20220919

Choque de gerações na sala de estar



Adoro quando meus pais vão visitar o tio Emerson. A casa dele tem disco em tudo quanto é lugar, até na cozinha. Minha mãe me disse que a maioria ele ganhou porque era jornalista de uma revista de música. Deve ser por isso que ele é tão revoltado: não existem mais jornalistas nem revistas. Música é claro que ainda existe, mas ninguém usa mais disco.

O meu tio, depois de juntar aquele monte de CDs, se recusou a comprar tudo de novo em vinil só porque virou modinha. Em acessos de fúria que já fazem parte do folclore da família, ele prometeu que vai se matar assim que o seu tocador de CDs estragar, pois o moço da loja já avisou que não fabricam mais a pecinha que sempre quebra. Não entendo por que ele teria que comprar tudo de novo, hoje a gente só ouve música pelo celular.

Mesmo sendo meio esquisitão, eu gosto dele. E acho que ele também gosta de mim, porque além de ser sua sobrinha, sou a única pessoa que presta atenção nas suas histórias. Ele estava até me ensinando a escrever, para eu parar de tirar notas baixas em redação no colégio. Disse para eu começar colocando uma ideia por frase. Estou tentando seguir a dica dele, não sei se funciona.

Na última vez em que a gente foi na casa do tio Emerson, ele jurou para mim que é mentira que ganhou todos os discos que tem. Muitos foram conseguidos em trocas e alguns ele até comprou. Sorte que minha mãe avisou que quando meu tio começa com esses surtos, a gente deve falar de música do tempo dele que ele amansa. Daí eu me lembrei de Stranger Things e do Batman.

Toda contente, comentei com ele que tinha conhecido Kate Bush e Metallica na série e Nirvana no filme. Nem são muito o tipo de som que eu curto, citei mais para agradar ele. O tio Emerson reagiu com um suspiro e foi na estante onde guarda os discos. Parou na frente de uma prateleira com uma etiqueta escrita “M-P”, pegou uns CDs e voltou na minha direção.

Ao se aproximar de mim, deu outro suspiro. Com o olhar fixo no meu, ele apontou para um disco com uns raios azuis na capa que trazia na mão e me contou que tinha a minha idade quando ouviu aquilo pela primeira vez. Do outro, com um bebê embaixo d’água, garantiu que nada se comparava ao impacto que teve no lançamento, trocentos anos atrás. “Depois deles eu nunca mais fui o mesmo”, confessou.

Então colocou os dois para tocar. À medida que ia me mostrando as músicas, o tio Emerson chegava a fechar os olhos e cantava baixinho, como se estivesse em transe. O dos raios eu ri da força que o vocalista fazia para berrar. O do bebê não tinha uma música inteira legal, só partes que duravam bem pouco. Não dei um pio sobre isso para ele, não queria que ele ficasse decepcionado comigo.

Para disfarçar, perguntei se ele não tinha nenhum disco da mulher com a voz superaguda. O tio Emerson baixou a cabeça e começou a soluçar. Eu ia comentar que o professor de história sugeriu que a nossa turma assistisse a um doc de um tal de Beatles, mas achei melhor deixar ele sozinho. Antes de ir embora, ainda ouvi ele resmungando um papo maluco de “online” e “offline”, como se houvesse diferença entre uma coisa e outra.

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Areia nas expectativas



Comecei a ver Sandman louco para reviver o frisson que sentia com os quadrinhos. Cansei de comprar gibis dele na primeira metade dos anos 1990. Mais tarde, enriqueci minha biblioteca com edições bacanas, capa dura, papel couché e tal. As viagens do personagem de Neil Gaiman sempre me levaram para lugares e estados que eu nem desconfiava que existissem – até saudei a Morte aqui.

Na TV, não resisti nem 15 minutos. O que impresso era fantástico e desafiador, em movimento me desceu como uma versão adultescente da saga Crepúsculo. Li por aí que tem que perseverar, que com o desenrolar dos episódios a história faz jus aos mistérios que encantaram minha geração. Espero ter saco para tentar de novo. Por enquanto, só consegui dormir no sofá.

E sem sonhar com nada.

Velhos, mas ainda cheiram bem

Ode às playlists – Texto bonitinho sobre a evolução do hábito de compilar músicas para algo ou alguém. Das fitas K-7 para o CD-R até o compartilhamento de links, uma “sutil curadoria” que sobrevive à obsolescência programada de corações & mídias.

Reféns da audiência – Como influenciadores, na ânsia por atenção & aceitação, acabam se transformando no que o público espera deles. No processo, as personas reais e virtuais se confundem tanto que restam apenas caricaturas grotescas de si mesmos.

