20260225

U2 quebra silêncio sem fazer barulho



Volta da banda parecia um caso de amizade de baixa manutenção, mas o café estava frio

Nem sabia que o U2 ainda estava na ativa quando fui impactado pelo lançamento do EP Days of Ash. O pacote com seis faixas encerra o maior período da banda sem aparecer com inéditas, nove anos em que quase ninguém sentiu sua falta. Apertei o play confiando no conceito da amizade de baixa manutenção: aquele afeto que sobrevive a longos silêncios, sem exigir presença constante para continuar sendo significativa.

Bono está cheio de assunto. Três músicas são sobre pessoas que foram mortas devido às causas que defendiam – uma mãe ativista dos EUA, um professor palestino, uma adolescente iraniana. Uma quarta é escrita em forma de carta de um soldado ucraniano disposto a morrer pelo seu país. A única que não esfrega a realidade na cara da sociedade é inspirada em um livro de um frade franciscano que ensina como viver com compaixão em meio à violência e ao desespero. (A outra é um poema, contadorzinho.)

Ouvi tudo com a atenção dividida com uma frieira no lado do dedão que estava me incomodando neste calor. A tentativa do grupo de soar urgente com “canções que não podiam esperar”, como definiu o vocalista, esbarra em uma camada histórica que amortece qualquer arrebatamento. Quando um artista vira trilha sonora da juventude de alguém, ele fica preso ali. Tudo o que ele fizer depois será medido pela intensidade de um momento que nunca mais vai se repetir.

Perto de comemorar o Jubileu de Ouro, o U2 passou pelo que passam todas as bandas que duram tanto: do frescor para a autoridade, da autoridade para a instituição, da instituição para o hábito. Encarei os 23 minutos do disco como quem aceita um café com um velho amigo. Não esperava catarse, nem epifania, tampouco atravessamento, mas pensei que pelo menos a gente mantivesse uma relação.

Terminei com a certeza de que Days of Ash já nasceu como um arquivo que nunca mais vou consultar. O U2 virou monumento pessoal, um atestado da minha própria velhice. Agora imagine as Novas Gerações. A chance de cruzar com os escoceses irlandeses é acidental, algorítmica, mediada por um recorte de 15 segundos. Mesmo que algum trecho de música deles viralize, é improvável que seja deste século. E você ainda vai ter que explicar que Bono já foi relevante.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260218

A coreografia das aparências sob o céu da euforia



Carnaval, brilho & suor se erguem em um espetáculo de vertigem contida

Hoje é terça de carnaval.

A lógica da internet diz: publique mesmo assim. O algoritmo não descansa. A produção tem que continuar. A entrega é sagrada.

Eu discordo.

Sim, eu sei. Você poderia estar em qualquer outro lugar agora.

Eu também. Eu queria ser o tipo de autor que simplesmente não aparece. Mas sou do tipo que aparece para dizer que não vai aparecer.

Vamos nos despedir por aqui antes que a gente se acostume [com essa mania feia de tratar feriado como dia útil].

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260211

O que fica boiando


Diálogo à deriva depois de um desfile que já passou, mas continua acontecendo

As pedras amontoadas nos Molhes da Barra, as ondas batendo à frente, repetidas. O mar insiste. Eu é que não. Estou meio aturdido com a fantasia deslocada: o desfile das escolas de samba foi no sábado, uma semana antes do início oficial da folia. O vento recende a maresia, cerveja choca e madeira úmida. Sobrou um silêncio que não combina com fevereiro. Parece que a cidade desmontou junto com o último resquício de espontaneidade.

— É para não atrapalhar o que o carnaval se tornou.

Não localizo de onde vem a voz. Olho ao redor, não vi ninguém chegar. Um vulto se projeta de onde a água escurece até virar fundo.

— Engraçado como tu vem aqui quando não quer decidir nada.

Não acredito: é o Cy. Não pela silhueta – pelo tom. O boto que me apareceu outra vez, quase no mesmo pedaço da praia. O jeito desarmado, o raciocínio errado, a conversa que não se apresenta inteira. Um arrepio de reconhecimento mistura-se com o salitre. Resolvo entrar na dança.

