20190225

Ninguém solta a mão de ninguém



Porque é segunda-feira, está um tempinho de bosta e você não pode deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança em breve vai acontecer, é prohibido mala onda. Nem vem que não tem. Por maior que se revele a tristeza, ela será enterrada pela alegria que atravessou o mar e ancorou na passarela. Como fez Gilberto Gil em 2003, na homenagem aos 22 funcionários da Organização das Nações Unidas (ONU) mortos em um atentado em Bagdá. Tudo foi montado para criar um ambiente de lamentação e incertezas; um baixo astral de dar dó. Só não contavam com a música.

A cerimônia, marcada para 19 de setembro daquele ano, exatamente um mês após o ataque terrorista, coincidia com a celebração da Paz Internacional. Estavam previstas desde exposição de fotos das vítimas enquanto seus nomes seriam lidos em ordem alfabética a velas acesas na penumbra do hall da sede da entidade, em Nova York. Sob os buracos da bandeira azul da organização retirada do prédio destruído pelo carro-bomba, o secretário geral Kofi Annan reverenciou a memória das vítimas com um poema do inglês Stephen Spender: “Nascidos do sol, eles viajaram por instantes em direção ao sol/ E deixaram o ar fulgurante assinado com suas honras”...

Derramado o rio de lágrimas provocado por tantas lembranças doloridas, era hora de animar os presentes, de levantar o ânimo. De, nas palavras do anfitrião, chamar “um artista com consciência, um ativista com um dom, que oferece ao mundo uma música que tenta dar poder às pessoas”. Era hora de Gilberto Gil. Ao lado de um percussionista e um guitarrista, o então ministro da Cultura mandou “Filhos de Gandhi”, “Aquele Abraço”, “Não Chore Mais” e “Imagine”. Os pés marcando a batida no chão soterravam os soluços. As fungadas, cada vez mais raras, eram substituídas por onomatopeias com a intenção de acompanhar as letras.



Aos primeiros acordes de “Toda Menina Baiana”, os tambores que Annan costumava escutar na infância em Kumasi falaram mais alto: o ganense dirigiu-se ao palco e se atracou com o primeiro atabaque que Deus deu, que Deus dá. Enternecidos pelo primeiro carnaval (primeiro pelourinho também), canadenses, americanos, brasileiros, iraquianos, iranianos, egípcios, filipinos, espanhóis, jordanianos e ingleses mostraram santos e encantos, jeitos e defeitos. O planeta regido pelo mesmo groove – nem que apenas por um instante.

Annan morreu no ano passado. Gil não quer mais discutir. Rebate penúria, fúria, clamor e desencanto com a impaciência e falsa resignação encerrada em um simples “OK OK OK”. Cada vez mais preto velho, ele não perde tempo nem energia com o que não é afeto ou afago.

20190214

Motorista passageiro



Virar motorista de Uber durante a semana da chegada do serviço a Florianópolis e escrever em primeira pessoa sobre a experiência foi uma das ideias mais simples e eficazes que já tive para uma reportagem. Eu ganharia uma bela história para contar e, quem sabe, uma nova carreira. Acontecesse o que acontecesse, o jornal pagava a conta. O carro era meu, mas o lucro – e a diversão – também seriam. A única preocupação, ser BANIDO do negócio após a publicação da matéria, mostrou-se um exagero. Três meses depois, um fotógrafo da redação precisou ir a Canasvieiras e não havia nenhum carro para levá-lo. “Chama um Uber”, ordenaram. Encerrei aquela corrida e nunca mais liguei o aplicativo. Não descarto voltar.

Caderno Nós #53, 29 e 30 de outubro de 2016 | 3663 palavras | 28 minutos

Poucas notícias despertaram tantas reações em Florianópolis quanto o anúncio, no início de setembro, de que a Uber em breve começaria a operar na capital catarinense. Todas as partes envolvidas com o serviço de transporte alternativo aberto para qualquer um se tornar motorista e sair por aí levando passageiros para cima e para baixo tinham alguma opinião. Taxistas vociferavam. Autoridades diziam que era irregular. O cidadão comum, quase que de forma unânime, saudava a chegada da empresa que, com tarifas mais baixas que táxi, já atuava em mais de 500 cidades no mundo inteiro.

Fiz a inscrição para saber como o negócio funcionava. No dia 12, 41 interessados e eu nos reunimos em uma sala da Acate, na SC-401, para uma aula de 40 minutos. Dois funcionários da empresa explicavam o que era preciso para virar um parceiro e começar a ganhar dinheiro: um carro de 2008 em diante, com quatro portas e ar condicionado, licenciamento do veículo e carteira de habilitação na categoria EAR (“exerce atividade remunerada”, emitida pelo Detran por R$ 134). Providenciei a papelada e esperei pela aprovação de meu cadastro.

No dia 19, participei de uma sessão de capacitação – a rigor, a exibição de um vídeo curto com pessoas descoladas e felizes dirigindo ou sendo conduzidas, bem diferentes de manés como eu e os 34 presentes. Após baixar o aplicativo no celular, aprendemos seus comandos e tiramos nossas dúvidas. Pode trabalhar no horário e dia que quiser. Parar também. Mas, a partir do momento que se aceita uma corrida, tem que ir buscar o cliente. Seremos avaliados pelos usuários. A média estipulada para Florianópolis foi de 4,7 estrelas, de um máximo de cinco. Após 25 viagens, quem tiver nota abaixo disso vai receber um e-mail com dicas. Mais 25, suspensão por 48 horas. Mais 25, banimento total.

No dia 26, minha conta foi ativada. No dia 28, recebi por SMS um convite para um “evento especial e exclusivo” para parceiros ativos marcado para a noite seguinte em local a ser divulgado. Era na mesma Acate de sempre, só que com mais de 400 pessoas (meus colegas), salgadinhos, refrigerantes, distribuição de um car holder (apetrecho made in China que fixa o celular na grade do ar condicionado do carro) para cada e a orientação de que ficássemos atentos, pois faltava muito pouco para a estreia da Uber em Florianópolis.

O serviço entrou em operação às 14h do dia 30 de setembro, uma sexta-feira. No sábado à tarde, resolvi fazer um teste. Fiquei online nas cercanias do Beiramar Shopping e em menos de 30 segundos já tinha passageiro para eu buscar: os namorados Nelson e Taís [nomes modificados, como todos deste relato], que iam da Trindade a um casamento em Santo Antônio de Lisboa. Na segunda-feira, eu entraria nessa vida para valer.


