
Tinha Guns n’ Roses em São José. Tinha Jorge Ben, Planet Hemp, Emicida, Criolo e mais um monte de artistas no Eco Festival em Canasvieiras. Mas o maior nome do final de semana na Grande Florianópolis se apresentou de graça e cheio de graça ao meio-dia de domingo no centro da cidade: Lula, sempre ele. Seu show foi do tamanho da energia que emanava de cada canto da praça Tancredo Neves lotada.
O caminho para o local já indicava uma movimentação atípica. As ruas próximas, tradicionalmente desertas nas manhãs dominicais, estavam tomadas de pessoas trajadas de cidadania. O vermelho intenso do pau-brasil que batizou o país tingia camisetas, bonés e faixas em que predominavam a estrela com a inscrição “meu voto é secreto”, apenas a cara de Lula desenhada ou algum programa social criado no governo dele.
As filas serpenteavam pelo Tribunal de Contas até a frente do Instituto Estadual de Educação, na Mauro Ramos. A revista obrigatória para ultrapassar as grades de contenção que cercavam a praça tornava o escoamento ainda mais devagar. Naquele ritmo, o último só ia conseguir entrar às vésperas de um hipotético segundo turno. Então surgiu um rumor de que os portões haviam sido liberados e eu fui no fluxo.
Quando vi, estava no meio da multidão que se afunilava diante de um corredor gradeado. “Sem garrafas, nem de plástico!”, gritava um segurança. “Homens à esquerda, mulheres à direita”, organizava outro, alheio à frequência não-binária. Depois de ser apalpado pelos homens-de-preto, enfim pisei na arena onde foi montado o palco para Lula – que, como todo headliner, fecharia o evento.
Das muitas atrações que o antecederam, ninguém me tocou como Manuela D’Ávila. Ela falou dos riscos de ser progressista na região mais alinhada com o projeto do atraso, da exclusão, da violência. Dos últimos quatro anos impedidos de vestir nossas cores, defender nossas causas, empunhar nossas bandeiras. Chega de medo, eles que devem temer. Porque nossa vitória nunca esteve tão perto.
A companheira Janja puxou o coro para acompanhar o clipe com a nova versão do jingle histórico exibido no telão. Foi a deixa para Lula pegar o microfone e soltar a voz rouca que o público tanto esperava. O homem é um fenômeno: por mais que seu discurso seja previsível, é impossível não querer se convencer por ele – das conquistas de seus mandatos à garantia de um futuro solidário, próspero e gentil.
Enquanto Lula encantava, eu pensava no quanto o que ele simboliza é mais forte do que qualquer coisa que diga. “Lula é uma ideia” – e não tem como discordar. Quem experimentou sabe. Parecia que nada nem ninguém impediria nosso destino de brilhar. Vivia-se em uma dimensão tão distante do pesadelo atual que inclusive os brutos se fingiam civilizados, porque eram os códigos vigentes.
Ao mesmo tempo, fiquei viajando na “cultura do conforto” que Lula representa para mim. Como uma música, um livro ou um filme que me são familiares, suas palavras me transportam para uma época mais simples, da qual eu já conhecia o final e sempre acabava bem. Além do nada desprezível detalhe de que eu era 20 anos mais jovem e me cegava com uma felicidade que hoje somente olho de soslaio, desconfiado.
Meu presidente se despediu renovando a esperança de todos em dias melhores. À medida que me dispersava com a massa, ainda me lembrei de um artigo em que o filósofo Slavoj Zizek aborda o conceito da psicanálise de Lacan que prega que a verdade tem a estrutura de uma ficção. Em resumo, “a realidade é para aqueles que não podem suportar o sonho”. Lula me faz acreditar que posso.
(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)
20220924
Quando uma ideia basta
desovado por
emersong
0
eco
PLAYLIST | só pense no amanhã
Louco para desmentir o verso de Sergio Sampaio que diz “não há nada mais sozinho do que ser inteligente”.
