20161129

Comfort food para os ouvidos

Em 2002, em plena turnê de divulgação do disco A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana, Nando Reis deixou os Titãs depois de 20 anos e 11 álbuns. Alegou “incompatibilidade de pensamento em relação ao futuro da preparação” do próximo trabalho do grupo e que, por razões pessoais, não poderia oferecer a total dedicação que a empreitada exigiria. Não era desculpa: as mesmas “honestidade e consideração” usadas como argumento para nortear sua decisão são cultivadas com desvelo em uma carreira solo que desemboca no oitavo lançamento com Jardim-Pomar.



O título saiu de um livro de Murilo Mendes (1901-1975), A Idade do Serrote. No original do escritor mineiro, o jardim da casa paterna se confunde com o paraíso bíblico. Na concepção do músico, é um lugar onde Deus, a criação, a experiência, o amor, a morte, o passado e o futuro convivem em 13 canções. Ou, como ensina a terceira faixa, “Inimitável”, “se vamos todos morrer, então vamos tratar de viver”. Daí em diante, o disco, que vinha em compasso mais roqueiro, adota o tom baladeiro (nada a ver com festas, pliz) habitual de Nando Reis, seja como compositor de hits gravados por Cassia Eller, Jota Quest e quejandos, seja como cantautor.

Produzido entre São Paulo e Seattle pelos mesmos Jack Endino e Barrett Martin de parcerias anteriores, Jardim-Pomar mostra-se terreno fértil para o folk popular brasileiro de “4 de Março”, “Só Posso Dizer” e “Como Somos” (a única que divide os créditos com Samuel Rosa, do Skank). Nessa linha, a cadência e os timbres de “Pra Onde Foi?” remetem até a Noel Gallagher – talvez porque, como o ex-Oasis em alguns momentos, Nando Reis serve o equivalente sonoro à comfort food: pratos simples e saborosos, que sempre trazem boas lembranças.

Justiça para todos
O grande desafio do Justice para o terceiro álbum era não sucumbir à maldição do hit “D.A.N.C.E.”. A faixa catapultou a dupla francesa para as paradas espertas em 2007 e se tornou a baliza do seu trabalho desde então. No recém-lançado Woman, Gaspard Augé e Xavier conseguem atingir esse objetivo com mais eficácia do que em Audio, Video, Disco (2011), privilegiando a atmosfera da disco music ao bate-estaca eletrônico. A festa não para em faixas como “Safe and Sound”, “Alakazam!” ou “Fire”. Nem que, para isso, os gauleses tenham que olhar no retrovisor para continuar seguindo adiante – um detalhe irrelevante diante da ferveção na pista.




 ANÇAMENTOS



Cerrone, Red Lips – Conhecido pelo sucesso Supernature (1977), o veterano produtor voltou à ordem do dia depois das colaborações com o Daft Punk. Lendas do quilate de Nile Rodgers (do Chic) e o baterista nigeriano Tony Allen somam-se a representantes de gerações mais novas como o cantor de soul Aloe Blacc e Alexis Taylor (do Hot Chip) para saudar toda a sua maestria neste disco.



Jonnata Doll e os Garotos Solventes, Crocodilo – Terceiro disco do combo cearense que, qual um Stooges do sertão, celebra sexo, drogas & rock’n’roll com uma sonoridade crua e agreste. A exceção são os sintetizadores de “Táxi”, ainda assim usados mais para realçar o discurso punk do que para suavizar a vida louca.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20161122

Charada eterna

Uma colega da redação avisa que tem uma ligação para mim. “É Supla”, diz ela, com um misto de surpresa e ironia, antes de transferir o ramal. A simples menção do nome me deixa em estado de alerta. Uma chamada do dito cujo é sempre uma cortina aberta para o imponderável. Mas ele quer apenas – ufa! – informar que está lançando Diga o que Você Pensa, o (pelas suas estimativas) 17º disco de uma trajetória que inclui as bandas Tokyo e Psycho 69, o projeto Brothers of Brasil (com o mano João) e a carreira solo.