DIA 1 | Segunda, 3 de outubro – Comigo não tem balinha. Antes mesmo de a) pendurar o celular no car holder presenteado pela Uber, b) engatar o fio do carregador, c) acessar o aplicativo e d) apertar a tecla online, eu já havia decidido que desprezaria no mínimo uma das recomendações para prestar um serviço cinco estrelas. Meu negócio é levar gente para lá e para cá de um jeito rápido, seguro & agradável, cobrando bem menos do que um táxi por isso. Duvido que algum passageiro me avalie mal porque eu não lhe ofereci nada para chupar. Nem beber (segunda recomendação). Muito menos ler (terceira): vai que o freguês é como eu, que fica enjoado se lê com o carro em movimento.

Tenho algo muito melhor do que drops, água mineral ou revistas para transformar cada momento que passaremos juntos em uma experiência inesquecível para você, baby – e não estou me referindo à cultura, beleza, carisma ou modéstia impressionantes com que papai do céu me brindou. Meu diferencial é a sonzeira. Depois do ritual para começar a operar como motorista-parceiro da Uber à vera, espeto um pen drive com mais de 400 horas de música boa de tudo quanto é tipo. Mal conecto o aplicativo, pisca a telinha. Leonardo, Terminal Rita Maria. Deslizo o botão “aceitar viagem”. Só então ligo a ignição e parto de minha base, em Coqueiros, rumo ao Centro.

A chance de topar com uma blitz era grande. Em três dias de funcionamento na cidade, 15 carros haviam sido apreendidos pela guarda municipal por transporte irregular. A fiscalização se intensificava nos horários de pico. Locais como a rodoviária representavam alto risco de ter o carro cercado por taxistas e guinchado. Bom, qualquer treta eu mostro o crachá da firma e torço para que deixem a imprensa trabalhar. A paranoia preventiva se dissipou quando vi um gurizão acenando da extremidade oposta aos pontos de táxi. Na outra mão, segurava um celular. Ia para a Serrinha. Sentou-se ao meu lado e puxou papo.

Era sua primeira vez de Uber. Oficialmente, a minha também. Calouro de Administração na UFSC. Tinha ido votar em Joinville. O pai foi candidato a vereador. Elegeu-se. O assunto terminou antes dos 24 minutos que demoramos para completar os 12 quilômetros do trajeto. O passageiro seguinte chamava-se Victor. Veterinário. Fazia um ano que tinha uma pet shop na Trindade. O papo girou em torno do tema “a crise, é, não está fácil com esta crise”. Tinha pegado um Uber de manhã e aprovado, principalmente (CQD) pelo preço. Queria saber mais, se estavam rolando bastante corridas, se muitos carros estavam sendo recolhidos.

Fui obrigado a lhe confessar que o jornalista ali era eu. Ele perguntou meu nome completo. Falei. Ele fingiu reconhecer e garantiu que lia minhas matérias. Não conseguiu se lembrar de nenhuma até descer em frente a um prédio no Itacorubi. Interpretei seu cinismo como uma cortesia. Na portaria do mesmo prédio, peguei o caladão Anderson e o larguei no Centro. Voltei para a região para atender Mônica na Carvoeira. Com muito custo, me entendi com o mapa do aplicativo e achei a rua dela, uma quebrada sem saída. Parei no endereço solicitado e aguardei. Tentei contato telefônico via Uber, sem sucesso. A cliente cancelou a corrida.

Era o pretexto que eu queria para encerrar o expediente. A ameaça de repressão ainda pairava no ar. E não tinha uma balinha para aliviar a tensão.

Período: 17h20 às 19h11 | Viagens: 3 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 48min45seg | Kms: 24,53 | Féria: R$ 36,53


DIA 2 | Terça, 4 de outubro – Hoje eu vou dirigir de dia. De cara, um cancelamento no Centro. Não tive tempo de me lamentar, Thomas me requisitava das imediações. Acomodou-se no banco de trás. Pô, maior bandeira! Qualquer um que me visse perceberia que eu era motorista da Uber – a não ser que estivesse, sei lá, pagando uma aposta. Mas o cara era alemão. Casualmente e em português com forte sotaque, informou que em sua cidade, Munique, o serviço já está regulamentado. Ficou no Estreito, sem desconfiar do perigo que corremos.

A telinha não parava de piscar. E eu, de cruzar a ponte com Juliana (Shopping Beiramar-Centro) e Marcos (Coqueiros-Centro), em percursos nos quais rodei mais para buscá-los do que os transportando. Gabriela me acionou de um hotel na Avenida Hercílio Luz. Não deu as caras. Liguei para ela do aplicativo. Desta vez, funcionou.

— Sim, eu realmente chamei do hotel. Mas ontem vi um rolo no aeroporto, me contaram que era por causa da Uber. Agora há pouco, a Guarda Municipal passou aqui na frente. Fiquei com medo de dar problema para você, aí resolvi esperar no posto de gasolina do outro lado da rua. Vou aqui na frente, para não suspeitarem — explicou a bióloga da pequena São Manuel (SP) ao entrar no carro para participar de um congresso na UFSC.

Estela, a cliente que atendi no Itacorubi após carregar o quieto Diogo da Trindade à Lagoa da Conceição, teve o mesmo cuidado. Enquanto eu botava suas duas malas no bagageiro, sentou-se à direita do volante e anunciou o temido destino: aeroporto. Disse que viajava muito a trabalho (não o que fazia), usava Uber em outras cidades e sabia que o serviço estava tendo problemas em Florianópolis. Estacionei entre dois táxis no embarque do Hercílio Luz. Imediatamente, outro táxi parou em fila dupla, me trancando. À espreita, viaturas da polícia federal e da PM. Ferrou. Na verdade, pensei em outro verbo com “f”.

Coloquei-a sua bagagem no carrinho e me despedi a uma distância não tão longe que parecesse que tínhamos uma relação motorista-passageiro nem tão perto que sugerisse alguma intimidade. Saí ileso e com R$ 20,69, meu recorde até o momento. Pena que tive que voltar sozinho. Apesar dos insistentes chamados do local, não tive peito para aceitar nenhum. Não naquela vibe ruim. Seria brincar demais com a sorte.

