
Os brasileiros que sonham com um país sem essa gentalha andamos assustados. A euforia com uma vitória progressista em primeiro turno deu lugar à depressão com a recuperação dos nossos piores pesadelos nas pesquisas. Em um espaço de semanas, a certeza virou apreensão, a esperança virou desalento e a confiança virou medo. Do alto do meu pragmatismo romântico, sorrio para disfarçar o nervosismo e me agarro em uma palavra:
Calma.
Porque a tendência é a campanha descer a níveis abissais de escrotidão, principalmente para desviar o foco das mamatas que virão à tona até outubro. Porque a ameaça de golpe não passa de bravata de um bando de viúvas da ditadura para nos deixar paralisados. E, mais importante, porque continuamos na frente em todos os cenários, a vantagem apenas diminuiu.
Sei que dá um baita desânimo ver, a essa altura do campeonato e diante de todas as evidências, um percentual significativo do eleitorado ainda defender o indefensável. Que se resolvam com suas biografias depois – e tratem de apagar os prints que desgraçarão seus descendentes. Vamos focar naqueles que só estão esperando um carinho, uma palavra amiga para despertar.
A única polarização que existe é entre civilização e barbárie, essa conversa de dois extremos é armadilha inventada para oferecer o colo do capeta aos hesitantes. É nosso dever resistir à tentação de mandá-los para a casa do caráter e responder com educação, com cultura, com paixão, com a alegria que nos é inerente e tanto desconcerta o outro lado, com a lembrança de que todo mundo era mais feliz.
Não se ganha nem se perde na véspera. Nunca foi hora de salto alto, nunca será de baixar a guarda.
(Escrevo isso mais para mim do que para qualquer outra pessoa, pois também fiquei apavorado com a hipótese de mais quatro anos com o fracasso da minha geração sendo esfregado diariamente na minha cara. Desculpe pelo meu primarismo motivacional, se eu fosse bom nisso já estaria ganhando dinheiro como coach.)
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20220413
Bipolaridade x polarização
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APARELHO | Um panteão de analogias (pâncrea’s not dead)
A gente tinha prometido falar de coisas mais aprazíveis, mas o odor pútrido da terceira via – aka “centro democrático” – em decomposição nos levou de volta à política com aquele papo envolvente típico dos militantes forjados na chalaça. Regidos por uma maniçoba conceitual preparada com resquícios selecionados do que um dia já foi pop, apontamos nossos indicadores amarelos e resinados para a única saída razoável: a chinelagem ampla, geral & irrestrita. Aguardamos você para o nosso festival em Brasília na posse do Novo Aeon!
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PLAYLIST | salvam-se todos no final
Um monte de novidades para mostrar como estou ligado nos paranauê.
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20220406
Apenas um pouco dos restos de ontem

No dia 4 de janeiro de 1952, o estudante de medicina Ernesto Guevara de la Serna e o bioquímico Alberto Granado sentaram em uma Norton 500 e deixaram Buenos Aires para trás.
A intenção era chegar na Venezuela em abril para comemorar os 30 anos de Granado, percorrendo 8 mil quilômetros pela América Latina. O roteiro foi alterado por tombos, amores e descobertas no meio do caminho. A moto, de 1939, pediu arrego no Chile. Sem “La Poderosa”, a dupla seguiu andando ou de carona.
No aniversário do gordito, os viajantes ainda estavam no Sul do Peru. De Lima, partiram para um leprosário na Amazônia peruana, onde “El Fuser”– como Ernesto era apelidado – aprendeu que não podia levar a vida en el ritmo del chipi-chipi se quisesse entrar para a História.
Na noite de 18 de janeiro de 2005, o fotógrafo portenho-carioca Matias Maxx, o MC Mateus Pinguim, o DJ Castro e o desenhista Juca acomodaram-se na cabine dupla de uma S-10 branca e deixaram o Rio de Janeiro para trás.
A intenção era chegar a Porto Alegre no final do mês para lançar a terceira edição do zine (“revista”, observa Matias) Tarja Preta no Fórum Social Mundial, percorrendo 2 mil quilômetros pelo Sul do Brasil. O roteiro foi enriquecido por festas, caôs, colisões e descobertas no meio do caminho.