Nosso último contato havia sido na virada do século, quando ele telefonou para contar que estava voltando ao Brasil depois de algumas temporadas nos Estados Unidos, onde o conheciam como “macaco branco doido”. Revelou também que iria se dedicar à “bossa furiosa” e que poderíamos dar um “rolê de carro” ao som de suas novas composições. O total da soma das três expressões entre aspas foi um convite recusado. Perdi a oportunidade de escutar em primeiríssima mão o futuro clássico mundial “Green Hair (Japa Girl)”.

Desta vez, não hesito e clico em seguida no link que ele passou por e-mail para ouvir o álbum. Tirando o fato de que a existência de um trabalho inédito de Supla em 2016 é por si só digna de pasmo, sobressaem-se rocks caprichados (“Pelo Chaos”, a faixa-título), baladas pungentes (Anarquia Lifestyle) e aquela saudável e típica galhofa (“Trump Trump Trump”, “Parça da Erva”). Tudo com condições de competir com o que é vendido por aí como pop nacional, não fosse o autor visto com reservas no meio. É o preço que ele paga por ainda ser uma autêntica charada.

Mamutes na pista
Nem bem desembarcou da turnê internacional para promover o disco Dark Tales & Love Songs, o Elekfantz já retornou aos estúdios para lançar o single Blush. A nova faixa do duo catarinense formado por Leo Piovezani e Daniel Kuhnen surgiu como uma homenagem a Prince – a referência fica evidente tanto nos sintetizadores fortes que evocam os anos 1980 quanto no falsete dos vocais. A letra demonstra a fragilidade masculina diante dos encantos de uma mulher que sabe o que quer: “Garota, você está me fazendo corar”, diz. Apesar do verso, é som para se dançar sem vergonha na pista.




 ANÇAMENTOS



The Sunshine Underground, Luminescent – No quarto (e anunciado como último) disco, os britânicos indie-dance oferecem mais um punhado de faixas com um pé na eletrônica e o outro também. O saldo é um tecnopop que, quando encaixa, gera melodias aderentes e refrãos infalíveis, como em “Rise” e “Something’s Gonna Happen”.



Trails & Ways, Own It – Depois de três EPs com alguma reverberação no meio college americano, a banda californiana chega ao segundo álbum pronta para ampliar sua base de fãs. O negócio começa muito bem com a quente “Get Loud”, mantendo a temperatura elevada com rock alternativo e pop movido a delicadezas variadas.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20161115

Muito barulho por tudo

O lançamento do 10º disco de estúdio do Metallica, previsto para esta quinta-feira, encerra uma espera de oito anos. Hardwired… To Self-Destruct decreta o fim do mais longo período em que a banda ficou sem desovar nada inédito com toda a pompa – álbum duplo ou, na versão de luxo, triplo, com um CD bônus ao vivo – e nenhuma circunstância: passado este tempo, é difícil achar alguma alma fora do rebanho de fiéis seguidores que esteja esperando algo do grupo com ansiedade. Por mais que o interesse restrito aos fãs sugira uma espécie de retorno às origens, não deixa de ser um estudado passo atrás para uma instituição do metal que havia alcançado um público além dos aficcionados do gênero.



Com apelo reduzido ou não, o fato é que Hardwired… é o melhor trabalho do Metallica desde o auto-intitulado álbum preto de 1991, justamente o disco que fez a banda extrapolar o nicho siderúrgico com hits como “Enter Sandman” e “Unforgiven”. Não que fosse difícil, já que após o best-seller o quarteto tornou-se muito mais notório pela luta (perdida) contra o compartilhamento de arquivos de áudio na internet do que pelo peso de suas músicas. A segunda parte, pelo menos, é sanada logo com a faixa-título, que abre a sessão de 80 minutos de pancadaria sinalizando que o tesão voltou.