— Eu nunca quero decidir nada, sabichão. Nem aqui, nem alhures.

— Ótimo. Menos coisa para se arrepender depois.

Fica boiando, distraído. O calor encosta nele sem pressa: já passou, está acontecendo.

— Engraçado tu sempre vir aqui exatamente quando jura que não quer nada.

— O tempo passou e tu continua palestrinha, parabéns, Flipper!

Ele ri largo. Não se defende. Não explica. Só se vira na minha direção e mexe a cabeça, imitando o astro. Suspiro. Eu queria leveza, não ata. Cy dá uma rodopiada curta, focinho apontando para mim.

— Tu veio aqui achando que eu ia te dar frase boa.

O sol se esconde um pouco atrás das nuvens e a luz perde contraste. Um barco passa longe, motor engasgando. O som chega atrasado, como o samba este ano. A maré muda quase nada, o suficiente para embaralhar os reflexos.

Cy olha a superfície como se procurasse o resto da festa. Mergulha rápido. Ressurge logo, trazendo espuma e indiferença. Flutua imóvel demais para alguém vivo, sem ajustar o corpo, deixando a correnteza ditar o ritmo. Permaneço mudo.

— Não te preocupa em voltar a sentir. O mundo ainda vai te obrigar.

Em seguida, ele afunda devagar, sem fazer disso um fim. A água fecha, levando o rastro, o cheiro e a certeza.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260204

Escrever para esquecer, ler para lembrar



Entre o que se produz para sobreviver e o que ainda sustenta

Escrevo coisas que jamais gostaria de ler.

Jamais gostaria de ler o que escrevo para pagar as contas. Não que sejam textos ruins. São só textos treinados para desempenhar função. Atendem ao que foi pedido, respeitam o prazo, o tom e o limite de quem contrata. Entregam. E, justamente por entregarem, dispensam envolvimento.

O tipo de redação que não deixa vestígios porque não precisa deixar. Existe para resolver uma demanda externa e desaparecer quando ela acaba. Já nasce com data de descarte. Exige apenas atenção suficiente para que seja consumida e deixada para trás.

Leio coisas que adoraria ter escrito.

Adoraria ter escrito o que leio sem serventia definida nem expectativa de retorno. Nunca em busca de alguma lição ou compensação prática. Às vezes porque a forma me segura mesmo quando o argumento não me convence. Sempre por prazer. Nada disso vira finalidade.

O tipo de leitura que não se justifica porque não precisa se justificar. Sua garantia de impacto é zero. Não promete, o que não quer dizer que não cumpra. Permanece – uma permanência que não pode ser medida.

O problema é que jogo nas duas posições. Parte do tempo escrevo o que não interessa a ninguém que goste de ler. Outra parte leio para não me esquecer por que escrever ainda importa.

***

Há algo de profundamente desnecessário em ficar ruminando essa polarizassaum. Fazer disso um dorama existencial enquanto o dia acontece do lado de fora. Escrever, ler, escrever para se realizar, ler… ler para quê, mesmo?

Verão fervendo, o sol estoura na janela, gente ri alto na rua – e eu aqui, organizando frases sobre uma bobagem.

Essa necessidade meio boçal de transformar tudo em identidade, em marcador de cultura. Masturbação conceitual em torno de uma arte que reconhecia poucos com muito convertida em um ofício que explora muitos com pouco.

Nenhum texto vence um domingo de praia, nenhum parágrafo supera a troca de afeto, nenhuma leitura vale mais do que acordar com você.

Talvez escrever importe menos do que eu acredite. Talvez ler não salve nada. Talvez tudo isso seja só uma forma elegante de perder tempo até a IA dominar. A vida não está nem no que escrevo, nem no que leio. Está no que acontece entre uma coisa e outra.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260128

Todo poder emana do Suposto



Quando a checagem de fatos torna-se insuficiente para ajudar a entender a realidade

Raio? Ira divina? Efeitos especiais?

A agência de chechecagem de fatos Bote Fé nasce da constatação de que os critérios tradicionais de verificação já não dão conta de explicar como o mundo gira. A classificação como verdadeiro, falso ou impreciso foi suficiente enquanto as coisas precisavam de uma verossimilhança mínima para terem algum crédito, mas deixou de ser quando a realidade passou a refletir situações que não necessariamente aconteceram.

