20190614

Palavras que só a literatura sabe que existem

“Assim é a mocidade – ínscia, cruel e gulosa em seus apetites.”
(Para Viver um Grande Amor, de Vinicius de Moraes)

ínscia
ins.ci.a
adj
V. insciente

insciente
adj m+f
1 Que não é ciente, que não sabe, ignorante. 2 Sem habilidade, imperito, inapto.

Muitas pessoas com as quais tive o desprazer de trabalhar eram tão ignorantes e inaptas que adorariam ser chamadas de ínscias.

20190401

Como o pensamento positivo pode mudar a sua vida

Que dia maravilhoso para mentir para si mesmo.

20190321

Quando acabar o maluco sou eu



A Babilônia repercute a queda da popularidade do seu presidente como se fosse algo inesperado.

Atípico foi o triunfo de um projeto excludente e retrógrado, personificado por um desequilibrado com a mão imitando arminha e a cabeça cheia de ideias mais apropriadas para a bolsa que carregava até outro dia. Incomum foi dar voz, visibilidade e poder a uma gente tão horrorosa quanto os preconceitos que alimenta. Bizarro foi pessoas no livre exercício da razão acreditarem que uma visão de mundo guiada pelo suprassumo do grotesco poderia ser compatível com uma normalidade mínima, nem que apenas aparente.

Quer dizer, faz tempo que os fatos redefinem a lógica e superam as piores expectativas. A disparada da rejeição a um conluio que ainda nem mostrou o quanto será catastrófico é a coisa mais sensata que aconteceu no país desde que milhões de patos apoiaram uma ruptura prejudicial a si próprios. Mesmo que não passe de um número prontamente atropelado pela próxima manchete – perfeita para desviar o foco, embaralhar o contexto e manter isso aí. O funcionário, o ministério e o público estão de parabéns.

Surpreendente de verdade é o nível da música lançada neste primeiro trimestre, muito aquém da média histórica. Em períodos de janeiro a março anteriores, já existiam discos e singles que acabariam entrando para a trilha sonora pessoal. Daqui a pouco rola a Páscoa e o que ouço – e ouvi tudo o que é considerado importante – é uma cacofonia de boas intenções equivocadas, lacração oportunista ou pura xaropice sem alma. Só não é uma nulidade completa porque a régua está lá embaixo.

Claro que o problema sou eu. Acho que agora é oficial: estou por fora. Cada vez mais.

20190225

Ninguém solta a mão de ninguém



Porque é segunda-feira, está um tempinho de bosta e você não pode deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança em breve vai acontecer, é prohibido mala onda. Nem vem que não tem. Por maior que se revele a tristeza, ela será enterrada pela alegria que atravessou o mar e ancorou na passarela. Como fez Gilberto Gil em 2003, na homenagem aos 22 funcionários da Organização das Nações Unidas (ONU) mortos em um atentado em Bagdá. Tudo foi montado para criar um ambiente de lamentação e incertezas; um baixo astral de dar dó. Só não contavam com a música.

A cerimônia, marcada para 19 de setembro daquele ano, exatamente um mês após o ataque terrorista, coincidia com a celebração da Paz Internacional. Estavam previstas desde exposição de fotos das vítimas enquanto seus nomes seriam lidos em ordem alfabética a velas acesas na penumbra do hall da sede da entidade, em Nova York. Sob os buracos da bandeira azul da organização retirada do prédio destruído pelo carro-bomba, o secretário geral Kofi Annan reverenciou a memória das vítimas com um poema do inglês Stephen Spender: “Nascidos do sol, eles viajaram por instantes em direção ao sol/ E deixaram o ar fulgurante assinado com suas honras”...

Derramado o rio de lágrimas provocado por tantas lembranças doloridas, era hora de animar os presentes, de levantar o ânimo. De, nas palavras do anfitrião, chamar “um artista com consciência, um ativista com um dom, que oferece ao mundo uma música que tenta dar poder às pessoas”. Era hora de Gilberto Gil. Ao lado de um percussionista e um guitarrista, o então ministro da Cultura mandou “Filhos de Gandhi”, “Aquele Abraço”, “Não Chore Mais” e “Imagine”. Os pés marcando a batida no chão soterravam os soluços. As fungadas, cada vez mais raras, eram substituídas por onomatopeias com a intenção de acompanhar as letras.