É como se o quarteto conseguisse reunir a agressividade dos primórdios com ecos da fase em que reinou nas rádios roqueiras. “Dream No More” sintetiza a proposta trazendo referências tanto do sucesso “Sad But True” como do clássico cabeludo “The Call of Ktulu” (1984). Com potencial para virar uma das prediletas em shows, “Now That We’re Dead” promove a bateção de cabeças mediante doses maciças de guitarras convertidas em serras elétricas. E por aí vai, até o desfecho com a britadeira marcial de “Spit Out the Bone”. Ah, e não adiantou nada ameaçar com processo quem baixasse suas músicas: para variar, o disco vazou antes da data oficial da chegada às lojas.

Sexo após os 80
No início da década de 1980, Tom Zé andava tão por baixo que estava pronto para voltar à sua Irará (BA) natal e trabalhar como frentista no posto de combustível de um sobrinho. Foi salvo por David Byrne, que se encantou com a obra do baiano e resolveu lançar uma coletânea dele nos Estados Unidos. Daí em diante a história seguiu seu curso natural, com o artista engatando uma profícua carreira que desemboca agora em Canções Eróticas de Ninar. Depois do samba, neste disco o menestrel estuda o sexo em modinhas e toadas com nomes singelos como “Dedo”, “Orgasmo Terceirizado” e “No Tempo Em Que Ainda Havia Moça Feia”. “(...) Só agora, aos 80, encontrei forças para mergulhar na questão. Embora ela esteja sempre presente no ar. Tema que envolve brincadeira, ansiedade, segregação, gosto, blasfêmia, oração”, diz o autor no encarte. Sacanagem é não ouvi-lo.




 ANÇAMENTOS



Belle and Sebastian, The Jeepster Singles Collection – Imagine o teor de açúcar de uma compilação de singles de uma banda já conhecida pela fofura que imprime em cada acorde, em cada refrão. Um disco terminantemente vedado a diabéticos, mesmo os que se esforçam, para ver alguma nesga de maldade na retrô “Legal Man”.



Yo la Tengo
, Murder in The Second Degree – Em 2006, a banda gravou um disco de versões afirmando que assassinava os clássicos. O truque e a piada repetem-se agora com mais uma fornada de músicas alheias traduzidas pela ótica peculiar dos indies de Nova Jérsei. No menu, cabem releituras tortas que vão desde “Hey Ya” (Outkast) a “Add it Up” (Violent Femmes).



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20161101

Inocência perdida

As opções sonoras para um jovem brasileiro na virada de 1970 para 1980 eram de uma mesmice de dar dó. Em 1977, ano mágico para o punk mundial, a lista dos discos mais vendidos no Rio de Janeiro e em São Paulo refletia o marasmo. Ao lado do indefectível Roberto Carlos, figuravam trilhas de novelas, sambistas e Elton John. Diante desse cenário nada animador, restavam duas alternativas: a resignação ou a revolta. É da segunda que trata o recém-lançado Meninos em Fúria e o Som que Mudou a Música para Sempre, leitura imperdível sobre um momento de transição não apenas da cultura pop, mas também da política no Brasil.

Os meninos são dois personagens que viveram intensamente aquela época. Um, Marcelo Rubens Paiva, branco, filho de classe média alta, ainda se acostumando com a realidade em cima de uma cadeira de rodas. Outro, Clemente Tadeu do Nascimento, negro, criado na periferia e desde cedo envolvido com guerras de gangues. Os caminhos de ambos se cruzam em 1982, em um show na PUC paulistana. Na plateia, o “cadeirante doidão”. No palco, o baixista de uma banda que surgiu para “pintar de preto a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar nas flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer”.



A fúria se traduzia na negação do passado, desencanto com o presente e niilismo quanto ao futuro. O som que mudou a música para sempre era o punk rock que Marcelo descobria e Clemente, à frente dos Inocentes, praticava. Intercalado com experiências pessoais dos dois, o livro mostra como o movimento foi ganhando corpo em paralelo com a agonia da ditadura que terminaria em 1985, até ser absorvido pelo mercado. Mas aí o estrago já estava feito, por mais que as parada atuais desmintam isso. Afinal, hoje ninguém mais liga para elas.

