20260425

Onde a Geração Z não tem vez



Literatura de Ana Paula Maia leva você para um mergulho sem volta no Brasil profundo

Se você ainda não conhece Ana Paula Maia, aproveite que o nome dela está em relativa evidência após o anúncio dos finalistas do Booker Prize para recuperar o tempo perdido. A validação gringa é um reconhecimento tardio para a literatura seca, bruta e sem filtros da escritora fluminense radicada em Curitiba. Em uma época de sensibilidades aguçadas e telas assépticas, seus livros irrompem como um mergulho sem volta no Brasil profundo.

Entrei no universo da autora em 2020, com Carvão Animal (2013). O crematório da obra foi meu primeiro contato com o cenário de suas histórias: “não lugares” onde reinam o descarte e o isolamento, como abatedouros, colônias penais, zonas de mineração e rodovias desoladas. Esses locais, em que a morte pode ser um processo industrializado e a natureza parece conspirar contra o que restou de dignidade humana, determinam o comportamento das personagens.

Nos anos seguintes, tratei de ler tudo que encontrava com a assinatura de Maia. Apesar de ambientadas em uma contemporaneidade reconhecível, as tramas têm um tom de atemporalidade que sugere uma sociedade em colapso. É um presente que convive com o arcaico, no qual predominam ofícios manuais que pouco mudaram com o passar dos séculos e veículos atuais cruzam estradas poeirentas.

A realidade ganha contornos de um apocalipse iminente, com instituições falidas e uma sensação de que os recursos e a moralidade estão se esgotando. Não há datas precisas ou rupturas dramáticas, apenas a sensação de um tempo parado e gasto, marcado pela degradação generalizada em uma espécie de fronteira selvagem na qual a sobrevivência é a única lei vigente.

No meio dessa paisagem árida circula uma turma da pesada, encabeçada por Edgar Wilson. Seja como atordoador de gado ou removedor de animais atropelados, seja como motorista de caminhão ou pedreiro, ele atravessa diversos livros emanando um pragmatismo quase espiritual. Movido por uma mistura de ética própria e misericórdia técnica, sua função é dar uma destinação final ao que a dita civilização não quer mais.

Outra figura recorrente é Bronco Gil, um ex-presidiário dono de um senso de justiça muito particular e uma resistência física impressionante. Em comum, todos – incluindo o ex-padre Tomás, o agente prisional Melquíades e os versáteis Ernesto Wesley (irmão de Edgar Wilson) e Erasmo Wagner (mostrando a fixação de Maia pelas iniciais EW) – representam uma estirpe de homens moldados pelo trabalho braçal e alheios às convenções da classe média.

Entre um título e outro, matei a fissura assistindo à série Desalma (Globoplay), também dela. No vídeo, as mulheres dominam, com Cássia Kis muito convincente como bruxa, uma protagonista linda (Anna Melo) e Cláudia Abreu na pior atuação de sua carreira. Achei bacana o – na definição da própria autora – folk horror do enredo, mas nem se compara com o terror que ela toca no papel.

Em 2024, esperei o lançamento de Búfalos Selvagens como quem aguarda o disco novo de uma banda preferida. A jornada terminal de Edgar Wilson e Bronco Gil confirma que a Geração Z não duraria nem cinco minutos no faroeste existencial de Ana Paula Maia. Não há espaço para o ativismo de sofá ou para o conforto do algoritmo quando se tem sangue sob as unhas ou o cheiro de carniça impregnado na pele. A vida atropela.

O pensamento vivo de Edgar Wilson

“Um abismo chama outro abismo.” (De Gados e Homens)

“Vivemos dias difíceis. Até os cães comem os próprios donos em plena luz do dia.” (Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos)

“Se você encontra um morto você também se torna responsável por ele.” (Enterre seus Mortos)

“Sempre ouvi dizer que os Filhos do Senhor serão levados diretamente a Ele para serem poupados da calamidade. Todo o resto vai sobreviver aqui embaixo… quero dizer, o resto de nós, os pecadores.” (De Cada Quinhentos uma Alma)

“O moedor nunca pode parar. Lugares como esse não fecham, eles se multiplicam.” (Búfalos Selvagens)

Menções honrosas
“No fim, somos todos livres, porque, no fim, estaremos mortos.” (Bronco Gil, em Assim na Terra como Embaixo da Terra)

“Não se engane: a velhice não melhora o caráter de ninguém. Aquilo que uma pessoa foi fica gravado na pele, no cheiro, no rosto. (…) Sei quando alguém não prestou só pelo contorno das rugas, pelo hálito e pelo olhar.” (Bronco Gil, em Assim na Terra como Embaixo da Terra)

“Dinheiro sempre vira lixo. Lixo e bosta.” (Erasmo Wagner, em Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos)

“Quando a vaca é boa, até a bosta é valiosa.” (Gervásio, em Carvão Animal)

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

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