Foram três longas semanas. Os ânimos ficaram acirrados, esgotaram-se os ansiolíticos, não sobrou um camarão para desanuviar. O que seria mais uma simples conexão à rede mundial de computadores acabou se tornando um retrato fiel de como as privatizações prejudicam a democracia sabotando o livre fluxo de groselha & abobrinhas. Mas resistimos. E, impávidos como Muhammad Ali, tranquilos e infalíveis como Bruce Lee e sedutores como Aristides, voltamos para fazer da realidade a nossa noivinha.
(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)
20211201
APARELHO | Até os cactos merecem respeito
desovado por
emersong
0
eco
PLAYLIST | a resposta pra tudo está no colapso
Extrato agora também é programa de (web) rádio. A culpa é do povo da Peep FM, que me convidou para rolar uma horinha de música no meio de tanta gente boa que já faz parte da programação. Estreou ontem, às 21h, e suponho que será reprisado tão logo surja um espaço na grade.
O programa é basicamente a playlist que você ouve aqui, com uma atração (?) extra: minha locução. Peço desculpas de antemão pelo meu sotaque da Cornualha ao pronunciar nomes de artistas e de músicas em inglês e prometo me desdobrar para agradar as ouvintes. Conto com sua audiência na próxima segunda.
(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)
desovado por
emersong
0
eco
20211124
Um enigma chamado 4d3l3

A quarta temporada do reality show de Adele já está no ar com o disco 30. O drama de uma mulher madura, recém-divorciada e pronta para retomar a vida em canções sobre perda, aceitação e esperança já está sendo acompanhado por milhares de fãs. O que apenas mentes dotadas de aguçado raciocínio lógico percebem é que a emoção deslavada é regida por meticulosos critérios matemáticos.
A cantora lançou o álbum 19 aos 19 anos. O 21, aos 22. O 25, aos 27. E agora esse 30, aos 33. A explicação, conforme um estudo sobre a vida e obra da artista, é que a dezena que batiza cada álbum se refere à idade que ela tinha quando começou a trabalhar nele. Faz sentido, mas não decifra o enigma que desafia a numerologia pop: quantos anos Adele terá em seu próximo disco e como ele se irá se chamar?
A simplicidade do enunciado esconde um problema mais complexo do que o Último Teorema de Fermat. Os intervalos de tempo entre os lançamentos, 2 (21-19), 4 (25-21), 5 (27-25) e 6 (33-27), não ajudam muito. Por quaisquer padrões que se identifique, o quinto álbum de Adele dependeria de ela começá-lo hoje para que seu nome fosse 33, do contrário seria impossível cravar um palpite. Sem chance.
A solução exige engenharia reversa, qual seja, descobrir quanto tempo Adele dedicaria ao próximo disco. O indicador mais fidedigno para isso é subtrair os títulos da respectiva idade dela: 0 (19-19), 1 (22-21), 2 (27-25) e 3 (33-30). À primeira vista, a diferença entre o minuendo e o subtraendo forma uma sequência básica em ordem crescente. Portanto, o álbum seguinte seria concebido em quatro anos.
Resposta satisfatória, não estivesse se referindo a uma artista admirada pela sensibilidade. Assim como Deus não joga dados com o universo, Adele jamais brincaria com uma ciência exata para aplacar as dores do coração. Olhe de novo para a sequência. Desconsidere o zero, porque representa a estreia e, conforme ela já declarou ao lembrar da escalada para o estrelato, “tudo aconteceu muito rápido”. O que sobra são números primos.
Logo após o 3 na bela e misteriosa lista de números divisíveis somente por 1 e si próprios vem o 5. Significa que, não importa a idade que a cantora tiver, o sucessor de 30 levará cinco anos para ser concluído. O subsequente, sete. E assim por diante, em uma frequência que não obedece nenhum padrão rumo ao infinito – como o amor de Adele, compartilhado apenas consigo mesma e com a pessoa que o merecer. Monogamia é destino.