A noite caiu e tirou a turistada da toca. André, baiano de Feira de Santana (Carvoeira-Mercado Público). Lucas, curitibano (Intercity Hotel-Beira-mar Norte). Marcos e Raquel, sul-matogrossenses. O casal embarcou no hotel Majestic ansioso para comer camarão na Lagoa da Conceição. Lá chegando, resolvi dar um tempo para ver se pintava alguma corrida. Uns dez minutos e surge Anja, de um hostel na Barra da Lagoa. Só podia ser uma gringa. Uma não, quatro valquírias alemãs que, em inglês, pediram para que eu as conduzisse até o cinema no Shopping Iguatemi. Foram a viagem inteira conversando na língua-mãe. Na saída, agradeceram com um “thanks”. “Danke”, retribuí, gastando todo o meu conhecimento do idioma germânico para fechar um ciclo que havia começado com um conterrâneo das louras.

Período: 12h02 às 20h52 | Viagens: 11 | Cancelamentos pagos: 2 | Duração: 3h3min14seg | Kms: 94,13 | Féria: R$ 131,66


DIA 3 | Quarta, 5 de outubro – Às 14h18, um dono de táxi no aeroporto comemora em um grupo do WhatsApp do qual faço parte que a PM está na altura do Shopping Iguatemi caçando carros da Uber. Detalhe, ele não sabe que estou nessa. Dou corda. Digo que toda a concorrência é saudável. Ele desdenha. Afirma que em pouco tempo os motoristas vão descobrir que o serviço vale a pena para os clientes e para a empresa, não para os parceiros. Que a Uber pratica dumping, cobra valores abaixo de mercado para quebrar todo mundo e depois impor suas taxas. Que se eu for preso, leva uma gelada para mim. Fico tão comovido com o empenho dele em me desanimar que adio minha jornada.

Eu já estava era de saco cheio com tanta marcação. Tomara que a noite me seja leve. Natália renova minha fé ao me contatar do Shopping Itaguaçu para ir à Agronômica. Dona de loja, senta atrás e diz que a crise está cada vez pior. Roberta e um casal de amigos, todos cariocas, vão do bar ao hotel sem sair do Centro. Claudio e Marco dividem a corrida iniciada na Tenente Silveira. Um descerá na Almirante Lamego, coisa rápida. O outro, só no Bom Abrigo. No caminho, Claudio faz a pergunta que eu estava esperando desde que estreei na função: “Que música boa, o que é?”. Sim, porque o som permaneceu ligado o tempo todo e ninguém havia reparado. Esclareço que é uma faixa do disco novo de Norah Jones, Day Breaks. Ele assente com a cabeça, satisfeito.

Entrego Leo e a namoradinha sãos e salvos na Serraria, em São José, depois de eles assistirem ao filme O Lar das Crianças Peculiares no Shopping Itaguaçu. Maria Julia aproveita que eu circulava pela região e me acompanha do bairro Ipiranga a Campinas. Meia-noite, está bom por hoje. Quase na esquina de casa, em Coqueiros, Marcelo me atenta. Kobrasol, do ladinho. Dou meia volta em busca de mais um trocado. Custo a achar a rua, passo direto uma, duas, três vezes pela quadra certa. É um casal. Simpáticos, aceitam minhas desculpas pela demora – e não hesitam em me sacanear.

Até então, minha avaliação mantinha-se cinco estrelas. Conferi quando cheguei em casa e a média havia caído para 4,91. Os lazarentos fizeram eu me deslocar para uma reles corrida de R$ 4,50 (a tarifa mínima, já descontada os 25% da Uber) e ainda baixaram minha nota. O lado bom foi que, ao fuçar as funcionalidades do aplicativo, descobri que havia dois comentários: “Norah Jones de trilha é sem palavras” e “Excelente pessoa!”. O serviço não revela a data nem o autor, mas um deles não era difícil saber de quem foi. Obrigado, Claudio.

Período: 21h48 à 0h02 | Viagens: 6 | Duração: 1h4min58seg | Kms: 42,26 | Féria: R$ 54,81


DIA 4 | Quinta, 6 de outubro – Quantas vezes idealizei a vida dos motoristas noturnos. Eles deveriam receber propostas irrecusáveis de insaciáveis deusas do prazer. Conhecer malucos de todas as espécies. Participar de aventuras absurdas no submundo. Enfim, lidar com o grotesco e o sublime, a miséria e a nobreza, as dores e as delícias de, como Shakespeare definiu em Macbeth, “uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”. Pois bem: é meia-noite cravada, estou há quase quatro horas na ativa e a coisa mais emocionante que me aconteceu até agora foi o carro ferver em pleno Morro do 25.

O responsável pela minha incursão ao local foi Stephan, um passageiro que encontrei no terminal de ônibus do Centro. Bailarino. Canadense. Três anos de Brasil. Um português melhor do que o meu. Morava lá no alto, em uma das últimas casas, com os pais. Na subida, a luz vermelha do painel do carro se acendeu. Olhei para o indicador de temperatura, no talo. No painel, a mensagem intermitente: “Desligue o motor, desligue o motor”. De jeito nenhum! Disfarcei, deixei o dançarino no seu destino e só parei em um posto de gasolina na Mauro Ramos.

O radiador estava seco. O frentista não detectou se o vazamento era no bocal ou na mangueira do reservatório, mas iria providenciar uma gambiarra que, prometia, permitiria que eu rodasse até em casa. Esperei o carro esfriar, completei a água e me mandei. Ana me aguardava em uma cervejaria.

— Ei, acho que já andei com você — disse o namorado dela ao me ver.

— Diogo, terça, Trindade-Lagoa?

— Isso! Vamos para aquela rua onde você me buscou naquele dia.

A lembrança do seu nome o tornou loquaz. Falou que trabalhava em uma empresa de tecnologia na Lagoa, que ele adorava Uber e que os taxista tinham mais era que se, er, ferrar. Surpreendido com minha memória, eu nem prestava atenção em seu discurso. Assim como não dei muita bola para três moleques e uma guria semi-embriagados que levei à boate 1007. Foi quando Rafael me chamou da Esteves Júnior. Cheguei lá, ninguém. Cancelei a viagem, assinalando a alternativa “cliente não apareceu”. Dez minutos e Rafael apita de novo, agora da pracinha em frente ao supermercado Hippo. Eram três caras.

— Rafael? — perguntei.

