
Convocação do atacante envolve caneta emagrecedora, Flamengo e rolo do Master
Se você avistou o título acima em sua caixa de e-mails e clicou apenas para conferir que história é esta, parabéns. Você é a prova ambulante de que o clickbait – “técnica de marketing digital que utiliza manchetes exageradas, sensacionalistas ou enganosas em títulos, miniaturas e links para atrair atenção e gerar cliques, muitas vezes retendo informações essenciais para forçar a curiosidade”, define a grande rede mundial de computadores – funciona mesmo.
Agora, se você avistou o título acima em sua caixa de e-mails e clicou para conferir que história é essa, muitíssimo obrigado. Você é a razão de eu sacrificar os raros momentos que poderiam ser consagrados ao nadismo para produzir conteúdo gratuito de relevância duvidosa e utilidade idem. Entre na minha casa, vasculhe a geladeira, urine com a porta aberta do banheiro e faça amor com todos os bípedes, incluindo a calopsita.
A diferença crucial está no “apenas”. No primeiro caso, talvez o primata nem frequente este espaço com regularidade. De repente, assinou só por pena, para fingir que está prestigiando um desconhecido íntimo. Mas não conseguiu resistir ao enunciado e, movido por um desejo incontrolável de perder tempo, caiu aqui. No segundo, a assinante dourada chegou como chega toda semana: completamente despida (de pré-conceitos).
Tudo o que ela sabe sobre Neymar é contra a sua vontade. O interesse dela é – perdão pela falta de falsa modéstia – no que eu tenho a dizer a respeito do tema. Para concordar, para divergir, isso é o de menos. No meu mundo ideal, o que mais a impele a me acompanhar até o final é como eu digo. A forma. Mesmo quando discorda de quase tudo o que escrevi, ela se diverte. Nem que seja rindo de mim, não comigo.
Ao me dar o privilégio de sua audiência cativa independentemente do assunto que estrago, a assinante dourada está também realizando um sonho que alimento desde o tempo em que existiam revistas: a valorização do autor. Revista, para quem não está familiarizado com o termo, era como uma rede social na qual somente umas 20 pessoas podiam postar. Em vez de um algoritmo decidir o que aparecia, a edição determinava o que merecia existir.
Feita a explicação, a revista de música pop na qual eu sonhava trabalhar não tinha artista na capa. Era só o logo e pronto. O freguês queria um exemplar não porque era fã do cantor X ou da banda Y, mas sim porque tinha certeza de que, lá dentro, iria encontrar algo que nunca havia procurado nem suspeitava que gostasse – e tudo apresentado por gente em que, de algum jeito, ele aprendeu a confiar de tanto ler.
Aí veio o famoso Advento da Internet e acabou com tudo. A curadoria com prazo de validade foi substituída por uma previsibilidade estética: o que essa pessoa já gosta? No digital, cabe tudo, desde que seja como o SEO (sigla em inglês para Sistema de Enganar Otário) mandar. O limite do papel obrigava a escolha e, com ela, o conflito. Manter esta newsletter é, guardadas as devidas proporções, uma tentativa de recriar essa dinâmica.
A outra alternativa seria fazer uma revista com algum artista muito popular na capa e mais nenhuma página com ele. Ué, você não comprou apenas por causa da capa com o fulano? Ei-la, fique com ele e não encha o meu saco. O título maroto desta edição é uma adaptação dessa solução para o ambiente online. Não estranhe se virar padrão a partir de hoje. Conto com seu senso crítico.
(Publicado originalmente na newsletter Extrato)
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