20181008

Bode

Se você votou em um determinado candidato e não hostilizou nenhum eleitor adversário no caminho até a seção, não levou criança vestida de milico com metralhadora na mão nem se exibiu com o cano de um revólver diante da urna, parabéns por agir como uma pessoa normal. Mas tenha também em mente que:

Você considera mulheres, negros e gays como seres inferiores.

Você não respeita ninguém.

Você acha que tiro, porrada e bomba são solução.

Você acredita que quanto menos direitos, melhor.

Você despreza a ciência, o conhecimento e a pesquisa.

Você rejeita a verdade.

Você odeia tanto que não consegue enxergar mais nada além da bolha que construiu para si.

Você simplesmente não se importa.

Ainda dá tempo de você escrever um bonito testemunho de regeneração em sua biografia. Ou continuar assim e depois fingir que não participou da farsa. Mas aí talvez seja tarde para escapar do julgamento da História.

20180915

Mergulhe no disco novo de Mahmundi para espantar dias ruins

A realidade deste jeito e Mahmundi chega com um disco chamado Para Dias Ruins. A tentação de relacionar o oportuno nome do segundo trabalho da carioca com a situação é grande. E precipitada também: não resiste a uma passeada pelas nove canções esparramadas em 32 minutos sobre sol, amanhecer, verão e outras manifestações trópico-sazonais invocadas pela cantautora para falar do que importa de verdade na vida (leia entrevista abaixo).

O som continua soprando aquela brisa fresca, sem o cheiro tão impregnado do pop dos anos 1980 revisitado que marcava a estreia. Embora nunca tenha rejeitado (nem alimentado) essa influência, Mahmundi a deixa fluir até se tornar quase indistinguível. No single "Qual É a Sua?", recorre a um reggaezinho. A baladona "Outono" evoca uma atmosfera meio bluesy. "Tempo pra Amar" cai no R&B. "As Voltas" e "Eu Quero Ser o Mar" saúdam o poente à beira da praia.

Está tudo muito bom, tudo muito bem com Mahmundi em se afastar do rótulo. Questão de gosto, mas neste cantinho infinitesimal do litoral internético o calor bate mais forte quando o álbum envereda sem pudores por levadas, timbres e efeitos da década em que a artista de 31 anos nasceu – primeiro com "Alegria", e, de forma mais literal, movida pela batida charm de "Imagem" e pela onda maneiríssima de "Vibra". Não há dia ruim que resista.



ENTREVISTA
| Mahmundi 

O nome do disco tem a ver com o contexto atual do país?
Arte é uma coisa muito doida porque cada um vê o que quer. Estes últimos dois anos foram superdifíceis, e é óbvio que isso tem a ver com o país e minha localização nesse cenário como indivíduo. Mas não é sobre o processo político, é sobre a atmosfera ao redor, independentemente da vida que a gente leva. É mais sobre como você lida com as suas coisas em dias ruins.

É seu primeiro lançamento por uma grande gravadora (Universal), mudou alguma coisa?
Não mudou nada, só tem um suporte maior de profissionais que me dão recursos financeiros para investir em uma obra.

Isso não é melhor?
Para mim, foi. Cada artista reage de uma forma, depende também do que ele espera de uma grande gravadora, se sucesso como compositor ou como intérprete. Sou produtora musical e já estava muito bem resolvida em relação ao que eu queria fazer.

O que você espera, então?
Como já falei, amplia a imprensa, o alcance aos veículos. Mas sempre vai partir do produto inicial, que é a música. Antes eu estava em uma carreira independente muito mais focada em minhas pesquisas, fazendo um disco para me desenvolver. Agora, em uma multinacional, eu dialogo com um mercado maior. Mesmo assim, depende do perfil de cada artista, de como se apresenta, de como quer ser trabalhado, ser visto. A gravadora me deu essa confiança e eu pude testar outras sonoridades.

Como você quer ser vista?
Já passei dessa fase. Na verdade, os 30 anos, a maturidade, dão uma oportunidade para você descobrir calmamente quem você pode ser, uma autoconfiança para você não querer ficar “printando” seu ego por aí. Sou muito consciente do que eu sou e quero fazer música boa. Quero que as pessoas ouçam e que esse trabalho se consolide pelas canções.