— Não, Rafael é nosso amigo que tem conta na Uber. Fizemos o pedido com o cartão dele — respondeu um deles.

— Vamos para a Tapera — completou outro.

Fiquei cabreiraço. E mais ainda quando, já dentro do carro, me perguntaram se o pagamento era efetuado só com cartão de crédito.

— É, não tenho dinheiro nenhum aqui — cortei, denunciando meu nervosismo.

Na alça de acesso ao túnel em direção à Via Expressa Sul, oh, não, os tiras! Quase torci para que fosse uma blitz. Se era, não notaram nada suspeito no meu carro que motivassse uma abordagem. Pelas conversas no caminho, saquei que meus clientes não passavam de honestos trabalhadores. O trio superou a marca de Estela, me rendendo R$ 26,68. Mas os 26 quilômetros sem passageiros da volta acabaram com minha alegria. Contando com a ida, eu havia gasto uns R$ 20 de gasolina. Baita lucro.

Período: 21h42 à 1h48 | Viagens: 8 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 1h35min29seg | Kms: 65,03 | Féria: R$ 86,78


DIA 5 | Sexta, 6 de outubro – As situações peculiares da noite anterior fizeram com que eu encarasse esta tarde, a despeito da certeza de que iria me incomodar com o trânsito do último dia útil da semana. Para encorajar os motoristas, a Uber realiza promoções que garantem no mínimo R$ 25 por hora em períodos de alta demanda. As condições são: ser cadastrado em Florianópolis (OK), inscrever-se para os descontos semanais (beleza), ter avaliação dos usuários superior a 4,8 (é nóis), fazer pelo menos uma viagem por hora (tamo junto), permanecer online por no mínimo cinco horas (depende da disposição) e aceitar pelo menos 70% das viagens.

Nesse último quesito é que eu me estrepo – ironicamente, por zelar pela qualidade do serviço. Pela minha lógica, não devo aceitar uma corrida se estiver no meio de outra. Porque assim vou deixar o próximo passageiro esperando muito, ele ficará descontente e economizará nas estrelas pela minha demora em atendê-lo. Se cancelar por ter cansado de me esperar, pagará a tarifa mínima e amaldiçoará a Uber por ter cobrado por um serviço que não foi prestado. Donde meu índice de viagens aceitas nunca ultrapassou os 60%.

Enquanto perdia tempo e dinheiro com Felipe do Pantanal ao Shopping Iguatemi, por exemplo, dispensei duas chamadas. Com Charles (João Paulo-Córrego Grande), mais três. Com Angela nem lamentei ter ignorado outras duas, tampouco com o fato de pedir que eu a levasse à arriscada rodoviária. Representante comercial de um laboratório farmacêutico e linda, a loura mignon inebriou o carro com seu perfume. Não me aguentei e lhe contei quem eu era e o que fazia ao volante. Achou a pauta sensacional. Interessada, perguntou quando a matéria seria publicada e me autorizou a usar seu nome verdadeiro. O namorado que ela iria visitar em Piçarras era um sujeito de sorte.

O gamer Augusto me trouxe à realidade rapidinho. Além de cabeludo, suado e com o cofrinho à mostra, ia para o Kobrasol. Atravessar a ponte no final de tarde de uma sexta corroborou minhas piores impressões sobre o comportamento do bicho humano no trânsito. Em um congestionamento, as pessoas furam fila, xingam, comportam-se como selvagens. Protegidas pelo anonimato (no caso, proporcionado pela lataria), têm atitudes que não teriam em nenhum outro contexto. Parece que estão na internet, de tão mal-educadas que se tornam.

Não tenho mais saúde, idade ou energia para isso. Já que estou no continente, vou parar por aqui. Opa, dois comentários inéditos: “Muito agradável!” e “Valeu pela ‘carona’, Emerson! :)”. Pensar que um deles pode ter sido de Angela provoca um bem danado em minha autoestima. Como homem é bobo.

Período: 14h18 às 16h30 | Viagens: 5 | Duração: 1h0min13seg | Kms: 38,58 | Féria: R$ 48,35


DIA 6 | Sábado, 7 de outubro – Nos e-mails da Uber enviados aos motoristas informando os dias e horários com maior procura pelo serviço, o espaço destinado aos sábados é sucinto. “O dia inteiro”, sintetiza. Não é exagero. A demanda reflete-se pela frequência. Rarissimamente o parceiro vai ficar circulando a esmo, sem passageiro para transportar. Comprovei isso na prática. Fui emendando uma corrida na outra, e o que é melhor: sempre com a origem seguinte próxima ao destino anterior. Começou com Luiz, no Centro, no início da tarde.

— Vamos para a Lagoa da Conceição, mas antes tenho que passar em um lugar.

Você manda, chefe. O tal lugar era uma pirambeira na Prainha. Ele falou para eu parar e esperá-lo, que já voltava. E desapareceu. Cinco minutos. Dez minutos. Quinze minutos. Esse cara vai me dar o cano, imaginei. Não, senão ele não teria deixado o moletom no banco ao lado. Com 17 minutos, deu sinal de vida.

— Embacei, desculpa.

E mais não disse nem lhe foi perguntado. Voltamos a conversar somente na sua rua, perto da igrejinha da Lagoa. Como quem não quer nada, ele comentou que era complicado achar um Uber pelas redondezas. Propôs que eu lhe desse meu celular, que me ligaria à noite para levar ele e a esposa ao show do Jota Quest no P12, em Jurerê Internacional. Aleguei que a Uber não permitia que o motorista combinasse viagens, sob pena de banimento. Notei que ele ficou um pouco desapontado. Aí me lembrei que eu tinha um exemplar de Pancadélico – CD lançado pela banda mineira em 2015 – que a gravadora me enviara, pois também cometo críticas musicais. Estava abandonado no nicho sobre o quebra-sol, lacradinho e tudo.

— Ó, para sua mulher. O único inconveniente é que a assessoria escreveu meu nome com pincel atômico na capa, tudo bem? — ofereci.

Seu rosto se iluminou por ganhar o mimo. O meu idem, por me livrar do mico. Estando bom para ambas as partes, desejei-lhe um excelente show e fui buscar Karine no centrinho do bairro. Ela me aguardava de mão dada com um baixinho parrudo. Eram cariocas, estavam na cidade para ele disputar um campeonato de jiu-jitsu no Instituto Estadual de Educação (IEE), no Centro.