Aos primeiros acordes de “Toda Menina Baiana”, os tambores que Annan costumava escutar na infância em Kumasi falaram mais alto: o ganense dirigiu-se ao palco e se atracou com o primeiro atabaque que Deus deu, que Deus dá. Enternecidos pelo primeiro carnaval (primeiro pelourinho também), canadenses, americanos, brasileiros, iraquianos, iranianos, egípcios, filipinos, espanhóis, jordanianos e ingleses mostraram santos e encantos, jeitos e defeitos. O planeta regido pelo mesmo groove – nem que apenas por um instante.

Annan morreu no ano passado. Gil não quer mais discutir. Rebate penúria, fúria, clamor e desencanto com a impaciência e falsa resignação encerrada em um simples “OK OK OK”. Cada vez mais preto velho, ele não perde tempo nem energia com o que não é afeto ou afago.

20190214

Motorista passageiro



Virar motorista de Uber durante a semana da chegada do serviço a Florianópolis e escrever em primeira pessoa sobre a experiência foi uma das ideias mais simples e eficazes que já tive para uma reportagem. Eu ganharia uma bela história para contar e, quem sabe, uma nova carreira. Acontecesse o que acontecesse, o jornal pagava a conta. O carro era meu, mas o lucro – e a diversão – também seriam. A única preocupação, ser BANIDO do negócio após a publicação da matéria, mostrou-se um exagero. Três meses depois, um fotógrafo da redação precisou ir a Canasvieiras e não havia nenhum carro para levá-lo. “Chama um Uber”, ordenaram. Encerrei aquela corrida e nunca mais liguei o aplicativo. Não descarto voltar.

Caderno Nós #53, 29 e 30 de outubro de 2016 | 3663 palavras | 28 minutos

Poucas notícias despertaram tantas reações em Florianópolis quanto o anúncio, no início de setembro, de que a Uber em breve começaria a operar na capital catarinense. Todas as partes envolvidas com o serviço de transporte alternativo aberto para qualquer um se tornar motorista e sair por aí levando passageiros para cima e para baixo tinham alguma opinião. Taxistas vociferavam. Autoridades diziam que era irregular. O cidadão comum, quase que de forma unânime, saudava a chegada da empresa que, com tarifas mais baixas que táxi, já atuava em mais de 500 cidades no mundo inteiro.

Fiz a inscrição para saber como o negócio funcionava. No dia 12, 41 interessados e eu nos reunimos em uma sala da Acate, na SC-401, para uma aula de 40 minutos. Dois funcionários da empresa explicavam o que era preciso para virar um parceiro e começar a ganhar dinheiro: um carro de 2008 em diante, com quatro portas e ar condicionado, licenciamento do veículo e carteira de habilitação na categoria EAR (“exerce atividade remunerada”, emitida pelo Detran por R$ 134). Providenciei a papelada e esperei pela aprovação de meu cadastro.

No dia 19, participei de uma sessão de capacitação – a rigor, a exibição de um vídeo curto com pessoas descoladas e felizes dirigindo ou sendo conduzidas, bem diferentes de manés como eu e os 34 presentes. Após baixar o aplicativo no celular, aprendemos seus comandos e tiramos nossas dúvidas. Pode trabalhar no horário e dia que quiser. Parar também. Mas, a partir do momento que se aceita uma corrida, tem que ir buscar o cliente. Seremos avaliados pelos usuários. A média estipulada para Florianópolis foi de 4,7 estrelas, de um máximo de cinco. Após 25 viagens, quem tiver nota abaixo disso vai receber um e-mail com dicas. Mais 25, suspensão por 48 horas. Mais 25, banimento total.

No dia 26, minha conta foi ativada. No dia 28, recebi por SMS um convite para um “evento especial e exclusivo” para parceiros ativos marcado para a noite seguinte em local a ser divulgado. Era na mesma Acate de sempre, só que com mais de 400 pessoas (meus colegas), salgadinhos, refrigerantes, distribuição de um car holder (apetrecho made in China que fixa o celular na grade do ar condicionado do carro) para cada e a orientação de que ficássemos atentos, pois faltava muito pouco para a estreia da Uber em Florianópolis.

