20170620

Mallu Mulher

Mallu Magalhães teve que se mudar para a outra margem do Atlântico para fazer seu disco mais brasileiro. No quarto trabalho solo, Vem, a paulistana radicada em Lisboa há quatro anos larga o folk com que despontou em 2007 e abraça ritmos nacionais. Conforme a relação do freguês com a obra da autora, a sonoridade dominante no repertório é digerida como demonstração inconteste de maturidade artística e pessoal ou simplesmente uma guinada sem volta rumo à MPB “universitária”. Ambas as percepções se justificam.



A polêmica em torno do clipe de “Você Não Presta”, acusado de explorar dançarinos negros, colocou em segundo plano a excelência instrumental do álbum. Com produção do consorte Marcelo Camelo e arranjos do craque Mario Adnet, os timbres certos nos lugares certos com a potência certa realçam o frescor retrô de canções como “Culpa do Amor” ou “Pelo Telefone”. Uma suavidade que irriga a sensação de que tudo é diminutivo demais: o samba vira sambinha; a bossa, bossinha; borrando a fronteira entre delicadeza e diluição.

Melhor sorte têm as músicas que não representam a essência do disco. As desbragadas “Será que um Dia” e “Navegador” seriam quase bregas, não fosse Mallu o suprassumo da fineza. “Love You”, a única em inglês, lembra a musa indie de uma nota só que ela não quis se tornar. E os toques de fado de Linha Verde remetem à cidade onde mora. Aos 24 anos, mãe de Luísa, 2, a mocinha que surgiu ainda adolescente cantando “Tchubaruba” tornou-se uma “gata da vida”, como se define em São Paulo. Agora é que vai ficar bom.

Solo da chave-mestra
Um disco solo de um cara que lidera uma banda com somente mais um componente? E o segundo, já?! Pois é. Para quê? Aí vale aquele clichê: em Waiting on a Song, Dan Auerbach dá vazão a abordagens que não acha conveniente – afinal, ele manda – adotar em seu grupo-matriz, o Black Keys. A saber, uma pegada que descamba para o bailinho sessentista, mas engrena mesmo quando avança pelo velho oeste (“King of a One Horse Town”), encarna um Jack Johnson rural (“Never in My Wildest Dreams”) ou apela para a sexy “Cherrybomb”.




 ANÇAMENT
OS



Boogarins, Lá Vem a Morte – Os goianos lisérgicos disseram que se inspiraram muito em artistas experimentais como Flying Lotus no sucessor do aclamado Manual (2015). De fato, prevalecem programações eletrônicas, colagens e efeitos diversos. No meio de tanto conceito, brilha “Onda Negra”, careta como uma boa canção.



Snoop Dogg, Neva Left – Nada contra fazer um álbum que expressasse as várias fases da carreira, como o rapper anunciou. O problema é que em sua trajetória não faltam exercícios de autoindulgência, pilhas erradas ou só preguiça mesmo. Ainda bem que “Go On” evoca o groove de seu último grande trabalho, Bush (2015).



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170607

Você coloca e o mundo fica malucão, diferente do que é

Tudo bem, o brasileiro sempre gostou de psicodelia na música. Basta notar a quantidade de drogas nas paradas de sucesso, hahaha. Sério, de uns tempos para cá bandas que propõem percepções extrassensoriais tem brotado na cena nacional como cogumelos em ambiente úmido e quente. O mais novo fruto desse jardim caleidoscópico chama-se My Magical Glowing Lens, que está estreando em disco com Cosmos. O barato chega neste sábado (10) a Florianópolis, onde os capixabas se apresentam como uma das atrações do 2º Festival Saravá de Cultura Independente.

— Identifico a psicodelia como o movimento da música que luta por igualdade, por uma elevação da alma. Quem faz quer adentrar em algumas coisas que a gente esqueceu, que não entra mais porque fica muito na superficialidade — descreve via celular a guitarrista e vocalista Gabriela Deptulski, uma filósofa que trocou a academia por acordes e versos.



