20080120

Notícias de dias tão fartos – e até do que nem aconteceu

Nesse mesmo dia, em 2001, eu estava cobrindo o Rock In Rio III para a revista Bizz. Havia chegado à Copacabana na sexta anterior e, desde então, a rotina consistia em acordar no quarto do três estrelas, entrevistar algum artista em algum hotel luxuoso, ir para o festival do outro lado da cidade e, na volta, fechar bem as cortinas para o sol não entrar. Mesmo no intervalo de segunda, terça e quarta-feira, dedicados à redação das matérias, a atividade começava às 10h da manhã e acabava lá pelas 7h de amanhã.

Naquele sábado, apesar das poucas horas de sono, da alimentação desregrada, do calor e da vida lôca, não teve cansaço capaz de distorcer o que foi o show de Neil Young. Não para qualquer um: um dos fotógrafos da equipe, com a afoiteza de sua juventude, retirou-se da frente do palco para a refrigerada sala de imprensa alegando que estava achando tudo “western demais”.

Mais tarde, em seu apartamento em Botafogo que servia de sucursal informal da revista, ele soube que perdera um momento único – também por razões que a gente ainda não sabia. Protegidos por São Clemente lá embaixo e pelo Cristo lá em cima, colecionamos histórias sensacionais sendo pagos para fazer o que a sociedade chama de trabalho.

Quatro meses depois, estava tudo acabado. Restou o texto (menos a parte que fala da Dave Matthews Band, a cargo do subeditor) abaixo como registro de nossa inocência.

***

(Reportagem publicada na revista Bizz #187, fevereiro de 2001)

Nada do que se escrever aqui vai sequer chegar perto de transmitir ao leitor o que foi o show de Neil Young. Pode-se descrever a ordem em que as músicas foram tocadas, a roupa dos músicos, a reação da platéia – que já era a menor do festival (125 mil pessoas) e diminuiu consideravelmente antes de começar sua aula. Mas conseguir, em palavras, expressar as sensações despertadas pela lancinante música do canadense é trabalho para um Nelson Rodrigues, não para repórteres ordinários feito a gente. Em pouco menos de duas horas, o rock – aquele que um dia traduziu os anseios da juventude, deflagrou mudanças de comportamento, contrariou a caretice – voltou a fazer sentido. Quando Neil Young deixou o palco, às 3h30 da manhã, ser roqueiro não era mais sinônimo de ingênuo ou anacrônico. Porque o tempo nunca vai passar para ele.

Cenários grandiosos, efeitos pirotécnicos, figurinos da moda, exibições artificias de simpatia, naipe de metais, DJs, todas essas muletas do showbiz são dispensáveis para o mestre. No máximo, duas backing vocais em algumas canções. Acompanhado pela banda Crazy Horse (a mesma de seus melhores discos) – o guitarrista Frank Sampedro, o baixista Billy Talbot e o baterista Ralph Molina – e por sua Gibson Les Paul, Neil ensinou como é que se faz. Não com a impaciência dos veteranos ou com a pachorra das grandes estrelas, embora tenha rodagem e prestígio suficientes para ignorar quem ignora sua música. De calça jeans, camiseta e chapéu de caubói, ele se pôs calmamente a mostrar que, por mais que a oposição apregoe, “rock’n’roll can’t never die”.

Sua apresentação lembrou aquelas piadas em que o morador da cidade, querendo tirar onda com o matuto, sempre é passado para trás pela esperteza rural. Neil Young é este caipira que engana os seres urbanos, sem rancor ou piedade. Da abertura, “Sedan Delivery”, ao encerramento, com “Welfare Mothers”, passando por “Hey, Hey, My, My”, “Like A Hurricane” e “Rockin’ In The Free World”, o cantor encantou os fiéis com inúmeros finais falsos, explosões de energia, passos desengonçados. Depois de cinco dias à base de britneys, axls, taylors, miltons, browns e quejandos, Medina (Nota do blogueiro: alusão à Roberto Medina, idealizador do festival) pôde finalmente bater no peito (como Young se despedindo do público, sem falar nada) e anunciar que o Rock In Rio seria inesquecível.

Porém, como diz aquela música do AC/DC, “é um longo caminho até o topo se você quer rock’n’roll”. Para atingir o nirvana sônico proporcionado pelo canadense, o público precisou encarar os Engenheiros Do Hawaii, provavelmente a banda brasileira que levou mais fãs ao festival. Humberto Gessinger fez tudo nos conformes, mesclando velharias (“Toda Forma De Poder” em versão lentinha, não!) com boas novas (“Eu Que Não Amo Você”, “Números”). O ápice foi a participação de Paulo Ricardo bancando o rebelde em “Rádio Pirata”. Rasgou até o coletinho, querendo que os jovens ali presentes acreditassem que ele já foi do rock. Depois, os primos Elba e Zé Ramalho. Em noite pretensamente folk, a família correspondeu com “Avôhai”, “Admirável Gado Novo” e a apoteose com a ótima “Frevo Mulher”.

Do Kid Abelha não há muito o que comentar. Nem teria cabimento, a essa altura do campeonato, querer encontrar falhas no grupo de Paula Toller. A banda mais coerente dos anos 80 sabe que mega-evento não é lugar para experiências e apostou nos hits (e são muitos). A verdade é que o trio desafia o calendário. Seu música sempre foi pop – o que, em comparação com seus colegas de geração, só os engrandece – e a vocalista está mais bonita do que na época de Seu Espião. Sem deslizes também foi o set da Dave Matthews Band. Fãs na frente do palco cantaram junto “So Much To Say” e “Ants Marching”, deixando-as ainda mais belas. Da competência dos músicos nem é preciso falar. Só vale um detalhe: enquanto variava viradas e improvisava mini-solos, o baterista Carter Beauford fazia bolas de chiclete.

Sheryl Crow veio em seguida, tocando todos os hits de sua carreira – nos Estados Unidos, porque aqui seu sucesso restringe-se a “All I Wanna Do”. A americana se esforçou, mostrou empolgação, tocou guitarra, violão e gaita, mandou a cover de “Sweet Child O’Mine e gritou “Axl está de volta!”. Que Axl o quê, minha filha! Quem vai voltar é o rock, a bordo de Neil Young.

Nenhum comentário: