20150320

Procura-se a galinha

Os animais estavam indignados. Ninguém ligava para a arte que faziam. Sempre fora assim, mas antes pelo menos o Poder Real destinava alguns trocados a fundo perdido para a produção independente. Agora, nem isso. Depois que o Leão foi reeleito prometendo austeridade, os incentivos e equipamentos culturais da floresta minguaram. O pouco que havia restado era disputado com unhas e dentes pelos roedores do marketing, pelos répteis das corporações e pelos carrapatos aliados da administração.

Da revolta, nasceu um manifesto para unificar a selva em torno de um "projeto de política de Estado que absorva as manifestações culturais incompreendidas pelo consumidor". Lançado o mote, as hienas da organização começaram a agir. Em uma clareira abandonada, montaram a sede do movimento – um reduto para abrigar shows, oficinas, debates e coleta de assinaturas em prol da causa. A programação, "democrática, sem repetição de atrações ou predomínio de uma expressão apenas", estaria garantida pela vastidão de talentos injustiçados pela lógica fria do mercado.

Para a inauguração, convidaram a Raposa. O auditório silvestre lotou para ouvir a ex-produtora e ex-diretora de estatal que largou tudo para criar uma ONG dedicada à preservação dos direitos autorais esmiuçar como as coisas funcionam no sistema. Além do cheiro indisfarçável dos gambás (que também almejavam o sucesso), a expectativa pairava no ar. "Mais do que acreditar, é preciso estar preparado", começou a palestrante. E, sentindo a responsabilidade invadir suas narinas, contou-lhes a seguinte fábula:

Certa feita, o verão alongou-se demais, as chuvas não vieram e a seca tomou conta da floresta. Desesperados, bichos de todas as espécies resolveram invocar o Criador com uma trezena. Todo final de tarde, reuniam-se para rezar. No 13º e último dia, trovões interromperam o clamor das orações. Chovia. Muito. Tanto que eles não conseguiam voltar para casa, impedidos pelo temporal. Então uma galinha, já avançada em anos, roupa escura denunciando a viuvez, pegou o seu guarda-chuva e retornou ao lar. Só ela trouxera sua sombrinha.

Triunfante, a raposa encarou a audiência."Quem é a galinha aqui?", perguntou. Aqueles que entenderam a metáfora ficaram perplexos. A maioria estava ali para reivindicar mais espaço, mais verba e mais boa vontade para a sua arte – para sempre. Não havia nenhum projeto para um futuro autossuficiente. Poucos botavam fé na capacidade de se sustentar sem amparo. Excluída a hipótese do repasse de dinheiro público, o movimento não parava em pé.

O choque foi demais para os animais, que imediatamente deixaram de falar e assumiram sua condição irracional. Por causa disso, até hoje têm dificuldade de conceber outras maneiras – sem edital, sem indicação, sem favor – de salvar a floresta.

(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20150313

Wander Wildner para presidente



O gaúcho Wander Wildner já foi boy do subterrâneo, já teve uma camiseta escrita “eu te amo”, já acreditou em milagres. Hoje, pergunta no título de seu oitavo disco Existe Alguém Aí?. Diz ele que é um álbum conceitual, com sua visão crítica da sociedade. Mas não espere panfletagem. O ex-replicante, ex-punk-brega e ex-trovador folk está calejado demais para dividir o mundo entre destros e canhotos ou achar que tem a solução para os problemas urbanos. Aos 55 anos, encara a política em seu sentido mais amplo, priorizando pessoas a ideologias.

A inclinação estadista de Wander vem em boa hora. Em tempos de posições extremadas, de indignação seletiva e de apostas no quanto pior, melhor, o bardo comporta-se como um Pepe Mujica do rock. Com a simplicidade e a clareza do ex-presidente uruguaio, fala de solidão (“Sua Própria Companhia”), da metrópole caótica (“Réquiem para uma Cidade”), de levar uma vida saudável (“Plantar, Colher e Depois Dançar”). Ainda que aborde questões pontuais, como em Naquela Noite Ela Chorou”, importa-se mais com a frustração do que com o resultado das urnas.

Antes que o trecho “todos viram a democracia acontecer, mas com um resultado devastador” preste-se a interpretações oportunistas, ele explica que refere-se à eleição de Lasier Martins (PDT-RS) ao senado, em 2014. Ao perceber que “a maioria queria o que ela não queria”, a moça da canção lamenta e vai em frente. Um futuro cheio de esperança a recebe em “Numa Ilha Qualquer” e em “Saudade”, porque Wander pode até mudar o som para mais pesado ou a temática para menos romântica, nunca o tom. No fundo, é o mesmo querido de sempre.

Dias de ovelha negra
 Outra cantora que junta-se à lista das dez brasileiras para ficar ligado publicada aqui na semana passada é Andreia Dias. Em seu quarto disco, Prisioneira do Amor, ela desencava dez músicas gravadas por Rita Lee de 1968 a 1978 – das quais apenas uma, “Ovelha Negra”, foi hit. Entre as versões dirigidas por Tim Bernardes, do trio O Terno, estão curiosidades como os versos censurados em 1972 (“Beije-me a boca / Com tua boca vermelha / Para que eu sinta a saliva / E o gosto de cuspe / Escorrendo entre os dentes meus”) de “Beija-me Amor”.



TEM QUE CONHECER ||||||| 
SHUGGIE OTIS
Em 1974, quando lançou Inspiration Information, no qual cantou e tocou guitarra, piano, órgão, baixo e bateria, Shuggie Otis tinha apenas 22 anos. Apesar da pouca idade, a fluidez com que ele costurava soul, R&B e funk despertou comparações com Marvin Gaye, Curtis Mayfield e Sly Stone. Os Rolling Stones também piraram e o convidaram para substituir Mick Taylor. Como bom torto, o californiano recusou. Pouco depois, devido ao fraco desempenho do disco, foi dispensado da gravadora e se retirou da cena (rumores apontam para complicações com drogas). Reapareceu com a edição do álbum em CD, em 2001, mostrando o gigante que poderia ter se tornado.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20150306

Dez brasileiras para se ligar



O dia é internacional; a seleção, não. Porque “agora chegou a vez, vou cantar, mulher brasileira em primeiro lugar”. Entre revelações e confirmações, confira dez artistas nacionais que, independentemente de estilo, merecem a sua atenção em 2015:

1 | ALICE CAYMMI Não fosse o sobrenome, ninguém diria que é neta de Dorival, filha de Danilo e sobrinha de Nana e Dori. Sua voz grave confere drama a versões de Caetano a MC Marcinho no segundo disco, Rainha dos Raios (2014). OUÇA “Homem”, “Princesa”, “Meu Mundo Caiu”.



2 | ALZIRA E Com oito discos na mala e 28 anos de carreira, a sul-matogrossense bate forte com O Que Vim Fazer Aqui (2014). Sem percussão ou bateria, o álbum traz a poesia do falecido Itamar Assumpção realçada por uma de suas mais viscerais intérpretes. OUÇA “Norte”, “Itamar É”, “Já Sei”.



3 | ANELIS ASSUMPÇÃO Como Alice, tem parente ilustre. Como Alzira, é ligada a Itamar. Como as duas, está com um belo trabalho na praça. Como o pai, canta e compõe. Ao contrário dos três, vai do samba ao reggae com naturalidade pop. OUÇA “Mau Juízo”, “Inconcluso”, “Declaração”.



4 | BLUBELL Em quatro discos, a paulista construiu uma pose de artista sofisticada, trilíngue e influenciada por jazz antigo. No último deles, Diva É a Mãe (2014), ela finge brincar com essa imagem e torna-se ainda mais charmosa. OUÇA “Bandido”, “A Mulher Solteira e o Homem Pavão”, “Regret”.



5 | CLAUDIA DOREI Cantora, compositora, trompetista e produtora carioca. No ano passado, lançou Inspire, segundo disco de uma trilogia iniciada em 2009 com Respire. No cardápio, climas com texturas de dub e cumbia, samba e jazz. OUÇA “Nada Além”, “Já Deu”, “Contato”.



6 | JULIANA SINIMBÚ É do colega do Anexo Giuliano Bianco a melhor definição para o som da paraense: “arrocha gourmet”. De fato, em Una (2014) a moça valoriza os ritmos regionais com suavidade, no limite da diluição. OUÇA “Para Um Tal Amor”, “Clarão da Lua”, “Não me Provoca”.



7 | KAROL CONKÁ Desde Batuk Freak (2013), a rapper curitibana não parou de ampliar horizontes, como atestam suas recentes tabelas com o Tropkillaz – projeto de trap (estilo que mistura rap com eletrônica) de Zegon, ex-DJ do Planet Hemp. OUÇA “Boa Noite”, “Tombei”, “Que Delícia”.



8 | MARCIA CASTRO No terceiro disco, Das Coisas Que Surgem (2014), a baiana estreia como compositora, solo ou com Arnaldo Antunes ou Lucas Santtana. O resultado é mais urbano, quase indie perto da MPB dos anteriores. OUÇA “Beijos de Ar”, “O Amor Tem Dessas”, “Esculacho”.