A moça de 28 anos criou o My Magical Glowing Lens após ouvir Tame Impala, os australianos que ajudaram a reconverter a lisergia sonora em tendência. No caso, houve ainda uma razão de ordem prática: se Kevin Parker conseguia fazer aquilo tudo sozinho, ela também poderia tentar. Com microfone de notebook mesmo, começou a gravar. Primeiro bateria, depois guitarras, voz e baixo. A ideia era “criar música para quem gosta de buscar algo além da matéria, um aparato que instigasse esse tipo de pensamento, de libertação”. Daí as tais “brilhantes lentes mágicas” do nome.

— Você coloca e o mundo fica malucão, diferente do que é.

De fato, o incauto viajante põe Cosmos para rolar e se impressiona. As 11 faixas se desenrolam mais fluidas e densas do que as quatro contidas no EP que Gabriela soltou em 2013, quando ainda tinha somente seus insights como companhia e o inglês como idioma das letras. A incorporação de um baixista, um baterista e um tecladista a deixou solta para se aprofundar nos climões que embalam “Sideral”, “Raio de Sol” ou “Tente Entender”. Lá pelo finalzinho, “Supernova” até ensaia dar uma aloprada, mas o tom geral é de transe e bonomia, sem chance para bad trips.

— Não sei nem aonde quero ir, quanto mais aonde chegar. Vamos continuar fazendo música da forma mais bonita, mais sincera possível. A música é muito transformadora nesse sentido, de fazer a gente enxergar coisas que não veria de outro jeito — afirma.

O discurso seria pertinente em qualquer situação, mas torna-se mais oportuno diante do obscurantismo medieval vigente. Junto com expoentes como Boogarins, Supercordas, Tagore ou Bike, o My Magical Glowing Lens se alinha ao bloco de artistas que, entre a descrença e a alienação, adota um caminho que, “querendo ou não, é uma forma de protesto, mesmo não tendo letras políticas”. Ou, como acredita a musicista, “quando você fala de liberdade, já está protestando contra algo que lhe foi imposto”.

(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170531

Dois brasileiros que não desistem nunca

Depois de muita onda e pouco caldo, o Brasil-il-il volta a impor presença na playlist de 2017. E com dois discos de uma vez, sinal inequívoco de que as instituições estão funcionando. Um é Galanga Livre, de Rincon Sapiência. Outro é Boca, de Curumin. Ambos de São Paulo, relativamente conhecidos – somente e olhe lá – pelo nicho que se informa sobre música. Aqui mesmo no jornal, lugar de gente jovem & conectada, seus nomes despertam reações desencontradas. “Curumin apareceu como dica para mim no Spotify, vale?”, consulta uma colega. “Rincon Sapiência, massa”, confirma outra.



Danilo Albert Ambrosio, o Rincon Sapiência, está no radar pelo menos desde 2010, quando despontou com “Elegância”. Daí em diante, assinou com o selo do produtor Rick Bonadio, faturou algum (é o que se espera) estrelando comercial da Caixa e, entre um corre e outro, ia soltando suas rimas a conta-gotas. Afastou-se do profissional que revelou Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr. e NX Zero sem lançar o aguardado disco cheio, com uma pá de faixas para a moçada. Só agora, dirigido por William Magalhães (Banda Black Rio), ele estreia com um álbum completo para chamar de seu.

A lenda do nobre africano Galanga, tornado Chico Rei depois de capturado e vendido como escravo, abre a contenda via “Crime Bárbaro”. A impressão é de que o dedo na cara vai imperar, até o groove tomar conta em “A Volta pra Casa”. Tem espaço inclusive para romantismo, embalado por “A Noite É Nossa” e “Amores às Escuras”. Somadas a singles que já vagavam por aí, como “A Coisa Tá Preta” (uma das melhores do ano passado) e “Ponta de Lança”, perfazem um disquinho bastante palatável, em que a maior virtude – não se limitar à ladainha monocórdia – é também a maior fraqueza: como cantor, o rapper fica devendo.



