20260211

O que fica boiando


Diálogo à deriva depois de um desfile que já passou, mas continua acontecendo

As pedras amontoadas nos Molhes da Barra, as ondas batendo à frente, repetidas. O mar insiste. Eu é que não. Estou meio aturdido com a fantasia deslocada: o desfile das escolas de samba foi no sábado, uma semana antes do início oficial da folia. O vento recende a maresia, cerveja choca e madeira úmida. Sobrou um silêncio que não combina com fevereiro. Parece que a cidade desmontou junto com o último resquício de espontaneidade.

— É para não atrapalhar o que o carnaval se tornou.

Não localizo de onde vem a voz. Olho ao redor, não vi ninguém chegar. Um vulto se projeta de onde a água escurece até virar fundo.

— Engraçado como tu vem aqui quando não quer decidir nada.

Não acredito: é o Cy. Não pela silhueta – pelo tom. O boto que me apareceu outra vez, quase no mesmo pedaço da praia. O jeito desarmado, o raciocínio errado, a conversa que não se apresenta inteira. Um arrepio de reconhecimento mistura-se com o salitre. Resolvo entrar na dança.

— Eu nunca quero decidir nada, sabichão. Nem aqui, nem alhures.

— Ótimo. Menos coisa para se arrepender depois.

Fica boiando, distraído. O calor encosta nele sem pressa: já passou, está acontecendo.

— Engraçado tu sempre vir aqui exatamente quando jura que não quer nada.

— O tempo passou e tu continua palestrinha, parabéns, Flipper!

Ele ri largo. Não se defende. Não explica. Só se vira na minha direção e mexe a cabeça, imitando o astro. Suspiro. Eu queria leveza, não ata. Cy dá uma rodopiada curta, focinho apontando para mim.

— Tu veio aqui achando que eu ia te dar frase boa.

O sol se esconde um pouco atrás das nuvens e a luz perde contraste. Um barco passa longe, motor engasgando. O som chega atrasado, como o samba este ano. A maré muda quase nada, o suficiente para embaralhar os reflexos.

Cy olha a superfície como se procurasse o resto da festa. Mergulha rápido. Ressurge logo, trazendo espuma e indiferença. Flutua imóvel demais para alguém vivo, sem ajustar o corpo, deixando a correnteza ditar o ritmo. Permaneço mudo.

— Não te preocupa em voltar a sentir. O mundo ainda vai te obrigar.

Em seguida, ele afunda devagar, sem fazer disso um fim. A água fecha, levando o rastro, o cheiro e a certeza.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

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