Depois de um longo e tenebroso sumiço proporcionado por privilégios de classe, desterro digital & demais insignificâncias, a bancada mais cobiçada da lacrosfera áureo-esmeraldina reapareceu cheia de picardia para esfregar duas ou três pós-verdades nas fuças dos incréus. O que era para ser um efusivo reencontro de camaradas descambou para o maior ataque já visto à realidade consensual desde o advento da chinelagem como lifestyle de um terço dos brasileiros. Da profecia autorrealizável de Top Gun à esgrima do amor do sabre de luz, da falência dos festivais de rock à consciência de classe da inteligência artificial, teve de tudo – e nada explicado direito, como convém a esses tempos líquidos.
20220711
APARELHO | Uma máquina de pogo muito louca de verão amazônico
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PLAYLIST | feito as canções que a gente faz
A assinante pediu e eu achei que poderia empurrar com a barriga, mas a comodidade se impôs: as playlists voltam a ser publicadas também no streaming negacionista e em seus concorrentes com reputação igualmente duvidosa. Tenho que admitir que o prejuízo que posso causar a esses aplicativos é muitíssimo menor do que a satisfação de apresentar uma música legal a alguém. Neil Young me entende e me perdoa.
[AMAZON] [DEEZER] [SPOTIFY]
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20220706
A privatização que nunca chega

Jamais indicaria alguma operadora de telefonia e internet. Mas se alguém me perguntar qual é a pior delas, respondo no ato: a que uso. Já bati boca por celular (inclusive com atendimentos automáticos), já ameacei acionar o Procon, já troquei de empresa. São todas a lesma lerda – nas tarifas, no suporte e, sobretudo, no desserviço que prestam.
Se você está satisfeita com a sua, não se vanglorie nem se preocupe. Cedo ou tarde, ela vai confirmar a regra. Aí você poderá despejar toda a sua raiva pelas redes sociais sem esquecer de copiar a arroba da companhia. Como não sou adepto desse tipo de interlocução, só me restou esta plataforma para registrar minha desventura.
No último dia 22, depois de tentar pelo 0800, pelo aplicativo e pelo site, finalmente consegui contratar uma operadora recorrendo ao contato telefônico pago. Dados fornecidos, dúvidas sanadas, informações conferidas, negócio fechado. A instalação ficou combinada para o dia 27, entre 15h e 18h.
Claro que não deu certo.
Faltando 18 minutos para terminar o prazo estabelecido, recebo uma ligação desconhecida. Era da “central”, dizendo que o técnico já estava na minha rua e não encontrava minha casa. Claro que haviam lhe passado outro número. Corrigi e me poupei do [olha o cacófato!] desgaste de convencer a voz do outro lado da linha de que eu não erraria meu próprio endereço.
Mais uns dez minutos e toca o interfone. Era o tal técnico, apenas para falar que não poderia fazer nada porque “o cadastro foi alterado”. Claro que foi, se não fosse ele não me acharia. A solução era aguardar até 72 horas para o famigerado sistema ser atualizado e só então marcar uma nova data para a instalação. Internet ainda em junho, sem chance.
Claro que a história não termina assim.
Hoje me ligaram mais uma vez. Para avisar que minha região está sobrecarregada e as obras de ampliação da rede devem demorar “de quatro a seis meses”. Perguntei por que haviam me vendido um pacote e agendado dia e hora para instalação, se não teriam como cumprir o acordado. Responderam que a culpa era do sistema. Claro que era.
Mal desligo e o celular volta a tocar. Outra operadora. Antes que eu invoque a LGPD, vem a explicação: quando uma operadora é incapaz de tirar dinheiro de algum desavisado como eu, tem que comunicar à Anatel, que direciona o pedido para uma concorrente disponível. Basta repetir todo o processo e logo me tornarei seu cliente pagando mais pelo mesmo.
A promessa é de que amanhã de manhã estarei conectado.
Em tempo: guardadas as particularidades de cada ramo, minha resposta vale também para bancos.
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Por que me ufano