Luciano Nakata Albuquerque, o Curumin, surgiu em 2005 atirando para diversas direções. A sonoridade contemporânea movida a samba torto, bossa nova errada e reggae de bamba de seus três trabalhos anteriores lhe renderam elogios da crítica e brodagens na gringa. Em um mundo menos imperfeito, teria ficado mais popular a partir de 2011 com “Compacto”. Do hit que não vingou ao estágio atual, pouca coisa se alterou. Continua não havendo nenhuma razão concreta para ele acreditar que desta vez será diferente, apesar da inegável vocação pop soterrada pelo conceito de sua nova empreitada.

Para descobri-la de graça, é necessário superar uma série de incursões que desmontam o formato canção, tão modernas quanto impenetráveis – andar demais com Ava Rocha, que ainda assina a capa, dá nisso. Felizmente, o baterista faz-tudo acerta a mão nas jamaicanas “Boca de Groselha” e “Prata, Ferro, Barro”, mantém a vibração lá no alto em “Terrível” e atinge o baixo ventre com precisão em “Boca Cheia”. Pesando tudo na balança, é grande a probabilidade de eu chegar a dezembro tendo ouvido bem mais Curumin do que Rincon Sapiência. Mas isso não é uma competição, né? E eu adoro minhas colegas.

(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170527

Os discos que ficaram órfãos sem Kid Vinil

Nos obituários escritos em memória a Kid Vinil, não raro o artista falecido há uma semana foi descrito como “uma pessoa muito doce”. Não era elogio para dourar a biografia de quem já transcendeu este plano. Na meia dúzia de vezes em que estive com ele, a gentileza e a ternura que demonstrou foram muito maiores do que seu vasto conhecimento musical. Uma delas foi em 2000, para ouvi-lo falar de seus discos. Como uma forma de homenageá-lo, segue abaixo o resultado do encontro, publicado na seção Minha Coleção da extinta – e, circunstancialmente, saudosa – revista Bizz de junho daquele ano. Esteja onde estiver, nunca deixe o bolachão parar de rodar, Kid.



Disco é apelido

Da porta da sala do apartamento dá para ver seis torres giratórias, com capacidade para uns 500 CDs cada. Em volta, estantes por toda a parte, abarrotadas de vinis. Para onde se olha, estão prateleiras e mais prateleiras com discos. Num canto, o espaço das caixas especiais, dos mais variados artistas, tamanhos e formas. A riqueza de detalhes da paisagem fonográfica é tanta que torna ridículo qualquer trocadilho com a coleção de um sujeito chamado Kid Vinil. O cara tem disco que não acaba mais. “Uns 10 mil LPs dos anos 1960 e 1970 na casa dos meus pais, 5 mil aqui e 6 mil CDs”, calcula o feliz proprietário, que organiza o acervo de um jeito todo particular. “Não tem ordem nenhuma, mas acho o que quero em segundos”, garante.

Como que para provar o que disse, Kid pega de uma estante o compacto de “Magical Mistery Tour”, dos Beatles. “O primeiro disco que comprei, aos 12 anos. Fui com meu irmão aos filmes Os Reis Do Ie-Ie-Iê e Submarino Amarelo e fiquei fascinado pela banda”, conta o apresentador do programa Lado B, na MTV. Na época, 1967, dinheiro para música era artigo escasso no orçamento da sua família. Para poder gastar com rock, ele precisava ser, digamos, criativo. “Torrava a grana do passe escolar”, diverte-se.

Mais tarde, o garoto que ainda atendia por Antonio Carlos Senefonte descolou um jeito melhor de obter os álbuns cobiçados. “Entrou um português na minha classe e apresentou Rolling Stones e Jimi Hendrix para todo mundo”, lembra. “Aí eu pegava os discos dele emprestados e não devolvia”, diz, levantando-se e voltando com a cópia do Beggar’s Banquet [dos Stones] na mão, para confessar em seguida: “Era dele”.