[YOUTUBE] [DEEZER]
desovado por
emersong
0
eco
20220923
A casta só tem mais dinheiro

No anoitecer de sábado fui parar em um supermercado na área considerada nobre do centro de Florianópolis. Não é um estabelecimento que a classe social à qual pertenço permite que eu vá com frequência. O que me levou até lá foi a tentativa desesperada de aplacar com alguma guloseima a fome da carne que me é negada. Se não conseguisse nada para mimar o corpo, pensei, eu poderia alimentar a mente nutrindo o bichinho de estimação que substituiu o rancor depois que amadureci: o recalque.
O lugar é uma delícia. Em suas prateleiras resplandecem iguarias, fiambres, molhos, conservas, temperos e uma infinidade de produtos importados que não se encontra em nenhum outro concorrente local. É também um perigo. Um queijo francês aqui, um chocolate suíço ali, um pinot noir para acompanhar, e o cliente sai com uma sacolinha quase do valor do salário do caixa que registra as compras. Todos ficam felizes. Um, pela sua condição. Outro, pelo emprego.
Eu vagava pelos corredores cobiçando itens mais caros que uma cesta básica quando uma agitação nos fundos da loja interrompeu meu devaneio platônico-gastronômico. Era um ruidoso grupo de umas 30 pessoas, a maioria senhoras, postado em frente à confeitaria. Fingi que estava interessado em uma baguete semi-italiana na padaria ao lado e perguntei à atendente o porquê do aglomero. “Esse movimento aí é por causa da promoção”, respondeu ela.
A garota explicou que o preço de todos os doces do balcão caía pela metade meia hora antes de o supermercado fechar. “É que não abrimos aos domingos, daí perdem a validade”, completou. Deixa eu ver se entendi direito: aquele monte de representantes da burguesia estava esperando um tempão para pagar menos por bolos, torteletes, donuts, carolinas, folhados, rocamboles, queijadinhas e quejandos? Ah, de jeito nenhum que eu vou deixar de testemunhar isso!
Não me arrependi. Foi um espetáculo digno de uma ópera-bufa. Vovós que deviam ter mais carimbos no passaporte que eu na carteira de trabalho se empurrando, se acotovelando como a plebe nas liquidações dos atacarejos. Algumas não se continham e, com a fineza típica da elite floriputa, fiscalizavam os pedidos de quem havia chegado primeiro na fila. “Essa vai tirar a barriga da miséria!” “Ei, deixa um pouco para os outros!” “Tomara que sobre daquele que o Júnior adora.”
Maravilhado com o comportamento peculiar da freguesia, me mandei de mãos vazias e com a autoestima transbordando.
Aquela casta vive arrotando meritocracia, mas só tem o mérito de ser bem-nascida. Visita mais países que eu, mas não conhece nem a cidade onde mora como eu. Come em restaurantes estrelados, mas jamais experimentou os sabores que já provei. Não precisa fazer contas no final do mês, mas não conquistou o que conquistei. Dirige carrões, mas não lê livros tão bons ou ouve tantas músicas lindas quanto eu. Acumulou bens para envelhecer sem preocupações, mas eu amo e gozo mais.
Uma gentalha que não é nem nunca será melhor que eu. A única coisa que tem mais do que eu é dinheiro. E dinheiro eu ganho.
(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)
desovado por
emersong
0
eco
20220922
Ouça o cara que nasceu da flor

Respeito o Acaso como uma entidade e acolho seus desígnios com o fascínio de uma criança esperando o que o mágico vai tirar da cartola. Mas descobrir que Os The Darma Lóvers estão produzindo um documentário para marcar 25 anos de carreira me pegou de jeito. A notícia aparece logo no momento em que, mais uma vez, busco nas suas canções alento para desmanchar o rígido, serenidade para desfazer críticas e leveza para continuar sendo dissolvido pelo rio que transforma.
Tudo é miragemA música da dupla que Nenung e Irinia formaram em 1998 me acompanha desde que ouvi o cara que nasceu da flor. No final de 2000, saiu o homônimo disco de estreia, tão simples quanto a capa que lhe rendeu a alcunha de “branquinho”: voz e violão com sininho aqui, pianinho ali, a irradiar aromas folk e mensagens diretas. Para um tipo bem estranho de bicho como eu, que simpatizava com budismo apesar de não ter nada de zen, foi conversão imediata.
