20250117

Vida de inseto



Formigas.

Formigas por toda a parte. Formigas na bancada da pia da cozinha, no fogão à direita, no escorredor de louça à esquerda. Formigas brotando em geração espontânea dos azulejos da parede. Formigas andando em filas, em círculos, em percursos irregulares, perdidas por rotas desordenadas. Formigas que se deleitam com a ilusão de que manter tudo limpo iria mantê-las no buraco de onde quer que tenham saído.

Formigas que definitivamente venceram.*

Eu havia ido apenas fritar um ovo quando me deparei com esta cena de um filme-catástrofe de baixíssimo orçamento. Não foi a primeira vez. Elas aparecem, somem um tempo, voltam – deve ser por causa das mudanças climáticas. São aquelas pretas bem pequeninhas, inofensivas. Diz a grande rede mundial de computadores que se chamam formigas loucas, por vagarem sem senso de direção. Daí o seu rolê aleatório.

Ocupam tanto locais secos quanto úmidos. Gostam de calor. Alojam-se em qualquer fresta. Apesar da chatice, eu simpatizo com o movimento formicular. Tudo coletivo, operárias, colônias, essas paradas colaborativas. Tem também o lance do budismo, não saio de casa sem o mala que ganhei no templo de Três Coroas (RS) no pescoço. Abri a torneira, peguei o esfregão para arrastar as formigas para dentro da pia e comecei a falar.

“Eu não sou de tirar vida. Só de bicho nojento como mosca e barata. Entendo e dou o maior apoio à luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Mas não na minha cozinha. Não é porque não acabei com vocês antes que eu seja seu amigo. Uma procurando um grão de arroz aqui, outra atrás de um farelo ali eu até tolero. Vocês têm que parar de andar em bando e cada uma fazer o seu corre. Vocês…”

À medida que eu discursava, porém, percebi que as formigas estavam indo por conta própria rumo ao fim inevitável, como se hipnotizadas pela torrente de água escoando pelo ralo. Do alto de minha superioridade física e material, eu havia me tornado o que mais temia: alguém que finge ter empatia, espírito comunitário e talz, mas não hesita em revelar o pior de si diante da menor suspeita de ameaça aos seus privilégios.

As formigas preferiram a morte a ouvir palestrinha de babaca sobre meritocracia e direito à propriedade. Eu não tenho essa dignidade. Vou continuar fazendo das migalhas que me sobram o meu banquete.

*Trecho inspirado na abertura do livro Os Meninos Adormecidos, de Anthony Passeron, uma das boas leituras do ano passado.

(Publicado originalmente na newsletter Extrato)

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