De jovem sem condições para comprar discos a esse maníaco que hoje acrescenta “uns 20 CDs e uns dez vinis” por mês à coleção, o caminho percorrido foi longo. Começou na seção de recursos humanos da gravadora Continental. “Um dia, o presidente da companhia estava atrás de uma música do Seals & Crofts, ‘Fresh Freaks’, que rolava na rádio e ninguém sabia de quem era. Como conhecia a canção, fui promovido para o departamento artístico”, conta. Seu acervo, já com mil títulos, ganhava a oportunidade de rápida ampliação.

Em 1977, a empolgação de Kid – então fã de rock progressivo – com a música dava sinais de cansaço. O punk o salvou. “Meu irmão que não deixou, senão eu ia trocar meus álbuns pelos lançamentos que chegavam na Wop Bop, a loja onde achei God Save The Queen, dos Sex Pistols.” Ao mesmo tempo, pintou também a new wave americana. Assim, no programa que manteve de 1979 a 1981, na rádio Excelsior, ele (estreando o apelido, óbvio para um tarado por discos) mandava “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones, e “Psycho Killer”, dos Talking Heads.

A estas alturas, Kid recebia álbuns de todo mundo e comprava outros tantos. Mas nada que se comparou à fartura proporcionada pelo estouro de “Sou Boy”, em 1983. A bordo da banda Magazine, ele torrava o cachê dos shows em viagens para procurar mais discos. “Ia quatro vezes por ano para Londres e Nova York buscar coisas do Devo, Runaways, The Dickies…”, enumera. Com o fim do grupo, em 1987, Kid voltou para o rádio e iniciou na TV Cultura, nos programas Boca Livre e Som Pop, até 1993. Daí em diante, retornou às gravadoras, primeiro na Eldorado e atualmente na Trama.

Agora, imagine quantas vezes ele já não escutou a piadinha: “Ei, quando é que você vai mudar seu nome para CD?”. Na verdade, Kid resistiu ao laser. "Conheci em 1987, na Alemanha, mas só comprei um aparelho em 1992, porque ganhei uma caixa de singles dos Stones”, afirma. “Da década de 1990, por exemplo, muitas bandas só tenho em vinil”, diz, puxando LPs do Primal Scream, Happy Mondays e Inspiral Carpets. “Mesmo assim, devo ter uns mil discos nos dois formatos. Sou fã dos grafismos, das capas, da arte que se perde com o CD.”

Kid vai ilustrando suas predileções com uma infinidade de picture discs, tiragens limitadas, capas com dobras malucas. No meio de tantas opções, reconhece que os mais tocados são Dead Boys, New York Dolls e Blondie. “Não me canso de ouvi”, conta ele, que teve seu primeiro contato com a música pop aos sete anos, por intermédio de uma tia fã de Elvis Presley. Aliás, na estante de cima estão três caixas do Rei do Rock, lacradíssimas. “Não tive tempo de abrir”, alega, enquanto aponta para outras caixas igualmente virgens. Mas, só de poder sentar no sofá e contemplar cada item de sua coleção, Kid já está satisfeito.

Prateleira especial

Faces | A Nod Is as Good as a Wink
“Meu guru na época, 1971/72, o jornalista Ezequiel Neves, escreveu loucuras sobre a banda. Foi uma abertura para outros sons. E as pegadas de guitarra de Ron Wood me enlouqueciam. Com o piano boogie, então, era um casamento perfeito.”



Dead Boys | We Have Come for Your Children
“Eu tinha um programa de punk na rádio Excelsior e rolava essas coisas todas. Esse disco me chamou a atenção porque eles fizeram uma versão fantástica de ‘Tell Me’, dos Stones. Até hoje, é uma das minhas bandas prediletas.”