O serviço entrou em operação às 14h do dia 30 de setembro, uma sexta-feira. No sábado à tarde, resolvi fazer um teste. Fiquei online nas cercanias do Beiramar Shopping e em menos de 30 segundos já tinha passageiro para eu buscar: os namorados Nelson e Taís [nomes modificados, como todos deste relato], que iam da Trindade a um casamento em Santo Antônio de Lisboa. Na segunda-feira, eu entraria nessa vida para valer.


DIA 1 | Segunda, 3 de outubro – Comigo não tem balinha. Antes mesmo de a) pendurar o celular no car holder presenteado pela Uber, b) engatar o fio do carregador, c) acessar o aplicativo e d) apertar a tecla online, eu já havia decidido que desprezaria no mínimo uma das recomendações para prestar um serviço cinco estrelas. Meu negócio é levar gente para lá e para cá de um jeito rápido, seguro & agradável, cobrando bem menos do que um táxi por isso. Duvido que algum passageiro me avalie mal porque eu não lhe ofereci nada para chupar. Nem beber (segunda recomendação). Muito menos ler (terceira): vai que o freguês é como eu, que fica enjoado se lê com o carro em movimento.

Tenho algo muito melhor do que drops, água mineral ou revistas para transformar cada momento que passaremos juntos em uma experiência inesquecível para você, baby – e não estou me referindo à cultura, beleza, carisma ou modéstia impressionantes com que papai do céu me brindou. Meu diferencial é a sonzeira. Depois do ritual para começar a operar como motorista-parceiro da Uber à vera, espeto um pen drive com mais de 400 horas de música boa de tudo quanto é tipo. Mal conecto o aplicativo, pisca a telinha. Leonardo, Terminal Rita Maria. Deslizo o botão “aceitar viagem”. Só então ligo a ignição e parto de minha base, em Coqueiros, rumo ao Centro.

A chance de topar com uma blitz era grande. Em três dias de funcionamento na cidade, 15 carros haviam sido apreendidos pela guarda municipal por transporte irregular. A fiscalização se intensificava nos horários de pico. Locais como a rodoviária representavam alto risco de ter o carro cercado por taxistas e guinchado. Bom, qualquer treta eu mostro o crachá da firma e torço para que deixem a imprensa trabalhar. A paranoia preventiva se dissipou quando vi um gurizão acenando da extremidade oposta aos pontos de táxi. Na outra mão, segurava um celular. Ia para a Serrinha. Sentou-se ao meu lado e puxou papo.

Era sua primeira vez de Uber. Oficialmente, a minha também. Calouro de Administração na UFSC. Tinha ido votar em Joinville. O pai foi candidato a vereador. Elegeu-se. O assunto terminou antes dos 24 minutos que demoramos para completar os 12 quilômetros do trajeto. O passageiro seguinte chamava-se Victor. Veterinário. Fazia um ano que tinha uma pet shop na Trindade. O papo girou em torno do tema “a crise, é, não está fácil com esta crise”. Tinha pegado um Uber de manhã e aprovado, principalmente (CQD) pelo preço. Queria saber mais, se estavam rolando bastante corridas, se muitos carros estavam sendo recolhidos.

Fui obrigado a lhe confessar que o jornalista ali era eu. Ele perguntou meu nome completo. Falei. Ele fingiu reconhecer e garantiu que lia minhas matérias. Não conseguiu se lembrar de nenhuma até descer em frente a um prédio no Itacorubi. Interpretei seu cinismo como uma cortesia. Na portaria do mesmo prédio, peguei o caladão Anderson e o larguei no Centro. Voltei para a região para atender Mônica na Carvoeira. Com muito custo, me entendi com o mapa do aplicativo e achei a rua dela, uma quebrada sem saída. Parei no endereço solicitado e aguardei. Tentei contato telefônico via Uber, sem sucesso. A cliente cancelou a corrida.

Era o pretexto que eu queria para encerrar o expediente. A ameaça de repressão ainda pairava no ar. E não tinha uma balinha para aliviar a tensão.