PLAYLIST | onde está o botão de desligar



Acho que vou derreter com você.

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20220918

Nossa vitória não será por acidente



Está tudo tão virado do avesso, tudo sendo considerado tão normal por mais atípico que seja, que fica difícil resistir à vontade de ligar aquele botão com nome feio. Mas não reclamo. Há sempre uma razão para encarar com otimismo os percalços que o carma espalha pelo caminho. Nem que seja para continuar do único jeito concebível de ser: do contra.

Em maio fui cobrir um festival de música em Natal e conheci atrações que mal apareciam nos guias turísticos. No bairro da Ribeira, na parte antiga da capital potiguar, a organização montou dois palcos com o rio Potengi ao fundo e cercou a rua Chile, anexando bares, restaurantes e o casario. Para entrar naquele pedaço (público) da cidade e ver os shows de mais de 20 artistas, só pagando ingresso.

O que eu sequer desconfiava é que o valor desembolsado – não por mim, um deformador de opinião credenciado como tal – dava acesso também a uma TAZ, sigla em inglês para Zona Autônoma Temporária. O conceito foi criado por Hakim Bey, supostamente um poeta de algum lugar do norte da Índia que fugiu para a Inglaterra e, quando a barra pesou, atravessou o Atlântico rumo a Nova York.

O livro dele traz exemplos de situações que, por ações ou alterações da percepção, desafiam a caretice oficial, a opressão institucionalizada e o livre arbítrio mentiroso patrocinado pelo Estado. Pelas suas páginas desfilam desde piratas que fundaram na costa da África comunidades muito mais tolerantes do que os reinos da Europa feudal até as raves que levam jovens a celebrar um hedonismo com hora para acabar.

De acordo com Bey, não é necessário arregimentar um grupo, tramar uma revolução ou ter ideais muito sólidos para experimentar essa sensação na plenitude. A partir do momento em que o medo, o temor, o pânico diante do que pode acontecer perde importância e tudo o que se pensa é “fodam-se as leis e todas as regras, eu não me agrego a nenhuma delas”, uma TAZ está pronta para nascer.

Foi nesse clima que o Planet Hemp fechou a primeira noite do festival. O vocalista Marcelo D2 pulava no palco e a massa pogava no chão, às vezes de costas para ele, trocando a idolatria bovina pela plena assimilação da mensagem. O auge veio com “Stab”, cheia de significados difusos insinuados pelos versos “esperem sentados a rendição, nossa vitória não será por acidente”.

Ato reflexo, jovens, coroas, brancos, negros, pardos, ninfetas, putas, militantes, alienados, nerds, malacos, pobres, remediados e um bebum em uma cadeira de rodas soltaram, cada um a seu modo, uma torrente de sentimentos represados pela acomodação quase invisível que faz a gente murchar. A banda ainda promoveria mais meia hora de contestação e dedo na cara. Para mim, estava suficiente.

Olhei para o meu amigo de infância, que saiu da catarinense Laguna para passar férias em Natal e nunca mais voltou, casou com uma nativa, comprou um bugue e uma casa na Ponta Negra e vive de frila de publicidade, e não precisei falar nada. Naquele instante, tanto eu quanto ele tivemos a nítida certeza de que o nosso candidato seria eleito. Aquela Zona foi Autônoma, mas não haveria de ser Temporária.

***

Desencavei o texto acima, publicado em 2002, porque ando ansioso tentando encontrar algum sinal que me dê o mesmo alívio. Pode ser uma declaração, um gesto, qualquer banalidade. Será que já rolou e eu nem me toquei? Será que em outubro, ao olhar em retrospecto, vou identificá-lo e rir de como fui tolo em não sacar? Será que desta vez vai ter todo um processo, não um marco definidor? Aceito sugestões, por favor.

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Uma nova raça saindo dos prédios para as praças



Cruzo com meu Amigo Ativista no centro. Ele está na correria: a democracia tem pressa, os boletos também. Durante os poucos minutos que parou para conversar comigo, defendeu o que chamou de “romantismo de resultados”, cuspiu meia dúzia de impropérios contra o genocida e me pediu para não baixar a guarda porque a luta ainda não acabou. Antes de se despedir, vaticinou: “Em 2023, seremos todos filhos de Anitta e Mano Brown”.

PLAYLIST | as palavras correm pelos pensamentos



As imagens que ilustram esta edição fazem parte do projeto Minimal Republics, do artista fotográfico Rubén Martín de Lucas. A proposta é demarcar um pedaço de terra de 100 metros quadrados e habitá-lo por no máximo 24 horas, como se fosse um microestado efêmero – ou uma TAZ.

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