Chicago | VI
“Eles faziam uma fusão de jazz e rock com sabor pop que marcou minha adolescência. E eu sempre gostei da parte gráfica dos discos deles, adorava o jeito que eles exploravam o logotipo da banda. Esse é em papel-moeda, mas tem imitando ferro, chocolate, madeira…”



Raspberries | Side 3
“Minha cópia é importada, mas saiu no Brasil na mesma época (1973) pela EMI, com essa capa recortada e tudo. É uma das bíblias indispensáveis para se entender o power pop. É a banda do Eric Carmen, que depois virou um bregão.”



Streets (coletânea)
“Traz uma banda chamada Nose Bleeds, com Morrissey [Smiths] nos vocais e Billy Duffy [The Cult] e Vinny Reilly [Durutti Column] nas guitarras. Nunca saiu em CD, paguei 60 dólares em uma loja em Los Angeles. Na Inglaterra, não se acha ele por menos de 300 libras.”



Elephant’s Memory | Elephant’s Memory
“Era uma banda que chegou a acompanhar John Lennon, antes da Plastic Ono Band – inclusive o primeiro disco deles foi produzido por John e Yoko. Este é o segundo trabalho do grupo, regado a psicodelia total. Basta dar uma conferida na capa.”



(coluna publicada ontem no Diário Catarinense)

20170520

Chegou o Método Psicoafetivo de Pontuação de Discos©

As instituições continuam funcionando. Isso significa que você pode se preocupar com coisas que realmente importam – como a sua coleção de discos, cada vez mais obsoleta. O já consagrado “advento da internet” fez com que as pessoas trocassem a mídia física por arquivos e, na sequência, pelo streaming. Aquele montaréu de CDs tornou-se um entulho desnecessário, que só denuncia a idade de seu proprietário. Por mais que tenha sido conquistado com tanto esforço, cuidado com tanto carinho e exibido com tanto orgulho, é chegada a hora do desapego.

Mas como selecionar o que fica e o que vai embora?



Seus problemas acabaram! O revolucionário Método Psicoafetivo de Pontuação de Discos© estabelece critérios simples e objetivos para separar as obras que você deve manter das que devem ser dispensadas. Primeiro, defina quantos discos pretende descartar. Em seguida, submeta seu acervo às condições abaixo:

– Se é um clássico: 10
– Se você tem o disco há mais de dois anos e nunca o ouviu: -10
– Se você nunca ouviu o disco inteiro: -5
– Se você já ouviu o disco inteiro mais de uma vez: 1
– Se você já ouviu o disco inteiro mais de 10 vezes: 10
– Se tem dedicatória: 2
– Se é autografado: 2
– Se o autor tornou-se mais conhecido depois que encerrou a carreira/morreu: -5
– Se o autor voltou à ativa depois de ter encerrado a carreira: -10
– Se você já tiver outro disco do autor: 1
– Se você já tiver mais de dois discos do autor: 3
– Se você conhece o autor pessoalmente e gosta dele: 5
– Se você conhece o autor pessoalmente e não gosta dele: -5
– Se você não só conhece o autor, como ele é seu amigo e visita sua casa com frequência: 20
– Se depois de ouvi-lo você comprou outro exemplar para dar de presente: 3
– Se ganhou de presente: 1
– Se ganhou de um ex-namorado ou ex-namorada que deixou boas lembranças: 5
– Se ganhou de um ex-namorado ou ex-namorada que deixou más lembranças: o que você ainda está fazendo com essa p* de disco?
– Se emprestou o disco, não devolveram e você comprou outro: 8
– Se emprestou de novo, não devolveram de novo e você comprou outro de novo: -5

Agora basta somar os pontos. Os discos com a menor pontuação serão descartados, até atingir a quantidade que você estipulou para se livrar, deixando assim espaço de sobra para o acúmulo de novas tralhas. Dica: todos os discos que tiverem pontuação negativa não merecem um lugar na sua prateleira e no seu coração. O método vale também para arquivos. Não, não precisa agradecer. A gente está aqui para isso.