(coluna publicada ontem no Diário Catarinense)

20180710

Nos 60 anos da Bossa Nova, uma playlist para mostrar a influência do gênero

Era para demorar no máximo quatro horas, tempo que a maioria dos cantores levava para gravar duas ou três canções. Mas não João Gilberto, que podia ser tudo, menos um cantor dado a arroubos operísticos, típico da época. Assim como não era convencional o tipo de música que ele se propunha a fazer para embalar sua voz miúda, quase sussurrada: delicada em vez de grandiloquente, cheia de nuances, com uma batida diferente e harmonias que desafiavam o padrão vigente. A Bossa Nova – como ficaria conhecido o estilo idealizado pelo baiano – pedia passagem.

Depois de muitas brigas de João com os instrumentistas que o acompanhavam para que entendessem a sonoridade que ele buscava, finalmente naquela quinta-feira foram registrados os takes definitivos de “Chega de Saudade” e “Bim Bom” no estúdio da Odeon no Rio de Janeiro. O resto é uma história que completa 60 anos neste 10 de julho, transformada em romance por Ruy Castro no livro homônimo ao lado A do compacto.

Embalada pelo primeiro título do Brasil em Copas do Mundo, conquistado 12 dias antes, a Bossa Nova iria se tornar a trilha sonora de um país com um futuro brilhante. Éramos os reis do futebol, a tenista Maria Esther Bueno ganharia o torneio de duplas de Wimbledon, produzíamos carros e a nova capital logo ficaria pronta. Entre esperanças frustradas e promessas não cumpridas, restou o poder emanado a partir de um banquinho e um violão.

Para Santa Catarina, a Bossa Nova tem ainda um significado especial: o maior nome da música do Estado, Luiz Henrique Rosa (1938-1985), começou identificado com o ritmo e nele compôs algumas de suas melhores canções. O disco independente Mestiço, quando já havia se bandeado para outras paragens sônicas, é o único trabalho do catarinense no Spotify, que fez uma compilação sobre o gênero. Mas na plataforma de streaming se acha material para montar a playlist abaixo, mostrando a influência daquela que seja, talvez, a maior contribuição nacional à cultura mundial.

(obs.: “Blue Island”, creditada apenas a Walter Wanderley, originalmente faz parte de Popcorn, disco gravado em conjunto por ambos em 1967.)


(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20180516

Pretensão e arte andam juntas na volta dos Arctic Monkeys

Decorridos cinco dias do lançamento, o tão aguardado sexto disco dos Arctic Monkeys continua dividindo coraçõezinhos indies. Tem gente que detestou, gente que a-mou, gente que ainda está confusa e gente indiferente – todas com a mesma intensidade e precipitação típicas do mundo feito de novidades que perdem qualquer apelo tão logo nascem. Por aqui, a única certeza é de que Tranquility Base Hotel and Casino fica melhor a cada audição.

Em vez de tentar reproduzir a pegada com a qual ampliou seu público de forma exponencial há cinco anos, a banda inglesa surpreendeu as expectativas com um álbum imprevisível. Massa, como o Radiohead fez em 2000, quando desafiou o senso comum com Kid A na sequência do estourado OK Computer. Sim, mas demais mesmo foi o caminho tomado pelo bando de primatas liderado por Alex Turner para eliminar as comparações com o antecessor AM.

Pistas de que o guitarrista e vocalista andava se satisfazendo com outros sons, poucas batidas & alguma pulsação vinham do Last Shadow Puppets, o projeto paralelo que o ocupou em 2016. O que ninguém supunha era o quanto o solteiro de 32 anos – desde os 22 na fita e antes dos 30 dono de um patrimônio de mais de 9 milhões de libras (cerca de R$ 45 milhões), uma das pessoas mais cool do planeta para a imprensa inglesa – já estava farto do rrrock.



De cara, o pasmo pela discrição das guitarras soterra qualquer outra impressão sobre o disco. Exceto esta “Four Out of Five” recém-promovida a single, com potencial para ser lado B extravagante na obra anterior, nada se assemelha ao histórico do grupo. O piano, que Turner aprendeu a tocar ainda criança e retomou ao ganhar um em comemoração ao seu retorno de Saturno, domina o cenário. Baixão só chega chegando, senão nem aparece.

