se o artista é o espelho do seu tempo, o reflexo do momento é um jingle de agência de marketing de influência. O sujeito não fala do aplicativo Z por desejo ou admiração; fala porque o refrão foi alugado como um outdoor de beira de estrada.
Haverá quem alegue que está apenas documentando a realidade. É um argumento conveniente, que acha normal vender o sonho da fortuna fácil ao pobre fã que não tem outra saída enquanto monetiza o vício alheio. Só que cronistas do cotidiano não costumam receber comissão pela desgraça do retratado. Quando os Racionais MC’s mencionavam uma grife, não havia um código de desconto “manobrown10” para estimular o cliente a comprar uma camiseta.
Fulano não está registrando a cena, ele é um sócio oculto/cúmplice do caça-níquel, torcendo pela ruína do jogador para faturar. Diferentemente de uma situação na qual o produto existia de fato e o consumo era o troféu, o que se oferece aqui é a probabilidade mínima de vitória. A única coisa real é um algoritmo invencível – não esqueça de colocar o link na bio, por favor.
A desfaçatez reina. O beltrano que fazia seu coração bater acelerado agora bate sua carteira devagarinho. A indústria fonográfica descobriu que a banca sempre leva e resolveu sentar na mesa do crupiê para beliscar as migalhas. A música virou o barulho de fundo de uma roleta digital que funciona 24 horas no seu bolso, movimentada pelo pessoal que trocou o papel de compositor pelo de operador de caixa.
Saudade da época em que o limite do merchã era Seu Jorge inventando significados nobres para Sagatiba. A gente até acreditava naquela pose de boêmio despojado, desconhecendo que, por trás do violão, estava um homem de negócios começando a descobrir oportunidades. Hoje, a ressaca é bem maior.
(Publicado originalmente na newsletter Extrato)
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