***


Nunca saberemos o que leva um artista talentoso, idolatrado e bonito como Chris Cornell a, conforme apontam as investigações, tirar a própria vida. Fica o vozeirão que embalou uma geração com “Outshined”, a “Born to Be Wild” dos anos 1990.



(coluna publicada ontem no Diário Catarinense)

20170512

Às mães do pop e até àquelas que não gostam de música

O pai do rock, ensinou Raul Seixas, é o diabo. E a mãe, quem seria? Segundo a Wikipédia, o título vai para Rosetta Tharpe, uma cantora e guitarrista negra que sacudiu os Estados Unidos na década de 1940. Casada com um pastor pentecostal, sua música abalou os dogmas da igreja, mas arrebanhou uma legião de fãs ilustres – entre os quais Elvis Presley, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Johnny Cash e Little Richard, todos convertidos pela energia da sista. Daí ser atribuída a ela a maternidade do ritmo bastardo.



Em homenagem às mães do rock & demais gêneros que compõem o pop (e até àquelas que não gostam de música, se é que existem), veja abaixo uma lista de músicas que, de forma direta ou enviesada, são dedicadas a elas:

“That’s Allright Mama”, Elvis Presley | Primeiro single do rei, apenas. O que ele não imaginava é como tudo ia ficar muito melhor depois do lançamento da versão endiabrada de um blues de Arthur Crudup, em 1954. Em 7 de julho daquele ano, o DJ Dewey Phillips a tocou na rádio. O resto é aquela história.



“Mamãe Coragem”, Gal Costa | Miudeza escondida no meio dos clássicos do disco-manifesto Tropicália, traz a baiana defendendo a letra de Caetano Veloso e Torquato Neto. Se fosse escrita hoje, talvez sugerisse o celular como antídoto para a saudade. Pode dormir tranquila, está tudo bem.



 “Mother”, John Lennon | Acompanhado por Ringo na bateria e Klaus Voorman (autor da capa do do disco Revolver) no baixo, o ex-beatle abre o primeiro disco solo falando da mãe (“você me teve, mas eu nunca tive você”) e do pai (“você me deixou, mas eu nunca te deixei”). Pela infância que teve, bota autobiográfico nisso.



 “Mande um Abraço pra Velha”, Mutantes | A saudação devia ser endereçada ao que a banda costumava ser até 1972. Foi a última gravação de Rita Lee com o grupo. Dali para frente, sem ela e com Arnaldo Baptista meio desligado, Sergio Dias assume o leme criativo e o frescor descamba para o progressivo.



 “Ave Maria da Rua”, Raul Seixas | Quem vê o maluco beleza simplesmente pelo lado místico-folclórico não sabe o que está perdendo. Sem compromisso com bandeira nenhuma, o baiano abriu o coração para louvar aquela que está “no lixo dos quintais, no amor dos carnavais, no tapa e no perdão, no ódio e na oração”.



“Mother”, Pink Floyd | Como se não bastasse a perda do pai na guerra e o bullying na escola, o atormentado protagonista de The Wall ainda tem que lidar com uma mãe superprotetora. Para a senhorinha em questão, o filho nunca poderá voar, mas ela pode deixá-lo cantar. Resumindo, será sempre um bebê.



“Só as Mães São Felizes”, Cazuza | Certamente muitas das situações listadas foram experimentadas pelo cantor. Certamente também muitas foram inventadas só para infernizar a mãe. A reação de Lucinha Araújo, depois de enterrar o filho, foi a mais carinhosa possível: batizou o livro sobre ele com o nome da música.



“Mãe”, Emicida | Tirando Eminem, está para nascer o rapper que não louve a mãe. Não é diferente entre os manos que rimam em português. O contexto se repete: guerreira, abandonada pelo pai da criança, se desdobrando para o moleque não cair em pilha errada. Aí o cara cresce e vira artista. Valeu a pena.



 “Nem Mãe nem Puta”, Kleyderman | O projeto paralelo dos titãs Branco Mello e Sérgio Britto (mais a baterista Roberta Parisi) teve vida curta nos anos 1990, mas deixou como legado esta obra-prima de concisão em homenagem não somente às progenitoras, como às loucas mais amadas do mundo.