Tudo é lento, retrô, meio classudo, meio bregoso. Embora nenhum refrão marque, o clima não sai da cabeça. É sério? Vencida a cabreirice, “Star Treatment”, “American Sports” e a faixa-título revelam que, na proposta do macaco-mor, a Base da Tranquilidade (pedaço da lua onde o homem pisou pela primeira vez, em 1969) que batiza o trabalho é um ponto do espaço que orbita em torno de astros como David Bowie e Serge Gainsbourg.

Nem sempre, porém, a viagem transcorre em céu de brigadeiro. Bem-vindos solavancos ocorrem em “She Looks Like Fun” e “Batphone”, quase experimentais se comparadas com a atmosfera reinante. A recepção no hotel e cassino fica por conta de “Ultracheese”, uma das baladas mais passionais dos Arctic Monkeys. Graça e mistério, conforto e desalento, desprendimento e pretensão – em um disco de música pop, ora pois.

Há uma citação que cabe à perfeição para explicar qual é a sensação provocada ao final dos 40 minutos consumidos pelas 11 faixas. É de Steve Jobs, e por aí você tira o quão longe os Arctic Monkeys foram; para que uma frase que provavelmente se referia a algum I-treco servir como comentário definitivo sobre, vale repetir, um disco de música pop. Ei-la: “A moda é o que parece bonito hoje mas irá parecer feio depois; arte pode ser feia em um primeiro momento, mas se torna bonita depois.” Tipo isso.



(coluna publicada hoje no Diário Catarinense)

20180411

Nada disso seria possível se não fosse o Balão Mágico

Faltava um artista que unisse todas as tribos como o Norvana (a/c Dinho Ouro Preto). Não falta mais: a volta d’A Turma do Balão Mágico conseguiu a façanha de colocar no mesmo lado coxinhas e mortadelas, magistrados e legalistas, heteronormativos e transexuais. A ampla coalizão formada para avacalhar com a tentativa de três quarentões cantarem músicas infantis sem cair no ridículo só não encontra respaldo maior aqui porque o retorno do grupo é o tipo de notícia que mexe demais com a memória afetiva.

(Spoiler: vem aí mais um papo furado em primeira pessoa.)

Pela manhã, eu me defendia como diagramador na revista da Associação Brasileira do Cavalo Quarto de Milha. À tarde, como editor de música na revista General. Os dois empregos eram inspiradores e pagavam o aluguel, mas não representavam exatamente o que havia me levado a trocar Florianópolis por São Paulo naquele ano de 1995: a busca pelo suposto Glamour do Jornalismo. Traduzindo, a vontade de trabalhar em um grande veículo impresso, que eu não precisasse explicar o que era, onde circulava e qual a tiragem.

Então Simony apareceu. Em nova tentativa de reviver os dias de glória, ela anunciou que lançaria um disco solo. Como eu fazia parte da “imprensa musical”, recebi o convite da assessoria da gravadora para entrevistá-la. Na mesma semana, calhou de outra gravadora (bons tempos) pagar passagem aérea (ótimos tempos) para jornalistas assistirem a um show dos Mamonas Assassinas em Curitiba (tempos estranhos). No voo, encontrei Ricardo Alexandre, de O Estado de S. Paulo. Azar o dele.

O avião ainda rodava pela pista de Congonhas e eu já estava sugerindo um frila para o Estadão com a Simony. Ricardo alegou que, se fosse para falar com ela, ele próprio faria isso. Fui persistente – ou xarope, dependendo do ponto de vista: e se a gente (cumplicidade é tudo) fizesse uma bela reportagem com o que aconteceu com aquelas crianças que encantaram o país na década de 1980. Negócio fechado. Ricardo ficaria com Simony e Jairzinho, eu com Mike e Tobi (vejo que agora o “i” do apelido sumiu, deve ser numerologia).

