
O bacana de desencaixotar livros é que sempre se acha algum título que dá vontade de explorar novamente. E ler, bem sabia Nelson Rodrigues, é a arte de reler. Como 31 Canções, de Nick Hornby. Lançado no Brasil em 2005, época em que o escritor inglês estava na moda, nem passou perto do frisson causado por Alta Fidelidade (1995). Apesar de listar músicas como em seu romance de estreia, a onda aqui é outra.
Não se trata de um livro de crítica musical ou de canções prediletas. Ou não só: partindo de uma relação de músicas importantes sob uma avaliação estritamente pessoal, o autor conta como, quando e por que cada uma o afetou. Funciona, desde que se aprecie o estilo dele – muito mais, aliás, do que as canções selecionadas. Tipo disco tributo.
Para um livro pop de um cara pop com temática pop, um formato pop: quadrado do tamanho de um compacto, o suporte clássico da ideia que Hornby tem de canção. Logo na “faixa” de abertura, “Your Love Is the Place Where I Come from”, tocada pelo Teenage Fanclub no lançamento da compilação de contos infantis que organizou para a escola do filho, ele avisa que esse será um dos poucos casos de música associada a algum evento.
“A única coisa que se pode presumir de pessoas que dizem que seu disco favorito faz lembrar da lua de mel na Córsega ou do chihuahua da família é que, na verdade, elas não gostam de música”, escreve. É mentira, tchu-tchu, é mentira. No fundo, tudo está ligado a um momento específico, por mais que o texto fique rodeando para chegar lá.
Amostra disso é a música que evoca sexo para Hornby, “Samba pa Ti”, de Santana. “Ela começa devagar, misteriosa e linda, depois fica mais urgente e então... Bem, então se desvanece”, recomenda. O fato de determinada canção ser considerada sexy não significa que você vá querê-la como trilha sonora do ato. “A maioria delas, na verdade, é substituta sexual em vez de acompanhamento sexual – música para gente que não está pegando ninguém”, constata.
Com “Thunder Road”, ele compara a sua trajetória com a de Bruce Springsteen. “Essa música sabe como me sinto e o que sou”, atesta. Hornby lembra de reouvi-la recentemente e a adorado do mesmo modo que quando a descobriu, dentro de um carro, em 1975. Em poucos meses, observa, o cantor deixou de ser visto como o futuro do rock’n’roll para encarnar o atraso “sem que nada de importante houvesse mudado, a não ser seu índice de popularidade”.
E assim segue o baile, colocando no papel tiradas com as quais em nem imaginava que concordava tanto. Foi inevitável me identificar com “nunca reajo a Mozart ou Haydn como música, e sim como algo que deixa a sala diferente por um tempo, como uma vela perfumada”. “Estou pronto para perdoar as porcarias porque as melhores canções são simplesmente lindas” me tornou mais condescendente.
Se eu fizesse o meu próprio 31 Canções sincerão, entrariam “Ebony and Ivory” (Paul McCartney e Stevie Wonder), “A Vida Não Presta” (Léo Jaime) e “Outra Vez” (Roberto Carlos). Todas, de alguma forma, marcaram situações que, voltando a Nelson Rodrigues, eu não confessaria nem ao médium depois de morto. Cavalheiro que sou, prefiro manter a discrição.
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20220917
Um retrato feito de canções
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Há dez anos ninguém dorme

(Nesta quarta, dia 3, começa a série de comemorações pelos dez anos do trio Skrotes. A programação inclui exposição, ensaios abertos, show, exibição de filme e sessões de descarrego em geral no CIC, em Florianópolis, até 25 de setembro. Fui um dos convidados a escrever sobre a efeméride. Saiu isso.)
A ideia de abrir a cabeça para tratar distúrbios mentais remonta a tempos imemoriais. Há referências a essa prática em pinturas rupestres da era neolítica, uns 7 mil anos atrás, e na Idade Média curandeiros não apenas receitavam a remoção de partes do crânio que estariam causando desequilíbrios psíquicos como asseguravam que os pedaços retirados funcionavam como amuletos contra o mau-olhado.
Nos estertores do século XV, o holandês Hieronymus Bosch pintou o que batizou de A Extração da Pedra da Loucura. O quadro mostra um pobre coitado sendo submetido a uma trepanação – a perfuração da caixa craniana por um trépano, instrumento cirúrgico parecido com uma furadeira. De lá para cá, a despeito da evolução da ciência, os apetrechos usados em casos semelhantes permaneceram os mesmos: uma broca e uma serra.
Até os Skrotes surgirem com uma abordagem completamente inovadora & revolucionária.
Com exceção da premissa básica – abrir a cabeça –, o trio florianopolitano investiu na direção inversa. Para começo de conversa, os instrumentos adotados foram baixo, teclado e bateria, ensaiando um tipo de procedimento invasivo que, sem a necessidade de cortes, anestesia e muito menos assepsia, causa efeitos extrassensoriais com duração perene e aleatória. É como instalar um caleidoscópio na massa cinzenta.
O grande achado da banda, porém, foi a mudança radical da finalidade do processo: em vez de extrair a loucura de alguém, a proposta era acentuá-la. Em dosagens diferentes, junto ou misturado, o grupo pôs-se a combinar erudição & psicodelia, rigor & improviso, minimalismo & saturação. Afinal, quem precisa de rótulo é remédio. Os resultados iniciais foram animadores. E hoje, passados dez anos de sua aplicação pioneira, ainda são.
Mas atenção: esse tratamento sempre estará em fase experimental.
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20220916
Salvo pelo dilema de Akundum