(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)
desovado por
emersong
0
eco
Quem apanha não esquece

Carlinhos Brown construiu uma bonita história para contar aos descendentes. Já estive no Candeal para entrevistá-lo e vi o que ele fez pela autoestima dos moradores da comunidade, em Salvador. O atual técnico do programa The Voice Brasil acaba de escrever mais um capítulo de sua lenda pessoal: declarou que as vaias e a chuva de garrafas e copos que recebeu da plateia no terceiro Rock In Rio, em 2001, foram motivadas também por racismo.
Eu estava lá naquele domingo, 14 de janeiro. Não joguei nada em ninguém, preferi me distrair com o Rumbora no palco secundário. Brown foi a segunda atração do dia, iniciado com o Pato Fu. Os mineiros amansaram as 180 mil pessoas que esperavam pelo Guns n’ Roses abrindo com “Capetão 66.6 FM” e gritos de “vamos detonar essa porra”. Na introdução de “Depois”, a vocalista Fernanda Takai disse que “essa é uma das músicas mais fofinhas do mundo e vamos tocá-la porque achamos que as pessoas deveriam ser mais fofinhas”.
Quando Brown subiu ao palco principal e pediu para os bombeiros pararem de jogar água na multidão que derretia sob um calor de 40 graus, a fofura se transformou em uma saraivada de objetos plásticos. O baiano reagiu. “Pode jogar o que quiser, que eu sou da paz e nada me agride”, “Vocês, que gostam de rock, têm muito o que aprender na vida, aprender a amar. E o dedinho pode enfiar no traseiro”, respondeu. Não me lembro se ele tocou o hit “Água Mineral”, muito apropriado para a ocasião.
Mais tarde, no camarim, o artista refletiu: “Rock’n’roll é coisa de criança. Entre rock e Xuxa, não há nenhuma diferença. Rock não é pesado. Pesado é uma escola de samba com 300 homens tocando.” Foi exatamente o que Axl Rose fez, chamando a bateria da Viradouro para encerrar uma noite que teve ainda Ira!, Ultraje a Rigor, Papa Roach e Oasis. A Brown, restou a distinção de entrar para o clube de artistas vaiados no festival, como Kid Abelha, Ney Matogrosso e Erasmo Carlos em 1995 e Lobão em 1991.
Ou melhor, o único negro vaiado. Na época, ninguém – nem ele – associou a hostilidade ao preconceito racial. Nem no ano passado, ao reavaliar o episódio. Pelo contrário. “No caso do Rock In Rio era necessário, porque eu também provoquei aquilo. Eu sou um provocador. Eu precisava provocar aquilo”, afirmou, tirando sarro dos roqueiros que o tornaram conhecido no mundo inteiro. Pelo visto, parece que Brown mudou de opinião. Tem todo o direito. Só ele sabe o que sentiu.
(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)
desovado por
emersong
0
eco
À procura da rede social perfeita
A gente sempre pode contar com os algoritmos para zelar pela moral e pelos bons costumes. Os anúncios do lançamento da biografia Planet Hemp – Mantenha o Respeito foram vetados nas redes sociais por causa de “hemp” (cânhamo em inglês, um dos sinônimos da planta maldita). Para driblar a censura, o autor do livro, Pedro de Luna, lançou a campanha Legalize Meu Anúncio.
As peças substituem a palavra proibida por green, erva, mary jane, dois, 4:20 e outras expressões familiares ao universo herbífumo. A julgar pelo número de visualizações do vídeo, a ideia ainda não pegou. Se não der certo, fica a sugestão para que sejam usados termos homofóbicos, misóginos, racistas ou nazistas, daí nenhum bot careta vai encrencar. Em 2021, a maconha ainda escandaliza. É patético.
(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)
desovado por
emersong
0
eco
PLAYLIST | tudo o que talvez não será
A volta do sol à Ilha de Santa Catarina me transportou para o verão do amor de 1989. De repente, estou no Suco da Arte, o point daquela temporada inesquecível na Laguna. A ruazinha perpendicular ao antigo calçadão do Mar Grosso se enchia de hormônios & aromas em frente ao bar, com suas paredes caiadas e a banda espremida em um canto.