Período: 17h20 às 19h11 | Viagens: 3 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 48min45seg | Kms: 24,53 | Féria: R$ 36,53


DIA 2 | Terça, 4 de outubro – Hoje eu vou dirigir de dia. De cara, um cancelamento no Centro. Não tive tempo de me lamentar, Thomas me requisitava das imediações. Acomodou-se no banco de trás. Pô, maior bandeira! Qualquer um que me visse perceberia que eu era motorista da Uber – a não ser que estivesse, sei lá, pagando uma aposta. Mas o cara era alemão. Casualmente e em português com forte sotaque, informou que em sua cidade, Munique, o serviço já está regulamentado. Ficou no Estreito, sem desconfiar do perigo que corremos.

A telinha não parava de piscar. E eu, de cruzar a ponte com Juliana (Shopping Beiramar-Centro) e Marcos (Coqueiros-Centro), em percursos nos quais rodei mais para buscá-los do que os transportando. Gabriela me acionou de um hotel na Avenida Hercílio Luz. Não deu as caras. Liguei para ela do aplicativo. Desta vez, funcionou.

— Sim, eu realmente chamei do hotel. Mas ontem vi um rolo no aeroporto, me contaram que era por causa da Uber. Agora há pouco, a Guarda Municipal passou aqui na frente. Fiquei com medo de dar problema para você, aí resolvi esperar no posto de gasolina do outro lado da rua. Vou aqui na frente, para não suspeitarem — explicou a bióloga da pequena São Manuel (SP) ao entrar no carro para participar de um congresso na UFSC.

Estela, a cliente que atendi no Itacorubi após carregar o quieto Diogo da Trindade à Lagoa da Conceição, teve o mesmo cuidado. Enquanto eu botava suas duas malas no bagageiro, sentou-se à direita do volante e anunciou o temido destino: aeroporto. Disse que viajava muito a trabalho (não o que fazia), usava Uber em outras cidades e sabia que o serviço estava tendo problemas em Florianópolis. Estacionei entre dois táxis no embarque do Hercílio Luz. Imediatamente, outro táxi parou em fila dupla, me trancando. À espreita, viaturas da polícia federal e da PM. Ferrou. Na verdade, pensei em outro verbo com “f”.

Coloquei-a sua bagagem no carrinho e me despedi a uma distância não tão longe que parecesse que tínhamos uma relação motorista-passageiro nem tão perto que sugerisse alguma intimidade. Saí ileso e com R$ 20,69, meu recorde até o momento. Pena que tive que voltar sozinho. Apesar dos insistentes chamados do local, não tive peito para aceitar nenhum. Não naquela vibe ruim. Seria brincar demais com a sorte.

A noite caiu e tirou a turistada da toca. André, baiano de Feira de Santana (Carvoeira-Mercado Público). Lucas, curitibano (Intercity Hotel-Beira-mar Norte). Marcos e Raquel, sul-matogrossenses. O casal embarcou no hotel Majestic ansioso para comer camarão na Lagoa da Conceição. Lá chegando, resolvi dar um tempo para ver se pintava alguma corrida. Uns dez minutos e surge Anja, de um hostel na Barra da Lagoa. Só podia ser uma gringa. Uma não, quatro valquírias alemãs que, em inglês, pediram para que eu as conduzisse até o cinema no Shopping Iguatemi. Foram a viagem inteira conversando na língua-mãe. Na saída, agradeceram com um “thanks”. “Danke”, retribuí, gastando todo o meu conhecimento do idioma germânico para fechar um ciclo que havia começado com um conterrâneo das louras.

Período: 12h02 às 20h52 | Viagens: 11 | Cancelamentos pagos: 2 | Duração: 3h3min14seg | Kms: 94,13 | Féria: R$ 131,66


DIA 3 | Quarta, 5 de outubro – Às 14h18, um dono de táxi no aeroporto comemora em um grupo do WhatsApp do qual faço parte que a PM está na altura do Shopping Iguatemi caçando carros da Uber. Detalhe, ele não sabe que estou nessa. Dou corda. Digo que toda a concorrência é saudável. Ele desdenha. Afirma que em pouco tempo os motoristas vão descobrir que o serviço vale a pena para os clientes e para a empresa, não para os parceiros. Que a Uber pratica dumping, cobra valores abaixo de mercado para quebrar todo mundo e depois impor suas taxas. Que se eu for preso, leva uma gelada para mim. Fico tão comovido com o empenho dele em me desanimar que adio minha jornada.