A fortuna me sorria. Gabriele (Centro-Morro das Pedras), Christian (Campeche-Lagoa da Conceição), Jeferson (Lagoa da Conceição-Trindade), José (Córrego Grande-Floripa Shopping), Henrique (Primavera Garden-Canasvieiras), Tiago (Canasvieiras-Jurerê Internacional), Antonio (Jurerê Internacional-Canasvieiras). Estava escuro quando peguei a SC-401 no sentido Centro para gozar do merecido descanso. Foi, disparado, meu melhor dia.

Cheguei a desligar o som para que o AC/DC não atrapalhasse minhas reflexões no trajeto. Conforme o urubu havia praguejado na quarta-feira, o serviço era bom demais para o usuário e para a própria Uber, não tanto para os parceiros. De acordo com o que a empresa trombeteava nas sessões de capacitação, um motorista em atividade por quatro horas diárias, seis dias por semana, fatura em média R$ 1,8 mil mensais. Proporcionalmente, pelo tempo que trabalhei, renderia algo em torno disso. Só que o tanque bebeu quase a metade.

Concluí que, a título de remuneração complementar, estava razoável. Como em qualquer outra área, para ser bem-sucedido o parceiro deve se profissionalizar. Ou seja, estudar as rotas mais econômicas, operar durante os horários mais lucrativos e, principalmente, converter o carro para gás natural. Se a Uber não me banir por causa desse diário, pretendo continuar nossa parceria em regime diletante: talvez apenas aos sábados, uma outra noite nos dias de semana. É, não foi dessa vez que o jornalismo se livrou de mim.

Período: 15h20 às 21h45 | Viagens: 9 | Cancelamentos pagos: 1 | Duração: 3h18min52seg | Kms: 115,04 | Féria: R$ 142,72

TOTAL
Viagens: 42
Viagens avaliadas: 35
Viagens 5 estrelas: 33
Cancelamentos pagos: 5
Faturamento: R$ 500,85
Combustível: R$ 230
Lucro: R$ 270,85

20190212

Empatia na entrevista de emprego

Enquanto finge que lê meu currículo, ele me pergunta por que eu gostaria de trabalhar ali. Respondo que vejo a empresa como um lugar onde poderei exercer todas as minhas habilidades e desenvolver novas aptidões – uma tradução cordial para “a vaga falava em jornalista, é o que sou e é o que temos para esta merda de profissão nesta merda de mercado”.

Impassível, meio blasé até, o RECRUTADOR começou então a explicar o que esperava de um candidato ao cargo. Quanto mais banal a função, mais empolada ficava a versão em inglês que a designava – em matéria de eufemismo, ele (também) me dava aula. Pelo que entendi, deveres de empregado e direitos de pejotinha. Pelo piso. Mas, às sextas, poderia ir para a firma de PANTUFAS.

Não sei se a cara que fiz denunciou meu pavor. Ele reagiu com indiferença. Um pouquinho de pena, talvez. Não foi o primeiro da semana a me achar um loser, e era apenas terça. Não me deprimi nem me exaltei: eu via apenas um grande vazio naquilo tudo. É bem provável que ambos tenhamos razão. Combinamos de manter contato se surgir alguma oportunidade.



20190130

Proposta de novo Hino Nacional Brasileiro

Só dá Ramones. Nem em 1984, quando conheci a banda nas fitinhas cassete de uma gurizada gaudéria que passava o verão na Laguna, curti tanto como agora. Assim que se confirmaram as trevas, elegi Joe, Johnny, Dee Dee e Tommy (depois Marky) como as melhores companhias para a alienação-cidadã. Nada de notícia previsível sobre ignorantes-com-iniciativa, nada de grupo xarope no zap (e sou tão elegante que não saí de nenhum, apenas ignoro & limpo ao final do dia), nada de debate com gente rudimentar. Escapismo acima de tudo, gabba gabba hey acima de todos.

Está dando mais ou menos certo. Durante dois, três minutos, cada faixa converge para a fuga desejada. O problema é essa mania feia de fazer conexões entre os versos e as aberrações que se tornaram normais após a consagração da estupidez. Inconsciente e involuntariamente, sempre encontro uma canção do grupo sob medida para descrever uma sociedade indefensável. Para quem acreditou em mamadeira de piroca, levar a sério uma das regras do clássico “Commando” – “comer salame kosher” – é um pulo, ainda mais porque vem acompanhada por “não falar com comunistas” e “ser bom para a mamãe”.

Se a associação fosse mantida só na base da ironia, tudo bem. Mas é capaz de as terapias receitadas em “Gimme Gimme Shock Treatment” e Teenage Lobotomy” serem adotadas pelo SUS. Até a desventura narrada em “The KKK Took My Baby Away” soa verossímil no país em que ameaças de morte são comemoradas pelos patetas que se descobriram maioria em “Pinhead”. Já que é assim, fica a sugestão de trocar o hino nacional por uma canção mais condizente com um país liberto da doutrinação marxista. Trump vai entender a letra, o cidadão de bem irá se sentir representado e a contagem de 1 a 7 lembra que acabou o viés ideológico.

É fácil decorar:



Dança dos Cretinos

Não há como impedir os idiotas de dançarem
Você tem que continuar a batida
Para todos os cretinos que dançam
Cretinos! Cretinos!

Vou dar uma volta com minha garota cretina
Meus pés não param
De dançar a dança cretina
Cretino! Cretino!

1-2-3-4
Cretinos querem dançar um pouco mais
4-5-6-7
Todos os bons cretinos vão para o céu

20190125

O lado que comanda Santa Catarina

Lançado na edição de 31 de outubro e 1º de novembro de 2015 do Diário Catarinense, o caderno Nós acabou – pelo menos em essência – em algum momento entre fevereiro e março de 2018. Foi quando, sob orientação da então recém-chegada nova direção de jornalismo do grupo que edita o jornal, temas que os leitores gostariam de ignorar deram lugar a amenidades como “ano sabático” e “homens que ajudam (sic) as mulheres no trabalho doméstico”. Como a equipe original já havia sido desmobilizada, deslocada ou simplesmente desligada, não houve nenhuma resistência.

