Absurdo mesmo vai ser o festerê no dia que esse pesadelo acabar. Haja margarita!
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20220725
PLAYLIST | ser seco, reto, isento, amoral
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20220720
Repasse para todos os seus contatos

A mensagem entrou com aquela bandeirinha amarela. Era de um tal de Etevalo, seguida de um endereço eletrônico terminado em .ky. Pela sinalização (importante), nome (leia ao contrário) e origem do domínio (Ilhas Cayman), eu deveria deletá-la automaticamente. Mas eu tinha tanta coisa remunerada & atrasada para fazer em vez de abrir um email suspeito que não consegui resistir ao assunto: “Eles já sabem”.
Começava avisando que se eu a havia recebido é porque fazia parte de um seleto grupo de 22 formadores de opinião escolhidos “na vasta e árida planície da internet” para “acordar os compatriotas e (...) difundir a verdade que salva e que liberta”. Daí para frente, enveredava por uma linguagem críptica, um misto de profecia de Nostradamus, delírios provocados por opiáceos e tuítes do segundo zero presidencial.
Explicava – ou tentava explicar – que o número não era à toa, pois carregava toda a responsabilidade cabalística de substituir O Louco pelo regresso à luz, sintetizado pelo axioma “o conhecimento supremo é bem-aventurança”. Enrolava mais um pouco, identificando-se como “depositário dos segredos da quíntupla constelação que resplandece eivada de condecorações eréteis”, e enfim chegava ao ponto.
De acordo com o remetente, “eles descobriram como fraudar as urnas eletrônicas”. Sem maiores detalhes, revelava que as dúvidas quanto à segurança da tecnologia não passavam de uma estratégia das FFAA para que oposição e “extrema-imprensa” defendessem a inviolabilidade do sistema. Assim, quando o governo vencesse com uma votação consagradora, “o resultado não poderia ser questionado por ninguém”.
Continuava a narrativa afirmando que preferia ser visto como “um Calabar que nunca se traiu a compactuar com a desídia do ofidiário que prometeu um avatar para liderar as tropas do Oeste no triunfo sobre o globalismo e chocou um roedor pusilânime”. Para encerrar, deixava outro enigma: “Enquanto Ratanabá se descortina em fumaça, a civilização perdida de Dacuebão se prepara para emergir”.
Apesar do desfecho típico da desinformação voluntária – “repasse sem dó para todos os seus contatos”, acompanhado de bandeiras nacionais –, era uma teoria conspiratória tão sofisticada que merecia algum crédito. Ao mesmo tempo, era tão primária que não fazia sentido algum, o que também não garantia sua impossibilidade na inverossimilândia que este ex-país se transformou.
Pelo sim, pelo não, encaminhei para Anitta.
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Homenagem ao rock

(A coluna abaixo foi publicada na edição de 12 de julho de 2016 no Diário Catarinense. Seis anos depois, é difícil dizer se a situação melhorou ou piorou. Na real, ninguém se importa nem se mudou. Da indiferença nasce um nicho.)
Leia aqui.
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Pingos de amor
Dois registros que não precisam (embora talvez devessem) morrer inéditos só porque não rendem grandes reflexões:
– O gigante Ronnie James Dio completaria 80 anos no último dia 10. Quem prestigia este CONTEÚDO sabe da minha admiração pelo vocalista. Foi com sua garganta que o Black Sabbath emendou dois dos melhores discos da banda (Heaven and Hell e Mob Rules, em 1980 e 1981) e, por causa disso, acabei descobrindo que ele também trovejava com o Rainbow e solo. Tirando as descargas aladas, sua voz é o superpoder que eu gostaria de ter.
– Por indicação de uma fonte insuspeita, comecei a ver a série Transamazônica – Uma Estrada para o Passado. Logo na primeira frase da primeira cena, o diretor da parada manda um “fazem xis anos”. Aí tu me quebra, produção! Mas vale relevar a agressão vocabular e assistir aos seis episódios da história da rodovia “que liga a miséria ao nada”. O discurso ufanista das peças publicitárias da década de 1970 pelo menos vendia a imagem de uma pretensa soberania.
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20220711
O que interessa agora

O que interessa agora é fazer planos a curto e médio prazos. Porque a longo, já disse o outro, estaremos todos mortos. Que o prazo então demore tanto a se esgotar que cause um arrependimento por não tê-lo planejado.
O que interessa agora é valorizar que toda janela tem vista para uma árvore. E onde tem árvore, tem pássaro. Eles passam a tarde inteira cantando por gozar da capacidade de defecar enquanto voam (ou vice-versa). Isso deve ser muito libertador.
O que interessa agora é cultivar o jardim. Tanto no sentido figurado quanto no literal, nem que seja molhando e consultando a planta que mora dos cantos da sala. Tem pergunta para o qual o silêncio dela é a melhor resposta.
O que interessa agora é remexer discos e livros e objetos que a gente guarda sem porquê. Até pegar um deles e se lembrar de alguém, de alguma história, e descobrir que apenas o próprio fato de manter aquilo perto por tantos anos pode ser a justificativa.
O que interessa agora é consertar o que tem como ser consertado. Um controle remoto, uma fechadura, uma tomada: cada pequena avaria reparada reforça a sensação de que problemas que o dinheiro resolve não são problemas. Dinheiro se acaba ganhando.
O que interessa agora é andar mais a pé. Bater perna sem querer chegar e observar alguma coisa nova no percurso, ainda que a falta de rumo leve para o caminho de sempre. Como o rio, a rua nunca é a mesma duas vezes.
O que interessa agora é movimentar o corpo. Correr, pedalar, puxar ferro, praticar algum esporte, qualquer atividade física cansativa o bastante para diluir no suor qualquer pensamento que não seja dobrar uma meta indefinida assim que a atingir.
O que interessa agora é sonhar. Com o cuidado de anotar os sonhos tão logo acordar, pois a memória onírica se esvai logo após as piscadas de olhos ao despertar. Se esquecer (de anotar), é porque não valia a pena se alugar com isso.
O que interessa agora é escrever todos os dias. Sobre, no suporte e com o tamanho que for. Para registrar, para organizar, para exorcizar. A prática alimenta a inspiração; a inspiração desconfia da certeza de que tudo já foi escrito.
O que interessa agora é socializar. Sair deste isolamento que já estava rolando antes da pandemia e ver e ouvir os afetos sem a mediação de nenhum acessório eletrônico. Nenhuma conexão supera a nossa quando estamos juntos.
O que interessa agora é reconhecer as imperfeições. Os defeitos, as falhas, os erros são muito mais verdadeiros do que as qualidades. Afinal, ninguém finge ser pior do que realmente é. Exceto, talvez, os narcisistas.
O que interessa agora é fazer samba e amor de madrugada. E espantar o sono de manhã com mais amor. De preferência, em má companhia. O samba fica para depois do almoço. O importante é não perder o ritmo.
O que interessa agora é algo que não sei o que é, onde está e nem se vou encontrar. Mas estou adorando essa perseguição.
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O diabo mora nos detalhes

Operário da escrita – O setor de vagas arrombadas, propostas ofensivas e desprezo à experiência não poupa ninguém. Se um nome afamado como Lira Neto precisa lembrar que escritor também come, imagine aqueles que não são autores de best sellers.
Caixinha de surpresas – Para aproveitar o espaço extra nas antigas embalagens de CD, em 1991 o R.E.M. ocupou a contracapa do disco Out of Time com a divulgação do Rock The Vote, movimento para incentivar o voto nos Estados Unidos. E não é que funcionou?
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