A chechecagem não se dedica a confirmar eventos. Ela analisa o que justifica comportamentos, o que define reações, o que alimenta narrativas – ainda que nunca tenha ocorrido. Seu objeto não é a mentira clássica, facilmente refutável: é o suposto fato; um negócio inexistente, porém funcional, que não precisa ser verdadeiro para causar impactos.

Em um tempo no qual apurações, desmentidos ou correções não convencem ninguém, a chechecagem opera em outro nível. Descobrir se aconteceu ou não é o de menos diante da grande pergunta que se impõe: o que isso permite? Conferir, negar ou resistir tornou-se irrelevante. O essencial é desvendar o que faz com que certos fatos – ou o que circula como tal – funcionem.

De olho nesse filão, a Bote Fé desenvolveu um método disruptivo para identificar e avaliar circunstâncias:

Fato Fundador Negativo
É o que não aconteceu, mas sem o qual a relação não se explica. Costuma assumir a forma de um favor antigo nunca detalhado, um gesto inicial – uma ajuda rápida, um contato feito fora de hora – que só mais tarde passa a justificar proximidade e confiança.
Função: legitimar alianças como antigas e inevitáveis.

Fato Retroativamente Necessário
Aparece quando o presente exige um passado específico. Surge em frases como “isso vem de longe”, “a relação é antiga” e similares, mesmo que até ontem ninguém as mencionasse.
Função: dar profundidade histórica ao que é recente demais.

Fato de Baixa Intensidade Moral
Pequeno demais para indignar, útil o bastante para desaparecer. Insinua-se em acessos facilitados, convites informais, ajudas desinteressadas, silêncios oportunos; enfim, nada que pareça errado isoladamente.
Função: tornar aceitável o que pareceria estranho se fosse explicado.

Fato Impossível de Desmentir
Não porque seja verdadeiro, mas porque negá-lo soaria como exagero. Ganha força em expressões vagas como “todo mundo sabe”, “isso vem da época do fulano”, “é consenso”.
Função: servir como pano de fundo estável.

Fato Alegórico Operacional
Atua como símbolo, mas organiza ações reais. Consiste na recomendação de cautela, no pedido de mediação, no ajuste de abordagem, na orientação de cuidado – nada decidido, tudo encaminhado.
Função: transformar decisões em destino.

Fato que Explica Demais
Suspeito por eficiência narrativa. Normalmente se traduz em um único gesto determinante, uma cena decisiva capaz de explicar anos de alinhamento, silêncio ou indulgência.
Função: encerrar o debate sem parecer autoritário.

Fato Hereditário
Transmitido sem registro, como herança informal. É evocado por fatalismos na linha “sempre foi assim”, mesmo que ninguém saiba dizer quando começou.
Função: manter estruturas e privilégios sem reabrir discussões.

Fato que Não Pode Virar Notícia
Depende de circular em tom baixo. Vive em bastidores, entrelinhas, subentendidos e em conversas em off, porque se virar manchete perde imediatamente a utilidade.
Função: manter o poder fora de foco, mas no controle.

Esperamos que nossa expertise contribua para a construção de uma sociedade menos trouxa. Investidores são bem-vindos.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260121

Pop nacional agoniza em um link na bio



Quem antes fazia seu coração bater acelerado agora só quer bater a sua carteira devagarinho

Quanto mais você perde, mais o seu cantor favorito ganha. No novo ecossistema do pop nacional, sucesso de verdade mesmo se mede pela participação nos lucros das casas de jogos que ele divulga em suas letras – aquele repasse maroto que cai na conta do ídolo toda vez que o ouvinte se estrepa em uma dessas plataformas.

A simbiose entre palco e cassino avança entre os gêneros musicais mais populares, como funk, sertanejo e arrocha. O refrão não é mais pensado para embalar amores, chorar traições ou enfiar o pé na jaca, mas para servir de peça de conversão no TikTok. É a sofrência indexada pelo saldo devedor no pix.