Eu já estava era de saco cheio com tanta marcação. Tomara que a noite me seja leve. Natália renova minha fé ao me contatar do Shopping Itaguaçu para ir à Agronômica. Dona de loja, senta atrás e diz que a crise está cada vez pior. Roberta e um casal de amigos, todos cariocas, vão do bar ao hotel sem sair do Centro. Claudio e Marco dividem a corrida iniciada na Tenente Silveira. Um descerá na Almirante Lamego, coisa rápida. O outro, só no Bom Abrigo. No caminho, Claudio faz a pergunta que eu estava esperando desde que estreei na função: “Que música boa, o que é?”. Sim, porque o som permaneceu ligado o tempo todo e ninguém havia reparado. Esclareço que é uma faixa do disco novo de Norah Jones, Day Breaks. Ele assente com a cabeça, satisfeito.

Entrego Leo e a namoradinha sãos e salvos na Serraria, em São José, depois de eles assistirem ao filme O Lar das Crianças Peculiares no Shopping Itaguaçu. Maria Julia aproveita que eu circulava pela região e me acompanha do bairro Ipiranga a Campinas. Meia-noite, está bom por hoje. Quase na esquina de casa, em Coqueiros, Marcelo me atenta. Kobrasol, do ladinho. Dou meia volta em busca de mais um trocado. Custo a achar a rua, passo direto uma, duas, três vezes pela quadra certa. É um casal. Simpáticos, aceitam minhas desculpas pela demora – e não hesitam em me sacanear.

Até então, minha avaliação mantinha-se cinco estrelas. Conferi quando cheguei em casa e a média havia caído para 4,91. Os lazarentos fizeram eu me deslocar para uma reles corrida de R$ 4,50 (a tarifa mínima, já descontada os 25% da Uber) e ainda baixaram minha nota. O lado bom foi que, ao fuçar as funcionalidades do aplicativo, descobri que havia dois comentários: “Norah Jones de trilha é sem palavras” e “Excelente pessoa!”. O serviço não revela a data nem o autor, mas um deles não era difícil saber de quem foi. Obrigado, Claudio.

Período: 21h48 à 0h02 | Viagens: 6 | Duração: 1h4min58seg | Kms: 42,26 | Féria: R$ 54,81


DIA 4 | Quinta, 6 de outubro – Quantas vezes idealizei a vida dos motoristas noturnos. Eles deveriam receber propostas irrecusáveis de insaciáveis deusas do prazer. Conhecer malucos de todas as espécies. Participar de aventuras absurdas no submundo. Enfim, lidar com o grotesco e o sublime, a miséria e a nobreza, as dores e as delícias de, como Shakespeare definiu em Macbeth, “uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”. Pois bem: é meia-noite cravada, estou há quase quatro horas na ativa e a coisa mais emocionante que me aconteceu até agora foi o carro ferver em pleno Morro do 25.

O responsável pela minha incursão ao local foi Stephan, um passageiro que encontrei no terminal de ônibus do Centro. Bailarino. Canadense. Três anos de Brasil. Um português melhor do que o meu. Morava lá no alto, em uma das últimas casas, com os pais. Na subida, a luz vermelha do painel do carro se acendeu. Olhei para o indicador de temperatura, no talo. No painel, a mensagem intermitente: “Desligue o motor, desligue o motor”. De jeito nenhum! Disfarcei, deixei o dançarino no seu destino e só parei em um posto de gasolina na Mauro Ramos.

O radiador estava seco. O frentista não detectou se o vazamento era no bocal ou na mangueira do reservatório, mas iria providenciar uma gambiarra que, prometia, permitiria que eu rodasse até em casa. Esperei o carro esfriar, completei a água e me mandei. Ana me aguardava em uma cervejaria.

— Ei, acho que já andei com você — disse o namorado dela ao me ver.

— Diogo, terça, Trindade-Lagoa?

— Isso! Vamos para aquela rua onde você me buscou naquele dia.