A picape, de ano desconhecido, esbarrou de ré em uma caçamba de entulho em Curitiba. Com a traseira desamassada apenas o suficiente para não encostar na roda, o tarjamóvel fez uma escala estratégica em Florianópolis. Da ilha, o bonde partiu para apavorar o Acampamento da Juventude na capital gaudéria, onde o sound system da autointitulada Summer Love Tour operaria verdadeiras revoluções ao som de ragga, dub, reggae e funk-pancadão.
As aventuras de Guevara e Granado foram traduzidas com delicadeza pela lente de Walter Salles e pela trilha de Gustavo Santaolalla no filme Diarios de Motocicleta. As presepadas dos cariocas foram rabiscadas pelo traço toscano de Juca para o Tarja Preta #4.
Na volta, os três (Castro teve que abandonar a barca) pararam novamente em Florianópolis para o Carnaval. Instalados em uma pousada no Rio Tavares, promoveram uma festa à fantasia, invadiram um programa de rádio e definiram o agito da Lagoa da Conceição com uma tirada sagaz: “Favela com surfshops”.
Na Quarta de Cinzas se mandaram para São Paulo, para encerrar a turnê com mais festa e “mijadinho”. Vinte e cinco dias na estrada, 4 mil quilômetros e 3 mil zines (“revistas”, desespera-se Matias) depois, no domingo avistaram o Cristo Redentor.
Tudo isso me veio à lembrança quando achei a coleção completa do Tarja Preta no meio de uma pilha de publicações velhas que não tenho coragem de jogar fora. Na comparação, sou mais o Matias Maxx. Ele só perde no quesito camisetas: as 25 que restaram foram roubadas no último dia do fórum em Porto Alegre. Che continua vendendo as suas até hoje.
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Pelo desrespeito aos fatos

É dura a vida de estilista. Não que não tenha assunto, pelo contrário. Tudo vira um amontoado de ruído, uma espiral de bobajada que envergonha até o mais mundano cronista. Graças à divulgação do Tribunal Superior Eleitoral deste ex-país, por exemplo, me liguei que estava rolando o Lollapalooza. Aí fui assistir ao dia do Planet Hemp e fiquei com a nítida sensação de que a plateia não conhecia as músicas da banda.
Como não quero pagar de tiozinho (que sou), não falarei mais nada – e também porque está proibido criticar qualquer artista sem levar em conta uma porrada de questões extramusicais. Só digo que, pelo que foi mostrado na televisão, pelo menos metade das atrações não tem a menor condição nem de subir ao palco da Festa da Laranja. Então é isso, “nunca foi só música”, a ponto de inclusive poder prescindir de ser música se conseguir convencer marcas e seguidores de que é “sobre” alguma coisa.
Troco de canal e sinto o mesmo desconforto com o Oscar, mas como não entendo (também) de cinema me limito a achar o que vejo somente constrangedor e sem graça. Tanto que nem notei a gravidade do tabefe que um homem rico deu em outro homem rico para defender sua esposa rica, a única vítima da patacoada. Somente com a repercussão do gesto que percebi o fuzuê, pensei que tivesse sido encenado.
É muita informação, deixa eu me organizar: um festival em que o engajamento substituiu a curadoria; uma premiação da qual ninguém ia se lembrar se não fosse uma agressão; a habitual sucessão de baixezas, trapalhadas e patifarias perpetradas por e em nome do vencedor da famosa escolha difícil.
Passo. Besteira por besteira, eu crio as minhas sem nenhum compromisso com o factual. Vou ali assar abobrinha no forno (atenção: isso não é uma metáfora) que eu ganho mais.
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APARELHO | A harmonização (inclusive a escrotal) é o primeiro passo do transhumanismo
Em um futuro cada vez mais distópico, cidadãos de bem com o saco cheio de scrotox perambulam pelas metrópoles em busca de uma luz, um sinal, um sentido para as suas miseráveis existências. Cegos pela adoração, ainda não descobriram que tudo o que se vê não é do jeito que já foi um dia, da mesma forma que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio no afã de reviver algo que nasceu sob o signo da farsa. Enquanto isso, a gente mora na filosofia e aguarda, com expectativa, o dia em que a humanidade será regida pelos padrões estéticos de Ed Motta.
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PLAYLIST | vamos começar a nos entender
Pense no que já passou e no que virá.
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