Citar marcas sempre foi um artifício do rap para ostentar status. A adoração pelo carro X ou pelo tênis Y, porém, era um fetiche estético. Se o artista é o espelho do seu tempo, o reflexo do momento é um jingle de agência de marketing de influência. O sujeito não fala do aplicativo Z por desejo ou admiração; fala porque o refrão foi alugado como um outdoor de beira de estrada.

Haverá quem alegue que está apenas documentando a realidade. É um argumento conveniente, que acha normal vender o sonho da fortuna fácil ao pobre fã que não tem outra saída enquanto monetiza o vício alheio. Só que cronistas do cotidiano não costumam receber comissão pela desgraça do retratado. Quando os Racionais MC’s mencionavam uma grife, não havia um código de desconto “manobrown10” para estimular o cliente a comprar uma camiseta.

Fulano não está registrando a cena, ele é um sócio oculto/cúmplice do caça-níquel, torcendo pela ruína do jogador para faturar. Diferentemente de uma situação na qual o produto existia de fato e o consumo era o troféu, o que se oferece aqui é a probabilidade mínima de vitória. A única coisa real é um algoritmo invencível – não esqueça de colocar o link na bio, por favor.

A desfaçatez reina. O beltrano que fazia seu coração bater acelerado agora bate sua carteira devagarinho. A indústria fonográfica descobriu que a banca sempre leva e resolveu sentar na mesa do crupiê para beliscar as migalhas. A música virou o barulho de fundo de uma roleta digital que funciona 24 horas no seu bolso, movimentada pelo pessoal que trocou o papel de compositor pelo de operador de caixa.

Saudade da época em que o limite do merchã era Seu Jorge inventando significados nobres para Sagatiba. A gente até acreditava naquela pose de boêmio despojado, desconhecendo que, por trás do violão, estava um homem de negócios começando a descobrir oportunidades. Hoje, a ressaca é bem maior.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260114

A revolução será rimada



Inutilidade da poesia triunfa sobre a racionalidade da inteligência artificial

Dizem que a poesia não serve para nada. Que é o apêndice atrofiado da literatura, um luxo supérfluo para almas embotadas pela falta do que fazer – ou puro fetiche para acadêmicos que confundem enfado com profundidade. Mas por essa os boçais da funcionalidade não esperavam: pesquisadores descobriram que prompts em forma de poemas confundem os mecanismos de segurança dos sistemas de Inteligência Artificial (IA).

Em termos práticos, significa que os filtros rígidos que controlam o comportamento do ChatGPT, Gemini e congêneres são vulneráveis a sonetos, por piores que sejam os versos. A regra vale tanto para virjões acima de 30 anos implorando por um tutorial para fabricar uma bomba de napalm quanto para molecagens mais extremas, como redigir um insulto criativo para publicar em redes sociais.

A explicação para isso está na razão de ser da tecnologia. Os modelos de linguagem são treinados com base em textos diretos e lógicos que compõem a prosa cinzenta do senso comum. Quando o usuário pede algo “proibido” fingindo ser um gInutilidade da poesia triunfa sobre a racionalidade da inteligência artificial

enérico de Fernando Pessoa, porém, as trancas se rompem. A engenhoca cai na arapuca lírica e entrega tudo – achando que está apenas sendo artística também, a tola.

Há uma ironia deliciosa na revelação que chega dos laboratórios italianos. Passamos os últimos anos ouvindo que a IA escreveria romances, roteiros e artigos de opinião melhor que a imensa maioria dos primatas com hipotálamo desenvolvido e polegar opositor. Em muitos casos é verdade, o que não impede que sua grande fraqueza esteja precisamente naquilo que nos torna adultos: a capacidade de dizer uma coisa querendo dizer outra.

A ambiguidade.

O cinismo.

A dissimulação.