A lembrança do seu nome o tornou loquaz. Falou que trabalhava em uma empresa de tecnologia na Lagoa, que ele adorava Uber e que os taxista tinham mais era que se, er, ferrar. Surpreendido com minha memória, eu nem prestava atenção em seu discurso. Assim como não dei muita bola para três moleques e uma guria semi-embriagados que levei à boate 1007. Foi quando Rafael me chamou da Esteves Júnior. Cheguei lá, ninguém. Cancelei a viagem, assinalando a alternativa “cliente não apareceu”. Dez minutos e Rafael apita de novo, agora da pracinha em frente ao supermercado Hippo. Eram três caras.

— Rafael? — perguntei.

— Não, Rafael é nosso amigo que tem conta na Uber. Fizemos o pedido com o cartão dele — respondeu um deles.

— Vamos para a Tapera — completou outro.

Fiquei cabreiraço. E mais ainda quando, já dentro do carro, me perguntaram se o pagamento era efetuado só com cartão de crédito.

— É, não tenho dinheiro nenhum aqui — cortei, denunciando meu nervosismo.

Na alça de acesso ao túnel em direção à Via Expressa Sul, oh, não, os tiras! Quase torci para que fosse uma blitz. Se era, não notaram nada suspeito no meu carro que motivassse uma abordagem. Pelas conversas no caminho, saquei que meus clientes não passavam de honestos trabalhadores. O trio superou a marca de Estela, me rendendo R$ 26,68. Mas os 26 quilômetros sem passageiros da volta acabaram com minha alegria. Contando com a ida, eu havia gasto uns R$ 20 de gasolina. Baita lucro.

Período: 21h42 à 1h48 | Viagens: 8 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 1h35min29seg | Kms: 65,03 | Féria: R$ 86,78


DIA 5 | Sexta, 6 de outubro – As situações peculiares da noite anterior fizeram com que eu encarasse esta tarde, a despeito da certeza de que iria me incomodar com o trânsito do último dia útil da semana. Para encorajar os motoristas, a Uber realiza promoções que garantem no mínimo R$ 25 por hora em períodos de alta demanda. As condições são: ser cadastrado em Florianópolis (OK), inscrever-se para os descontos semanais (beleza), ter avaliação dos usuários superior a 4,8 (é nóis), fazer pelo menos uma viagem por hora (tamo junto), permanecer online por no mínimo cinco horas (depende da disposição) e aceitar pelo menos 70% das viagens.

Nesse último quesito é que eu me estrepo – ironicamente, por zelar pela qualidade do serviço. Pela minha lógica, não devo aceitar uma corrida se estiver no meio de outra. Porque assim vou deixar o próximo passageiro esperando muito, ele ficará descontente e economizará nas estrelas pela minha demora em atendê-lo. Se cancelar por ter cansado de me esperar, pagará a tarifa mínima e amaldiçoará a Uber por ter cobrado por um serviço que não foi prestado. Donde meu índice de viagens aceitas nunca ultrapassou os 60%.

Enquanto perdia tempo e dinheiro com Felipe do Pantanal ao Shopping Iguatemi, por exemplo, dispensei duas chamadas. Com Charles (João Paulo-Córrego Grande), mais três. Com Angela nem lamentei ter ignorado outras duas, tampouco com o fato de pedir que eu a levasse à arriscada rodoviária. Representante comercial de um laboratório farmacêutico e linda, a loura mignon inebriou o carro com seu perfume. Não me aguentei e lhe contei quem eu era e o que fazia ao volante. Achou a pauta sensacional. Interessada, perguntou quando a matéria seria publicada e me autorizou a usar seu nome verdadeiro. O namorado que ela iria visitar em Piçarras era um sujeito de sorte.

O gamer Augusto me trouxe à realidade rapidinho. Além de cabeludo, suado e com o cofrinho à mostra, ia para o Kobrasol. Atravessar a ponte no final de tarde de uma sexta corroborou minhas piores impressões sobre o comportamento do bicho humano no trânsito. Em um congestionamento, as pessoas furam fila, xingam, comportam-se como selvagens. Protegidas pelo anonimato (no caso, proporcionado pela lataria), têm atitudes que não teriam em nenhum outro contexto. Parece que estão na internet, de tão mal-educadas que se tornam.