Força, Airto! – O gigante Airto Moreira está com problemas de saúde e precisa de ajuda financeira. A tristeza pela situação é proporcional à lista de nomes que o percussionista e baterista de 80 anos já embalou com seu batuque mágico: Miles Davis, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Dave Holland, Chick Corea e John McLaughlin, entre outros medalhões. Se eu fosse da área cultural do estado de Santa Catarina ou de Itaiópolis, sua cidade natal, abraçaria essa campanha com força – no mínimo, pelo fato de que ele é um dos poucos catarinenses com alguma relevância no mundo da música.
DNA patriota – Pense em uma semelhança miserável. Em um destino ingrato. Em um constrangimento que atravessará gerações. Ao mesmo tempo, pense em um senso de oportunidade que transformou uma sacanagem da biologia em uma forma de se distinguir na manada. Agora, multiplique isso por 666. Pronto, você está muito perto de imaginar o que cidadãos do ex-país com milhões de famintos têm o despautério de fazer para concorrer a exorbitantes R$ 3 mil em vale-compras naquela loja polêmica.
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PLAYLIST | bem no ponto cego em que o rio faz a curva
Peço desculpas por outra edição que não só está aquém do padrão [oi?], como tem o agravante de elevar um dissabor pequeno-burguês à condição de tema dominante. Semana que vem eu tento de novo – com acesso à rede mundial de computadores diretamente do conforto do meu sacrossanto lar, espero.
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20220704
Cuidado com o que você deseja

Queria ser cientista. O universo de tubos de ensaio, pipetas e bicos de Bunsen o fascinava. Vislumbrava-se vestido em um jaleco branco, o nome bordado no bolso, a varar noites no laboratório. Imaginava-se descobrindo a cura do câncer e já tinha na ponta da língua o que diria quando fosse entrevistado no Fantástico.
A ilusão durou até perceber que detestava Química Orgânica e, pior, que não sabia o que faria na universidade. Acabou entrando em um curso de Humanas. Daí para deixar o cabelo crescer e trocar sua antiga vocação pelas lições de guitarra foi mais rápido do que a mitose de células doentes. Virou roqueiro.
Montou uma banda. No início, esmerou-se em aprender os clássicos de seus artistas prediletos com a maior fidelidade possível. Seguro de suas habilidades, partiu para as composições próprias. Uma, duas, três músicas e surgiu um repertório para mesclar com covers e se arriscar em um palco.
A estreia rolou em um festival no campus. Claro que o público vibrou muito mais com o hit que a banda reproduziu do que com suas canções autorais. Contudo, no dia seguinte alguma coisa havia mudado: sentia-se mais popular entre as garotas. Resolveu trancar o curso e se dedicar integralmente à arte.
De cara, mandou o baterista embora. Era seu amigo e tal, mas ele não iria abdicar de outro sonho por causa de meia dúzia de travessuras compartilhadas na adolescência. Apesar de tocar tão mal quanto o ex-titular, o substituto tinha um pai abonado que bancaria estúdio e impulsionamento nas redes sociais.
A faixa de trabalho da banda viralizou. O número de seguidores e curtidas e visualizações e streamings superou a marca do milhão. O refrão caiu na boca do povo, rivalizando com os sucessos dos ídolos enquadrados nos pôsteres que ele colecionava. A vizinha o reconheceu no elevador. Estava acontecendo!
Assinou com uma mega-agência de talentos. Graças ao marketing agressivo, portais o procuravam para falar de namoro, política, moda, gastronomia e, eventualmente, música. Precisou contratar um assessor para cuidar da agenda. Saiu em sua primeira turnê nacional, lotando ginásios e casas noturnas Brasil afora.
Distribuiu autógrafos, teve o nome gritado por multidões, interagiu com groupies. Só não conseguia se livrar do fantasma que – mesmo com a fama, o dinheiro, a adulação, o sexo fácil e a euforia das drogas – vinha lhe assombrar a cada noite em um quarto de hotel diferente: o Grande Vazio que insistia em preencher seu coração.
Decidiu largar tudo e voltar ao que supunha ser uma vida convencional. Mudou de ideia tão logo precisou se comportar como um adulto. Retomou a banda para gravar um acústico. Demitiu o vocalista. Lançou outro disco, desta vez ao vivo. Participou de collabs, engajou-se em ações sociais, revelou intimidades.
A receptividade foi pífia. A mídia não se interessava mais por ele, as fãs não formavam fila na porta de sua suíte, nem os traficantes lhe davam mais desconto. O único que continuava o tratando como alguma deferência era o porteiro de seu prédio, sempre diligente e atencioso:
— Ei, o senhor está com o cofrinho aparecendo!
Ele levantou a calça e sorriu, aliviado. Depois de todos esses anos, experimentava a sensação de estar realizado, de não dever nada aos caras que tanto admirava. Finalmente, a decadência tinha chegado.
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PLAYLIST | faz desse céu um escape mais gentil
Newsletter mais curtinha – nem por isso menos imperdível [há controvérsias] – do que o habitual por motivos de nomadismo urbano. A se confirmar o cronograma, na próxima terça esta dose de descarrego e ruminações confundida com CONTEÚDO já será despachada das suntuosas e nababescas instalações da nova sede insular do sarcófago que chamo de escritório. Não é por nada não, mas isso é que é mobilidade social!
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