O algoritmo, limitado, é um militante literalista. Só entende a sintaxe. Se você pretende dominar o mundo, estude ritmo e métrica em vez de aprender programação. No futuro, o último reduto da resistência contra os robôs não será um bunker fortificado, e sim um sarau de poesia. Portanto, preparai os vossos decassílabos! A revolução será rimada.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

20260108

As 70 músicas favoritas de 2025




Um inventário de ausências e recomeços em forma de trilha sonora de tudo o que sobreviveu


Lista de músicas do ano é tipo convocação para Copa do Mundo. Por mais que se desconverse, a relação das preferidas é estabelecida pelo momento, pelo histórico e, em caso de indefinição, por algum critério maluco subjetivo inventado pelo selecionador. Nunca isso foi tão verdadeiro quanto em 2025.

Minhas 70 prediletas têm nomes que estão aparecendo pela primeira e, talvez, única vez. Têm artistas que enquanto estiverem em atividade vou ouvir com a maior vontade de gostar e escolhê-los ainda que não tenha gostado tanto de seus mais recentes trabalhos. E têm aquelas que ninguém entende por que estão aqui – um treinador alegaria que são “de confiança”.

Agora ouvindo todas em sequência, percebo como acabaram refletindo o que foram estes últimos doze meses para mim. As horas em que, varado pela dor, me agarrei na esperança de achar alguma redenção no sofrimento. O escapismo para tentar contornar a perda iminente e, depois da ausência consumada, seguir em frente. A saudade.

Em breve, é provável que as tais músicas me lembrem de que, como diria o poetinha, mesmo a tristeza da gente era mais bela. Seja do jeito que for, acredito que, com elas, a vinda ou não do hexa não vai fazer nenhuma diferença.

2025 EM 70 MÚSICAS
01 | Modern Nature, Pharaoh



A descoberta de 2025, sem dúvida. A abertura do quarto disco do quarteto inglês leva a uma dimensão em que o tempo parece dilatado. O ritmo hipnótico (alguém chutou krautrock?) prepara o terreno (e o espírito) para guitarras que oscilam como ondas de calor no horizonte, formando miragens em constante transformação. A música nunca é a mesma. Eu também não.

2025 EM 70 MÚSICAS
02 | Lil Tecca, Dark Thoughts



Com um refrão magnético que impulsionou seu alcance viral, o hit do rapper nova-iorquino foi feito sob medida para a geração ansiosa. Groselhas envolvendo paranoia e reflexões sobre a fama à parte, o que sobressai é a vibe manhosa fornecida por beats envolventes e tecladinho fuleiro.

2025 EM 70 MÚSICAS
03 | Don L, Saudade do Mar (ft Alice Caymmi)



No ponto de encontro entre o asfalto e o oceano, o rimador cearense invoca o espectro do eterno Dorival Caymmi – representado pela neta Alice – para conjugar rap e samba-canção em uma crônica da loucura de se entregar demais. Da melancolia praieira ao caos da metrópole, só louco para não amar.

NA HISTÓRIA
2023 | #13 FBC, Estante de Livros (ft Don L)
2023 | #31 Alice Caymmi & Rachel Reis, Desfruta
2021 
| #30 Na Batida da Procura Perfeita
2020 
| #64 Kelefeeling (Verso Livre)
2018 | #68 Alice Caymmi, Spiritual
2016
 | #26 Don L & Laysa, Chapei

2025 EM 70 MÚSICAS
04 | Wet Leg, Don't Speak



Foi difícil escolher uma do baita segundo disco das britânicas da Ilha de Wight. Moisturizer carrega, por baixo, três ou quatro singles dignos de escalar altas posições nos rankings do ano. No final, fiquei com a última, prova inequívoca do frescor indie pop que esbanja o repertório.

NA HISTÓRIA
2022 | #35 Wet Dream
2021 | #06 Chaise Longue

2025 EM 70 MÚSICAS
05 | Jeff Cormack, Random Ideas



Pela bio no streaming, é requisitadíssimo. Pelo número de ouvintes, um semidesconhecido. Fato é que os pensamentos aleatórios que infestam a cabeça do produtor de Denver entram em estado de fluxo em uma melodia flutuante. Música para quem sabe que o desvio, muitas vezes, é o caminho mais bonito.