Não tenho mais saúde, idade ou energia para isso. Já que estou no continente, vou parar por aqui. Opa, dois comentários inéditos: “Muito agradável!” e “Valeu pela ‘carona’, Emerson! :)”. Pensar que um deles pode ter sido de Angela provoca um bem danado em minha autoestima. Como homem é bobo.

Período: 14h18 às 16h30 | Viagens: 5 | Duração: 1h0min13seg | Kms: 38,58 | Féria: R$ 48,35


DIA 6 | Sábado, 7 de outubro – Nos e-mails da Uber enviados aos motoristas informando os dias e horários com maior procura pelo serviço, o espaço destinado aos sábados é sucinto. “O dia inteiro”, sintetiza. Não é exagero. A demanda reflete-se pela frequência. Rarissimamente o parceiro vai ficar circulando a esmo, sem passageiro para transportar. Comprovei isso na prática. Fui emendando uma corrida na outra, e o que é melhor: sempre com a origem seguinte próxima ao destino anterior. Começou com Luiz, no Centro, no início da tarde.

— Vamos para a Lagoa da Conceição, mas antes tenho que passar em um lugar.

Você manda, chefe. O tal lugar era uma pirambeira na Prainha. Ele falou para eu parar e esperá-lo, que já voltava. E desapareceu. Cinco minutos. Dez minutos. Quinze minutos. Esse cara vai me dar o cano, imaginei. Não, senão ele não teria deixado o moletom no banco ao lado. Com 17 minutos, deu sinal de vida.

— Embacei, desculpa.

E mais não disse nem lhe foi perguntado. Voltamos a conversar somente na sua rua, perto da igrejinha da Lagoa. Como quem não quer nada, ele comentou que era complicado achar um Uber pelas redondezas. Propôs que eu lhe desse meu celular, que me ligaria à noite para levar ele e a esposa ao show do Jota Quest no P12, em Jurerê Internacional. Aleguei que a Uber não permitia que o motorista combinasse viagens, sob pena de banimento. Notei que ele ficou um pouco desapontado. Aí me lembrei que eu tinha um exemplar de Pancadélico – CD lançado pela banda mineira em 2015 – que a gravadora me enviara, pois também cometo críticas musicais. Estava abandonado no nicho sobre o quebra-sol, lacradinho e tudo.

— Ó, para sua mulher. O único inconveniente é que a assessoria escreveu meu nome com pincel atômico na capa, tudo bem? — ofereci.

Seu rosto se iluminou por ganhar o mimo. O meu idem, por me livrar do mico. Estando bom para ambas as partes, desejei-lhe um excelente show e fui buscar Karine no centrinho do bairro. Ela me aguardava de mão dada com um baixinho parrudo. Eram cariocas, estavam na cidade para ele disputar um campeonato de jiu-jitsu no Instituto Estadual de Educação (IEE), no Centro.

A fortuna me sorria. Gabriele (Centro-Morro das Pedras), Christian (Campeche-Lagoa da Conceição), Jeferson (Lagoa da Conceição-Trindade), José (Córrego Grande-Floripa Shopping), Henrique (Primavera Garden-Canasvieiras), Tiago (Canasvieiras-Jurerê Internacional), Antonio (Jurerê Internacional-Canasvieiras). Estava escuro quando peguei a SC-401 no sentido Centro para gozar do merecido descanso. Foi, disparado, meu melhor dia.

Cheguei a desligar o som para que o AC/DC não atrapalhasse minhas reflexões no trajeto. Conforme o urubu havia praguejado na quarta-feira, o serviço era bom demais para o usuário e para a própria Uber, não tanto para os parceiros. De acordo com o que a empresa trombeteava nas sessões de capacitação, um motorista em atividade por quatro horas diárias, seis dias por semana, fatura em média R$ 1,8 mil mensais. Proporcionalmente, pelo tempo que trabalhei, renderia algo em torno disso. Só que o tanque bebeu quase a metade.