Até virar um aleijão editorial e gráfico, escrever no Nós valia quase como uma distinção. O escalado tinha que ter – ou dar a impressão que tinha – informação, repertório e estilo para segurar uma matéria de dez laudas. Em uma realidade diária dominada por duas laudinhas e olhe lá, equivalia a um tratado. Era uma baita vitrine. Colegas de outros estados viam o resultado e não acreditavam como um pequeno jornal de um mercado idem mantinha um suplemento de oito páginas, sem um reles anúncio publicitário, dedicado a um único assunto.

Nem toda semana havia a Grande Pauta Indiscutível, aquela que se impunha quer pela urgência, quer pela pertinência. Nesses casos, a saída era tentar compensar na redação, contando uma história de um jeito interessante o suficiente para instigar o leitor a encarar a massa de texto por inteiro. Todos os envolvidos tratavam o caderno como um xodó – não vou citar nomes porque não consultei ninguém se poderia, ainda que para elogiar. Por ser o único profissional exclusivo da editoria Nós, assinei a maioria das matérias, inclusive as duas esdrúxulas mencionadas no primeiro parágrafo. Vou reproduzir algumas aqui.

(Um) Por respeito.

(Dois) Por vaidade.

(Três) Por dinheiro? Procure-me em PVT, pliz.

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Não existia uma ideia clara sobre o que exatamente o Nós trataria. Havia apenas um consenso: não poderia ser confundido com um caderno de cultura. O conceito – “Santa Catarina no plural”, expresso no manifesto escrito pela melhor editora que conheço, hoje amigona – era amplo o suficiente para abrigar de denúncias a perfis, desde que se encaixassem na definição de "grande reportagem" não somente pelo tamanho, pudessem ser defendidas com galhardia na reunião com a chefia e, lógico, fossem catarinenses. Pensa daqui, pensa dali, para deixar claro logo de cara qual seria a pegada do caderno, ficou definido que no primeiro número seria investigada a resposta da pergunta que, para mim, sempre foi uma afirmação: Somos de direita?”.

Caderno
Nós #1, 31 de outubro e 1º de novembro de 2015 | 2591 palavras | 20 minutos


São quase 23h e a quinta-feira do deputado federal Rogério Peninha Mendonça (PMDB) está longe de acabar. Duas horas e meia depois de deixar Brasília no mesmo voo que Esperidião Amin (PP) e Jorginho Mello (PR), seus companheiros na bancada catarinense, ele desembarca em Florianópolis com o compromisso de passar em Itapema para um jantar em comemoração à recondução ao cargo de vereador do peemedebista Eraldo Mafra, cassado em outubro de 2013 por sonegação fiscal. O dia cheio e a agenda apertada não o impedem, porém, de arrumar tempo para falar da pauta com a qual ganhou o noticiário nacional: o Estatuto do Desarmamento – ou melhor, sua revogação.

— O objetivo do PL 3722-2012 não é armar a população, e sim dar ao cidadão o direito de autodefesa — sustenta o parlamentar, em meio a cumprimentos de correligionários no aeroporto Hercílio Luz, sobre o projeto de lei que regula a posse, o porte e o comércio de armas de fogo e munição no Brasil.

A proposta, a origem do autor e a notoriedade que ela alcançou fazem de Peninha hoje a figura que mais encarna, divulga e alimenta a crença de que Santa Catarina seria um Estado de direita. As urnas reforçam essa percepção. Desde a redemocratização em 1982, apenas um em cada cinco dos eleitos pelos catarinenses para vereador, prefeito, deputado estadual, federal, senador e governador situa-se à esquerda. Na corrida presidencial, os principais candidatos de oposição ao governo petista ganhariam as três últimas eleições já no primeiro turno se computados somente os votos catarinenses.

— Mas não dá para dizer que o Estado é de direita com base nos resultados das eleições, pois a maioria dos partidos brasileiros não têm coerência ideológica. Devido à necessidade de conquistar o eleitor médio, que em geral está no centro, e selar alianças para sobreviver politicamente, os partidos fazem concessões que os afastam de seus programas, sejam de direita ou de esquerda — analisa o professor Jean Castro, do Departamento de Sociologia e Ciências Políticas da UFSC.

Um estudo sobre as coligações no Estado entre 1986 e 2004 feito pelo cientista político Yan de Souza Carreirão comprova a tese. Sobretudo nas candidaturas a prefeito, a estratégia de compor chapas com média (centro + direita ou esquerda) ou fraca (direita + esquerda) coerência ideológica apresentou um rendimento superior aos daquelas mais consistentes. Coligados foram maioria (61%) e venceram mais (47%, ante 28% dos que concorrem por um partido isolado) quanto mais misturados estiveram. Dos dois terços das coalizões envolvendo siglas de campos ideológicos diferentes, metade saiu vitoriosa, contra 40% das formadas por afins.

Ou seja, na política real o antagonismo direita-esquerda muitas vezes transforma-se em parceria, para arrepio do que Castro define como franjas minoritárias do eleitorado que têm posições ideológicas mais marcadas. Talvez não tão minoritárias assim e, com certeza, bastante barulhentas. Peninha tem rodado o país com a proposta bélico-protetora. Em Santa Catarina, realizou duas audiências públicas. Uma em Blumenau, a maior cidade de sua base eleitoral, o Vale do Itajaí. Na plateia estavam vários senhores com trajes típicos germânicos, representando as tradições dos colonizadores da região – como os sociedades de atiradores (schützenverein), associações recreativas sempre mencionadas por Peninha para justificar a convivência de seus eleitores com armas desde pequenos.

Outra em Chapecó, reduto do deputado federal João Rodrigues (PSD), autor de projeto que permite a taxistas e motoristas de caminhão portarem armas no trabalho. Peninha foi ovacionado em ambas – tanto quanto o maior entusiasta da ideia e presença constante nesses encontros, o também parlamentar Jair Bolsonaro (PP-RJ), que não esconde de ninguém para qual lado pende. Em outubro, o carioca voltou a Blumenau, novamente a convite do catarinense, para um final de semana na Oktoberfest. De macacãozinho e chapéu, poderia ser confundido com um nativo, não fossem o sotaque, o tratamento de popstar que recebeu e a tez, mediterrânea demais para os padrões saxônico-blumenauenses. Participou do desfile, estrelou uma infinidade de selfies, foi saudado pelos populares. “Sinto que o que eu falo é o que esse povo também quer falar”, exultou antes de voltar para casa.