O problema era que eu não fazia a menor ideia de como iria achá-los. Liguei para a assessora topando a entrevista oferecida com Simony, talvez ela mantivesse contato com eles. Conversamos quase duas horas sobre o repertório do disco e os planos para a carreira. Tudo enrolação. Meu único interesse era, entre perguntas protocolares, descobrir se ela tinha o telefone de seus ex-colegas de Balão Mágico. O “sim” me deixou mais excitado do que sua transformação em mulher, exibida pela Playboy no ano anterior.

Mike estava trabalhando com produção musical e superdisposto. Com Tobi, foi o oposto. Disse que não era a fim de falar, que era tímido, que sei lá o quê. “Meu chapa, sou repórter, vim de Santa Catarina e preciso te entrevistar. É minha chance de publicar em um grande jornal, estou na correria que nem tu”, apelei. Funcionou. No dia seguinte, lá estava eu na casa de classe média em que ele morava com os pais (ou só com a mãe, não lembro e o acervo do Estadão é fechado a não assinantes) no ABC paulista.

Antes tão reticente, Tobi abriu o coração. Contou que se chamava Vimerson, estava cursando Jornalismo e planejava trabalhar com rádio e TV. Que compunha e sonhava em voltar ao meio artístico assim que o tratamento contra as perebas do rosto desse resultado. Cercado por discos de ouro (do Balão Mágico) pendurados na parede, pegou o violão e me mostrou suas músicas. Gostei mais do café com bolo servido por sua amável mãe. Saí de lá com uma boa história, louco para ver meu nome em um dos maiores e mais respeitados diários do país.

Quando vi a matéria publicada, levei um choque. A editora havia colocado o título “Tobi promete voltar quando acabar com as espinhas”. A mãe dele ligou para o jornal atrás de mim. Deram o telefone da revista onde eu trabalhava. “Ligação para você, é uma senhora dizendo que é mãe de um tal de Vimerson”, avisou a recepcionista. Putz! Respirei fundo e fui enfrentá-la, já imaginando tomar uma mijada – e pronto para explicar que eu não tinha nada a ver com aquela sacanagem.

Para minha surpresa, ela só queria agradecer. Alguém de uma emissora de televisão vira a reportagem e chamou Vimerson para um estágio. Aí eu desabafei. Confessei que esperava um esporro dela pela sacanagem feita com o Tobi, que a gente capricha para escrever uma matéria e vem uma editora e estraga tudo e que jornalista é tudo mau-caráter mesmo. A mulher riu do meu desespero. “Não liga, meu filho. Deus escreve certo por linhas tortas”, despediu-se. Meses depois, eu seria contratado pelo Estadão, dando início a uma trajetória de conquistas que minha modéstia impressionante me impede de listar.

(coluna publicada ontem no Diário Catarinense)

20180325

Miranda, o amigo que fazia qualquer um se sentir especial

E foi-se o Miranda. Tudo o que eu queria dizer sobre ele foi escrito pelo Barcinksi e pelo Matias. Que a música brasileira teria tomado outro rumo na década de 1990, não fosse o Miranda a encampar – tanto como jornalista quanto produtor – a renovação no pop nacional. Que não economizava em distribuir elogios e conseguia fazer cada alvo de sua generosidade se sentir especial de um jeito único. Que qualquer um que teve a graça de conhecê-lo vai lembrar de alguma história vivida com ou por ele para contar.

Em agosto de 1994, o Miranda já era “o” Miranda e eu não passava de um jacu formado há um ano em Jornalismo. Trabalhava em uma entidade patronal e continuava a fazer o fanzine com que havia obtido o diploma na profissão. O emprego pagava as contas. O hobby alimentava a ambição de fazer parte da imprensa musical, renovada a cada vez que eu ia ao correio enviar a nova edição às pessoas das quais eu sonhava em me tornar colega – Miranda incluso.

Foi quando a prefeitura de Belo Horizonte inventou um festival chamado BH Rock Independent Fest (BHRIF). Fiquei muito a fim de ir. Liguei para lá, expliquei que era um representante da “mídia independente” e, como tal, dependia da caridade alheia. Seria possível me ajudarem de algum jeito? Responderam que não tinham como bancar as passagens, apenas a estadia. Já servia. Meti um atestado no serviço, peguei um ônibus de Florianópolis para Curitiba, outro de Curitiba para a capital mineira e, 22 horas depois, desembarquei no terminal rodoviário Governador Israel Pinheiro.