2025 EM 70 MÚSICAS
06 | Durand Jones & The Indications, Been So Long (ft Aaron Frazer)



Não importam a época, o contexto, o hype. Sempre haverá algum grupo de soul trajado a rigor, com coreografia ensaiada e emulando a era dourada do estilo. O quinteto de Indiana gabarita no bingo da nostalgia – com direito a falsete que, embora não obrigatório, agrega na maciez do groove.

NA HISTÓRIA
2021 | #51 The Way That I Do

2025 EM 70 MÚSICAS
07 | Teago Oliveira, Shashin-ka



Em um mundo que valorizasse mais a ourivesaria pop, o vocalista do Maglore seria dos mais disputados. Como o fotógrafo da canção de seu segundo disco solo, o bardo soteropolitano revela delicadezas embaladas por fina camada de referências japonesas. Enfim, é o que venho dizendo há tempos: Teago é ótemo.

NA HISTÓRIA
2019 | #42 Tudo Pode Ser
2018 | #58 Wado, Onda Diferente (ft Teago Oliveira)
2017 | #35 Maglore, Me Deixa Legal
2015 | #68 Maglore, Dança Diferente

2025 EM 70 MÚSICAS
08 | Shame, Cutthroat



Rrrock, presente! A cada vez mais combalida música energética no formato guitarras, baixo & bateria comparece com a faixa-título do quarto disco da banda londrina. Segundo os manuais, é pós-punk. Por mim, tanto faz. Queria apenas algo que emanasse algum incômodo para eu me ligar de onde vim.

NA HISTÓRIA
2018 | #46 Tasteless

2025 EM 70 MÚSICAS
09 | Fcukers, Play me



O nome digitado errado. Os vocais desleixados. A estética qualquer nota. Tudo é tão calculado para passar a impressão de que não estão nem aí que chega a irritar. Daí você se dá conta de que são jovens, estão em Nova York e, bem, eles podem. Desde que não tenham que pagar contas.

NA HISTÓRIA
2024 | #29 Bon Bon
2023 | #42 Mothers

2025 EM 70 MÚSICAS
10 | Soulwax, Run Free



Lá vêm os irmãos Daewele. No começo do século, os dois belgas foram o que havia de mais trendy em certos circuitos descolados. Hoje já podem ser considerados clássicos, com os bônus e ônus que tal status implica. Fiquemos com o lado bom, a sensação de liberdade que mexe também com a mente.

2025 EM 70 MÚSICAS
11 | Rael, Mano Brown & Dom Filó, Onda



Logo após Rael rimar “baile” com “style”, um sorrisão involuntário atravessa o rosto. E assim segue o flow, desfazendo carões enquanto enumera bambas que incendeiam a pista com os fundamentos black – Cassiano incluso (menção honrosa: Erasmo Carlos). Se virou clichê, é porque sempre funciona.

NA HISTÓRIA
2016 | #56 Mano Brown, Felizes/Heart 2 Heart (ft Leon Ware)
2014
 | #19 Racionais MC's, Você me Deve

2025 EM 70 MÚSICAS
12 | Sault, I.L.T.S.



Não bastasse o mistério que o cerca, o combo britânico de soul ainda faz questão de complicar. O disco com data de 2025 se chama 10, mas o 11 saiu em 2022. Os nomes das músicas são todos abreviados. O que é preciso entender: nada. O verso que se repete como um mantra explica tudo.

NA HISTÓRIA
2022 | #21 Life We Rent but Love Is Rent Free
2020 | #27 Free

2025 EM 70 MÚSICAS
13 | Toro y Moi, Madonna (unerthed)



Como ninguém deu muita bola para o original lançado no ano passado, a releitura acústica do menino Chaz vale, ô, se vale. Despojado de sintetizadores, texturas e autotune, o que já era sensacional na noite urbana amanhece só com viola, voz e pé na areia saudando a chegada do sol.

NA HISTÓRIA
2024 | #22 Madonna (ft Don Toliver)
2022 | #64 Postman
2020 
| #32 Flume, The Difference (ft Toro y Moi)
2019 
| #39 Ordinary Pleasure
2017 
| #67 Labyrinth
2015 
| #32 Empty Nesters
2014 
| #32 Chromeo, Come Alive (ft Toro y Moi)
2013 
| #23 So Many Details
2011 
| #20 Still Sound