Ao longo do século 20, a política catarinense foi dominada por duas famílias com raízes no Partido Conservador. Os Ramos, de Lages, eram ligados a grandes produtores rurais da Serra. Os Konder Bornhausen, de Itajaí, ao comércio marítimo e fluvial, à indústria têxtil do Vale do Itajaí e à fundação do primeiro banco de crédito do Estado, o Inco (Banco da Indústria e Comércio, comprado pelo Bradesco em 1960). Os dois clãs ocuparam o governo por dez mandatos e o Senado por oito.

A rivalidade entre eles, embora todos militassem no Partido Republicano Catarinense, acentuou-se com a revolução de 1930. O governador Adolfo Konder foi deposto pela Aliança Liberal e, em seu lugar, assumiu Nereu Ramos, simpático a Getúlio Vargas. Com o fim do Estado Novo em 1945, os Konder Bornhausen passaram a comandar a União Democrática Nacional (UDN), de direita; os Ramos, o Partido Social Democrático (PSD), de centro-direita. O golpe de 1964 os reuniu na Aliança Renovadora Nacional (Arena) em nome do combate à “ameaça comunista”.

Atritos circunstanciais – como a indicação de Colombo Salles, um engenheiro sem experiência política da ala renovadora da Arena, pelo presidente Médici para o governo estadual em 1971 – não impediram que a dobradinha seguisse. Mas, à falta de herdeiros com a vocação de Vidal, Nereu, Celso e Aderbal, os Ramos viram sua influência diminuir com a nomeação de Antônio Carlos Konder Reis e Jorge Konder Bornhausen como governadores em 1975 e 1979.

O retorno das eleições diretas para o governo em 1982 consagrou Esperidião Amin, que já era quase da família: com a bênção dos Konder Bornhausen, fora nomeado prefeito de Florianópolis em 1975. A criatura iria se voltar contra o criador em 1986. Naquele pleito, ele e Jorge lançaram candidatos separados e perderam juntos para Pedro Ivo Campos (PMDB). A ascensão de uma corrente de centro, identificada com os adversários do regime militar, alteraria para sempre as forças no tabuleiro político local.

— Deve-se questionar essa história de Santa Catarina como Estado oligárquico. Com mais de 30 anos de democracia, já houve uma desconcentração. As oligarquias controlavam o sistema político com a máquina na mão. Hoje, têm que disputar eleições, compor com outros — diz o cientista político Carlos Eduardo Sell, da UFSC.

O bipartidarismo imposto pela ditadura, no entanto, continua dando as cartas no Executivo estadual. Mesmo com a abertura para novos partidos em 1982, todos os governadores catarinenses de lá para cá pertencem a agremiações com a Arena em seu DNA, como PDS, PFL (futuros PP e DEM) e o PSD (ao qual o governador Raimundo Colombo, ex-pefelista, é filiado), ou ao sucessor do MDB. Sell vê nisso uma polaridade própria da político, ainda que o cenário esteja cada vez mais pulverizado. Amin credita ao fato de que “ninguém gerou tantas lideranças quando PDS e MDB” e aponta para a falência do modelo direita-esquerda.

— São conceitos ultrapassados. Santa Catarina é um Estado conservador com preocupação social. Mais do que partido, o catarinense vota levando em conta uma palavra: confiança — diz o deputado.

Amin fala com conhecimento de causa. Conquistou mais um mandato para a prefeitura da Capital em 1998, entrou no Senado em 1990 e reelegeu-se em primeiro lugar para a Câmara no ano passado com 230 mil votos. Na sucessão estadual de 2002 e 2006 e na municipal de 2008, concorreu com os peemedebistas Luiz Henrique da Silveira e Dário Berger (ex-PFL e ex-PSDB, atualmente senador). Pelo visto, o eleitor confiou mais nos adversários dele.

Jorge Bornhausen, hoje aposentado da política partidária, e o filho, o ex-deputado federal Paulinho, presidente de um partido com “socialista” na sigla (PSB), negaram-se a atender a reportagem. Paulinho deu a entender que a conceituação é uma preocupação maior da academia do que do eleitor. Contudo, o patriarca já se manifestou a respeito.

“A direita não cabe no figurino brasileiro. Temos que considerar nossas condições sociais. Não podemos querer uma economia de mercado pura, sem um Estado regulador. Temos que fazer com que o Estado seja um instrumento a serviço do cidadão, especialmente o menos favorecido. Sem isso, os pobres não terão oportunidades justas nem seus direitos básicos preservados. Não é a questão de Estado máximo e Estado mínimo, mas do Estado necessário”, declarou ele em 2006.


Natural de Nova Trento, Peninha foi cursar Agronomia em Pelotas (RS), de onde voltou com o diploma e o apelido que incorporou ao seu registro eleitoral. Os anos lhe somaram quilos e subtraíram cabelos, mas, na época, a magreza e a vasta cabeleira lhe valeram a comparação com o personagem de Walt Disney. Mudou-se para Ituporanga em 1976, quando passou em concurso público para a Acaresc, atual Epagri. Em 1988, elegeu-se vice-prefeito da cidade pelo PMDB. No ano seguinte, votou no candidato do partido, Ulysses Guimarães, para presidente no primeiro turno. No segundo, fez campanha para Lula contra Collor.

— Hoje, de jeito nenhum votaria no PT, mesmo com o meu partido sendo aliado. Nas minhas redes sociais, se em algum momento eu falo da Dilma, o meu eleitor protesta. Ele não aceita o PT — garante o deputado, um dos 22 peemedebistas que assinaram documento pedindo o rompimento com o governo federal.

Esse mesmo eleitor aceita Bolsonaro e endossa com gosto algumas propostas controversas do nova-trentino. No Votenaweb – site de “engajamento cívico apartidário” no qual 380 mil internautas cadastrados podem votar nos projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional –, Peninha é o parlamentar de Santa Catarina com a maior média de participação por projeto. Em aprovação, fica em sexto, com 88% dos catarinenses favoráveis ao fim do Estatuto do Desarmamento, 84% à proibição de cotas raciais em concursos públicos e 94% à extinção da contribuição sindical obrigatória. O único reprovado é o que proíbe tatuagem nos olhos, com 72% de rejeição.

Peninha apoia a redução da maioridade penal, “principalmente para crimes hediondos”. Rechaça a descriminalização das drogas, “todas”. Tolera aborto “somente em determinados casos, como estupro e doenças que ponham a mãe ou o feto em risco”. E diz que respeita a união homoafetiva, mas é contra a adoção nesses casos porque acha que “para uma família constituída dessa forma – homem com homem, mulher com mulher – é muito difícil dar uma educação à criança como deveria”.