Que entre o pop
O Two Door Cinema Club despontou ali pelo final dos anos zero-zero, no levante dance-rock que encheu de guitarrinhas a música direcionada às pistas. O grupo voltou para a irrelevância com ao menos um hit na bagagem, “Something Good Can Work” – que chegou a ganhar uma antológica versão eletrobrega da Banda Uó. Eis que, quando nada mais se esperava dos irlandeses, eles reaparecem com o surpreendente Gameshow. Em comparação com os anteriores, neste terceiro terceiro disco o trio assume-se mais pop, investindo em refrãos que grudam à primeira audição (“Are We Ready”, “Bad Decisions”, “Ordinary”) e ameaçam fazer companhia único sucesso do grupo.




 ANÇAMENTOS



Murilo Mattei, Tristes Texturas Alegres Trópicos – Ex-Vinolimbo, Murilo Mattei cercou-se de um notebook, um teclado e um celular em sua base em Florianópolis para produzir o que chama de “ode aos brasileiros”. Espécie de jam solitária, o disco desfila timbres, cadências e referências que se desenrolam entre a contemplação e desconforto.



Slaves, Take Control – O segundo disco dos espoletas ingleses promove aquela saudável balbúrdia que tanta falta faz no pop atual. A novidade é a produção do beastie boy Mike D, que desencavou seu passado hardcore para engordar um som que já era barulhento por natureza – e, não contente, ainda participa de “Consume or Be Consumed”.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20161025

O maestro do Canão vive

Como Sabotage já dizia em 2002, “o nego não para no tempo”. Não para mesmo – nem depois de morto. O rapper paulistano voltou à cena no último dia 17 com um disco homônimo esperado há pelo menos 13 anos, quando sua trajetória foi interrompida com quatro tiros à queima-roupa. A audição das 11 músicas produzidas pelo coletivo Instituto com as rimas que o falecido deixou gravadas provoca tristeza pelo talento que se perdeu cedo demais. Mas também confirma a impressão de que o “maestro do Canão” (favela onde morou) estaria hoje ao lado de Criolo, Emicida e Racionais MC's na linha de frente do hip hop nacional.

Desde que surgiu em 2000 com Rap É Compromisso, Sabotage dialogava tanto com a periferia quanto com o asfalto. Falava a língua dos manos, era entendido pelos playboys, tinha o respeito e a admiração de ambos. Seus raps seguiam os fundamentos do estilo, sem abdicar das conexões com samba e MPB. O álbum póstumo reflete essa gama de interesses e abordagens: enquanto “Superar” desce mais ortodoxa, com cadência clássica do gênero construída sobre um balanço típico de filme policial da década de 1970, “Maloca É Maré” traz aquela batida perfeita de fundo de quintal que enriqueceu Marcelo D2.



Mais na maciota, “O Gatilho” diminui a rotação para acentuar o contraste entre a harmonia da base e a crueza dos versos. “País da Fome: Homens Animais” vai mais fundo e lembra, logo no início, o assassinato do autor em “um crime ainda sem explicação”. Mais tarde, foi descoberto que o homicídio tinha relação com tretas passadas envolvendo disputa de facções rivais por território. Longe de ser santo, aos 29 anos Sabotage estava tentando tocar a vida em paz após um histórico de porte ilegal de armas, tráfico de drogas e execuções. A retaliação foi mais rápida. A renda do disco será revertida aos seus filhos, Wanderson e Tamires.