Esse é um rito
De sonho e de passagem
Em março de 2001, caiu do céu uma viagem de São Paulo a Porto Alegre para cobrir a gravação do disco ao vivo da Tribo de Jah no bar Opinião. Era a oportunidade que eu precisava. Após cumprir meu dever com o reggae, decorei as Quatro Nobres Verdades, vesti uma camiseta com o ideograma do Om bordado e me mandei para Três Coroas. No topo de um dos morros que cercam a cidade a 90 quilômetros da capital gaúcha, repousava o Chagdud Gonpa Khadro Ling – o lar dos Darma Lóvers.
Caminhões com material de construção não paravam de subir a estrada de terra rumo ao primeiro templo budista no Brasil erguido nos moldes tradicionais tibetanos. Pedreiros se ocupavam com oito blocos de concreto em frente ao prédio principal. Nenung me explicou que eram as stupas, representações das qualidades da mente iluminada e dos feitos extraordinários do Buda histórico, Sidarta Gautama. Forradas de cobre e bronze, elas comportavam relíquias e textos sacros.
O tempo é um professor sem pressa, mas é exigenteMais adiante, enormes cilindros de ferro exigiram que o músico me desse outra aula. Com paciência milenar, ele disse que se chamavam rodas de oração e guardavam milhares de mantras (combinação de sons que simbolizam e comunicam a natureza de uma deidade e que conduzem à purificação e à realização) escritos e abençoados. Giradas em sentido horário, correspondem à recitação de todas as preces ali contidas. Eu nem tinha entrado no templo e já me sentia pronto para atingir o nirvana.
E chega a hora de tornar o agir
Ficar mais claro, forte, mais inteligente
Lá dentro, pinturas em padrão tibetano decoravam as paredes e o teto. Ao fundo, havia estantes com os livros sagrados e centenas de taças com água sobre uma bancada que tomava toda a largura do recinto. Fiéis munidos de sadhanas (guias de meditação) sentavam em posição de lótus em colchonetes espalhados pelo chão para louvar Tara, a bodhisattva (alguém que desenvolveu bodhicitta, a aspiração de alcançar a iluminação em benefício de todos os seres) feminina da compaixão.
O casal morava em um chalé anexo ao mosteiro e seguia uma rotina de puja (prática conjunta de meditação) às 6h, café da manhã às 7h30, trabalho até 19h e mais puja para fechar o dia. Nenung recepcionava, Irinia ajudava na administração e cozinhava para o lama Rinpoche, nascido em 1930 no Tibete e reconhecido como a 16ª reencarnação do abade do monastério de Chagdug, naquele país. Com a ocupação chinesa em 1959, ele se exilou, rodou pelos EUA e se fixou em Três Coroas em 1995.
Não vou mais me repetirFoi Rinpoche quem rebatizou Irinia de Yang Zan (“melodiosa”, em tibetano) e Nenung de Pema Gyalpo (“rei do lótus”). Ué, Nenung já não era um nome oriental? “Não, vem de Pedro Verdum, jogador do Internacional na década de 1980. Minha turma começou a tirar sarro, Marcelo virou Marcelum; Marco, Marcum. Como sou Luís Fernando e meu apelido era Neno, virei Nenum”, elucidou o colorado. Aí, bastou trocar o “m” por “ng” para ficar com jeitão de algo do outro lado do mundo.
Nem que eu quisesse isso
Outro dia e eu aqui
Novo, vasto e infinito
Deixei os Darma Lóvers se dedicarem à última puja do dia e fui embora com um mala (espécie de rosário budista) no pescoço e um monte de energia positiva no coração. Voltei a falar com Nenung por telefone em 2002, no lançamento do segundo álbum, Básico. Ele me contou que estava se preparando para o “desdobramento natural” de seu “projeto musical-existencial”: o isolamento em um retiro de três anos, três meses e três dias, com término previsto para 7 de setembro de 2005.
Reencontrei-os no extinto bar Drakkar, em Florianópolis, no show com base no disco Laranjas do Céu, de 2004. Não me lembro se foi naquele ano mesmo – o que significaria que Nenung abortou o período de clausura – ou no seguinte, só do CD autografado me desejando muita luz que guardo até hoje. Desfrutei de Simplesmente (2009) e Espaço! (2013), os trabalhos posteriores, mais como fã do que como “profissional da imprensa musical”. Nunca mais tive contato com eles.