Os vereadores pensam parecido com ele. No primeiro censo legislativo municipal catarinense, realizado neste ano, a maioria deles mostra-se contrária a um afrouxamento das leis antidrogas (70%) e ao direito de a mulher interromper a gravidez (59%). A opinião de que o sistema de cotas raciais nas universidades aumenta a discriminação é compartilhada por 63%.

A diferença em relação ao deputado está no tamanho do Estado brasileiro e no posicionamento ideológico. Com exceção dos serviços bancários, grande parte dos vereadores acredita que só o governo que deve administrar setores como educação, saúde, aposentadoria e previdência social e infraestrutura. Eles se declaram de centro (32%), centro-direita (22,7%) e direita (19%).

— Em todo o Brasil, ainda há uma certa reserva em se assumir como conservador ou de direita porque essas são características associadas ao período da ditadura — entrega o cientista político Sell.

Peninha não está nem aí para a patrulha:

— Defendo uma maior liberdade da produção, do capital, e menor intervenção do Estado na economia. O Estado deveria cuidar apenas da saúde, educação… até infraestrutura pode delegar. Se posições assim forem consideradas de direita, então eu sou de direita — admite.

“Liberal em questões econômicas e conservador nas sociais”, ele se elegeu à prefeitura de Ituporanga em 1992 e, a partir de 1998, ingressou no Legislativo, sempre crescendo em número de votos. No estadual, recebeu 25 mil naquele ano, 35 mil em 2002 e 55 mil em 2006. No federal, 110 mil em 2010 e 137 mil em 2014, tornando-se o quinto mais votado do Estado.


Um dos eleitores de Peninha é o coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL) em Santa Catarina, Alexandre Paiva, de 39 anos. Presente em 15 cidades catarinenses, o MBL se denomina “uma entidade apartidária que visa a mobilizar cidadãos em favor de uma sociedade mais livre, justa e próspera”. Na prática, está por trás das gigantescas manifestações contra o governo que começaram a sacudir o país logo após a reeleição de Dilma Rousseff. São passeatas em que nem todo mundo que participa é de direita, mas todo mundo que é de direita participa. Paiva acha graça do jogo de palavras, mas não embarca nele.

— Politicamente, me defino como “indignado”. Ou você é vermelhinho, ou você é azulzinho. Palhaçada! A questão não é partido, é todo o sistema que está errado — exalta-se.

Para consertá-lo, o MBL foca-se no impeachment da presidente e nas eleições de 2016. Segundo o coordenador, o movimento tem sido procurado por diversos partidos, de todos os lados porque tem o eles precisam: “Gente e poder de mobilização.” O que mais o atrai é o recém-criado Partido Novo, devido ao seu viés liberal. Ele próprio, inclusive, ajudou a recolher assinaturas e deu entrada das fichas coletadas no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) – um partido requer de pelo menos nove diretórios e 492 mil assinaturas certificadas para ser criado.

— Até por formação pessoal, nunca aceitei nada de mão beijada. Vim de família pobre e consegui montar meu comércio, pago escola particular para minhas duas filhas. Me incomoda o pensamento que o Estado é o provedor de tudo. Sou um “minarquista”, quero um Estado mínimo — diz.

Paiva está no tele-entrega de pizzas que abriu em 2008 no bairro dos Ingleses, em Florianópolis. Ele nasceu em São Paulo, filho de uma dona de casa e de um autônomo que vendia batata em um caminhão. Trabalha desde os dez anos “em feira, embrulhando peixe, vendendo limão”. Começou a estudar Administração e logo parou porque não tinha como pagar a faculdade. Aos 20, foi morar junto com a namorada, com quem mudou-se para a Capital catarinense em 2000.

Até trocar de profissão, tirava o sustento da família do serviço de perícia em sinistros que prestava para uma empresa de seguros, combinado com o salário da esposa, bancária. Agora, Paiva divide seu tempo e uma parcela dos R$ 5 mil que ganha em média no ramo de margueritas e portuguesas promovendo o movimento.

— Foi em um dos encontros do MBL em Florianópolis que surgiu a ideia da Vista Direita. Vi uma camiseta escrita “não existe almoço grátis”, tentei comprar e não tinha mais — lembra o bancário Daniel Peçanha, de 27 anos, que viu ali uma oportunidade de negócio.

Ele e um sócio investiram R$ 40 mil na grife. Fizeram 2,4 mil camisetas com estampas de ícones do neoliberalismo (Margaret Thatcher, Ronald Reagan) e mensagens como “comunismo mata” e “livre mercado”. O valor foi recuperado logo na primeira leva. Em junho do ano passado, chegaram a vender quase a metade delas. Conforme Peçanha, 50% dos pedidos vêm de São Paulo. Santa Catarina responde por 10%, “mais de Joinville e Blumenau”.

— Me considero um liberal conservador. Família, para mim, é o núcleo formado por pai, mãe e filho, mas não tento impor isso a ninguém nem quero que o Estado interfira na vida das pessoas — pondera.

Paiva vai além. Para o dirigente do MBL, o Estado não deve se meter na economia nem no comportamento individual. Por isso votou em Peninha em 2014: em seu entender, a prerrogativa de ter ou não uma arma é exclusiva do cidadão. O deputado já teve um .38 quando rodava pelo interior como agrônomo. Desfez-se do revólver por causa da “burocracia”. Com a aprovação do projeto, pretende comprar um novo assim que possível. Ele ainda não decidiu o calibre, mas sempre sacou com a direita.

20190123

Estoicismo

E há um outro sentimento que serve de grande consolo na pobreza. Acredito que todos que ficaram duros já experimentaram. É um sentimento de alívio, quase de prazer, de você saber que está, por fim, genuinamente na pior. Tantas vezes você falou sobre entrar pelo cano – e, bem, aqui está o cano, você entrou nele e é capaz de aguentar. Isso elimina um bocado de ansiedade.
(ORWELL, George, em Na Pior em Paris e em Londres, 1933)

Agora isto aqui vai bombar

Nada como a combinação indigesta nauseabunda de capitalismo burro & gestores selvagens (e vice-versa) para movimentar a IMPRENSA INDEPENDENTE.