9 | MARIANA VOLKER Um skazinho introduz o EP Palafita (2014), o cartão de visitas da carioca para conquistar um lugar ao sol. Quem avaliza o potencial da ruiva é o experiente Liminha, produtor que já fez de tudo no rock nacional. OUÇA “Eterno Verão”, “Someblue”, “Palafita”.



10 | TULIPA RUIZ Lança o terceiro disco (ainda sem nome) em maio, novamente bancado pela Natura. Os músicos também são os mesmos. E mais não se sabe – nem se o recente single Megalomania serve como pista de onde a flor vai brotar. OUÇA “É”, “Quando Eu Achar”, “Sushi”.



(Coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20150227

Revolução nenhuma resiste ao enfado



Certas bandas já fizeram tanta coisa boa que cada manifestação artística sua requer reverência, condescendência e, como não?, paciência. É o caso do grupo inglês Gang of Four, que está lançando o disco What Happens Next. Não se pode recebê-lo sem considerar que o quarteto incendiou o pós-punk com Entertainment!, em 1979. Que a fúria & inspiração da estreia foi arrefecendo nos trabalhos seguintes. E que, 36 anos e oito álbuns depois, a gangue pertence a só um: o guitarrista Andy Gill, único remanescente da formação original.

OK, seria tolice esperar aqueles acordes afiados e dançantes que influenciaram de Nirvana a Franz Ferdinand com mísseis sonoros como “I Found That Essence Rare” e “Damaged Goods” – esta última teve até seus versos aproveitados pelos Titãs em Corações e Mentes (“O teu beijo é tão doce / O teu suor é tão salgado/ Às vezes acho que te amo / Às vezes acho que é só sexo”). Mesmo que não chegue perto dos clássicos do quarteto, o novo disco tem seus momentos. Com a devoção esparramada pelo atual vocalista John Sterry, “Isles of Dogs”, “First World Citizen” e “Stranded” entrariam redondas no repertório do U2.



O diabinho aqui do lado cutuca: justamente por hoje lembrar a empresa de Bono Vox que o Gang of Four merece a danação eterna. Menos, menos. No início da carreira, o discurso político de ambos mirava inimigos em comum, as armas é que eram diferentes. Mas, vendo o que um e outro se tornaram, indignar-se com o que sobrou da “camarilha dos quatro” (nome extraído do termo com que o governo chinês referia-se à facção da viúva de Mao Tse Tung, expurgada do poder após a morte do marido) não deixa de ser a atitude mais sensata.

Camaradas à beira-mar
Em 8 de setembro de 2006, o Gang of Four apareceu em Florianópolis bancado por uma bebida metida a pop para um show com uma banda alienada em um templo da burguesia. A grupo era uma das atrações do Campari Rock, que levou também os Cardigans ao Costão do Santinho. Mas nem a formação histórica (Gill, o vocalista Jon King, o baixista Dave Allen e o baterista Hugo Borhan), nem o espancamento de um micro-ondas no palco comoveu a plateia, que só queria ver a loirinha Nina Persson cantar “Lovefool”. Diante da beleza sueca, não houve engajamento que resistisse.



RÓTULO DA HORA ||||||| RAPSICORDÉLICO
O QUÊ A poesia falada do rap com a métrica dos cordéis.
ONDE Na estreia solo de Gaspar, rapper do grupo paulistano Z’África Brasil.
COMO  Com participações de Zeca Baleiro, Emicida, KL Jay (Racionais MC’s) e Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), entre outros.
QUAL É A proposta de apresentar “ritmos sincopados regionais em uma roupagem moderna que se apropria dos timbres eletrônicos em diálogo com instrumentos acústicos” é interessante – na teoria. Na prática, com muito boa vontade salva-se “Rapinbolada”, com Baleiro.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20150220

Cada um sabe onde e como sente prazer



A trilha sonora do filme 50 Tons de Cinza reproduz fielmente a adaptação do best seller levada às telas. Como na relação entre o milionário Christian Grey e a universitária Anastasia Steele, ouvi-la traz muito sofrimento. E pouco prazer. Apesar de abrir com Annie Lennox sensualizando na versão de “I Put a Spell on You”, o empenho da seleção em mexer com a libido é tanto que tira toda a espontaneidade do processo – a menos que você sinta tesão folheando manuais técnicos de anatomia ou considere excitante esperar em fila de motel no Dia dos Namorados.