Não vou mais ficar esperando ver se fico ou vou-me emboraRinpoche desencarnou em 2002. O mantra de Tara – Om Tare Tam Soha – virou a tela do meu celular. Não sei se os Darma Lóvers permanecem na ativa, se se reúnem apenas em ocasiões especiais, se sua parceria ainda é conjugal ou somente artístico-espiritual. Mas é à música deles que eu sempre recorro quando me esqueço que não sou nada feito para durar neste mundo imenso que carrego em mim. Abraço a incerteza enquanto a vida quiser.
Vou partir sem medo ao centro
Do que há dentro daqui de onde estou
(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)
desovado por
emersong
0
eco
PLAYLIST | sempre fica alguma coisa
Os filósofos não dizem nada que eu não possa dizer de onde vem essa vontade.
[YOUTUBE] [DEEZER] [AMAZON]
desovado por
emersong
0
eco
20220921
Atendemos todos os convênios

Hoje estou determinado a escrever nada com nada. Sinto que serei bem-sucedido: mal cheguei à segunda frase e já estou enrolando. Poderia destravar isso expondo minha vertiginosa gangorra emocional, se interessasse a mais alguém além de mim. [Suspiro.] Mas, ei, posso falar da vida de outras pessoas – mais especificamente, da de mulheres com quem, sem planejar e muito menos esperar, consegui estabelecer uma relação quase telepática, pela qual agradeço todos os dias. Beijo, chicas!
Com elas, eu me desarmo e me mostro por inteiro, com meus defeitos, minhas fraquezas e meus medos, totalmente diferente da autoimagem que cultivo para consumo externo. Elas me dão colinho e passam a mão na minha cabeça e me falam o que, saído de outras bocas, me deixaria muito machucado porque são coisas que eu não gostaria de ouvir. Dito por elas, porém, ajuda a desconstruir o machinho estrutural que nunca reconheci que sou. Não conheço terapia melhor.
E elas também se abrem comigo. Sobre seus rompantes, seus desejos, suas frustrações. Não que eu tenha algo a ensiná-las, longe disso. Acho que veem em mim um cara com uma certa, er, experiência, embora eu seja um mero aprendiz nas artimanhas do coração. Talvez seja por isso mesmo: elas me ouvem para saber o que não devem fazer. Exceto um ou outro acerto involuntário, mais por coincidência do que pela minha suposta expertise, o contrário do que lhes digo é o que tem que ser feito.
Dia desses uma delas me procurou para falar do namorado. Reclamou que ele parecia reagir com indiferença aos planos que ela imaginava para os dois. Sugeri que, às vezes, a indiferença masculina é orgânica, um comportamento que a gente nem percebe que fere de tão instintivo que se apresenta. Insisti para ela conversar com ele a respeito, para que se o rompimento fosse inevitável não ficasse com a impressão de que uma palavra, um gesto, um afago mudaria o desfecho.
Outra me chamou para contar que estava saindo com um bonitão casado e queria minha opinião. Lembrei das aulas de geometria e lhe recomendei a identificar se esse triângulo era equilátero, isósceles ou escaleno. Ela boiou. Expliquei que, antes de tudo, ela tinha que descobrir o tamanho das vértices: se as três eram iguais, se duas eram iguais e uma diferente ou se todas eram diferentes. Ela me mandou um coraçãozinho e uma cara chorando de rir.
A primeira levou um papo reto com o namorado, ele saiu correndo e voltou no dia seguinte implorando para ela perdoar sua imaturidade.
A segunda dispensou o bonitão casado, encontrou outro (ignoro seu estado civil) e está apaixonadíssima.
As duas me garantiram que eu já estaria rico se começasse a cobrar pela consultoria sentimental.
O que estou precisando dinheiro nenhum compra, migas.
(Extraído da newsletter Extrato. Assine já e garanta o seu exemplar antecipado todas as terças!)
desovado por
emersong
0
eco