A organização cumpriu o combinado e me alojou em um baita hotel no bairro Savassi, o mesmo em que estavam hospedadas as atrações, gente da indústria fonográfica e repórteres do eixo Rio-São Paulo. Logo no primeiro dia, avistei aquele então cabeludo inconfundível, que eu só conhecia por fotos. Morrendo de medo de levar um gelo, cheguei perto e me identifiquei. “Bah, velhinho, tu é f*! Fica aqui comigo, vou te apresentar para um pessoal”, recebi em troca. O Miranda nunca tinha me visto antes e já me tratava como se fôssemos amigos desde sempre.

E assim foi até o final do festival: eu do lado dele e ele me anunciando a músicos e jornalistas como a última coca-cola do engradado. Na última noite, Miranda perguntou para onde eu ia. Respondi que iria voltar para Florianópolis. “Nada disso”, cortou ele. “Tem um ônibus fretado para a turma de São Paulo, tu vai junto e fica lá em casa.” Foram mais três dias rodando por redações e estúdios, com Miranda exagerando sobre minhas qualidades. Na despedida, o conselho: “Tu tem que vir para cá.”

Seis meses depois, eu estava de mudança para São Paulo – e lá estava Miranda, disposto a ajudar a me estabelecer. Ligava para um, marcava reunião com outro, dizia que um chapa dele de Floripa estava procurando trampo e que quem me desse uma chance não iria se arrepender. Com o tempo, nossos encontros rarearam, mas quando rolavam parecia que não fazia nem uma semana que a gente não se via. Inclusive na Ilha, onde ele vinha com certa frequência visitar a mãe em Jurerê.

Com Miranda, além de uma deliciosa receita de molho de tomate que sigo até hoje, aprendi para que serve dinheiro. “Compra um monte de gibi, disco, livro. Quando tu não tiver grana, fica em casa lendo e ouvindo tudo”, dizia. Também descobri que ser torto não significa preferir a empulhação ao talento. “A gente é maluco, mas gosta de coisa boa”, ensinava ele, com a tranquilidade de quem fez de “só alegria” e “excelente” os seus bordões. Obrigado, velhinho!

(coluna publicada anteontem no Diário Catarinense)

20180310

Novo, vasto & infinito: os 20 anos d'Os The Darma Lóvers

Neste 2018 completam-se 20 anos que Os The Darma Lóvers estão desmanchando o rígido, desfazendo críticas, sendo carregados pelo rio que transforma. Puro pretexto – ou gancho, no jargão do menino Jornalismo – para lembrar de uma das manifestações sônico-espirituais mais preciosas do pop brasileiro desde a piração racional de Tim Maia: um casal embrenhado em um mosteiro budista no interior do interior gaúcho, a viver e meditar e espraiar mensagens simples em melodias bonitas e vice-versa.

Nenung e Irinia viviam como seres urbanos. Raivosos, tristes, calados; um tipo bem estranho de bicho. Ele, na banda A Barata Oriental. Ela, em uma agência de publicidade. Até ouvirem o cara que nasceu da flor e formarem a dupla em 1998. No final de 2000, saiu o homônimo disco de estreia. “Branquinho” era tão minimalista quanto a capa que lhe rendeu o apelido. Violão e voz com sininho aqui, pianinho ali, harmônica e cordas pontuais a irradiar aromas folk e palavras singelas. Foi conversão imediata.

Em março de 2001, caiu do céu uma viagem de São Paulo a Porto Alegre para cobrir a gravação do disco ao vivo da Tribo de Jah em tributo a Bob Marley no Opinião. Era a oportunidade que eu precisava. Decorei as Quatro Nobres Verdades, vesti uma camiseta com estampa do ideograma do Om e me mandei para Três Coroas. Mais precisamente, para o topo de um dos morros que cercam a cidade a 90 quilômetros da capital gaudéria, onde repousa o Chagdud Gonpa Khadro Ling – lar dos Darma Lóvers.