Um punhado de músicas que se encaixa em um padrão sexy não significa que alguém vá querer copular ao som delas. A maioria dos pretensos ritos de acasalamento não passa, na verdade, de “música de quem não está pegando ninguém (ou não irá pegar até chegar em casa)”, segundo Nick Hornby no livro 31 Canções. Para o escritor inglês, seria impossível não rir se durante uma transa rolasse, por exemplo, “Let’s Get it On”, de Marvin Gaye, com sua abordagem assim tão, hmmm, literal. Cada um com sua perversão.

O mesmo acontece com Beyoncé suspirando e pedindo tapas e mordidas nos remixes de “Crazy in Love” e “Haunted”. Com a dose dupla de R&B contemporâneo do cantor canadense Weeknd. Com os alternativos californianos do Awolnation cantando “I’m on Fire”, de Bruce Springsteen. Você deveria subir pelas paredes com isso, ficar facinha a ponto de engolir o Jagger chorão de “Beast of Burden” e o Sinatra fanfarrão de “Witchcraft”. Mas tudo o que consegue é achar graça. Certamente, não era esse o conceito de “gozar” que os produtores do disco tinham em mente.

Futuro para trás
Com lançamento previsto somente para abril, o quarto disco de Toro Y Moi, What For?, já circula pela rede. Como no projeto paralelo Les Sins, orientado para as pistas, em sua persona artística titular o americano Chaz Bundick dá sinais claros de que a fase rotulada de chillwave pertence ao passado. A mudança fez bem: o novo álbum está mais solar, com faixas como “Empty Nesters”,“Lilly” e “The Flight” transmitindo uma visão nostálgica e orgânica de pop.



POP POR TABELA ||||||| SUPERGRUPOS
O Rock In Rio confirmou o show do Hollywood Vampires, um supergrupo com Alice Cooper, o ator Johnny Depp e Joe Perry, guitarrista do Aerosmith. Confira outras bandas formadas por astros e o que aconteceu com elas:

Them Crooked Vultures
QUEM John Paul Jones (Led Zeppelin), Dave Grohl (Foo Fighters) e Josh Homme (Queens of the Stone Age)
E AÍ Gravou um disco em 2010 e parou por tempo indeterminado



Atoms for Peace
QUEM Thom Yorke e Nigel Godrich (ambos do Radiohead) e Flea (Red Hot Chili Peppers)
E AÍ Revelou o talento do catarinense Mauro Refosco na percussão



Nove Mil Anjos
QUEM Júnior (irmão de Sandy), Champignon (Charlie Brown Jr.) e Peu Souza (da banda de Pitty)
E AÍ Dois integrantes acabaram cometendo suicídio



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20150213

Ser legal demais também atrapalha

Precisamos falar sobre Diogo Strausz. Produtor, compositor, multi-instrumentista, 25 anos. Elogiado pelos trabalhos com figuras da nova cena carioca como Mahmundi, João Capdeville e Alice Caymmi. Apontado por O Globo como um dos artistas para se prestar atenção em 2015. No começo deste ano, ele lançou o disco solo Spectrum Vol.1 – disponível gratuitamente em seu site. Cheio de participações especiais, o álbum reflete a pluralidade de estilos acumulada pelo rapaz.

Desculpe o recalque, mas tem alguma coisa nesse “ciclo virtuoso” que irrita.



Não há nenhum motivo para duvidar que Strausz está sendo verdadeiro na escolha de cada convidado, na definição de cada timbre, no cuidado com cada detalhe. É o mundo dele – o mundo das pessoas interessantes, das citações inteligentes, do bom gosto. Das guitarradas paraenses de “Chibom” ao samba melancólico de “Assombração” (com Danilo Caymmi), da frenética “Me Ama” (com Kassim) à “FCK” (com Apollo), tudo é maneiro, descolado, moderno.

A revista americana Spin o definiu como uma “colisão de tecnobrega com Aphex Twin, Tom Zé e um pouco do estilo da DFA [gravadora nova-iorquina, lar de LCD Soundsystem e The Rapture] na medida certa”. É tanta referência, tanto nome, tanta condição favorável, que os matizes black de “Narcissus” (com os gêmeos Keops e Raoni, da banda Medulla) e “Não Deixe de Alimentar” (com as cantoras Ledjane Motta e Maria Pia) ou a delicadeza de “Se Renda”, parceria de produtor com o pai, Leno (aquele mesmo da Jovem Guarda), quase passam despercebidos. Da próxima vez, Strausz, seja menos cool, por favor.