Quem tocava guitarra e cantava era o próprio dono, um forasteiro com visual de Bel, do Chiclete com Banana. A mulher dele, uma loira gata, fazia os backing vocais. Um negrão skatista assumia a percussão e toda noite havia algum músico convidado. Seus nomes agora me fogem, mas serei sempre grato a eles.
Como surgiram foram embora, deixando um repertório que embalou algumas de minhas noites mais plenas. No verão seguinte, do Suco da Arte restavam apenas ruínas, anos depois suplantadas por um condomínio sem personalidade. O calçadão também acabou e minha saudade só resiste porque além de branco fiquei triste.
(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)
desovado por
emersong
0
eco
20211117
Música fácil para um mundo difícil

Quase não falo de música aqui, mas as leitoras exigem. Querem saber se o Silk Sonic, projeto de Bruno Mars e Anderson Paak, é mesmo tudo isso que andam lendo por aí. Como sou um cara mellow, respondo sem medo de ser cancelado: sim. E, parafraseando o mordaz H. L. Mencken, digo mais: para um mundo difícil, existe sempre uma música fácil, elegante e completamente certa no disco de estreia da dupla, lançado nessa sexta. Espero não ter decepcionado ninguém.
An Evening with Silk Sonic é o que acontece quando dois estetas confirmam a expectativa criada pela junção de seus talentos. Popstar, o havaiano Mars aliou o sucesso comercial que já tinha e o respeito artístico que perseguia graças ao hit “Uptown Funk”, em 2014, evocando a black music da década de 1970. Muitíssimo menos famoso do que o colega, o californiano Paak construiu uma carreira entre o rap e o R&B, tão elogiada pela crítica quanto desconhecida pelas massas.
A parceria nasceu em 2017, na perna europeia da turnê 24K Magic, de Mars, aberta por Paak. Entre um show e outro, eles se enfiavam no estúdio. A experiência deu liga e um disco colaborativo era questão de tempo. A oportunidade pintou no início de 2020 e começou a escalar o topo das paradas no último mês de março, com o single “Leave the Door Open” – uma simpatia retrô que cura a rabugice, afasta a ziquizira e traz o amor de volta em quatro minutos.
Logo na sequência veio outra joinha com a alma no passado, “Skate”, que só pelo verso “você cheira melhor do que um churrasco” já valeria a menção, não tivesse também um balanço fino que desliza pela cintura. E nada do disco. Ainda rolou a manhosa “Smokin Out the Window”, até finalmente o Silk Sonic entregar o que as preliminares prometiam: uma noite (expressa no título do álbum) curta (meia horinha de duração) e mágica (deixa com vontade de pedir mais).
Quebrada a resistência, Mars e Paak se dedicam à manutenção do clima. O baixo ventre continua mexendo forte com “Fly With Me”. Há as inevitáveis e necessárias baladas “Blast Off” e “Put on a Smile”. “After Last Night” estabiliza o ritmo, com o baixista Bootsy Collins (ex-Parliament/Funkadelic, outro ícone revisitado) e um nome da geração atual, Thundercat. A única faixa que destoa – embora segure a onda – é “777”, emoldurada pelas rimas da metade rapper sobre uma base racha-assoalho.
Mais do que qualquer música específica, fica evidente o capricho em cada detalhe de An Evening with Silk Sonic. Para ter certeza de que as percussões usadas iriam soar como pretendiam, a dupla pesquisou em antigas revistas de bateria. Parte do disco foi gravada no mesmo Royal Studios de Memphis onde Al Green eternizou LPs clássicos. Cordas foram conduzidas e arranjadas por Larry Gold, da banda MFSB, estrela da Philly Internacional, a gravadora que sofisticou o funk.
Em pleno Culto do Amador, uma era marcada pela valorização algorítmica e consumo frenético de tanta música mal feita, Mars e Paak pegam a contramão para transcender a nostalgia onipresente no disco. Apesar da estética setentista, o mundo que idealizam é atemporal, um não lugar em que problemas e problematizações se dissipam em alienação e escapismo. Seja bem-vinda a essa vibração, ainda que apenas por um breve momento.
(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)
desovado por
emersong
0
eco