Tesão de veterana
Presença garantida em qualquer coletânea dos anos 1980 com “Middle of the Road” e “Don't Get me Wrong”, os Pretenders estão de volta com Alone. No primeiro disco desde 2006, o grupo resume-se à líder Chrissie Hynde, que só não está sozinha como diz o título porque a colaboração do geninho Dan Auerbach (Black Keys) equivale a uma banda inteira. Escolada no pop rock, a veterana americana embarca na viagem sessentista do produtor, uma inspiração que ele já explora bem com o projeto paralelo The Arcs. O soul insinua-se por “Roadie Man” e “Never Be Together”, a refrescante “One More Day” saúda os trópicos e “Holy Commotion” cairia como uma luva em um bailinho, não fosse a voz algo grave de lady Hynde a lhe revestir de solenidade. Aos 65 anos, a senhora merece toda a reverência.




 ANÇAMENTOS



Jagwar Ma, Every Now & Then – O segundo disco dos australianos supera a estreia em quaisquer aspectos. De acordo com a faixa escolhida, pode ser mais pop, mais eletrônico, mais psicodélico ou mais denso. Todos esses predicados se condensam no single “Give me a Reason”, embora “Say What You Feel” e “Loose Ends” também cumpram a missão com louvor.



Black Papa, Suor – Apadrinhada pelo soul brother Gerson King Combo, a banda paulistana se define como punk-funk, mas é o segundo rótulo que bate forte neste EP com cinco canções – vide a black music da faixa-título, um convite à pista. Mesmo a politizada “Não Vamos nos Calar” contesta o sistema sem descuidar do movimento. No caso, dos quadris.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20161018

Sua arte, suas regras

Durou pouco o envolvimento de Norah Jones com a cultura alternativa – mais precisamente, um disco. Para satisfação de uns, decepção de outros e surpresa de todos, o novo álbum, Day Breaks, traz a cantora de volta ao seu habitat natural. A despeito da merecida repercussão obtida pelo sensacional Little Broken Hearts (2012), no qual o flerte com outras sonoridades avançou pelo visual com a adoção de uma inesquecível franjinha, o sexto lançamento retoma a trilha aberta pela estreia Come Away with me (2002): jazz contemporâneo, tão cômodo quanto a zona de conforto de onde ela quase nunca saiu.



O que a levou a abandonar uma carreira promissora como diva indie e reencontrar o antigo estilo com que despontou é daqueles mistérios que só as idiossincrasias da arte justificam. O fato incontestável é que Norah Jones sente-se em casa martelando doces canções ao piano. Primeiro, porque ninguém estranha quando sua voz abre o trabalho com a suavidade de “Burn”. Segundo, e mais importante, porque enquanto sua incursão anterior contava apenas com o produtor Danger Mouse a lhe respaldar a escolha, em Day Breaks a credibilidade jazzística que ela já tem é reforçada pela presença dos gigantes Wayne Shorter e Lonnie Smith.

Mais do que um “retorno às raízes”, estamos diante de uma artista à vontade para entrar em uma onda e, curtindo ou não, partir para outra. Seu único compromisso é consigo mesma, seja para acenar às rádios adultas com soft pop em “Tragedy”, ensaiar uma acelerada com “Flipside” ou cometer uma versão de Neil Young (“Don't Be Denied”). Musa, dessas de atiçar hormônios adolescentes, ela nunca foi mesmo. Muito menos hipster. Aos 37 anos e mãe de dois filhos, seu melhor papel é o que decidir desempenhar na hora em que bem entender. O jazz sempre estará de braços abertos para recebê-la.

Mulheres de fases
As mulheres estão no comando. Querem mais, querem melhor, querem tudo & querem agora. Portanto, renda-se ao Warpaint, grupo californiano formada por quatro moçoilas no Dia dos Namorados (no calendário dos Estados Unidos, 14 de fevereiro) de 2004. A fofura termina na data de nascimento: o som delas nada tem de delicado ou outro adjetivo automática e preconceituosamente associado à feminilidade. O recém-lançado quarto disco, Heads Up, até dá uma aliviada, embora siga sem concessões ao apelo do pop fácil. “New Song” é a faixa que mais se aproxima de um hit, em meio a um álbum no qual microfonias, ruídos e vazios dispensam peso e/ou velocidade para impressionar. As garotas estão longe de serem perfeitinhas, mas encantam com sua complicação.