Ninguém conhecia mais música do que ele. Todas as formações, os discos, os clássicos, as histórias, as lendas: Maxwell contava-as de cor. Em tardes ociosas e inspiradas, era comum a molecada que se reunia na borracharia onde ele batia ponto ser premiada com seus relatos sobre a tumultuada entrada de Ozzy Osbourne no Black Sabbath ou a controversa morte de Paul McCartney.
Quando Maxwell soltava o ar, apontava para a caixa de som – na verdade, um alto-falante de Kombi estourado, pendurado entre um calendário com beldades seminuas e uma imagem da Santa Paulina – e mandava a introdução “vocês sabiam que…”, a gente já se preparava para ouvir um fato inédito, que poderia estabelecer a aceitação de determinado artista.
Por volta de 4h20 de uma terça-feira das mais marasmáticas, ele cumpriu o ritual, deu a deixa e começou a falar de Bob Marley. Disse que o então iniciante Robert nem se incomodou ao ver seu compacto de estreia, Judge Not, creditado a um tal de Bob “Morley” nas jukeboxes de Kingston. O produtor Leslie Kong ter soletrado seu nome errado era o de menos.
Primeiro porque era a sua música, à disposição por uma moedinha. E segundo porque a cabeça e o coração do futuro rei do reggae ainda estavam abalados pelos acontecimentos do final de semana. Algo que (“essa escapou até de Timothy White na biografia Queimando Tudo, a mais completa sobre Bob”, ressaltou Maxwell) seria definitivo para sua formação como músico e como homem.
No sábado anterior, Bob havia participado de um badalado concurso de novos talentos que premiaria o campeão com uma bolsa de estudos e uma vaga de servente no colégio mais tradicional da capital jamaicana. Com o salário, equivalente a 75% do mínimo local, o adolescente pobre da comunidade de Trenchtown pretendia juntar dólares para comprar uma guitarra menos pior.
O que Bob nem sequer desconfiava era que tinha um parente seu no corpo de jurados: Akundum, filho nunca reconhecido de seu avô, Omeriah. Por sua lealdade e senso de justiça, Akundum fora convidado não apenas para preencher a cota de nativos que habitavam a ilha antes da invasão dos ingleses, como para presidir o júri, composto por representantes de diversas etnias e classes do país.
A canção de Bob terminou a apuração empatada com a do concorrente Royce Gordon (que viria a ser primo de Rexton Gordon, nascido em 1966 e famoso mais de duas décadas depois com o nome artístico de Shabba Ranks), ambas com seis votos cada. Caberia a Akundum o voto de minerva. Cioso da responsabilidade, o experiente líder se aproximou do microfone, pigarreou e declarou:
“Sou Akundum, guerreiro das tribos de Nine Miles. Um dos finalistas é meu sobrinho Nesta [referia-se a Bob pelo sobrenome materno], pois sou irmão bastardo de sua mãe. Entre a ética e a justiça, vou botar minha reputação no fogo e me pautar pela coragem dos meus antepassados maroons, os escravos fugitivos que enfrentaram o colonizador no século 17. Vou votar no melhor. E o melhor se chama Bob Marley.”
É bem assim que me sinto agora, com receio de soar cabotino por dividir que este VEÍCULO ultrapassou a barreira de 200 assinantes – a maioria mulheres, o que merece uma comemoração à parte. A centena inaugural foi atingida na quarta edição, e eu torcia para chegar ao primeiro aniversário em setembro com o dobro disso. Agora só me resta agradecer e tentar manter a preferência. Que venham os 300!
Alheio ao quanto suas palavras calariam fundo na minha memória, Maxwell emendou mais uma passagem obscura da vida de Bob. De acordo com ele, o que matou o ídolo precocemente, aos 36 anos, foi a cola das sedas que usava para manufaturar seus cigarros artesanais. “Veneno puro”, explicou, levantando suspeitas sobre a veracidade do dilema de Akundum. Mas aí já era tarde demais para procurar outro assunto.
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Sucesso de público

Despachos do covil – Infiltrada na convenção partidária que oficializou a candidatura à reeleição do presidente danação, a intrépida Bia Abramo (com quem já tive o privilégio de trabalhar e aprender) mostra que a máscara não serve somente para se proteger do vírus. Conforme a ocasião, o artefato também é muito útil para esconder traços de “incontinência facial” – como a cara de nojo e desdém ante a manada.
Diagnóstico de amor – O exame que salva a vida de milhões de mulheres surgiu em 1928, mas só teve a eficácia reconhecida muito tempo depois. Tudo graças à esposa do cientista grego George Papanicolau, Mary. Para ajudá-lo a embasar suas pesquisas, ela topou se submeter a coletas diárias no colo do útero por 20 anos, até a comunidade científica começar a perceber a importância da descoberta do marido.
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Anotações de leitura

De Os Coadjuvantes, de Clara Drummond:
Eu sou muito insegura para não ser superficial, preciso me agarrar a qualquer coisa material, que me sirva como ponto de referência, essa sou eu, esse é meu mundo, essas são as leis que guiam a mim e àqueles ao meu redor.
Não existe um desejo real de igualdade social na esfera da classe artística que estudou em escola construtivista de esquerda. Ninguém quer admitir que talvez não tenha talento suficiente para ocupar determinada posição de destaque.
Há poucas coisas mais feias que um bar quando as luzes se acendem depois que o último cliente é expulso.De A Cama de Procusto, de Nassin Nicholas Taleb:
Você será civilizado no dia em que puder passar um longo período sem fazer nada, sem aprender, sem melhorar nada e sem sentir um pingo de culpa.
Quando usado com habilidade, um elogio será muito mais ofensivo do que qualquer outra forma de depreciação.
Quando as pessoas o chamam de inteligente, quase sempre é porque concordam com você. Caso contrário, chamam você de arrogante.
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