Concluí que, a título de remuneração complementar, estava razoável. Como em qualquer outra área, para ser bem-sucedido o parceiro deve se profissionalizar. Ou seja, estudar as rotas mais econômicas, operar durante os horários mais lucrativos e, principalmente, converter o carro para gás natural. Se a Uber não me banir por causa desse diário, pretendo continuar nossa parceria em regime diletante: talvez apenas aos sábados, uma outra noite nos dias de semana. É, não foi dessa vez que o jornalismo se livrou de mim.

Período: 15h20 às 21h45 | Viagens: 9 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 3h18min52seg | Kms: 115,04 | Féria: R$ 142,72

TOTAL
Viagens: 42
Viagens avaliadas: 35
Viagens 5 estrelas: 33
Cancelamentos pagos: 5
Faturamento: R$ 500,85
Combustível: R$ 230
Lucro: R$ 270,85

20190212

Empatia na entrevista de emprego

Enquanto finge que lê meu currículo, ele me pergunta por que eu gostaria de trabalhar ali. Respondo que vejo a empresa como um lugar onde poderei exercer todas as minhas habilidades e desenvolver novas aptidões – uma tradução cordial para “a vaga falava em jornalista, é o que sou e é o que temos para esta merda de profissão nesta merda de mercado”.

Impassível, meio blasé até, o RECRUTADOR começou então a explicar o que esperava de um candidato ao cargo. Quanto mais banal a função, mais empolada ficava a versão em inglês que a designava – em matéria de eufemismo, ele (também) me dava aula. Pelo que entendi, deveres de empregado e direitos de pejotinha. Pelo piso. Mas, às sextas, poderia ir para a firma de PANTUFAS.

Não sei se a cara que fiz denunciou meu pavor. Ele reagiu com indiferença. Um pouquinho de pena, talvez. Não foi o primeiro da semana a me achar um loser, e era apenas terça. Não me deprimi nem me exaltei: eu via apenas um grande vazio naquilo tudo. É bem provável que ambos tenhamos razão. Combinamos de manter contato se surgir alguma oportunidade.



20190130

Proposta de novo Hino Nacional Brasileiro

Só dá Ramones. Nem em 1984, quando conheci a banda nas fitinhas cassete de uma gurizada gaudéria que passava o verão na Laguna, curti tanto como agora. Assim que se confirmaram as trevas, elegi Joe, Johnny, Dee Dee e Tommy (depois Marky) como as melhores companhias para a alienação-cidadã. Nada de notícia previsível sobre ignorantes-com-iniciativa, nada de grupo xarope no zap (e sou tão elegante que não saí de nenhum, apenas ignoro & limpo ao final do dia), nada de debate com gente rudimentar. Escapismo acima de tudo, gabba gabba hey acima de todos.

Está dando mais ou menos certo. Durante dois, três minutos, cada faixa converge para a fuga desejada. O problema é essa mania feia de fazer conexões entre os versos e as aberrações que se tornaram normais após a consagração da estupidez. Inconsciente e involuntariamente, sempre encontro uma canção do grupo sob medida para descrever uma sociedade indefensável. Para quem acreditou em mamadeira de piroca, levar a sério uma das regras do clássico “Commando” – “comer salame kosher” – é um pulo, ainda mais porque vem acompanhada por “não falar com comunistas” e “ser bom para a mamãe”.

Se a associação fosse mantida só na base da ironia, tudo bem. Mas é capaz de as terapias receitadas em “Gimme Gimme Shock Treatment” e Teenage Lobotomy” serem adotadas pelo SUS. Até a desventura narrada em “The KKK Took My Baby Away” soa verossímil no país em que ameaças de morte são comemoradas pelos patetas que se descobriram maioria em “Pinhead”. Já que é assim, fica a sugestão de trocar o hino nacional por uma canção mais condizente com um país liberto da doutrinação marxista. Trump vai entender a letra, o cidadão de bem irá se sentir representado e a contagem de 1 a 7 lembra que acabou o viés ideológico.

É fácil decorar:



Dança dos Cretinos

Não há como impedir os idiotas de dançarem
Você tem que continuar a batida
Para todos os cretinos que dançam
Cretinos! Cretinos!

Vou dar uma volta com minha garota cretina
Meus pés não param
De dançar a dança cretina
Cretino! Cretino!

1-2-3-4
Cretinos querem dançar um pouco mais
4-5-6-7
Todos os bons cretinos vão para o céu