 ANÇAMENTOS



Emanuelle Araújo, O Problema É a Velocidade – Conhecida por seu trabalho como atriz, a baiana de 40 anos (também vocalista da banda Moinho e da Orquestra Imperial) estreia em disco no limite entre o pop e a MPB. Como tudo o que se pretende muito eclético, corre grande risco de não agradar os fãs de um nem de outra.



Drugdealer, The End of Comedy – O projeto do americano Michael Collins não tem esse nome à toa. Leve, orgânica e curtida sob o sol de Los Angeles, a psicodelia do “traficante de drogas” vai da pompa ao minimalismo, deixando o ouvinte intrigado com baladas agridoces como “Sud­denly” ou “Easy to Forget”. A participação do não menos experimental Ariel Pink nessa última diz muito sobre a empreitada.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20161011

Retorno ao templo do grunge

No subconsciente do pop, Seattle era apenas a terra natal de Jimi Hendrix quando o furacão grunge varreu o mundo no início da década de 1990. Encabeçado pelo Nirvana, o estouro do estilo musical associado à chuvosa cidade do noroeste dos Estados Unidos deflagrou uma corrida em busca da próxima sensação vinda de lá. Nesse movimento, o mundo acabou desenterrando o Temple of the Dog, que precisou gravar apenas um disco para se colocar entre os maiores daquela cena.

Para regozijo dos saudosistas e deleite da juventude interessada, os 25 anos do lançamento da autointitulada estreia da banda não passaram em branco. O álbum ganhou nova edição, acrescida de demos e takes alternativos, e seus integrantes se reuniram para uma série de shows, todos já com os ingressos esgotados. Hoje é fácil chamá-lo de supergrupo devido à fama de seus integrantes, egressos do Soundgarden e do Pearl Jam. Mas, na época, não passava de uma singela forma de homenagear um amigo morto por overdose de heroína.



O falecido era Andrew Wood, vocalista do Mother Love Bone – uma das matrizes do “som de Seattle” –, que havia sucumbido à droga em 1990. Precedido pelo single “Hunger Strike”, o trabalho mesclava baladas na voz pungente de Chris Cornell (“Call Me a Dog”, “Times of Trouble”, “Say Hello 2 Hea­ven”) com peso setentista sem prazo de validade (“Pushin' Forward Back”, “Your Savior”). Enfim, um discaço-aço-aço. Não espere mais 25 anos para conhecê-lo ou ouvi-lo outra vez.



O noise nosso de cada dia
A véspera de feriado abre uma minitemporada intensa para as hostes roqueiras de Florianópolis. Hoje, a Célula recebe o finlandês The Vintage Caravan para o Abraxas Fest, convescote metálico-lisérgico que também conta com a alegreportense Cattarse e a brusquense Ruínas de Sade. E, a partir da próxima segunda, o já tradicional Floripa Noise espalha seu esplendor por diversos palcos da Capital. Até domingo, a programação do festival prevê shows de Orquestra Manancial da Alvorada, Mukeka di Rato, Walwerdes, Tom Bloch e Cochabambas, entre outras atrações recomendadas para toda a família. Mais detalhes – incluindo um insuspeito “churrasco do Zimmer” – aqui.




 ANÇAMENTOS



Pixies, Head Carrier – Faixa-título berrando no talo, “Um Chagga Lagga” em velocidade punk, “Oona” e “Plaster of Paris” brincando com o pop, “All I Think About Now” evocando o hit “Where's My Mind”: que bênção Frank Black e cia recusarem-se a envelhecer. Como uma amiga disse sobre o grupo, “é sempre bom”.



Douglas Germano, Golpe de Vista – O segundo disco do sambista paulistano não se compromete com nenhuma bandeira que não a celebração do próprio estilo. Na malandragem torta feita de caixa de fósforo, percussão e violão, não tem como não se deixar levar por “Maria de Vila Matilde” ou “Guia Cruzada”.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)