Hormônios em ebulição
A volta das Sleater-Kinney depois de 10 anos, com No Cities to Love, lembra outro trio de mulheres que está com um disquinho simpático na praça. É o Ex Hex, da guitarrista e vocalista Mary Timony (que toca com duas integrantes do Sleater-Kinney no grupo Wild Flag). A banda estreou no final do ano passado com o urgente Rips, uma coleção de 12 músicas que exalam o melhor dos Ramones – a vocação chicletuda por trás da tosqueira. Essa inclinação rende delícias como “Beast”, “How You Got that Girl” e “New Kid”, entre outras joias do power pop movido a progesterona no talo.



DATAS QUADRADAS ||||||| 27 ANOS
O QUÊ O fim da banda The Cars, anunciado em fevereiro de 1988, após 11 anos de carreira e seis álbuns de estúdio.
QUEM Grupo liderado pelo vocalista Ric Ocasek, nunca teve tanto prestígio quanto seus pares da new wave americana como Blondie ou B-52’s, mas forjou uma identidade própria e empilhou um sucesso atrás do outro.
POR QUÊ Sem influências intelectualoides, a única pretensão dos Cars era fazer pop para tocar na rádio. E conseguiam.
LEGADO “Just What I Needed”, “Best Friend’s Girl”, “You Might Think”, “Shake it Up”, “Drive”.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20150206

Nivelados pela velhice



A ideia de Bob Dylan cantando Frank Sinatra era tão insólita que dava até medo. Ambos simbolizam polos opostos na cultura pop. Um, jovem, proletário, oposição. Outro, coroa, burguês, situação. Mas a velhice os nivelou. Aos 73 anos, Dylan tornou-se uma instituição tão americana quanto a torta de maçã, as fraternidades universitárias e Sinatra, morto em 1998, aos 82. Por isso, o recém-lançado Shadows in the Night não tem nada de bizarro. É só um disco de um tiozinho interpretando músicas gravadas por outro tiozinho.

O que evitou maiores constrangimentos foi a decisão sensata de Dylan de não tentar parecer Sinatra. Em vez de clichês, o bardo selecionou canções registradas entre as décadas de 1940 e 1960 pelo artista que imortalizou “New York, New York”, “My Way” e “Strangers in the Night”. Também não quis bancar o crooner – e nem poderia, com sua voz, digamos, peculiar. Por fim, trocou as orquestrações originais por arranjos enxutos, com guitarra steel (tocada com um cilindro nas cordas), baixo acústico e percussão de leve.

Essas escolhas forjaram um álbum de uma placidez quase bovina. A banda engata uma toada na primeira faixa “I’m a Fool to Want You”, e segue na mesma pelas nove seguintes, sem nenhum pico que lembre por que Dylan é tão grande. As músicas dele já abasteceram revoluções e influenciaram meio mundo. No entanto, como o próprio já bradava em 1964, os tempos estão mudando. Em Shadows in the Night, viraram a trilha sonora perfeita para aquele domingo preguiçoso em que a gente inventa de arrumar as gavetas.

Só piora
O CD duplo Chacrinha - O Musical, com canções que inspiraram o espetáculo teatral escrito por Pedro Bial, mostra como o mainstream brasileiro empobreceu. O programa do “velho guerreiro” na TV sempre foi uma vitrine do que de mais popular rolava nas rádios. Em mais de 30 anos no ar, pela sua discoteca e, depois, cassino, passaram de tropicalistas (Gil, Caetano) a bregas (Waldick Soriano, Wando), de roqueiros (Raul Seixas, Legião Urbana) a sambistas (Clara Nunes, Elza Soares), de rebolativas (Gretchen, Lady Zu) a cinturas-duras (Nelson Ned, Gonzaguinha). Qualquer comparação com as paradas atuais, monopolizadas pelo gosto duvidoso, é pedir para se aborrecer.



TEM QUE CONHECER ||||||| WALTER WANDERLEY
O pernambucano Walter Wanderley fez parte da leva de brasileiros que, motivada pelo boom da bossa nova nos Estados Unidos, mudou-se para lá nos anos 1960. Naquele país, sua música, puramente instrumental, recebeu o devido valor. A partir do disco que gravou com Astrud Gilberto, A Certain Smile, A Certain Sadness (1966), o organista se consolidou na cena do brazilian jazz e seus timbres passaram a ser cada vez mais reconhecidos e requisitados – como pelo catarinense Luiz Henrique, com quem dividiu o álbum Popcorn em 1968. Morreu em 1986.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)