“Coração de Luto”, Teixeirinha | O gaúcho “coração do Rio Grande” fez o Brasil chorar com o relato em milonga & versos da ardente tragédia ocorrida com dona Liduina quando ele tinha nove anos. Só os críticos não ficaram comovidos, dando à canção o cruel apelido de “churrasquinho de mãe”.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20170502

Rapper inovador vira sambista tradicional

Lá vem Criolo com seus lararás. Amante assumido de samba, o rapper paulistano lançou na última sexta-feira um disco inteiro devotado ao estilo. Espiral de Ilusão vem acompanhado por uma revista com uma entrevista com ele, as cifras e as letras das dez faixas, todas inéditas – o pacote (MP3s e PDF) está disponível para download gratuito no site do artista. Durante pouco mais de meia hora, o rimador que quebrou barreiras no hip hop nacional se torna o cantor reverente aos bambas do gênero. Sai a inovação, entra a tradição.



O tipo de samba que Criolo apresenta agora é da mesma linhagem que já tinha aparecido em amostras como “Linha de Frente” (do álbum Nó na Orelha, em 2011) e “Fermento pra Massa” (de Convoque seu Buda, em 2014): puro, movido apenas a cavaquinho, violão de sete cordas, percussão, sopros e coros, sem procurar nenhuma batida perfeita resultante de uma eventual mistura com rap. As variações ocorrem dentro do próprio universo do ritmo, na cadência de vertentes que vão do fundo de quintal ao recôncavo baiano.

Exceto nas politizadas “Menino Mimado” e “Cria de Favela”, os versos relatam situações cotidianas com mais cara de presepadas do que de denúncias e, principalmente, sofrem por desamores. Mas ainda é difícil associar o sambista Criolo ao dengo de Martinho da Vila (“Lá Vem Você”), ao lirismo de Paulinho da Viola (“Dilúvio da Solidão”) ou à malandragem de Moreira da Silva (“Filha do Maneco”) sem forçar alguma barra. “O samba não é quando você quer, é quando seu coração está preparado”, diz ele. Resta saber se os fãs também estão.

Delícias do campo
A pacata São Pedro de Alcântara, na Grande Florianópolis, vai mais uma vez estremecer com o Rural Rock Fest. O festival, que estava em estado de animação suspensa desde 2008, desperta de 12 a 14 de maio com uma série de atrações (em ordem alfabética, para evitar ciumeira): Alkanza, Apicultores Clandestinos, Babba, Blame, Burn, Circo Quebra Copos, Da Caverna, Eutha, Five Boys, Katts, Leite de Velha, Napkin, Ninguém Sabe, Os Costeletas, Os Indirigíveis, Parafuso Silvestre, Tumor do Bile, Reus, Rock Roach, Skrotes, The Dolls e Zoidz. Os ingressos estão à venda na Roots Records, no Centro Comercial ARS, na Capital, por R$ 30 e R$ 40 (na hora será R$ 50). Para mais informações – como local, por exemplo –, procure por Vinicius Zimmerman (Vina da Caverna) nas redes sociais. E não esqueça do repelente!




 ANÇAMENT
OS



Gorillaz, Humanz – O quinto álbum do projeto liderado por Damon Albarn (Blur) mostra como nem as bandas virtuais conseguem se livrar maldição do retorno. O que era frescor no início do século virou uma xaropice sem fim, com a (des)vantagem de que ninguém ali é real para se sentir ofendido com as críticas negativas.



Delinquent Habits, It Could Be Round Two – Em 1996, eles despontaram com “Tres Delinquentes”. Sem jamais repetir o sucesso inaugural, o grupo – ainda apadrinhado por Sen Dog (Cypress Hill) – desova uma nova leva de raps com a típica batida da costa leste dos Estados Unidos e uma ou outra rima em spanglish. Fica “Over and Over” como sinal de confiança.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)