Caminhões com material de construção não paravam de subir a estrada de terra rumo ao primeiro templo no Brasil erguido nos moldes tradicionais tibetanos. Pedreiros se ocupavam com oito blocos de concreto em frente ao prédio principal. Nenung me explicou que eram as stupas, representações das qualidades da mente iluminada e dos feitos extraordinários do Buda – não o único, mas o histórico, Sidarta Gautama. Forradas de cobre e bronze, elas comportam relíquias e textos sacros.

Mais adiante, enormes cilindros de ferro fizeram com que o músico voltasse a me socorrer. Com paciência milenar, ele disse que se chamavam rodas de oração e guardavam milhares de mantras (combinação de sons que simbolizam e comunicam a natureza de uma deidade e que conduzem à purificação e à realização) escritos e abençoados. Quando giradas em sentido horário, correspondem à recitação de todas as preces ali contidas. Eu não tinha nem entrado no templo e já me sentia pronto para atingir o nirvana (libertação).

Lá dentro, pinturas em padrão tibetano decoravam as paredes e o teto. Ao fundo, havia estantes com os livros sagrados e centenas de taças com água em uma espécie de altar que tomava toda a largura do recinto. Fiéis munidos de sadhanas (guia de meditação) sentavam em posição de lótus em colchonetes espalhados pelo chão para louvar Tara, a bodhisattva (alguém que desenvolveu bodhicitta, a aspiração de alcançar a iluminação em benefício de todos os seres) feminina da compaixão.

O casal morava em um conjunto anexo ao mosteiro e seguia uma rotina de puja (prática conjunta de meditação) às 6h, café da manhã às 7h30, trabalho até as 19h, mais puja para fechar o dia. Nenung recepcionava enxeridos como eu. Irinia ajudava na administração e cozinhava para Rinpoche – nascido no Tibete em 1930 e reconhecido ainda guri como a 16ª reencarnação do abade do monastério de Chagdug, naquele país. Com a ocupação chinesa em 1959, ele deixou a terra natal, rodou pelos EUA e se fixou em Três Coroas em 1995.

Autoridade máxima do mosteiro, foi Rinpoche quem rebatizou Irinia como Yang Zan (“melodiosa”, em tibetano) e Nenung como Pema Gyalpo (“rei do lótus”). Ué, Nenung já não era um nome oriental? “Não, vem de Pedro Verdum, jogador do Internacional na década de 1980. Minha turma começou a tirar sarro. Marcelo virou Marcelum; Marco, Marcum. Como sou Luís Fernando, apelidado de Neno, virei Nenum”, elucidou o dono da alcunha. Aí, bastou trocar o “m” por “ng” para ficar com cara de algo do outro lado do mundo.

Deixei os Darma Lóvers se dedicarem à última puja do dia e fui embora com um mala (espécie de rosário budista) no pescoço e um monte de energia positiva no coração. Voltei a falar com Nenung por telefone em 2002, por ocasião do lançamento do segundo álbum, Básico. Ele me contou que estava se preparando para o “desdobramento natural” de seu “projeto musical/existencial”: o isolamento em um retiro de três anos, três meses e três dias, com término previsto para 7 de setembro de 2005.

Fui reencontrá-los no extinto bar Drakkar, em Florianópolis, no show com base no disco Laranjas do Céu, de 2004. Não lembro se foi naquele ano mesmo (o que significaria que Nenung abortou o período de clausura) ou no seguinte, mas ainda tenho o CD autografado me desejando muita luz. Desfrutei de Simplesmente (2009) e Espaço! (2013), os trabalhos posteriores, mais como fã do que como “profissional da imprensa musical”. Nunca mais tive contato com eles desde então.

Rinpoche desencarnou em 2002.

Os Darma Lóvers permanecem na ativa, não sei se como casal ou apenas parceiros artísticos.

O mantra de Tara – Om Tare Tam Soha – tornou-se a imagem de fundo do meu celular. E é para a música deles que eu sempre me volto quando esqueço que “tudo é miragem e este é um rito de sonho e de passagem”. Até hoje, não encontrei jeito mais sutil de ligar aquele botão.

   (coluna publicada hoje ontem no Diário Catarinense)