20181219

2018 EM 70 MÚSICAS
70 | Underworld & Iggy Pop, Bells & Circles



Sete minutos e meio com a melhor batida do Underworld em muito tempo fazendo a cama para Iggy Pop deitar falação sobre como era bom quando se podia fumar em avião. Só para começar já azucrinando.

20181030

Alento

20181008

Bode

Se você votou em um determinado candidato e não hostilizou nenhum eleitor adversário no caminho até a seção, não levou criança vestida de milico com metralhadora na mão nem se exibiu com o cano de um revólver diante da urna, parabéns por agir como uma pessoa normal. Mas tenha também em mente que:

Você considera mulheres, negros e gays como seres inferiores.

Você não respeita ninguém.

Você acha que tiro, porrada e bomba são solução.

Você acredita que quanto menos direitos, melhor.

Você despreza a ciência, o conhecimento e a pesquisa.

Você rejeita a verdade.

Você odeia tanto que não consegue enxergar mais nada além da bolha que construiu para si.

Você simplesmente não se importa.

Ainda dá tempo de você escrever um bonito testemunho de regeneração em sua biografia. Ou continuar assim e depois fingir que não participou da farsa. Mas aí talvez seja tarde para escapar do julgamento da História.

20180915

Mergulhe no disco novo de Mahmundi para espantar dias ruins

A realidade deste jeito e Mahmundi chega com um disco chamado Para Dias Ruins. A tentação de relacionar o oportuno nome do segundo trabalho da carioca com a situação é grande. E precipitada também: não resiste a uma passeada pelas nove canções esparramadas em 32 minutos sobre sol, amanhecer, verão e outras manifestações trópico-sazonais invocadas pela cantautora para falar do que importa de verdade na vida (leia entrevista abaixo).

O som continua soprando aquela brisa fresca, sem o cheiro tão impregnado do pop dos anos 1980 revisitado que marcava a estreia. Embora nunca tenha rejeitado (nem alimentado) essa influência, Mahmundi a deixa fluir até se tornar quase indistinguível. No single "Qual É a Sua?", recorre a um reggaezinho. A baladona "Outono" evoca uma atmosfera meio bluesy. "Tempo pra Amar" cai no R&B. "As Voltas" e "Eu Quero Ser o Mar" saúdam o poente à beira da praia.

Está tudo muito bom, tudo muito bem com Mahmundi em se afastar do rótulo. Questão de gosto, mas neste cantinho infinitesimal do litoral internético o calor bate mais forte quando o álbum envereda sem pudores por levadas, timbres e efeitos da década em que a artista de 31 anos nasceu – primeiro com "Alegria", e, de forma mais literal, movida pela batida charm de "Imagem" e pela onda maneiríssima de "Vibra". Não há dia ruim que resista.



ENTREVISTA
| Mahmundi 

O nome do disco tem a ver com o contexto atual do país?
Arte é uma coisa muito doida porque cada um vê o que quer. Estes últimos dois anos foram superdifíceis, e é óbvio que isso tem a ver com o país e minha localização nesse cenário como indivíduo. Mas não é sobre o processo político, é sobre a atmosfera ao redor, independentemente da vida que a gente leva. É mais sobre como você lida com as suas coisas em dias ruins.

É seu primeiro lançamento por uma grande gravadora (Universal), mudou alguma coisa?
Não mudou nada, só tem um suporte maior de profissionais que me dão recursos financeiros para investir em uma obra.

Isso não é melhor?
Para mim, foi. Cada artista reage de uma forma, depende também do que ele espera de uma grande gravadora, se sucesso como compositor ou como intérprete. Sou produtora musical e já estava muito bem resolvida em relação ao que eu queria fazer.

O que você espera, então?
Como já falei, amplia a imprensa, o alcance aos veículos. Mas sempre vai partir do produto inicial, que é a música. Antes eu estava em uma carreira independente muito mais focada em minhas pesquisas, fazendo um disco para me desenvolver. Agora, em uma multinacional, eu dialogo com um mercado maior. Mesmo assim, depende do perfil de cada artista, de como se apresenta, de como quer ser trabalhado, ser visto. A gravadora me deu essa confiança e eu pude testar outras sonoridades.

Como você quer ser vista?
Já passei dessa fase. Na verdade, os 30 anos, a maturidade, dão uma oportunidade para você descobrir calmamente quem você pode ser, uma autoconfiança para você não querer ficar “printando” seu ego por aí. Sou muito consciente do que eu sou e quero fazer música boa. Quero que as pessoas ouçam e que esse trabalho se consolide pelas canções.

(coluna publicada ontem no Diário Catarinense)

20180710

Nos 60 anos da Bossa Nova, uma playlist para mostrar a influência do gênero

Era para demorar no máximo quatro horas, tempo que a maioria dos cantores levava para gravar duas ou três canções. Mas não João Gilberto, que podia ser tudo, menos um cantor dado a arroubos operísticos, típico da época. Assim como não era convencional o tipo de música que ele se propunha a fazer para embalar sua voz miúda, quase sussurrada: delicada em vez de grandiloquente, cheia de nuances, com uma batida diferente e harmonias que desafiavam o padrão vigente. A Bossa Nova – como ficaria conhecido o estilo idealizado pelo baiano – pedia passagem.

Depois de muitas brigas de João com os instrumentistas que o acompanhavam para que entendessem a sonoridade que ele buscava, finalmente naquela quinta-feira foram registrados os takes definitivos de “Chega de Saudade” e “Bim Bom” no estúdio da Odeon no Rio de Janeiro. O resto é uma história que completa 60 anos neste 10 de julho, transformada em romance por Ruy Castro no livro homônimo ao lado A do compacto.

Embalada pelo primeiro título do Brasil em Copas do Mundo, conquistado 12 dias antes, a Bossa Nova iria se tornar a trilha sonora de um país com um futuro brilhante. Éramos os reis do futebol, a tenista Maria Esther Bueno ganharia o torneio de duplas de Wimbledon, produzíamos carros e a nova capital logo ficaria pronta. Entre esperanças frustradas e promessas não cumpridas, restou o poder emanado a partir de um banquinho e um violão.

Para Santa Catarina, a Bossa Nova tem ainda um significado especial: o maior nome da música do Estado, Luiz Henrique Rosa (1938-1985), começou identificado com o ritmo e nele compôs algumas de suas melhores canções. O disco independente Mestiço, quando já havia se bandeado para outras paragens sônicas, é o único trabalho do catarinense no Spotify, que fez uma compilação sobre o gênero. Mas na plataforma de streaming se acha material para montar a playlist abaixo, mostrando a influência daquela que seja, talvez, a maior contribuição nacional à cultura mundial.

(obs.: “Blue Island”, creditada apenas a Walter Wanderley, originalmente faz parte de Popcorn, disco gravado em conjunto por ambos em 1967.)


(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)